História: Portugal antes de D. Afonso Henriques - 5ª Parte
Por Alexandre Herculano
Ignoramos
quais fossem nesse momento os factos praticados por Gelmires conducentes
ao seu fim. É certo, porém, que D. Urraca resolveu prendê-lo. Era
negócio delicado.
Tinha ele consigo os seus homens de armas: tinha, além disso,
parciais no exército
e uma influência na Galiza que era impossível desconhecer. Em
frente do inimigo,
semelhante empenho tornava-se quase inexequível pela certeza de que
os sitiados
aproveitariam a luta intestina dos sitiadores para os destroçarem. É
provável que
neste apuro a rainha preferisse congraçar-se com a irmã a deixar
impune aquele homem
desleal e hipócrita, contra o qual sentiria ódio tanto mais
violento quanto se vira por
longo tempo obrigada a reprimi-lo e a disfarçá-lo.
Fez-se,
de feito, a paz. Por quais meios e por intervenção de quem, eis o
que não chegou
até nós. Um tratado, porém, existe celebrado entre as duas irmãs,
que atribuímos a
esta conjuntura e que, na verdade, fora dificultoso de conciliar com
outra data. Ou a situação
de D. Urraca habilitou D. Teresa para negociar com imensa vantagem a cessação
das hostilidades, ou aquela princesa quis assegurar a lealdade de sua
irmã, confiando-lhe
um senhorio muito mais extenso do que até aí desfrutara. Na
convenção e juramento
feito pela rainha à infanta, prometeu aquela conservar a esta
amizade fiel e opor-se
a todo o mal que lhe intentassem fazer. Concedeu-lhe, além disso, o
domínio de muitos
lugares e terras nos modernos distritos de Zamora, Toro, Salamanca e
Ávila com as
rendas e direitos senhoriais destas cidades, afora outros nos de
Valhadolid e Toledo, obrigando
por isto D. Teresa a que lhe jurasse amparo e defesa contra os seus
inimigos, quer
mouros, quer cristãos, e a que lhe prometesse não dar acolhimento a
nenhum vassalo
da rainha levantado com terras ou castelos, nem a nenhum traidor. Os
domínios novamente
concedidos à infanta deviam ser considerados como uma tenência semelhante
à dos que anteriormente possuía, no que, porventura, só se fazia
referência às
terras de Tui e Orense, ou antes, como cremos, a estas e às de
Portugal.
O
leitor, decerto, não esqueceu a cessão feita por D. Urraca ao conde
Henrique quando
pretendeu atraí-lo ao seu partido, nem que a divisão dos estados de
Afonso VI assentada
em Palência não parece ter chegado a realizar-se plenamente durante
a vida do
conde. Igualmente estará lembrado do modo como D. Teresa se houve,
depois da morte
dele, para tornar efectivas as miras ambiciosas que lhe eram comuns
com o marido,
e das circunstâncias que a reduziram a contentar-se do senhorio de
Portugal como
província dependente de Leão. Comparando agora este facto com
essoutros e com as
conquistas feitas em 1116 na Galiza, tal comparação o levará, como
nos leva a nós, a vermos
no tratado de Lanhoso uma renovação, posto que modificada, daquelas
antigas promessas
e pactos. Neste pressuposto, as terras cedidas ao conde teriam sido
as da Galiza,
de que D. Teresa se apoderara depois, e as que sua irmã lhe cedia especificamente
pelo actual convénio, entre as quais se encontra Zamora, que sabemos tocara
a Henrique na divisão feita em 1111. Se o conde, porém, pretendera
e obtivera a cessão
do pleno e independente domínio desses territórios, havia entre os
dois factos uma
diferença profunda, a da vassalagem de D. Teresa, nascida das
circunstâncias que tinham
obrigado a infanta a aceder à assembleia de Oviedo em 1115.
Dados
recíprocos fiadores da execução do tratado, as duas irmãs parece
terem convivido
familiarmente; ao menos os íntimos conselheiros da rainha julgaram
poder comunicar
a D. Teresa o que se tinha resolvido acerca da prisão de Gelmires e
os meios que
para isso se haviam de empregar. D. Teresa, porém, talvez por
influência de Fernando
Peres, mandou avisar o prelado, oferecendo-lhe ao mesmo tempo ou um
dos seus
castelos para ele se acolher, ou algum dos seus navios para voltar a
Compostela. Gelmires,
confiado na reconciliação jurada com D. Urraca ou, o que é mais
certo, nos homens
de armas que o cercavam, recusou a oferta, posto que antes deste
aviso já corresse
no arraial uma notícia vaga da tentativa. Assim, pondo-se em
retirada para a Galiza
o exército invasor, ele não se apartou da rainha, a quem também
acompanhavam alguns
súbditos de D. Teresa, porque nos consta seguiam o campo o arcebispo
de Braga e
o bispo de Orense. Chegados à margem esquerda do Minho, a rainha
ordenou passassem
primeiro os cavaleiros de Gelmires, o que efectivamente se executou,
ficando este
com o infante e com ela para depois seguirem com o resto do exército.
Apenas, porém,
os homens de armas do compostelano pisavam o território galego e
começavam a
acampar-se, a rainha mandou prender o prelado, que, na
impossibilidade de resistir, contentou-se
de protestar contra semelhante procedimento. Divulgada a nova da
prisão, o
arcebispo D. Paio e o bispo de Orense fugiram atemorizados o que
não deixa de ser extraordinário
e parece indicar alguma cumplicidade destes dois personagens da corte de
D. Teresa com o astucioso Gelmires e, até, pode fazer suspeitar,
atentas as relações estreitas
que existiam entre ele e Fernando Peres, que do lado da infanta não
houvera a melhor
fé na paz que celebrara e que nem com tão avultadas concessões
pôde a rainha desligá-la
inteiramente do seu antigo aliado. Mais veementes, porém, ainda se
tornarão as
suspeitas se nos lembrarmos do aviso oculto que ele recebera de D.
Teresa sobre este mesmo
sucesso e da aliança daí a pouco francamente feita contra a rainha
entre a infanta e
o próprio arcebispo de Santiago.
A
audácia com que D. Urraca satisfazia assim ódios antigos e feria no
coração o partido
dos seus adversários, longe de conter estes fez rebentar mais breve
essa conjuração
latente cujos vestígios bem palpáveis nos aparecem nas bulas de
Calisto II, nas
cartas do cardeal Boso e do duque da Aquitânia, nos actos de
Gelmires e nas frequentes
tentativas da rainha contra este homem dissimulado, cujo carácter e maquinações
seria impossível descortinar se os seus três panegiristas, autores
da grande crónica
de Compostela, fossem tão destros na arte de transfigurar a história
como ele o foi
em tecer enredos políticos. Nos oito dias que durou a sua prisão as
coisas mudaram inteiramente
de aspecto. Transferido o arcebispo para o castelo de Cira, D. Urraca dirigiu-se
a Compostela, onde só encontrou demonstrações de descontentamento. Dentro
de poucos dias seu filho Afonso Raimundes, o conde de Trava, Pedro
Froilaz, e outros
fidalgos da Galiza abandonaram-na, dirigindo-se às margens do
Tambre, ao norte de
Santiago, onde as tropas deles dependentes estavam acampadas. A
rebelião não tardou
a rebentar na cidade. A rainha viu-se obrigada a ceder à torrente, e
Gelmires foi solto,
retendo, todavia, a rainha em poder de governadores seus os castelos
do arcebispo,
de que, depois de o prender, se havia sucessivamente apoderado.
Não
bastava, porém, ao orgulhoso sacerdote o haver sido restituído à
liberdade e o ver
mais uma vez D. Urraca humilhada. A posse desses castelos era assaz
importante para
ele não abandonar sem tentar fortuna a ideia de os recuperar.
Enquanto a rainha dificultava
a final concórdia, impondo ora estas, ora aquelas condições,
Gelmires julgou oportuno
tirar finalmente a máscara. Faz sorrir o grosseiro engano que os
historiadores compostelanos
pretendem fazer à posteridade assegurando que o arcebispo, ao ver
que nem
obteria os castelos, nem alcançaria apaziguar o ânimo da rainha sem
despender avultadas
somas, se ligara então com Afonso Raimundes e atraíra ao seu
partido Pedro Froilaz
e os outros condes e senhores de Galiza, que os sucessos até aqui
narrados nos mostraram
serem, havia muito, seus íntimos, posto que ocultos, aliados. A
verdade é que
a hipocrisia de lealdade à rainha não lhe era já nem possível nem
necessária; Afonso
Raimundes entrara nos dezoito anos, e a monarquia inteira estava
cansada das calamidades
que sobre ela trouxera a administração de D. Urraca, pouco
habilitada, apesar
da energia do seu carácter, para dirigir os negócios do Estado.
Acrescia a isto o ciúme
dos barões espanhóis contra a privança do conde Pedro de Lara,
marido oculto ou,
antes, amante da rainha, e cuja influência, como era natural, não
conhecia limites, ao passo
que Afonso I de Aragão, continuando a denominar-se não só rei, mas
também imperador
de Leão e Castela, apesar de ocupado nas suas gloriosas campanhas
contra os sarracenos,
prosseguia, ou pessoalmente ou por seus capitães, em assolar a
monarquia que
chamava sua e na qual ainda, com efeito, possuía algumas povoações
e castelos. A irritação
dos ânimos e a situação dos negócios facilitavam o verificar-se
plenamente o que
os parentes estrangeiros do infante, já de muito rei nominal da
Galiza, ardentemente desejavam,
e que o mancebo, dotado de altos espíritos, não menos ambicionava,
isto é, o
ser metido de posse da herança inteira de Afonso VI. O que, pois,
até aí não passara de
uma conspiração permanente tornou-se numa revolução declarada.
Desde 1122 vemos
Afonso Raimundes, ou antes Afonso VII, adquirir uma verdadeira
supremacia nos
estados de sua mãe e esta reduzida a submeter-se ao orgulho de
Gelmires e a buscar amparo
daquele famoso intrigante nas obscuras e inúteis dissensões que
ainda teve com seu
filho, durante os quatro anos em que sobreviveu a estes
acontecimentos.
D.
Teresa havia-se unido imediatamente ao partido do arcebispo, ou, o
que é mais de
crer, como acima insinuámos, tendo aproveitado a conjuntura da paz
oferecida, não só
para salvar o que possuía por morte de Henrique e as terras de
Galiza retidas por ela, mas
também para assegurar os novos senhorios que sua irmã lhe confiava,
entendeu que não
devia arriscar-se a perdê-los conservando-se no partido da rainha,
cuja estrela visivelmente
declinava. Era tão frequente naqueles tempos a quebra das mais
solenes promessas,
a ambição e o egoísmo tão pouco rebuçados, que não devemos
julgar esse procedimento
com o mesmo rigor com que o condenaríamos numa época mais recente. Além
disso, Fernando Feres obtivera inteiro domínio no seu espírito, e
nesta resolução da
infanta-rainha sabemos que ele interveio por metade.
Não
seguiremos aqui a série dos sucessos passados desde então na
Galiza. Traçámos
com cores que reputamos verdadeiras o quadro da tenebrosa trama que
aí se urdira;
porque sem conhecer esse quadro nunca se compreenderá bem o período
do governo
de D. Teresa, nem se podem encontrar a dedução natural dos factos
pertencentes a
esta difícil época da nossa história. Desde os fins, porém, de
1121 172 até
à morte de D. Urraca (Março de 1126), no longo crepúsculo do poder
da rainha de Leão
e Castela, Portugal parece conservar-se inteiramente alheio às
convulsões mais ou menos
violentas da monarquia de que, até certo ponto, ele ainda fazia
parte. Volvamos agora
os olhos para o seu estado político interno enquanto no-lo consente
o remanso da paz
exterior.
A
intervenção da infanta-rainha dos portugueses nos acontecimentos
gerais da Espanha
cristã tinha aumentado quase em dobro a extensão dos seus domínios.
No Sueste
da Galiza eles se dilatavam até às margens do Vibey, por todo o
território a que naquele
tempo chamavam Limia. No Sudoeste possuía Tui e as suas
dependências, que não
parece terem sido então grandes, posto que seja dificultoso
determinar quais eram. O
senhorio das importantes povoações a leste das modernas províncias
de Trás-os-Montes e
Beira concedido a D. Terega envolvia o domínio dos termos de cada
uma delas.
Assim o antigo condado desmembrado da Galiza por Afonso VI em 1095,
sem se haverem
dilatado as suas fronteiras para o sul, antes tendo sido cerceadas
pelas conquistas
dos almorávidas, achava-se notavelmente aumentado. A filha de Ximena Muniones
colhera o fruto de se associar à facção da Galiza. Restava-lhe o
conservá-lo.
Enquanto
D. Urraca viveu, ela soube reter o que adquirira; mas a acessão
de Afonso VII
ao trono, para a qual contribuíra, veio a ser-lhe contrária, ao
passo que a sua afeição desordenada
por Fernando Peres não tardou a saciá-la nos últimos anos da vida
de desventuras
maiores que as de D. Urraca.
O
filho de Pedro Froilaz achava-se revestido de uma autoridade tal que
nos documentos
contemporâneos ele figura como igual ou quase igual da
infanta-rainha. Elevado
à categoria de conde, entregues à sua administração imediata os
distritos do Porto
e Coimbra, os principais dos estados de D. Teresa, e obcecada esta
por uma paixão,
segundo parece, violenta, é natural que Fernando Peres obtivesse,
até, a supremacia
sobre os outros condes ou tenentes do resto do país. Os diplomas
expedidos durante
esse período, as expressões dos cronistas, as fórmulas das
escrituras particulares,
tudo conspira em persuadi-lo. A infanta seguia o triste exemplo que
sua irmã
lhe dera, e o alferes-mor do arcebispo Gelmires representava em
Portugal o mesmo papel
que Pedro de Lara fazia em Leão e Castela. As consequências disso
deviam ser semelhantes,
em mais resumido teatro, às que tinham enchido de perturbações a
monarquia.
D.
Paio, arcebispo de Braga, era homem rude e pertencia a uma família
cujos membros
foram mais notáveis por façanhas guerreiras que por brandura e
política cortesãs.
As suas discórdias com o arcebispo de Santiago sobre a posse de
vários bens entre
Douro e M.inho pertencentes à sé de Composteia tinham sido
violentas e dilatadas.
Afinal os dois prelados reconciliaram-se, e a legacia de Gelmires em
Braga foi
reconhecida por D. Paio, a troco de conservar as propriedades
disputadas com o título
de prestimónio ou mercê, como cónego de Santiago, no grémio de
cujo cabido entrou,
segundo o costume, vulgar nesse tempo, de serem os bispos de uma
diocese membros
do cabido de outra. Fizera-se esta reconciliação nos fins de 1121 e
já em Março
de 1122 ele enviava o clero da sua metrópole ao sínodo nesse mês
reunido em Compostela,
não indo ele próprio por se achar então ausente em Zamora.
Voltando daí
a pouco a Portugal, foi preso por D. Teresa. Os motivos que para isso
houve ignoram-se.
Sabemos só que o papa expediu uma bula a Gelmires em Junho deste mesmo
ano, para que compelisse a rainha dos portugueses a soltá-lo até os
fins do mês seguinte,
aliás declarava-a excomungada, ordenando ao compostelano pusesse
interdito em
todos os senhorios dela. A ameaça produziu seu efeito, porque D.
Paio aparece já confirmando
os diplomas da rainha-infanta em Outubro desse ano.
Se
os monumentos históricos nos não transmitiram as causas da prisão
do metropolita
bracarense, as circunstâncias deste facto, comparadas com os
sucessos contemporâneos
e com os que pouco depois ocorreram, levam-nos a suspeitar que esta prisão
seja o primeiro e ténue indício da revolução que, arrancando o
poder das mãos de D.
Teresa, o fez cair nas de seu filho. A influência ilimitada de
Fernando Feres devia forçosamente
excitar desde o princípio o descontentamento e o ciúme dos barões portugueses,
e as revoltas da Galiza, produzidas por um caso análogo, eram
exemplo mui
evidente e próximo, que lhes apontava o caminho que deviam seguir.
Não ignoravam
eles, por certo, os meios a que os fidalgos galegos tinham recorrido
na sua conspiração,
porque Portugal nela tivera boa parte. Os poderosos parentes que o
amante de
D. Teresa tinha na Galiza e as suas relações com o omnipotente
Gelmires tornavam necessário
que eles preparassem de sobremão os meios de sacudir o jugo
importuno do conde.
A família dos Mendes da Maia, à qual pertencia o arcebispo, foi uma
das que principalmente
figuraram na revolução que daí a anos privou D. Teresa do governo.
Existiam
já neste ano princípios da conjuração? Era Zamora, como lugar
remoto e ao mesmo
tempo importante, o centro dela? Dá-se alguma relação entre esta
residência em Zamora
de D. Paio e o facto de ir Afonso Henriques armar-se ali cavaleiro
pouco depois,
o que, como adiante diremos, tem para nós uma significação diversa
da que lhe atribuem
os historiadores? Teve indícios D. Teresa da começada trama e quis
por ela punir
o arcebispo? Eis uma série de questões que, nas trevas espessas que
obscurecem a maior
parte dos sucessos daquele tempo, não passam de conjecturas, mas
conjecturas verosímeis,
que os progressos dos estudos históricos virão acaso algum dia
resolver afirmativamente.
Temo-nos
aqui abstido de falar em Afonso Henriques, acerca de cuja infância
não faltam
curiosas lendas nos nossos livros históricos. Como a de Carlos Magno
ou de Artur;
como a de quase todos os fundadores de antigas monarquias, a sua vida
foi desde o
berço povoada de maravilhas e milagres pela tradição popular.
Infelizmente os inexoráveis
monumentos contemporâneos destroem, ou com o seu testemunho em contrário
ou com o seu não menos severo silêncio, esses dourados sonhos que
uma erudição
mais patriótica e piedosa que ilustrada recolheu e perpetuou. A
história é hoje uma
coisa assaz grave para não se entreter em conservar lendas nascidas
e derramadas em
épocas mui posteriores aos indivíduos a quem se referem. Até à
idade de catorze anos
o filho do conde Henrique apenas figura como confirmante de alguns
diplomas de sua
mãe, segundo a fórmula de chancelaria, vulgar nesse tempo, de se
lançarem nos documentos
antes dos nomes dos bispos e ricos-homens confirmantes os dos filhos
do príncipe,
muitas vezes ainda na primeira infância deles. A Crónica dos
Godos, escrita,
ao menos em parte, por um contemporâneo, apesar de ser
principalmente destinada
a conservar as memórias do seu governo, nada menciona que lhe diga
respeito antes
dos catorze anos. O cronista ignorava, até, a época prefixa do seu
nascimento.
A
crítica tem feito a devida justiça aos documentos forjados para
encher essa lacuna, aliás
de nenhuma importância. É em 1125 que o infante pratica o primeiro
acto de que a história
conserva lembrança. Este acto foi o armar-se cavaleiro em Zamora,
então unida, como
vimos, aos domínios de D. Teresa. Na catedral daquela cidade, no
santo dia de Pentecostes,
ele próprio foi tirar as armas de cavaleiro de cima do altar de S.
Salvador e junto
dele vestiu a loriga e cingiu o cinto militar, segundo o costume dos
reis. A elevação
de Afonso Henriques ao mais nobre grau da vida das armas, em idade imprópria
para satisfazer as obrigações que ela lhe impunha, oferece uma
circunstância notável,
e é que no ano antecedente e neste mesmo dia Afonso VII praticara
igual cerimónia
na catedral de Compostela, e tomara do altar de Santiago a espada que
para esse
fim Diogo Gelmires benzera. Brevemente os dois primos deviam
exercitar um contra
o outro o nobre mister que aí aceitavam e que a Igreja santificara
para os combates
contra os infiéis.
Durante
estes anos, as perturbações causadas em África pela nova seita dos almóadas
tinham impedido Ali, o emir de Marrocos, de promover a guerra contra
os cristãos
da Espanha. Nesta região o terrível açoute dos muçulmanos, Afonso
I de Aragão,
entretinha principalmente as forças dos almorávidas, e as incursões
das fronteiras
do Ocidente eram passageiras e apenas feitas pelos sarracenos
naturais do país. D. Teresa aproveitara esta conjunção para restaurar a linha de
castelos que defendiam
a fronteira meridional do distrito de Coimbra. Pelo menos os de Soure
e Santa
Eulália foram por esses anos reedificados. Em 1122 o conde Fernando
Peres, que possuía
o de Coja sobre o Alva, cedeu-o à rainha, recebendo em recompensa o
senhorio daqueloutros.
Soure, como mais exposto às correrias, com dificuldade achava habitadores;
todavia, já por 1125 ele era não só um lugar forte, mas também
uma povoação
importante.
Depois
de um reinado de dezassete anos consumidos em tumultos e guerras, D. Urraca
faleceu em Março de 1126. A sua morte punha definitivamente nas mãos
de Afonso
VII o ceptro de Leão e Castela. A maior parte da nobreza declarou-se
por ele. Os
fautores do conde Pedro de Lara debalde tentaram opor-se a que o
moço monarca subisse
tranquilamente ao trono: o próprio conde foi constrangido a fazer
com ele a paz. Os
lugares que o rei de Aragão conservava ainda em Castela começaram a
rebelar-se-lhe, e
os habitantes das povoações acometiam e reduziam os castelos
guarnecidos de tropas
aragonesas, tomando a voz de Afonso VII.
Previa
este, por isso, uma guerra com aquele que fora seu padrasto, e para a sustentar
na fronteira oriental importava-lhe que se conservasse pacífico o
Ocidente dos seus
estados. Fora isto o que ele primeiramente assegurara, vindo a
Zamora, onde D. Teresa
se achava então com o conde Fernando Peres, e fazendo aí paz e
amizade com eles
por um período marcado; porque, como o tempo mostrou, Afonso não
estava resolvido
a consentir de futuro na independência completa de uma das mais
belas províncias
unidas à coroa leonesa por seu bisavô Fernando I.
A
guerra com Afonso de Aragão começou, de feito. O rei lidador
entrara rapidamente
em Castela para reforçar as guarnições dos lugares fortes que
ainda possuía.
Afonso VII saiu-lhe ao encontro com um poderoso exército. Apesar da conhecida
traição do conde de Lara, que, posto formasse com as suas tropas
parte da vanguarda
castelhana, recusara pelejar com os aragoneses, Afonso I não se
atreveu a acometer
o enteado. Tratou-se então de armistício entre os dois príncipes,
e a guerra ficou
suspensa, para daí a dois anos rebentar com dobrada violência.
As
dúvidas que, provavelmente, foram suscitadas nas vistas em Zamora
entre D. Teresa
e o sobrinho sobre as relações políticas de Portugal com Leão
parece terem ficado
indecisas como o estavam havia anos. Mas a infanta-rainha, enquanto
Afonso VII partia
para Castela contra os aragoneses, cuidava activamente de pôr em
estado de defesa
os seus domínios da Galiza. Com este intuito fazia passar tropas
para o Norte do Minho
e, não se julgando segura com os castelos que ali possuía,
edificava outros de novo,
por cujo meio cria habilitar-se para recusar sujeição a seu
sobrinho se este pretendesse
impor-lha. Ao mesmo tempo os fidalgos galegos, sempre
turbulentos, começavam
a preparar de novo a guerra civil; mas Gelmires, ou já cansado das perturbações
passadas ou porque sinceramente se resolvera a seguir por então o
partido do
novo rei, soube trazê-los por meios brandos à obediência, e Arias
Peres, que se mostrava
tenaz na intentada rebelião, viu destruídas ou tomadas pelas forças
do arcebispo
e do conde Gomes os castelos de Lobeira, Taberiolo, Penacornaria e
outros em
que confiava.
A
redução de Portugal era, porém, negócio mais grave. D. Teresa
tinha por si não só
os barões de Portugal, mas também Fernando Peres, seu amante, e os
cavaleiros da Galiza
que à sombra dele tinham vindo residir em Portugal. Não lhe
faltavam, além disso,
homens de armas e riquezas para sustentar a guerra. Orgulhosa do seu
poder, D. Teresa,
que durante o governo de D. Urraca evitara, como temos visto, o
declarar-se de todo
independente, constrangida, talvez, agora pelas pretensões mais
precisas de Afonso VII,
recusava formalmente cumprir com as obrigações nascidas da tenência
que, conforme
o tratado de 1121 e atenta a origem primitiva dos domínios de que
era senhora,
o rei leonês entendia que ela exercitava.
Foram
estes os motivos que trouxeram a Portugal uma invasão semelhante à
que o deixara
assolado dez anos antes. Na Primavera de 1127, feitas já as tréguas
com o rei de Aragão,
Afonso VII veio à Galiza e, mandando ajuntar as tropas desta
província, marchou
com um exército numeroso por Entre Douro e Minho. Das circunstâncias
da guerra
não nos restam memórias senão dos males que são comuns em tais
sucessos e que
pela barbaria dos tempos ainda o eram mais naquele século:
devastações dos campos
e aldeias, assédios de castelos, ruína das grandes povoações. A
sorte das armas mostrou-se
mais uma vez adversa a D. Teresa, cujo poder, por grande que fosse,
era por certo
mui inferior às forças do seu sobrinho. Os reveses experimentados
nesta campanha,
que apenas durou seis semanas, obrigaram a rainha a humilhar-se e a reconhecer
a supremacia do monarca. Fez-se então a paz, e Afonso VII regressou imediatamente
a Compostela, cujo prelado o acompanhara com todas as tropas que pudera
ajuntar para aquela expedição.
Um
dos factos mais poéticos da nossa história parece ter-se verificado
durante esta
invasão do rei leonês. Falamos da devoção heróica de Egas Moniz,
tantas vezes citada
como um dos mais nobres exemplos de honra e lealdade. Colocando a
data do sucesso
nos fins do ano seguinte ou nos princípios de 1129, como o fazem
comummente os
historiadores, seria necessário rejeitá-lo por fabuloso, como
contrário a factos indisputáveis.
Supondo-o, porém, realizado neste ano, não só se torna possível,
mas também,
concordando com documentos de outro modo inexplicáveis, reforça a
nossa opinião
sobre haverem aparecido já neste ano os primeiros sintomas da
rebelião do infante
Afonso Henriques contra D. Teresa.
Fizemos
antes notar a circunstância da prisão do arcebispo de Braga depois
de uma
residência demorada em Zamora, e a de ser este prelado dum génio
violento e membro
da família dos senhores da Maia, cujas estreitas ligações
políticas com o infante,
ainda em vida da rainha, é impossível desconhecer. Narrámos também
por que maneira
Afonso Henriques, tendo apenas catorze anos, idade mais própria dos entretenimentos
juvenis que da ambição de glória, se armara cavaleiro por suas
próprias mãos
na sé de Zamora. O exemplo do que havia sucedido em Leão e Galiza
nos anos anteriores,
a irritação dos barões portugueses contra o valimento de Fernando
Peres, tudo,
enfim persuade que essa violenta revolução, que numa batalha só
acabou com a autoridade
de D. Teresa, não foi um sucesso repentino sem antecedências, sem
uma conspiração
longamente preparada.
Afonso Henriques, tomando o grau de cavaleiro pela
forma que usavam os príncipes independentes e numa idade em que a
espada era para
ele um vão ornato, prestou-se em nosso entender a uma farsa dos
conjurados, que com
esse acto queriam lavrar uma espécie de protesto, não contra o
domínio leonês, mas contra
o de Fernando Peres, a quem, segundo se vê das subscrições dos
diplomas desse tempo,
ele era inferior na consideração da corte de sua mãe, que o ia
afastando inteiramente
dos negócios do Estado. Desde então, é natural que esses
mesmos que assim
começavam a preparar o infante para instrumento dos seus desígnios
lhe fossem despertando
e alimentando a ambição, sentimento que o tempo mostrou ser fácil
de desenvolver
no coração do mancebo. Se o estudo dos costumes daquela época e
ainda mais
o do coração humano nos não ilude, cremos que se uma história
contemporânea e particularizada
destes sucessos tivesse chegado até nós aí encontraríamos mais de
uma cena
análoga às que passaram na Galiza e em Leão durante a menoridade
de Afonso Raimundes,
quando os nobres, irritados contra a influência de Pedro de Lara e
contra D. Urraca,
tomavam por bandeira da sua vingança o nome daquele príncipe.
Os
historiadores modernos supõem que foi unicamente em 1128 que as
discórdias entre
D. Teresa e seu filho chegaram a declarada ruptura. Nós
persuadimo-nos de que as primeiras
tentativas de rebelião começaram um ano antes e de que a narração
das crónicas do
século XVI, hoje com razão excluídas do número das legítimas
fontes históricas,
pode não se afastar absolutamente da verdade desta parte. Em
tal pressuposto,
eis, segundo a nossa opinião, como devia passar o sucesso. As terras
de Portugal
em que dominavam ou influíam os parciais de Afonso Henriques
começaram a rebelar-se
nos princípios de 1127. Entre elas Guimarães, a antiga corte do
conde Henrique,
declarou-se pelo infante, que aí se achava. A invasão de Afonso VII
veio então
impedir ou antes adiar a guerra civil. Na sua marcha vitoriosa, o rei
de Leão, rendidos
outros castelos e povoações, pôs sítio a Guimarães; porque ao
príncipe não importava
por certo se era sua tia ou seu primo que regia Portugal;
importava-lhe que esta
província reconhecesse a sua autoridade suprema. Depois de alguma
resistência, vendo
que as suas forças não bastavam para repelir os cercadores, os
barões e cavaleiros encerrados
nos muros de Guimarães declararam em nome do moço Afonso que ele se consideraria
de futuro vassalo da coroa leonesa. Egas Moniz, poderoso fidalgo
cujos senhorios
se dilatavam pelas margens do Alto Douro e que, talvez mais que
nenhum, gozava
a reputação de homem leal, ficou por fiador da promessa. O rei de
Leão levantou
o cerco e, depois de reduzir à obediência D. Teresa, retirou-se
para a Galiza.
Quando,
porém, os sucessos de 1128 entregaram Portugal nas mãos do filho do
conde Henrique,
ele esqueceu as promessas de Guimarães, e com ele as esqueceram os
barões portugueses.
Só Egas Moniz se lembrou do que jurara. Seguido de sua mulher e
filhos, dirigiu-se
a corte do monarca e, apresentando-se perante ele descalço e com uma
corda ao
pescoço, pediu para resgatar com a morte a sua palavra nunca traída.
Era grande a cólera
de Afonso VII; mas venceu-o aquela inaudita façanha de lealdade.
Deixou-o partir
solto e livre e, o que era mais para o nobre cavaleiro, sem a taxa de
deslealdade.
A
independência portuguesa, que por tantos anos tendera a realizar-se,
retrocedia ainda
uma vez; era um problema cuja solução já perto do seu termo tornar
a ser tentada de
novo. Mas as consequências da vitória obtida pelo rei de Leão,
posto que graves, não eram
talvez as mais de recear: o amor cego da rainha por um homem alheio à
província, poderoso
por alianças e parentescos com muitos ilustres barbes da Galiza e
ainda de Leão
e de Castela, e a importância que, além dele, obtivera em
Portugal seu irmão mais
velho, Bermudo Peres, o qual nos princípios de 1128 achamos
dominando em Viseu, e por consequência a clientela numerosa, quer de naturais,
quer de estranhos, cujos
interesses seriam conformes com os dos dois irmãos, tudo servia para
tornar duvidosa
a sorte futura de Portugal, ligada à vontade de um valido cujo
procedimento político
podia ser guiado por considerações e respeitos contrários à
desejada independência
do país que indirectamente governava.
Se atendermos à confiança
que, pouco
depois, Afonso VII punha no conde Fernando Peres, e à guerra que
este fez a Portugal
com os outros condes da Galiza, como adiante veremos, não será
demasiado violento
supor que na invasão de 1127 ele contribuíra para D. Teresa dar
obediência ao rei
de Leão, pressuposto tanto mais provável quanto nos consta que o
principal autor da pacificação
foi o antigo favorecedor do conde, o célebre Gelmires.
Tal
era a situação política do país. Afonso Henriques, o moço
cavaleiro, chegara à idade
de dezassete anos. Era ele, segundo o testemunho de um seu
contemporâneo, destro
nas armas, eloquente, cauteloso e de claro engenho. Ajuntava a estes
dotes, que devemos
supor exagerados por se atribuírem a tão curta idade, a nobreza da
figura e a beleza
de rosto. A ambição do poder, o exemplo de seu primo Afonso
Raimundes, a disposição
dos ânimos irritados contra o predomínio de Fernando Peres, as
instigações dos
fidalgos, a exclusão ignominiosa em que o conservavam dos negócios
públicos, tudo
o excitara a colocar-se à frente de uma revolução cujas
consequências, naqueles verdes
anos, não era fácil prever. Tinha amigos próprios, e a principal
nobreza preferia vê-lo
apossar-se do mando supremo a sofrer que os estranhos e os
partidários destes governassem
por intervenção de D. Teresa. Como se manifestou a rebeldia e
quais foram
as particularidades que ocorreram nela são coisas sobre que restam
sobejas fábulas,
mas apenas fugitivas memórias.
Parece, porém, certo que nos
primeiros meses de
1128 a guerra civil, encetada no ano antecedente, se preparava de
novo ou já porventura
começara. As principais personagens que em Maio desse ano estavam ligadas
com Afonso Henriques eram o arcebispo D. Paio, seu irmão Soeiro
Mendes, denominado
o Grosso, Ermígio Moniz, Sancho Nunes, marido que era ou depois foi
de D.
Sancha, irmã do infante, e Garcia Soares. Diante destes e doutros
nobres cavaleiros de
Portugal declarava ele em Braga a sua intenção de se apossar do
governo, e fazia de antemão
mercês ao metropolita, contando com o auxílio dele nessa empresa.
Pelos
indícios que os documentos nos ministram, o infante abandonou sua
mãe, a qual
talvez se achava então na corte de Afonso VII, e dirigiu-se à
província de Entre Douro
e Minho no mês de Abril. A revolução parece ter rebentado naquela
província, dilatando-se
pelo distrito de Guimarães, pelo condado de Refóios de Lima, pelo território
de Braga e pelas terras, enfim, dos nobres que seguiam a parcialidade
do infante.
A suspeita da ausência de D. Teresa na ocasião do levantamento
adquire maior probabilidade,
se atendermos a que só quase três meses depois os dois partidos
vieram a uma
batalha, que foi decisiva e fatal para a rainha. De feito, esta,
tendo marchado para Guimarães
com as tropas dos fidalgos galegos e dos portugueses seus
partidários, aí se encontrou
com o exército do infante no campo de S. Mamede, junto daquela
povoação.
Foi
desbaratada D. Teresa e fugiu: nesta fuga, porém, perseguida pelo
filho, ficou prisioneira
com muitos dos seus. A tradição refere que Afonso Henriques a
lançara carregada
de cadeias no castelo de Lanhoso. Não desdiz essa tradição dos
costumes ferozes
do tempo; mas desdiz dos monumentos coevos, que não a autorizam. O
que é certo
é que num só dia de combate o poder supremo, que o moço príncipe
tanto ambicionava,
lhe caíra nas mãos.
Afonso
Henriques não quis ou não ousou aproveitar-se das vantagens obtidas
para se
vingar de sua mãe e do conde, contentando-se com expulsá-los de
Portugal. Como a
de D. Urraca, a desgraçada afeição de D. Teresa tinha dado ou
motivo ou pretexto a uma
guerra civil e à quebra dos laços da natureza que a deviam prender
a seu filho, simples
laços morais que a história daquela época por toda a Europa nos
mostra serem então
assaz frágeis para conter as ambições. Nesses tempos a desordem
dos costumes fazia
com que semelhante procedimento não estampasse um ferrete indelével
de ignomínia
na fronte dos príncipes que assim calcavam aos pés o amor filial,
até porque lhes
serviam de desculpa - se tais factos podem em tempo nenhum merecê-la
- os erros ou
crimes dos seus progenitores e as conveniências, bem ou mal
entendidas, da pátria.
As
memórias que nos restam da filha de Afonso VI durante os dois anos
que sobreviveu desterrada são assaz escassas. Fugitiva e sem o prestígio da
autoridade, quem
se lembraria mais dela? O que parece provável é que seguisse para a
Galiza Fernando
Peres. Este, ao menos, não se esqueceu de quanto D. Teresa lhe
sacrificara e, ainda
depois da sua morte, empregava acerca dela expressões que revelam
amor sincero e
afectuosa saudade. «Se alguém», dizia o conde fazendo exarar uma
doação de terras à sé
de Coimbra para que Deus associasse aos bem-aventurados a já
falecida princesa, «e
alguém houver aí que intente anular (o que não creio) a doação
que ora faço, pague em
dobro a ousadia à autoridade real, e se for algum indivíduo tão
poderoso e cruel que possa
conservar-se pertinaz, seja o seu destino na morte o de Dathan e
Abiron.» A fórmula
insólita por que termina este diploma diz-nos que os restos de D.
Teresa ainda tiveram
quem sobre eles vertesse lágrimas. Os monumentos históricos
contemporâneos apenas,
porém, nos referem que falecera no primeiro de Novembro de 1130. Um antigo
túmulo na catedral de Braga nos assegura, finalmente, que as suas
cinzas foram transportadas
para o lugar onde também repousam as cinzas de seu marido.
Os
escritores modernos, empenhados em salvar a reputação moral de D.
Teresa como
mulher, esqueceram-se de lhe fazer justiça como rainha ou regente de
Portugal. Tem-se
dissertado largamente sobre o seu consórcio com o conde Fernando
Peres, que nada
nos autoriza a admitir, enquanto o valor histórico do seu
governo é perfeitamente
desprezado. Todavia, durante catorze anos os actos da viúva do conde Henrique
mostram bem a perseverança e destreza com que buscou desenvolver e realizar
o pensamento de independência que ele lhe legara. Cedendo à força
das circunstâncias,
não duvidava de reconhecer a supremacia da corte de Leão para obter
a paz
quando dela carecia, salvo o recusar a obediência quando cria
possível resistir. Associando-se
habilmente aos bandos civis que despedaçavam a monarquia leonesa, ia criando
no meio dela para si e para os seus uma pátria. Apesar das invasões
de cristãos e sarracenos
e das devastações e males causados por uns ou por outros nos
territórios dos seus
estados, estes cresceram em população, em riquezas e em forças
militares.
Pelas armas
e pela política aumentou a extensão dos próprios domínios ao
oriente e ao norte conservando
ao meio-dia a linha das fronteiras que seu marido já lhe deixara
encurtadas. O
castigo de um erro, que, medido pelos costumes do tempo, estava longe
de ser imperdoável,
parece-nos demasiado severo, e o procedimento dos barões portugueses para
com ela merecerá dos desprevenidos a imputação de ingrato. D.
Teresa foi vítima de
um sentimento nobre em si, mas às vezes excessivo e cego, que ela
tinha feito crescer,
radicar-se, definir-se, e que serviu de pretexto de rebeldia à
ambição de Afonso Henriques,
ou antes à daqueles que por meio do inexperiente príncipe esperavam melhor
satisfazê-la. Este sentimento era o da nacionalidade. A Crónica dos
Godos, que, narrando
os sucessos de 1128, toma o estilo do libelo político, não era
provavelmente mais
que o eco da opinião vulgar. Aí os galegos são tratados de
estrangeiros ou forasteiros
indignos. Esta denominação de injúria, que, aplicada vinte anos
antes aos habitantes
das outras províncias da monarquia fundada por Pelágio, seria
ininteligível em
Portugal, estreava por uma revolução gravíssima a sua fortuna
popular de sete séculos.
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4ª Parte
Ver também
Reconquista
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História de Portugal em Antikuices