sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A Bíblia e a farsa Monoteísta

A religião antiga de Israel não era ainda o monoteísmo sobrenatural da época post-exílica, mas politeísta e polidemónica, como a de todos os semitas. Também não há provas de que os israelitas acreditassem na ressurreição dos mortos, uma ideia que pode ter aparecido por influência persa; provavelmente, o mais antigo documento que a refere é o chamado Apocalipse de Isaías, em que voltava à vida graças ao nevoeiro, o que recorda certas ideias da religião cananeia da fertilidade.

Aparte Jeová que, aparentemente, foi descoberto por Moisés no culto do seu sogro Jetro, os chamados Patriarcas Abraão, Isaac e Jacob - estimados na tradição cristã como colunas do monoteísmo - veneraram, entre outros, o deus semita El, situado no topo do panteão cananeio, cujo nome significa «O deus verdadeiro» e cujo título, «o touro» expressa a sua irresistível potência, pois seduz as mulheres pelo tamanho do seu membro viril. Na Jerusalém da época pré-davídica é adorado como deus superior; em muitas passagem da parte mais antiga do Antigo testamento, é chamado «O Supremo» o «Criador do Céu e da Terra» (qoneh samayim wa-ares); a amostra mais antiga de fé criacionista na Bíblia! Mais tarde Jeová foi facilmente identificado com El, ainda que então o deus pagão aportou alguns rasgos positivos à imagem israelita de Deus.

Mas o culto do antigo judaísmo não incluía somente a El, deus do grande membro, criador do mundo; também se veneravam as pedras sagradas, uma prática que se estendia por toda a Terra. As pedras sagradas foram associadas com a vida sexual, e durante muito tempo os homens consideravam-nos como seres animados, carregados de poder e portadoras da fertilidade. Os menires, espalhados por vários continentes, frequentemente com forma de falos ou adornados com eles, também têm, pelo menos parcialmente, significado genital.

Especialmente na religião cananeia, as pedras sagradas (do tamanho das actuais tumbas) foram usadas como menires (massebah em hebraico). Se os pilares e colunas de Asera eram signos da deusa mãe da fertilidade, as pedras simbolizavam o deus masculino e talvez houvesse algumas na Arca da Aliança. Em todo o caso, o patriarca Jacob, adormecido,segundo a Bíblia, sobre uma pedra e abençoado logo com quatro mulheres, a quem Deus fez tantas promessas em sonho - e não só a ele, mas também à sua «semente» repetidamente mencionada -, reconhece que aquela pedra é befel, «casa de Deus» (El). «Que santo» exclama o piedoso personagem, «é este lugar; aqui estão verdadeiramente a Casa de Deus e as Portas do Céu» (o que se converteu posteriormente no intróito da liturgia romana do Natal). E levanta a pedra como «sinal» e esfrega-a com azeite. Jacob volta a construir este tipo de símbolos fálicos em duas passagens bíblicas posteriores que nos falam novamente da sua semente, dos seus filhos e dos filhos dos seus filhos, símbolos que adoptarão formas cada vez mais elaboradas e valiosas e, evidentemente, proibidos no Deuteronómio, condenados pelos profetas e destruídos finalmente no ano de 620, no reinado de Josías, juntamente com muitos outros remanescentes do culto pagão. No entanto, ainda hoje existem na Palestina e países vizinhos numerosos menires e os árabes continuam a untar as pedras sagradas com azeite, os primitivos dançam è sua volta com o pénis na mão, acreditando na força geradora, ou esfregam as partes genitais e os peitos, com o fim de conceber um filho ou conservar o leite.

Os israelitas, que eram circuncidados e juravam pelo falo, conheciam, obviamente, o culto fálico. Temos certos menires de aspecto fálico; Isaías menciona a um deus priápico do lar; Ezequiel, imagens masculinas de ouro e prata com as quais se desencadeia a luxúria; em Jeremias, os israelitas dizem da pedra: «tu engendraste-nos»; e no Eclesiastes menciona-se «lançar pedras» junto com «abraçar» com o significado de fazer filhos. O Medievo cristão ainda conhece a pedra genetrix, a pedra materna da procriação,as lapides vivi ou pedra animada, segundo uma inscrição da catedral de Aquisgrano. E Matilde de Magdeburgo, a apaixonada de Cristo, apostrofa instintivamente o seu prometido: «Tu, pedra eminente».

Mas os veneráveis patriarcas não somente renderam culto aos deuses e ao culto fálico. O Antigo Testamento revela também traços do seu culto às árvores. A árvore, eterno símbolo nos mitos dos povos, foi durante muito tempo um símbolo da força vital e das qualidades genitais. Frequentemente foi vista como homem ou mulher, ou até andrógino e lugar de origem dos filhos, como divindade animada. E precisamente na religião de Canaã e na desflorestada Palestina foi o símbolo específico da fertilidade. Os habitantes da antiga Canaã - onde os demónios arbóreos se chamavam el ou elon - edificaram «sob as verdes árvores» a partir de pedras sagradas e postes e também «sob as verdes árvores» celebravam as festas da fertilidade. E assim, o mesmo patriarca Abraão planta um arbusto de tamarisco(em Beer-Seba) e invoca ali o famoso  «an- 'adonai 'el 'olam». (o tolerante patriarca deixa inclusivamente ali abandonada a sua própria esposa no harém de um príncipe).

Mais tarde os sínodos cristãos recearam cada vez mais essa duradoura divinização das árvores. dos tabernáculos, das fontes e das rochas e, como ocorreu em 692, no sínodo de Toledo, castigam por isso os crédulos: «se pessoas eminentes, com três libras de ouro, se pobres, com cem açoites», ou como no sínodo de Paderbom, em 785: »ao nobre com sessenta, ao homem livre com trinta e ao litus quinze solidi. Pode-se não pagar a multa, ficar como servo na igreja até que a soma seja conseguida».

Jeová, que originalmente tinha sido um espírito da natureza, um deus vulcânico, da tempestade ou das tormentas que  não tinha nada de feminino, nem sequer sacerdotisas, com o decorrer do tempo livrou-se de todos os competidores de Israel. Foi o único Deus do Mundo Antigo que se fez adorar sem imagens; todo o entusiasmo religioso de carácter agrário foi considerado demoníaco e a esfera do cosmos, outrora sagrada, foi objecto de uma desmistificação de graves consequências.

Os israelitas, que provavelmente ocuparam algumas partes da Palestina no século XIII a. C. e se misturaram com os hebreus, com os quais eram aparentados mas que estavam ali estabelecidos antes, empreenderam rapidamente guerras de conquista e aniquilação, co Jeová tinha ordenado: «Derrubai os seus altares e destruí os seus ídolos, deitai fogo aos seus bosques e reduzam os seus deuses a escombros». E assim, com a sua benção, e servindo de exemplo para uma longa tradição cristã, houve matanças de moabitas e amonitas, filisteus, madianitas e arameus; foram especialmente frequentes os confrontos com os cananeus - também denominados «amorreus» ou «hititas» pelo Antigo Testamento, que os caracteriza como completamente corrompidos -, aos que se contentaram com impor o exílio ou tributos.

Não obstante, em Canaã, onde os nómadas ou semi-nómadas israelitas entraram em contacto com um antigo universo cultural, com a Grande Mãe, os deuses El e Baal, os acasalamentos sagrados, a prostituição e a desfloração rituais, numa palavra, com uma religião de festas magníficas e estímulos sensuais, chegou-se a assimilações de todos os tipos. Pois se é verdade que estas tinham começado já na época dos Patriarcas,a o princípio só afectaram o culto rústico de Jeová em campo aberto, onde se plantavam - entre libações imoderadas e copulações colectivas sobre a terra - as árvores a Asera, chamadas pelo próprio nome da deusa.


Mas paulatinamente o sincretismo chegou também aos santuários centrais do reino. Assim, Salomão (965-928), além de erigir templos a deuses estrangeiros, dotou o de Jeová - construído segundo modelos fenícios por um arquitecto cananeu - de muitos símbolos do culto da fertilidade (açucenas, leões, touros)... Claro que o coração real, «seduzido» finalmente pela sua mulher estrangeira, «deixou de pertencer por inteiro ao Senhor». E o seu sucessor Jeroboão I (928-907) manteve esta tradição e representou Jeová, nos novos templos a ele dedicados de Betel e Dan, como uma figura invisível sobre um vitelo de ouro (os bezerros de ouro da Bíblia), da mesma forma que os cananeus imaginavam ao seu deus supremo Baal sobre um touro.

Baal foi adorado cada vez mais intensamente, mas também a Grande deusa Mãe, da qual foram encontradas numerosas estátuas na Palestina, a maioria despidas. Mais adiante, o rei Manassés consagrou uam Asera em sua honra no templo de Jerusalém e, em tempos de Jeremias, as mulheres ainda cozinhavam uns bolos para ela. Chegou-se até à prostituição cerimonial. Em Silos os filhos do sacerdote de Jeová dormiam «com mulheres que tinham serviço à entrada do recinto sagrado»; muitos outros «sacrificavam com as hetairas consagradas»; «pai e filho reúnem-se com a prostituta (...), deitam-se sobre os vestidos contratados junto daquele altar». E também Jeremias se lamenta das idas e vindas dos jerosolimitas às kadesh.

Elias (quem fez prender quatrocentos e cinquenta profetas de Baal e os matou) e Eliseu no século IX, Amos, Oseias e Isaias no VIII, não deixam de condenar o culto de diferentes baales e também o de Asera, ainda que muitas vezes nem sequer sabem exatamente que costume religioso é cananeu e qual originalmente israelita. E, definitivamente, a mesma polémica bíblica está cheia de ressonâncias procedentes da herança literária cananeia, pelo qual acaba dependendo, linguisticamente, daquilo que combate.

Jeová ordena ordena uma e outra vez: «Deves destruir os seus altares, desfazer as suas imagens e cortar os seus bosques»;  uma e outra vez proíbe conviver com aqueles que «estendem a prostituição com os seus deuses». Uma e outra vez os profetas disparatam. Oseias - que foi enganado pela própria mulher Gomer (comprada por quinze siclos de prata e uma medida e meia de cevada) durante os ritos de fertilidade cananeus, o que provavelmente o empurrou mais do que outra coisa para a vocação proféetica - ruge, em prosa e em verso, contra o espírito da luxúria, contra «os dias dos baales, quando ela sacrificava e se embelezava com anel e colar e perseguia os seus amantes, esquecendo-se de mim, assim falou Jeová (!)» (O profeta chamou a uma filha concebida com Gomer «Não compadecida» e a um filho «Não do meu povo»). Isaías fala calorosamente do «engendro do adúltero e da prostituta, concebido entre os terebintos, sob qualquer árvore frondosa». «Sobre montanha alta e escarpada preparaste o teu leito (...) estendeste as mantas sobre a cama e vendeste-te aos teus pretendentes preferidos». Ezequiel, com uma força simbólica e metafórica quase inigualável, dá conta de «abominações» cada vez maiores: as filhas de Israel prostituem-se com os assírios, com os babilónios, com os egípcios «cujos membros eram como membros de burros e a sua ejaculação como ejaculação de sementais». E também os filhos de Israel, exclama jeremias, transformaram-se em adúlteros. «Hóspedes de bordéis, converteram-se em sementais bem alimentados e rijos, cada qual relinchando atrás da mulher mais próxima.»

Não se enganava S. Bento quando proibiu aos seus monjes ler o Heptateuco (os cinco livros de Moisés, o livro de Josué e o dos Juizes) em horas noturnas. «Há outros momentos para os ler», opina... com alguma ligeireza.


Deschner, História Sexual do Cristianismo

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