quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Da Deusa Mãe Terra ao Pai Céu

Da Deusa Mãe Terra ao Pai Céu

Na primeira época da cultura agrária, aparecem por todo o lado divindades femininas, adoradas pelo segredo da fertilidade, o ciclo eterno da sucessão e a extinção.

Para adorá-la, os homens erigem templos, representam-na de mil formas, em estátuas monumentais, em pequenos ídolos, majestática, vital, com ancas largas e vulva saliente, ainda que também como uma esbelta vampira, demoníaca, com grandes olhos e olhar enigmático.

Temos testemunho dela como deusa principal cerca de 3200 a.C.. É conhecida já na religião suméria, a mais antiga que conhecemos. A sua imagem encontra-se na arca sagrada de Uruk, cidade da Mesopotâmia cujas origens remontam à pré-história. Adoram-na em Nínive, Babilónia, Assur e Menfis. Podemos descobri-la também na forma da grande deusa indiana Mahadevi; vemo-la em inúmeras matres ou matrae - as deusas dos celtas cobertas de flores, frutos, cornos da abundância ou crianças - e podemos identificá-la no Egipto sob os rasgos de Isis, o modelo da Maria cristã.

O seu aspecto muda: entra em cena uma vezes como mãe ou como «virgem» e «grávida imaculada» ou como deusa de combate, a cavalo e com armas e, claro, sob diferentes formas de animais, por exemplo a figura de um peixe, uma égua ou uma vaca. E os nomes também mudam. Os sumérios chamam-lhe Inanna, os hurritas Sauska, os assírios Militta, os babilónios Ishtar, os sírios Atargatis, os fenícios Astarte; no Antigo testamento denominam-ma de Asera, Anat ou Baalat (a companheira de Baal), os frígios Cibeles, os gregos Gaia, Rhea ou Afrodite, os romanos Magna Mater. Adorada desde a pré-história, a sua imagem é o ídolo mais antigo da humanidade e a característica mais constante dos testemunhos arqueológicos em todo o mundo.

A Grande Mãe, que aparece em montanhas e bosques ou junto de certas fontes, cuja força vital e bendições se sentem de ano para ano, é a guardiã do mundo vegetal, da terra frutífera, o ideal da beleza, do amor sensual, da sexualidade transbordante, senhora também dos animais. Os mais sagrados são para ela as pombas, os peixes e as serpentes: a pomba, é uma antiga imagem da vida, já no Neolítico; o peixe, um típico símbolo do pénis e da fertilidade; e a serpente, mais uma vez pela sua semelhança com o falo, também é um animal sexual, que expressa a regeneração e a força. No Cristianismoa, tão dado a inverter valores, a pomba representa o Espírito Santo, o peixe converter-se-á no símbolo d Eucaristia - a palavra grega «ichthys» forma um anagrama do nome de «Jesus, Filho de Deus, Salvador [Jesus Christos Theou Hyios Soter]. E a serpente personificará o negativo desde o primeiro livro da Bíblia, sendo rebaixada a símbolo do Mal, que deslizará furtivamente pelo chão ou entre as colunas das igrejas medievais.

A Grande Mãe não está somente ligada à Terra, com as forças telúricas. O seu poder estende-se - já entre os Sumérios - «pela ladeira do Céu», é a «Senhora do Céu», deusa da estrela Ishtar, a Estrela da Manhã e do Entardecer, com a qual é identificada cerca de 2000 a.C.; é «Belti», como a designam os Babilónios, literalmente «Nossa Senhora»; é, segundo Apuleio, «senhora e mãe de todas as coisas», a santa, clemente e misericordiosa, a virgem, uma deusa que, sem ficar grávida, dá à luz.


No Neolítico aparece então o deus masculino associado à deusa mãe, o que é um reflexo da nova situação da sociedade agrária e da crescente importância económica do homem, consequência da criação de gado e da agricultura. Pois como tratador do gado e agricultor, o homem adquiriu progressivamente os mesmos direitos da mulher, hortelã e recolectora e, sobretudo, foi considerado cada vez mais como procriador. E é com este novo estatuto do homem que surgem cada vez mais divindades masculinas, a princípio ainda subordinadas às femininas, como filhos ou amantes, mas mais tarde igualando-as e, finalmente, nas culturas patriarcais, serão dominantes. A Grande Deusa Mãe +e destronada e reduzida a divindade subalterna, depois deusa do mundo inferior. Do mesmo modo, a mulher vê o seu papel rebaixado, o seu poder reprodutor diminuído, enquanto o prestígio do homem, do pai, aumenta. Só ao falo se reconhece agora potência e força vital. Assim, Apolo proclama nas Euménides de Esquilo: «A mãe não dá vida ao filho, ela nutre o embrião. A vida é criada pelo pai».

De qualquer maneira, a divindade masculina surge tardiamente na história da religião e obtém a sua dignidade como filho da deusa mãe. O filho da deusa mãe converte-se muitas vezes em seu amante, e assim surge o dualismo característico das culturas arcaicas, o pensamento das polaridades, o mito do casal divino que concebe o mundo: Pai Céu e Mãe Terra, cujo casamento sagrado constitui o centro do culto e da fé.

Deschner, História Sexual do Cristianismo

Sem comentários:

Enviar um comentário