sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Jesus nunca defendeu o celibato

O ascetismo cristão não tem em Jesus nenhum apoio. Jesus representa o celibato, a discriminação feminina e matrimonial, os jejuns e outras penitências em tão escassa medida como o militarismo e a exploração.

Nunca pregou contra a libido como tal, nunca considerou o sexual per se, como contrário a Deus. A continência também não tem nenhuma base tradicional comum anterior aos quatro evangelhos. Não custa muito imaginar com que radicalidade teria Jesus condenado o mundo dos instintos se o assunto lhe tivesse interessado. Em troca costumava relacionar-se com pecadores e prostitutas. E as lendas do seu nascimento virginal - que se encontram apenas nos evangelhos mais recentes e seguem o modelo dos filhos de deuses, nascidos exactamente dessa maneira - também não incluem qualquer espécie de comentário ascético.

Em Mateus 19.12 uma misteriosa sentença bíblica reza: «E há várias razões que podem levar um homem a não se casar: alguns são incapazes de nascença, outros foram tornados incapazes pelos homens e outros abstêm-se de casar por causa do Reino dos céus. Aquele que puder compreender isto, que compreenda.» Mas esta passagem, que levou certos cristãos a nada menos que a castração, só aparece em S. Mateus. Falta em todos os outros evangelhos; supostamente porque teria chocado os «ouvidos dos gentios» mas provavelmente porque Jesus nunca a disse, porque é uma interpolação de Mateus. No tempo de Paulo mal se conhecia. De contrário, como poderia ignorá-la o difamador das mulheres e do matrimónio? Como não a referiu no capítulo 7 da sua primeira Carta aos Coríntios, sobre a vida conjugal? Por acaso não admitiu expressamente que não havia nenhuma palavra do Senhor sobre a virgindade? E, coisa notável, que Jesus não fala dos solteiros ou dos celibatários («agamoi»), mas dos castrados, ou seja, dos que estavam incapacitados para o matrimónio («eunuchoi»).

Certamente a passagem é difícil e admite várias interpretações. Mas o que é incontestável é que nela não se determina concretamente a que espécie de castrados se refere, pelo que a frase não pode servir de base ao celibato generalizado. Além disso, só excepcionalmente foi nesse sentido interpretada pelos papas ou pelos sínodos.

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