quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Missas negras

Na Idade Média também sobreviveram restos de antigos cultos extáticos e levaram a cabo variadas práticas sexuais, que frequentemente culminavam em desflorações e acasalamentos colectivos, que tinham o coito como meta, «como um sacramento», é significativo o facto de muitas destas cerimónias tivessem lugar entre ruínas de templos pagãos ou outros vestígios da Antiguidade. Sob os alicerces de Notre-Dame de Paris descobriu-se um altar (consagrado a Cernuno, uma divindade cornuda) sobre a qual se celebravam «missas negras». Vale a pena notar que os participantes destas cerimónias também estavam fortemente compenetrados do seu sentido, e tinham tal convicção de que, por estes procedimentos, tinham assegurado a imortalidade, que morriam sem temor nem arrependimento. As jovens elogiavam tais orgias, alimentadas de bases arcaicas e da própria vida, como «a mais nobre das religiões» fonte de indescritiveis deleites e êxtases e «enfrentavam a morte com a mesma tranquila inteireza dos primeiros cristãos». A suposta fórmula de um culto testemunhado na Eslavónia (Croácia) até ao século XII reza: «Hoje queremos alegrar-nos  de que Cristo está vencido».

Continuou havendo cristãos a quem pareciam absurdas as ideias sobre o carácter pecaminoso da sexualidade. Por exemplo, no século XVIII, a jovem abadessa do convento das dominicanas de Santa Catalina de Prato reconheceu durante um processo que «posto que o nosso espírito é livre, só a intenção converte uma acção em maldade. Assim que basta elevar-se espiritualmente até Deus para que nada seja pecado». A jovem equiparava o extase místico à cópula dos amantes e descobria a vida eterna e o paraíso, neste mundo, na «transubstanciação da união do homem e da mulher». Gozamos a Deus através do acto, «por meio da cooperação do homem e da mulher» por meio «do homem em que reconheço a Deus». E concluía: «A actividade a que erradamente chamamos impura é a autêntica pureza; é a pureza que Deus nos ordena e que nós, por sua vontade, devemos praticar; sem ela não há caminho para encontrar a Deus, que é a Verdade».

Mesmo assim, certas correntes secretas da Cabala cultivavam a magia sexual. Jacob Frank (1712-1791), fundador da seita dos zoharistas ou contratalmudistas, não interpreta a chegada do Messias, a Salvação, desde uma perspectiva histórica, mas que recorria a um ponto de vista simbólico e orgiástico-sexual, através do despertar interior de cada ser humano, da comunicação íntima com uma mulher. «Eu digo-vos que todos os judeus estão desgraçados porque esperam a chegada do Salvador e não a chegada da jovem.»

Frank via na jovem «uma porta para Deus».

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