quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Sexo Sagrado

Sexo Sagrado

O culto da Grande Mãe e os mistérios da vegetação ligados a ela eram o momento preferido para a celebração de orgias com coitos rituais. Por analogia, em virtude de um acto mágico (que pretendia obter algo em troca e algo igual), a divindade devia fazer-se presente e transmitir a sua força, sobretudo através das mulheres.

Naquele tempo havia o costume generalizado da perda da virgindade antes do casamento, no templo. Nenhuma rapariga podia casar-se sem ter passado antes pelo ritual da defloração. Como representante do deus actuava um homem qualquer, que permanecia no anonimato. Esta circunstância era conhecida tanto na Índia como em algumas tribos negras ou no Médio Oriente. Na zona do templo de Ishtar, em Babilónia, as raparigas esperavam em filas ao longo das ruas, até que um homem lhes atirava umas moedas com as palavras «em honra da deusa», que obrigavam a escolhida a segui-lo e entregar-se. Heródoto, sublinha que «ela tem que ir com o primeiro que lhe deita algo no regaço e não pode rejeitar ninguém. Quando se deita assim com o homem e cumprido o seu dever para com a deusa, volta a casa e nem por muito dinheiro voltaria a fazer o mesmo».

Claro que a isso se prestavam muitas outras. A co-habitação no templo, como segunda forma em importância de relações sexuais sagradas (e sem prejuízo da sempre florescente prostituição profana), foi exercida profissionalmente por muitas mulheres. Sobretudo nas cidades semíticas e da Ásia Menor; segundo Heródoto, em quase todos os povos. As raparigas do templo, denominadas na Babilónia kadistu (sagradas), foram chamadas hieródulas (donzelas sagradas) na Grécia, kadesh (consagradas) em Jerusalém ou devadasis (servidoras da divindade) na Índia. Descritas pelos portugueses como balladeiras ou baiadeiras e difamadas pelos modernos como simples prostitutas, originalmente, longe de serem desprezadas, frequentemente estiveram acima das outras mulheres. Mesmo as filhas dos nobres podiam oferecer-se ritualmente durante longas temporadas sem que ninguém desdenhasse depois casar com elas. Até alguns reis consagravam as suas filhas nos santuários e faziam-nas actuar como meretrizes aquando de grandes festas. As prostitutas do templo serviram como representantes e, de certo modo, como emanações da Grande Mãe e, com a sua entrega, permitiram ao homem alcançar a união mística, a participação no sagrado, a mais íntima, sensível e palpável das comunhões com a divindade.

Da Babilónia - cuja religião, sem fé no além, foi provavelmente a primeira que incorporou as prostitutas sagradas, protegidas pelo Código de Hammurabi, a mais antiga compilação de leis do mundo - o costume passou para a Síria, o país fenício, Canaã, Ásia Menor, Grécia, Pérsia e sul da Índia. Milhares de hieródulas actuavam nos diversos templos; em Comana, a capital da Capadócia, no santuário da deusa Ma (mãe); no Ponto, num templo rodeado pelo rio Iris, situado sobre penhascos e dedicado a Anaitis, uma deusa semítica mesclada com a deusa da fertilidade Ardvisura; no templo de Afrodite em Corinto, a cujas mulheres, famosas pelos seus encantos, Píndaro dedicou uma das suas mais belas odes. E mais de dois mil anos depois um certo Ulrich Megerle de Messkirch (Baden), que adoptou o nome a Abraão a Santa Clara como agostinho descalço, clama contra «as mulheres de Corinto» as «loucas» que, mil vezes por dia, «se oferecem para emparelharem com os sementais fornicadores em honra de Vénus e no seu templo« e que «são tão sem-vergonha» que, para excitar os «velhacos fornicadores, aproximam-se com a cabeça descoberta, o rosto destapado, os olhos abertos, para mostrar a sua formosa figura».

Até no templo de Jeová em Jerusalém existiu durante algum tempo um bordel sagrado, obviamente enérgicamente combatido pelos profetas. A prostituição religiosa também parece ter sido praticada entre os germanos, no culto do deus da fecundidade, Freyr. Na Índia o costume conservou-se nalguns templos do sul até hoje.

Uma terceira forma de antigas relações sexuais rituais era o casamento sagrado (hieras gamos), o mais importante de todos os cultos da Antiguidade. Com ela procurava-se aumentar a potência, a fertilidade e, em geral, o bem estar da comunidade, mediante o juntar ritualmente duas pessoas, em que se acreditava que a deusa estava temporalmente incorporada na mulher eleita; como o Senhor na hóstia, no catolicismo.

Os casamentos sagrados celebravam-se já entre os sumérios; o rei-sacerdote consumava-os com a grande sacerdotisa na festa de ano novo.

As cerimónias do hieras gamos praticaram-se também com animais sacralizados, desde tempos remotos.

Mas, originalmente, os casamentos sagrados eram seguidos de copulações colectivas, como ocorria nas grandes festas da natureza no culto de Ishtar, onde primeiro copulavam o rei e a grande-sacerdotisa diante dos olhos de todo o povo e depois acasalavam os reunidos de forma mais ou menos aleatória. Tal promiscuidade era orgia no sentido original, sacrifício, culto ao deus. O mundo cristão perverteu depois aquele significado convertendo-o em diabólico; a orgia, então o ritual mais sagrado das antigas religiões, transformou-se numa ideia que incluía toda a espécie de intervenções demoníacas, bruxas a voar, missas negras e coisas semelhantes.

No entanto, o sacrum sexuale sobreviveu no próprio cristianismo; continuaram a existir correntes, consideradas heréticas pela Igreja, que veneravam tradições completamente diferentes e também viam Deus actuar na sexualidade, que não aceitavam nem a mania ascética nem el conceito de pecado dos católicos: amalricianos, begardos ou «Irmãos do Espírito Livre».

E na Antiguidade teve lugar em certos círculos de cristão gnósticos, além do ritual místico-simbólico, o ritual real da união erótica. No culto seminal dos fibionistas, os casados, depois do coito, saboreavam o esperma em jeito de comunhão. E os carpocracianos chegaram à comunidade de mulheres através da rejeição do casamento. Clemente de Alexandria, um dos Padres da Igreja, lamentava-se da situação: « Um funesto costume reina entre os carpocracianos, pois sempre que há um banquete, os homens e as mulheres devem excitar os seus apetites, apagar as luzes e acasalar a seu gosto. A isto chamam satisfação do espírito».

Deschner, História Sexual do Cristianismo

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