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terça-feira, 1 de novembro de 2011

História de Óbidos (imagem de 1860 do antigo brasão) e Lagoa de Óbidos



História de Óbidos (imagem de 1860 do antigo brasão) e Lagoa de Óbidos

A VILA DE ÓBIDOS

Acha-se situada esta antiquíssima povoação na província da Estremadura, a uma légua ao sul da vila das Caldas da Rainha, a três ao nascente de Peniche e doze ao norte de Lisboa. Está sentada no dorso de um monte ao qual faz coroa um velho Castelo.


A sua origem è inteiramente desconhecida, excepto se se quiser por fé nas palavras do autor da Corographia Portugueza que atribui a sua fundação aos turdulos e celtas, trezentos e oito anos antes do nascimento de Cristo.

A noticia mais antiga que se encontra desta povoação, é a que diz respeito á sua conquista por el rei D. Afonso Henriques.

Este monarca, depois de se ter assenhoreado de Santarém, Lisboa e muitas outras terras acasteladas da Estremadura, cercou e tomou de assalto aos moiros o castelo e vila de Óbidos em 1148. Como era uma posição forte pela natureza e pela arte, cuidou imediatamente o vencedor de assegurar a conquista, fazendo reparar a fortaleza e povoar de novo a vila que os sarracenos tinham abandonado.

Na guerra civil que se ateou no reino em meado do século XIII, entre o infeliz rei D. Sancho II e seu irmão, o infante D. Afonso, conde de Bolonha, mais tarde rei com o nome de Afonso III, deu aquela vila, como Celorico e Coimbra, nobre e corajoso exemplo de lealdade.

Posta em apertado assedio no ano de 1246 pelo conde de Bolonha, Óbidos resistiu valorosamente a todos os rigores do cerco e á violência de diversos acometimentos, até que o infante, perdida a esperança de reduzir pela força os leais que não pudera seduzir com promessas, levantou o arraial e retirou-se. E tal foi a nobreza de daquela povoação, sacrificando-se assim em desempenho da fidelidade, que devia ao seu rei então perseguido pela desdita, que o próprio conde de Bolonha, apenas se viu senhor pacifico de todo o reino, apressou-se a galardoa-la, fazendo-lhe entre outras mercês, a do titulo de sempre leal, a vila acrescentou ao de notável que já tinha.

El rei D. Dinis aumentou a vila e cremos reconstruiu e alargou o castelo, apesar de que alguns autores dizem que fora o seu primeiro fundador.

Pelo seu casamento este soberano fez doação de Óbidos, com mais outras terras, á rainha Isabel sua mulher. Daí em diante ficou pertencendo ás rainhas.

Durante as guerras que rebentaram entre Portugal e Castela no século XIV, el rei D. Fernando fez as muralhas que cercam a vila, ou reformou as que existiam, o que não é bem averiguado, segundo julgamos.

A rainha D. Leonor, mulher del rei D. João II, residiu algum tempo nesta vila, numas casas junto ao castelo. Por esta ocasião exercitou o animo pio e caridoso em extremo, instituindo cinco mercierias na igreja de Santa Maria, que é matriz.

Em 1634, Filipe IV de Espanha, então rei intruso de Portugal, fez conde de Óbidos a D. Vasco Mascarenhas, alcaide mor desta vila. Depois el D. Afonso VI confirmou, ou deu de novo, aquele titulo em 1663, declarando o de juro e herdade para os seus descendentes. É sétimo conde o representante desta família.

Quando em 1808 veio um exercito inglês ajudar-nos a sacudir o jugo de Napoleão, presenciou Óbidos o primeiro combate entre os franceses e os nossos auxiliares. A 15 de Agosto encontraram-se ali e pelejaram as avançadas dos dois exércitos. No dia seguinte foram vencidas as águias francesas na grande batalha da Roliça, uma légua distante desta vila, pelo exercito anglo-luso.

Óbidos tinha representação nas antigas cortes, sentando- se os seus procuradores no banco sexto. Segundo dizem alguns autores, tem por brasão de armas uma rede de arrastar no meio do escudo, que lhe fora dada pela rainha D. Leonor, de quem acima falámos, em memoria da rede em que uns pescadores de Santarém transportaram o corpo exanime de seu infeliz filho, o príncipe D. Afonso, das margens do Tejo, onde caíra do cavalo abaixo, para a vila. Porém, no livro das armas que se guarda na Torre do Tombo, acha-se pintado o brasão desta vila conforme a estampa que vai aqui junta, o qual consiste em uma torre de prata, onde tremula uma bandeira em campo verde e assente sobre rochedos.

Acerca da etimologia do seu nome, há várias opiniões, porém nenhuma inteiramente aceitável. A menos absurda diz que o nome é um composto dos monossílabos latinos ob-id-os, pelos quais designavam uma grande boca ou braço de mar, que em tempos remotos vinha ter junto á vila.

Conserva esta os seus antigos muros com pouca ruína, cercando-a por todos os lados com quatro portas denominadas: da Vila, do Vale da Cerca e do Telhal e dois postigos, o de Cima e o de Baixo. A povoação acha- se toda recostada no declive do monte, cuja crista serve de base ao Castelo e á igreja de Santiago, que se eleva junto da fortaleza. O estado de conservação desta é muito sofrível, atendendo á sua antiguidade. Goza-se d daí um lindo e variado panorama.



São quatro as freguesias: Santa Maria, que é a matriz, S. Pedro, Santiago e S. João Baptista. Os outros edifícios religiosos, são a igreja da Misericordia com o seu hospital e com avultada renda; as ermidas de Nossa Senhora de Monserrate, pertencente á ordem terceira; a de S. Vicente, onde está a paroquia de S. João Baptista; e a de S. Martinho, de arquitectura antiga. Fora da vila, mas nas imediações, encontram-se outras ermidas. A mais notável é a do Senhor da Pedra, começada em 1740 junto á estrada que conduz para a vila das Caldas da Rainha. Apesar de não estar concluída, é um belo e sumptuoso templo, em que se despenderam duzentos mil cruzados, havidos de esmolas daqueles povos, ás quais se juntaram valiosos donativos del rei D. João V, que por diversas vezes ali foi. A 3 de Maio, dia da invenção da Santa Cruz, celebra-se neste templo uma grandiosa função, com festa de arraial e mercado e á qual concorre muita gente das povoações vizinhas.

Tem a vila cinco ruas principais e uma praça ornada com um chafariz. Além deste, possui mais quatro, porém todos fora dos muros. Aquele e dois destes, recebem a agua de um aqueduto que corre sobre arcos, na extensão de meia légua e foi obra da rainha D Catarina, mulher de D. João III.

Os arrabaldes de Óbidos são notáveis por algumas quintas que os povoam e, principalmente, pela grande lagoa a que a vila dá o seu nome. Entre as quintas nomearemos a das Janelas, a das Flores e a do Bom Sucesso. A primeira pertence aos senhores condes de S. Vicente e possui águas termais semelhantes ás das Caldas da Rainha, ás quais concorrem alguns enfermos. Achando-se hospedado nesta quinta o infante D. Francisco, irmão de el rei D. João V, faleceu aí de uma cólica, a 21 de Julho de 1742. D. João V e a família real achavam-se então nas Caldas da Rainha. A quinta das Flores tem uma nascente das mesmas aguas. A do Bom Sucesso é muito arborizada e distingue-se pela sua posição pitoresca e alegres vistas.

A Lagoa de Óbidos

A lagoa dista da vila uma légua. O seu comprimento não chega a uma légua e de largura tem meia. Está cercada de montes, em que se abrem quatro gargantas, três por onde nela vêm desaguar os rios do Cabo, do Meio e Real; e a quarta, por onde a lagoa comunica com o mar. Esta ultima, todos os anos se obstrui de areias que é necessário remover a braços, para evitar o mau efeito da estagnação das águas. A lagoa estende dois braços para o interior, um na direcção de leste, chamado da Barrosa e o outro na do sul, denominado da Atouguia ou do Bom Sucesso. Contém esta lagoa muita variedade de peixes e de excelentes mariscos, que fornecem a vila todo o ano e muitas mais terras da Estremadura. No inverno é abundantissima de caça de arribação, que atrai ali, de grandes distancias, centenares de caçadores, uns para comercio, outros por simples divertimento.

A menos de um quarto de légua da vila, está o edifício do extinto convento de S. Miguel das Gaeiras, que foi de frades arrabidos e se fundou em 1602, mudando-se do antigo sitio em que o cardeal infante D. Henrique edificara o primeiro, em 1569. Contíguo àquele edifício há um frondoso bosque, que faz parte da cerca do convento.

O termo de Óbidos é fértil e produz cereais, algum vinho e muitas e excelentes frutas de toda a qualidade.

Tem esta vila uma feira anual em 20 de Outubro. Ao presente, que se acha em decadência, conta uns três mil habitantes. Já teve, porém maior população.

Ufana-se Óbidos de ter sido o berço da insigne pintora Josefa d' Ayala, mais conhecida pelo nome de Josefa d' Óbidos e do espirituoso e distinto poeta Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão.

Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelos Censos 2011 Óbidos conta com 11 689 habitantes


Freguesias de Óbidos

A dos Negros, Amoreira, Gaeiras, Olho Marinho, Santa Maria, São Pedro, Sobral da Lagoa, Usseira, Vau

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

História de Nisa e imagem de 1860 do antigo brasão


História de Nisa e imagem de 1860 do antigo brasão


A VILA DE NISA

Esta edificada esta povoação na provincia do Alentejo, distrito de Portalegre, em lugar baixo, entre as
ribeiras de Nisa e de Figueiró. Dista três leguas da vila de Castello de Vide e outras tantas da margem
esquerda do Tejo.

Foi fundada por el rei D. Dinis e el rei D. Manuel deu- lhe foral de vila em 15 de Novembro de 1512.

Conforme refere a tradição, existiu a meia legua dali, numa serra onde está a ermida de Nossa Senhora
da Graça, uma povoação mui antiga também chamada Niza e que, por se achar arruinada e quase
inteiramente despovoada, fundara el rei D. Dinis a nova em sitio menos aspero e mais fertil. Dizem que
ainda se descobrem alguns vestigios de Niza a Velha.

Este mesmo soberano cercou Nisa de muralhas com suas torres e seis portas, edificando no centro um
castelo torreado. No antigo regimen disfrutava a prerogativa de se fazer representar em cortes, onde os
seus procuradores tinham assento no banco setimo. O brasão de armas de Niza ó do modo seguinte: em
campo vermelho e no centro do escudo, um castelo de oiro com tres torres e sobre a do meio a cruz de
Cristo de prata; á direita do castelo o escudo das quinas portuguesas e á esquerda a lua em quarto
crescente de prata e nos dois angulos superiores do escudo duas estrelas igualmente de prata.

A  alcaidaria mór desta vila andou na casa, hoje extinta, dos condes de Santa Cruz. É cabeça de
marquesado desde o reinado de João IV, que fez primeiro marquês de Nisa a D. Vasco Luiz da Gama, quinto conde da Vidigueira e terceiro neto do ilustre descobridor da Índia, D. Vasco da Gama.

Contém a vila de Nisa dois mil e quatrocentos moradores, divididos em duas freguesias, que se intitulam Nossa Senhora da Graça, que é a matriz e o Espirito Santo. Ambas estas igrejas pertenciam á ordem militar de Cristo. Tem casa da Misericórdia e hospital, varias ermidas dentro e fora da vila e um belo teatro, com tres ordens de camarotes, edificado ha pouco desde os alicerces.

Os suburbios são povoados de hortas e olivais. As margens da ribeira de Nisa são muito lindas. O termo produz cereais, azeite, algum vinho, fruta e linho. Cria-se n elle bastante gado e caça e recolhe-se muito mel e cera. Do Tejo vai algum peixe para a vila. Tem esta a sua feira anual que começa a 29 de Setembro. Concorrem a esta feira muitos generos e gado, bem como muita gente, não só do Alentejo mas da Estremadura e da Beira.

Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelo Censos 2011 Nisa conta com 7350 habitantes

Freguesias de Nisa

Alpalhão, Amieira do Tejo, Arez, Espírito Santo, Montalvão, Nossa Senhora da Graça, Santana, São Matias, São Simão, Tolosa

História de Mourão e imagem de 1860 do antigo brasão



História de Mourão e imagem de 1860 do antigo brasão 


VILA E PRAÇA DE MOURÃO


Ergue-se esta villa em sitio alto, na provincia do Alentejo, meia legua além do Guadiana, uma legua áquem da fronteira de Espanha e seis ao nordeste da vila de Moura.

A memoria mais antiga que encontramos desta terra é de 1226, ano em que a mandou povoar D. Gonçalo Egas, prior do Hospital da ordem militar de S. João. Foi ele tambem que lhe deu o seu primeiro foral e que el rei D. Dinis confirmou em 1298. Este monarca enobreceu a vila com um forte castelo. Não se sabe ao certo quem foi que mandou fazer a antiga muralha torreada que cercava a povoação. Só da torre de menagem se conhece o fundador pelo seguinte letreiro gravado na mesma: «EMCCCLXXXI annos ao primeiro dia de Março Bom Affonso IV Rey de Portugal, mandou começar a fazer este castello de Mouron. O Mestre que o fazia avia nome João Affonso. O qual Rey foi filho do mui nobre Rey D. Diniz e da Rainha Dona Isabel, aos quaes Deus perdoe, e elle foi casado com a Rainha Dona Beatriz, avia filho herdeiro o Infante Dom Pedro.»

Quando pela acclamação d el rei D. João IV, Portugal se preparou para manter com as armas o grito de independencia, que levantara, a vila de Mourão foi uma das terras escolhidas para praça de guerra. Aproveitando-se das antigas fortificações o que podia servir de defensa, construiram-se outras segundo o moderno sistema.

Durante esta grande luta, correndo o anno de 1657 e sendo governador de Mourão D. João Ferreira da Cunha, foi esta praça assaltada e tomada pelos espanhois. O inimigo arrasou logo a povoação, poupando todavia a fortaleza que guarneceu e pretendeu conservar. Porém, pouco tempo, depois no principio de Novembro desse mesmo ano, foi expulso, tornando a flutuar nas ameias da praça o estandarte de Portugal.

Segundo refere a Monarchia Lusitana a vila de Mourão passou por muitas mais vicissitudes, sendo usurpada, restituida, dada, vendida e comprada em varios tempos.
Foram aicaides móres de Mourão os marqueses de Montebello. Tem a villa por brasão de armas cinco escudos com as quinas, postos em cruz, sobre campo azul, tendo o escudo inferior de um lado o sol de oiro e do outro a lua de prata.

Ha na vila uma só paroquia, casa da Misericórdia, hospital e cinco ermidas. Tem uma praça espaçosa e algumas ruas largas e regulares, posto que na maior parte guarnecidas de casas baixas. A igreja paroquial e algumas casas estão situadas dentro do castelo ea parte principal da povoação estende-se pela falda de leste do monte do Castelo.

As cercanias de Mourão não são feias. Cultivam-se nelas cereais, olivais, algumas vinhas e montados onde se cria bastante gado. Tambem abundam em variadas especies de caça. O Guadiana fornece á vila algum peixe.

Mourão tem duas feiras anuaes que começam uma a 21 de Abril e a outra a 13 de Setembro. Conta uns mil e quinhentos habitantes.


Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelo Censos 2011 Mourão conta com 2666 habitantes


Freguesias de Mourão 

Granja, Luz, Mourão 

História de Moura e imagem de 1860 do antigo brasão


História de Moura e imagem de 1860 do antigo brasão

VILA DE MOURA

É a vila de Moura uma das praças de guerra da fronteira do Alentejo. Está situada em terreno elevado e acidentado, ao qual cercam, por todos os lados, extensas planicies. A meia legua para este corre o Guadiana. Banham-lhe os muros as ribeiras de Brenhas e de Lavandeira, que pagam tributo ao rio Ardila, como este o paga ao Guadiana. Dista quatro leguas ao nor-nordeste de Serpa e sete es-nordeste da cidade de Beja.

A origem d esta povoação perde se na escuridão dos tempos. Para não referirmos as fabulas que a este respeito contam alguns autores, buscaremos para ponto de partida as noticias mais certas que se encontram sobre a antiguidade desta terra.

De varias lapidas e cippos romanos que se têm achado dentro da vila e nos seus arredores, consta que ali existira a cidade de Aruccitana ou Arucia a Nova para diferença de outra, do mesmo nome, situada na Serra Morena. No tempo do imperador Trajano era uma cidade mui nomeada e importante. Desde esta epoca até ao principio da nossa monarquia a sua historia é inteiramente desconhecida. É provavel que nas vicissitudes porque passou toda a peninsula com a entrada dos barbaros do norte e mais tarde com a dos arabes, fosse alternativamente destruida e levantada das suas ruinas. O que é certo é que no seculo XII era uma povoação acastelada, que os moiros tinham a bom recado. Como a lenda da tomada desta terra pelos cristãos seja a mesma que deu origem ao seu brasão de armas, vamos referi-la.








Lenda da Tomada de Moura

Corria o ano de 1166, D. Afonso Henriques, aclamado rei de Portugal nos plainos de Ourique, tinha expulsado os infieis da Estremadura e combatia sem descanso para os expelir do Alentejo, cujo terreno lhe disputavam palmo a palmo em luta porfiosa e desesperada.

Era então alcaide do castello da antiga Aruccitana um moiro nobre e opulento, senhor de muitas terras do Alentejo. Abu Assan, que assim se chamava, tinha uma filha por nome Saluquia, a quem amava ternamente. Em prova do seu afeto, dera-lhe em dote aquele castelo, por ele reedificado e guarnecido com tudo quanto era mister para conforto e defensa. A joven moira, tão ricamente dotada não tardou a contratar o seu casamento com um agareno não menos rico e poderoso e tambem alcaide do forte castelo de Arouxe.

Chegada a ocasião dos desposorios pos-se a caminho Braffma, era o nome do noivo, seguido de uma numerosa e luzida cavalgada. Ao entrarem porem num vale estreito e sombreado por espesso arvoredo, cairam sobre eles alguns cavaleiros cristãos, tão de improviso e com tal furia e denodo, que em breve espaço de tempo se viu o chão juncado de cadaveres, não escapando com vida um só sarraceno.

Foi esta acção uma empresa de antemão combinada e disposta; e foram autores dela dois fidalgos da corte de Afonso Henriques, chamados Alvaro Rodrigues e Pedro Rodrigues.

Apenas foi concluido este primeiro acto do drama, apressaram-se os dois fidalgos e os outros seus companheiros de armas a despojar os corpos dos moiros de todos os fatos e adornos e trocando-os pelos seus, num momento se acharam transformados em perfeitos cavaleiros mauritanos.

Assim disfarçados, seguiram o caminho do Castelo da noiva, entoando alegres vozes e gritas ao modo dos sarracenos. A desditosa Saluquia, que esperava ansiosa a vinda do consorte, viu da janela do alcaçar aproximar-se a brilhante e jovial comitiva. Com o riso nos labios e no coração a falaz esperança da felicidade, correu a ordenar á sua gente que baixasse a ponte levadiça e abrisse de par em par as portas da fortaleza, para receber o seu novo senhor. A sua ilusão porém passou rapidamente, como o relampago. As vozes de alegria e paz, que os cavaleiros entoavam ao transpôr os fossos do castelo, em breve se converteram no retinir das armas, nos alaridos da guerra e emfim nos brados de vitoria.


O sagrado pavilhão das quinas tremolava jà triunfante sobre as ameias da cidadela. A praça estava rendida aos pés do vencedor, mas não assim a sua altiva senhora. A desgraçada Saluquia, preferindo a morte á escravidão, arremeçara-se do alto da torre que defendia a entrada da fortaleza.

Em memoria deste sucesso, tomou a terra o nome de vila da Moura e por seu brasão de armas um escudo com um castelo e junto á porta deste, uma mulher morta.

Esta é a lenda, mas pretendem alguns autores que a povoação, antes desta conquista já era denominada Moura. Outros dizem, que durante o dominio dos arabes, davam-lhe estes o nome de Ilma-nijah.

O que é verdade historica, é ter sido conquistada aos infieis por aqueles dois cavaleiros, que tomaram desta empresa o appelido de Moura, que transmittiram aos seus descendentes, actualmente representados na pessoa do senhor marquês de Loulé.

A pouca distancia da vila, ha um sitio ainda hoje denominado Braffma de Arouxe, onde a tradição popular diz que foi assassinado o infeliz noivo.

No meio de certa confusão de noticias que se dá a respeito da tomada desta vila, parece depreender-se que, depois daquela primeira conquista, tornou a cair em poder dos moiros, sendo mais tarde outra vez resgatada pelos cristãos.

Reinando el rei D. Dinis, o senhorio de Moura, juntamente com o de algumas outras terras do Alentejo, foi causa de um rompimento entre Portugal e Castela, pelos annos de 1295. Terminada a guerra e reconhecido o direito de possessão a Portugal pelo tratado de paz de Ciudad Rodrigo, el rei D. Dinis deu foral á vila de Moura em Dezembro daquele mesmo ano.

Por ocasião da lcta da restauração de 1640, fizeram- se na vila de Moura importantes obras de defensa, que a elevaram á categoria de praça forte. Em Junho dc 1707, durante a guerra da sucessão de Espanha, rendeu-se esta praça por capitulação ao exercito espanhol, comandado pelo duque de Ossuna, depois de quinze dias de defensa. Passado algum tempo abandonou-a o inimigo, fazendo antes voar o Castelo e grande parte das fortificações da praça.

No nosso antigo sistema monarquico, a vila de Moura tinha voto em cortes com assento no banco quinto.

Ha na vila duas paroquias, S. João Baptista e Santo Agostinho, pertencentes outrora á ordem de Avis. Tem casa da Misericórdia, hospital e umas doze ermidas. Tem dois conventos de freiras, o de Nossa Senhora da Assunção, de religiosas dominicas fundado em 1562 dentro do castelo, e o de freiras de Santa Clara; e teve tres conventos de frades, um da ordem de S. Francisco, outro de carmelitas calçados e o terceiro de hospitaleiros de S. João de Deus, que tem servido de Hospital militar.

Conserva grande parte das antigas fortificações, posto que muito arruinadas, tais como a cerca de muralhas, com as suas quatro portas, do Carmo, Nova do Fojo, de S. Francisco e de Santa Justa; uma magestosa torre, fabrica del rei D. Dinis e varias reliquias de construções mais antigas, umas que se atribuem aos arabes e outras aos romanos.

As fortificações modernas acham-se tambem em muita destruição, pelo efeito daquela catastrofe e depois pelo abandono dos homens e pela acção do tempo.

As duas ribeiras de Brenhas e Lavandeira, que cercam e banham a vila e regam hortas e pomares; o rio de Ardila, onde estas vão desaguar, que mais caudaloso, faz moer muitas azenhas; e emfim, o Guadiana, que passa nas vizinhanças, tornamos suburbios de Moura bonitos frescos e amenos. O termo produz em abundancia cereais e azeite. Recolhe algum vinho, cera e mel e possui excelentes montados, onde se cria muito gado suino. Os montes abundam em caça e o Guadiana fornece variedade de peixe.

A vila de Moura é cabeça de comarca, distrito administrativo de Beja e encerra perto de quatro mil habitantes.

A 8 de Setembro tem a sua feira anual, muito concorrida de gente e de generos.


Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelo Censos 2011 Moura conta com 15 186 habitantes

Freguesias de Moura 

Amareleja, Póvoa de São Miguel, Safara, Santo Agostinho, Santo Aleixo da Restauração, Santo Amador, São João Baptista, Sobral da Adiça 

História de Montemor-o-Velho e imagem de 1860 do antigo brasão


História de Montemor-o-Velho e imagem de 1860 do antigo brasão

 VILA DE MONTEMOR O VELHO

Na margem direita do Mondego, a três léguas distancia do oceano e quatro da cidade de Coimbra, está a antiga vila de Montemor o Velho. Faz parte da província da Beira, distrito administrativo de Coimbra.

Dizem alguns dos nossos antiquários, que esta povoação tivera principio mil e novecentos anos antes do nascimento de Cristo, dando- lhe por fundador um suposto rei chamado Brigo. Posto que se não possa dar credito a semelhante noticia, é fora de duvida que esta vila tem uma origem muito remota.

Segundo a opinião de vários autores nacionais e castelhanos, no tempo do domínio romano, era uma cidade de alguma importância chamada Medobriga e não Mirobriga, como outros escrevem, pois que esta ultima tinha o seu assento aonde hoje vemos Santiago de Cacem.

Nas invasões dos povos do norte e na dos árabes, curvou-se, como toda a Lusitânia, ao jugo dos vencedores. Ainda não era passado século e meio depois da conquista dos sarracenos, quando D. Ramiro I, rei de Leão, caindo com grosso exercito sobre os moiros, restituiu Montemor a fé cristã no ano de 858. Não gozou porém da liberdade por muito tempo. Os infiéis de novo a acometeram e levaram de assalto, senhoreando-a por largos anos, até que em 1040 foi outra vez reconquistada pelas armas cristãs, sob o comando de D. Fernando I, rei de Castela e Leão.

Este soberano, que mereceu por suas gloriosas empresas o epíteto de Magno, nesta ocasião também foi grande na vingança. Não só fez lançar por terra os torreados muros que pretenderam embargar-lhe o passo; a própria povoação foi arrasada completamente.

Pelos anos de 1088, reinando em Castela D Afonso VI, foi Montemor reedificada e povoada de novo, por diligencias do conde D. Raimundo de Borgonha, genro de D. Afonso VI, auxiliado pelo conde D. Sisnando, que então governava Coimbra em nome daquele monarca. Passados poucos anos, casando D. Teresa, filha de D. Afonso VI, com D. Henrique de Borgonha, irmão de D. Raimundo e obtendo, em dote, as terras de Portugal até então conquistadas aos moiros com titulo de condado, entrou Montemor no domínio dos seus novos soberanos.

Como ficava próxima da fronteira inimiga, pois que as meias luas campeavam em toda a Estremadura e como a sua posição era forte por natureza, cuidou-se na restauração das suas antigas muralhas e castelo. E isto valeu-lhe de muito, salvando-a, por vezes, nas invasões que pelo tempo adiante os árabes fizeram por aquela parte da Beira, cobiçosos de se apoderarem novamente de Coimbra.

D. Sancho I mandou-a povoar e deu-lhe foral em 1202 e, por sua morte, deixou o senhorio desta vila a suas filhas, as infantas D. Sancha e D. Teresa, sobre que tiveram grandes dissensões com seu irmão el rei D. Afonso II.

Sob o governo dos nossos primeiros Reis, chamavam geralmente a esta povoação «Terra do Infantado», em razão de se achar sempre na posse dela algum infante. Depois principiaram a denomina-la Montemor-o- Velho, para diferença da outra vila de Montemor o Novo.

No antigo regímen tinha voto em cortes, nas quais os seus procuradores tomavam assento no banco quinto. O seu brasão de armas é um castelo d oiro em campo vermelho e sobre ele o escudo das quinas reais. É assim que se acha no livro dos brasões que se guarda na Torre do Tombo. Jorge Cardoso e António Carvalho da Costa, dão-lhe por brasão simplesmente o escudo das armas reais.

Está edificada esta vila nas abas de um monte, de onde deriva o seu nome, numa situação mui aprazível. De um e outro lado do monte, que se acha isolado e parece ali colocado só para servir de encosto á povoação, estendem-se os vastíssimos campos do Mondego. Pela frente corre este formoso rio entre margens de perene verdura. No cimo do monte, avulta o castelo da idade media, derrocado e desprezado, mas ainda soberbo em suas ruínas. A vista que daí se goza é de um efeito encantador.

Divide se a povoação em cinco freguesias, que são Santa Maria da Alcáçova, que é a matriz e está dentro do castelo; S. Martinho; o Salvador; Santa Maria Madalena e S. Miguel. A igreja e hospital da Misericórdia foram fundados por el rei D. Manuel.

Havia na vila um convento de eremitas de Santo Agostinho e outro de freiras franciscanas, ambos extintos. Dentro e fora dos muros há varias ermidas. As ruas em geral são más, estreitas tortuosas e mal calçadas. Para o lado do rio tem um belo campo ou rossio, onde está o edifício do extinto convento de Nossa Senhora do Campo, de que acima fizemos menção. O porto é frequentado de muitos barcos que navegam para a Figueira, para Coimbra e para outras mais povoações das margens do Mondego.

Montemor o Velho ainda mostra as antigas muralhas com as suas três portas. Os subúrbios são muito lindos e amenos, tanto pelas hortas, pomares, vinhas e fontes em que abundam, como pela boa vizinhança do rio. O termo produz muitos cereais e legumes, algum azeite e vinho e muita fruta. Cria se nele bastante gado e caça. A terra é mimosa de peixe, quer da costa, donde dista apenas três léguas, quer do rio.

A 8 de Setembro tem a sua feira anual A população d esta vila ascende a três mil almas.

Montemor o Velho é pátria do nosso poeta Jorge de Montemor, tão celebrado cm Portugal no reinado de D. João III e na Espanha, onde viveu muitos anos, estimado e favorecido de toda a corte. As suas poesias obtiveram tal acolhimento que o livro delas que intitulou «Diana», em que cantava os seus amores com uma certa dama de muita beleza, teve cinco edições em vida do autor.

Jorge de Montemor andava compondo um poema do descobrimento da Índia, quando faleceu no ano de 1561.


Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelo Censos 2011 Montemor-o-Velho conta com  26 214 habitantes 

Freguesias de Montemor-o-Velho

Abrunheira, Arazede, Carapinheira, Ereira, Gatões, Liceia, Meãs do Campo, Montemor-o-Velho, Pereira, Santo Varão, Seixo de Gatões, Tentúgal, Verride, Vila Nova da Barca

terça-feira, 25 de outubro de 2011

História de Montemor-o-Novo e imagem de 1860 do antigo brasão



História de Montemor-o-Novo e imagem de 1860 do antigo brasão

A VILA DE MONTEMOR O NOVO

Na província do Alentejo, distrito administrativo de Évora, cinco léguas ao noroeste desta cidade, ergue se a vila de Montemor o Novo, meia sentada nas faldas de um monte cuja crista se divide em três cabeços, meia subindo pela encosta.

Teve por fundador a el rei D. Sancho I, no ano de 1201, recebendo deste monarca muitos privilégios e isenções, que lhe foram atraindo moradores.

Nestes tempos em que andava sempre ateada a guerra entre moiros e cristãos, não se fundava, ou pelo menos não podia medrar povoação alguma sem se prover á sua defensa. Assim pois em breve Montemor foi cercada de muros ameiados, edificando-se na parte mais alta um castelo que passava então por um dos maiores e mais fortes do reino.

Com tais condições de segurança, foi crescendo a povoação até romper o seu cinto de muralhas, vindo estender-se pela raiz do monte. Desassombrado finalmente o país da presença dos infiéis, voltados para a agricultura os braços e as atenções que quase exclusivamente se empregavam na guerra, prosperou muito Montemor o Novo graças à imensa fertilidade dos vastíssimos campos que a cercam. No século XVI, apogeu da sua prosperidade, dizem que chegou a contar três mil fogos.

Honraram-na com a sua residência, por varias vezes, os Reis D. Afonso V, D João II e D. Manuel. Este ultimo aí reuniu as cortes para a cerimonia do juramento e menagens dos três estados do reino, por ocasião da sua exaltação ao trono, em 1495.

Este mesmo soberano a fez vila, reformando e ampliando o foral que lhe havia concedido D. Sancho I. Deu- lhe o titulo de «notavel», a regalia de ter assento em cortes no banco quarto e por brasão de armas, um castelo sobre rochedos e uma ponte com seu rio, comemorando assim a origem da povoação, pois que tanto a fortaleza como a ponte, chamada de Alcácer, que atravessa junto á vila a ribeira de Cunha, foram obra de D. Sancho I.

Deriva esta vila o seu nome da eminencia em que está fundado o seu castelo e da necessidade de se diferenciar de Montemor o Velho, vila da Beira.

Com a usurpação de Castela começou a decadência de Montemor o Novo, juntamente com a de toda a monarquia. Depois a longa e porfiosa guerra da restauração, fazendo da província do Alentejo o principal teatro da luta, estagnou todas as fontes de prosperidade daquela vila e afugentou do seu seio a maior parte das famílias nobres e abastadas.

A paz e os muitos recursos do solo têm ressarcido em grande parte aquelas avultadas perdas, mas não poderá ainda restituir a vila ao seu antigo esplendor. Este condão estará destinado sem duvida á via férrea que promete pôr em breve Montemor o Novo em rápida e fácil comunicação com toda a província e com Lisboa.

Os edifícios religiosos desta vila são os seguintes: as igrejas paroquiais de Santa Maria do Bispo, Nossa Senhora da Vila, S. João e Santiago; a igreja da Misericórdia; o convento de Nossa Senhora da Saudação, de freiras dominicas, fundado em 1506; e varias ermidas. Teve quatro conventos de frades, um da ordem de S. Francisco, outro de S. Domingos, fundado em 1559, outro de Santo Agostinho e o ultimo de S. João de Deus. Este foi edificado em 1627 na rua Verde, nas casas onde nasceu S. João de Deus, o piedoso instituidor da ordem dos hospitaleiros.

Possui a vila um hospital desde o século XVI e varias casas particulares de aparência nobre.

O castelo está hoje cm grande ruína, bem como a cerca de muralhas em que havia quatro portas e cinco torres. Na luta com a Espanha, em 1640, acrescentaram-se a estas antigas fortificações outras obras de defensa segundo o sistema moderno, as quais ao diante se abandonaram, vindo também a arruinar-se.

Os arrabaldes da vila são cheios de hortas e pomares, correndo pelo meio deles a ribeira de Canha e outros arroios. O termo compõe-se de ricas herdades, abundantissimas de cereais e de azeite, em que se recolhe algum vinho e outros produtos agrícolas e nas quais se vêem extensos montados, onde se criam anualmente muitas mil cabeças de gado suíno.

No primeiro de Maio e no primeiro domingo de Setembro têm lugar nesta vila as suas feiras anuais, em que só faz bastante comercio.

El rei D. Afonso V fez esta vila cabeça de marquesado, em favor de D. João, filho segundo do duque de Bragança D. Fernando I. A alcaidaria mor andava na casa dos condes de Santa Cruz, que tinham o seu palácio dentro do castelo.

Montemor o Novo encerra uma população de duas mil e novecentas almas.

Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelos Censos 2011 Montemor-o-Novo conta com 17 409 habitantes

Freguesias de Montemor-o-Novo

Cabrela, Ciborro, Cortiçadas, Foros de Vale de Figueira, Lavre, Nossa Senhora da Vila, Nossa Senhora do Bispo, Santiago do Escoural, São Cristóvão, Silveiras 

História de Monsanto e imagem de 1860 do antigo brasão



História de Monsanto e imagem de 1860 do antigo brasão

A VILA E PRAÇA DE MONSANTO

Fica esta vila na província da Beira Baixa, distrito administrativo de Castelo Branco. Dista léguas nordeste da cidade deste nome; uma su-sudoeste da vila de Penamacor e uma também da raia da Estremadura espanhola. Está em lugar plano, porém na coroa de um monte elevado e fragoso e por todos os lados de difícil acesso.

Nada se sabe acerca da origem desta povoação. Parece que já existia no tempo da dominação romanos e, a dar se credito á tradição, tiveram-na estes de cerco pelo espaço de sete anos, no fim dos quais se rendeu por capitulação.

Achando-se arruinada e falta de moradores no reinado de D. Sancho I, mandou-a este reedificar e povoar pelos anos de 1190. Dizem que lhe pusera então o nome de Monte Sacro, mas que ao diante começou a chamar-lhe o povo Monte de Sancho, que veio a corromper-se no actual nome de Monsanto. Todavia a etimologia mais provável deriva este de Mons Sanctus - Monte Santo -, denominação que o povo dava àquele sitio, desde o tempo em que ali residira Santo Amador, anacoreta cujos ossos se conservam num cofre, na antiquíssima ermida de S. Pedro, fundada na raiz do monte.

El rei D. Afonso III deu foral a Monsanto com muitos privilégios, porém foi el rei D. Manuel que a fez vila, concedendo-lhe representação em cortes, com assento no banco décimo quarto. Por esta ocasião lhe reformou o brasão de armas, acrescentando uma esfera armilar, divisa sua, á águia que já havia no escudo, como indicativo da dominação romana nesta terra.

Tem esta vila duas paroquias, o Salvador e S. Miguel, casa de misericordia, hospital, sete ermidas e um castelo fundado no século XII por D. Gualdim Pais, mestre dos templários.

Apesar da grande altura em que Monsanto se acha, tem varias fontes de excelente agua e, dentro do castelo, um poço com abundante nascente. A esta circunstancia tão favorável para o caso do um cerco, vem ainda juntar-se duas outras não menos vantajosas. A primeira é a fortaleza natural da posição, que bem se pode defender com um punhado de soldados contra forças muito superiores. A segunda é que, do lugar onde o inimigo lhe pode formar o cerco para dentro, tem terreno bastante, que produz pão, vinho, azeite, hortaliças e frutas. Por tudo isto, no tempo das antigas guerras com o reino vizinho, adquiriu entre os castelhanos fama de inconquistavel. E neste sentido têm eles um adagio que diz: « Monsanto, Monsanto, orejas do mulo, el que te ganar, ganar puede el mundo.» Os castelhanos chamavam então orelhas de mulo ao castelo de Monsanto, por causa de dois penedos agudos que há junto dele.

O caminho que conduz para a vila vai subindo pelo dorso do monte, com muitas voltas c rodeios e por entre áspera penedia.

Como por toda a montanha há muita copia de nascentes de agua, é cercada a vila de hortas e pomares. O termo, além dos produtos acima referidos, abunda em gados e caça.

Monsanto foi cabeça de condado, titulo criado por D. Afonso V, em favor de D. Álvaro de Castro, seu camareiro mor. Os condes de Monsanto, depois marqueses de Cascais, eram alcaides mores desta vila de Lisboa e ainda de outras terras.

Monsanto é praça de guerra, com um tenente coronel por governador. Tem uns mil e trezentos habitantes.

Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Monsanto (ou Monsanto da Beira) é uma freguesia do concelho de Idanha-a-Nova 

História de Monforte e imagem de 1860 do antigo brasão


História de Monforte e imagem de 1860 do antigo brasão


A VILA DE MONFORTE

Acha-se situada esta vila na província do Alentejo, entre a cidade de Portalegre e Vila Viçosa, distando quatro léguas da primeira para o sul e outras tantas da segunda para o norte.

Não há noticia certa sobre a fundação desta vila, mas sabe-se que já existia no principio da monarquia, pois consta de um alvará de D. Afonso IV, que se guarda no arquivo municipal, que el rei D. Afonso Henriques lhe concedera grandes privilégios e isenções.

Com as guerras dos moiros, durante os quatro primeiros reinados, se arruinou e ficou quase deserta. El rei D. Afonso III mandou-a reedificar e povoar de novo em 1270 e seu filho, el rei D. Dinis, construiu o seu castelo e cercou-a de muros. Tinha voto nas antigas cortes, sentando-se os seus procuradores no banco decimo segundo. São seus alcaides mores os senhores condes das Galveias. Tem por armas três torres com seus corucheos e sobre estes três bandeiras.

Está fundada esta vila sobre um monte alto e de difícil acesso, principalmente do lado do norte e desta sua posição tirou o nome de Monforte, abreviatura de Monte forte.

Divide-se a povoação em três paroquias: Santa Maria, que é a matriz; S Pedro e Santa Maria Madalena. Tem casa de Misericórdia, hospital, um convento de freiras franciscanas fundado no reinado de D. João III por Fernão Ribeiro Montoso, natural de Monforte e no qual residem mui poucas religiosas; e as ermidas de Nossa Senhora, S. Sebastião, S. Domingos, o Espírito Santo, S. Gião e Nossa Senhora da Conceição. Esta ultima é um belo templo, bem ornado e servido e onde concorrem muitas romagens daqueles arredores.

O termo de Monforte é cortado por varias ribeiras. As principais, chamadas de Avis e Leça, têm aprazíveis margens e regam campos fertilissimos, em que se cultivam muitas e boas frutas. Possui este termo mui ricas herdades, com magníficos montados de lande e bolota, onde se cria muito gado suíno e, além deste, que é o principal, de todo o mais. Produz muitos cereais e vinho. Os montes abundam em caça de todo o género.

Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelos Censos 2011 Monforte conta com 3351 habitantes

Freguesias do Monforte 

Assumar, Monforte, Santo Aleixo, Vaiamonte 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

História de Monção e imagem de 1860 do antigo brasão


História de Monção e imagem de 1860 do antigo brasão


A VILA DE MONÇÃO

Esta antiquíssima vila está sentada em terreno elevado, próximo da margem esquerda do rio Minho, em distancia de duas léguas da praça de Valença, para o norte. Fica- lhe defronte Salvaterra, vila da Galiza.

Como sucede a quase todas as nossas povoações de origem anterior a monarquia, ignora-se a época da fundação desta vila. A historia, que refere Carvalho na sua Corographia, dizendo que a fundou el rei Brigo, pondo-lhe o nome de Obobriga; que arruinada depois, a fundaram de novo os gregos, denominando-a Orozion; que no tempo em que Santiago pregou nesta província a fé crista, era uma cidade chamada Mamia; é um agregado de fábulas, que outros nossos antiquários mais escrupulosos refutam com bons argumentos. Também não se pode dar mais credito a outras noticias que o mesmo autor dá, relativamente a mudanças de local da povoação.

O que de tudo isto se deve deduzir é que a sua antiguidade é mui grande. O nome de Monção é abreviatura de Mons Sanctus, Monte Santo, que dizem lhe davam os godos.

El rei D. Afonso III deu-lhe foral, em Março de 1261. Seu filho, el rei D. Dinis, construiu-lhe o Castelo e cercou-a de muros. D. João II reedificou o castelo e acrescentou- lhe um novo cinto de muralhas, com sua barbacã, pelo que se vê na porta do baluarte o pelicano, divisa deste ultimo monarca.

Na guerra que rompeu entre el rei D. Fernando de Portugal e D. Henrique II de Castela, na segunda metade do século XIV, veio um exercito castelhano pôr cerco a Monção. Apesar de ser pequena para se opor a tão poderoso inimigo, a guarnição defendeu a praça por muito tempo, com incrível valor. Multiplicavam-se os assaltos e estreitava-se o cerco todos os dias; mas os castelhanos eram sempre repelidos e os defensores da vila suportavam com corajosa resignação todo o género de sacrifícios. As coisas, porém, chegaram ao ultimo termo pelo apuro da fome. Ia pois a render-se a praça, quando uma mulher a salvou.

Deosadeu Martins, esposa do capitão mor de Monção, Vasco Gomes de Abreu, praticara em todo o cerco acções de verdadeiro heroísmo, primeiro acudindo ás muralhas na ocasião dos combates, ora animando os seus, ora aremeçando pedras e matérias inflamadas sobre os castelhanos e depois, quando os braços começavam a desfalecer pela fome, correndo a repartir o seu próprio pão pelos soldados que mais dele careciam. Porém este derradeiro recurso não tardou a exaurir-se. A heroína, entrando um dia no seu celeiro, apenas viu um punhado de farinha. Já não havia mais mantimentos na vila. A entrega da praça devia ser imediata. A ilustre matrona teve então uma ideia de inspirada. Mandou fazer alguns poucos pães com aquela farinha e, tomando-os no regaço, sobe acima de uma torre das muralhas e arremeça-os ao inimigo, exclamando: «A vós que não podendo conquistar- nos pela força das armas, nos haveis querido render pela fome, nós mais humanos e porque graças a Deus nos achamos bem providos, vendo que não estais fartos, vos enviamos esse socorro e vos daremos mais se o pedirdes.»

Os sitiadores, que com efeito, já estavam experimentando grande falta de mantimentos, desanimados de tomar a vila por assalto; e julgando-a agora abastecida ainda de viveres para um longo assedio, resolveram imediatamente a retirada e sem mais demora, partiram para a Galiza.

Os habitantes de Monção solenizaram com grandes festas e regozijos este sucesso e em comemoração do feito e obséquio da heroína, tomaram por brasão de armas da sua vila, uma torre em campo de prata, tendo sobre as ameias uma mulher com os braços erguidos e dois pães nas mãos e em volta esta legenda: «Deus a deu Deus o há dado», aludindo assim á heroína que concebeu o projecto da salvação publica e ao pão que foi o instrumento dessa gloriosa acção. A câmara mandou também pintar na sua bandeira o retrato de Deosadeu Martins. Depois da sua morte foi por largo tempo honrada a sua memoria, indo a câmara todos os anos, em certo dia, junto da sua sepultura, para aí se abrir e ler a lista dos vereadores.

El rei D. João I deu o senhorio de Monção a Lopo Fernandes Pacheco, em 1423, mas logo depois lho comprou, incorporando-o outra vez na coroa. D. Afonso V fez doação dele a D. Afonso, conde de Ourem e mais tarde marquês de Valença, filho primogénito do primeiro duque de Bragança. Opuseram-se porém os habitantes por tal modo que não foi possível ao conde tomar posse. Sucedendo daí a pouco tempo D. João II no trono e fazendo-se-lhe queixa desta desobediência, ao passo que a vila de Valença, dada também ao conde de Ourem na mesma ocasião, não tinha impugnado a doação, respondeu este soberano: «Valença é fêmea e Monção é macho.» E aquela resistência agradou tanto a D. João II, que já se dispunha para coarctar o poder da nobreza, que deu vários privilégios à vila, ordenando que nunca mais fosse alienada da coroa.

Na luta da restauração da 1640, foi sitiada pelas tropas de Filipe IV. Durou o cerco quatro meses e meio, durante os quais houve rijos combates, terminando por uma honrosa capitulação. E dizem que o general inimigo, ao ver o pequeno numero de combatentes que saiu da praça, ficara maravilhado da sua tenaz resistência.

Monção tinha voto nas antigas cortes, com assento no banco décimo.

Há na vila uma só igreja paroquial, intitulada de Santa Maria, e numa das capelas está a sepultura de Deosadeu Martins. Tem igreja e hospital da Misericórdia, três ermidas, uma delas do bonita fabrica, da invocação de Nossa Senhora do Outeiro e situada num espaçoso campo chamado do Cano. Tinha dois conventos de freiras de que restam os edifícios, um de S. Bento, fundado em 1550 e o outro de S. Francisco. Dentro da povoação há quatro fontes.

Monção ainda conserva em grande parte as suas antigas fortificações; e no século XVII fizeram-se-lhe diversas obras de defensa.

Os subúrbios são muito lindos e amenos. Para se ajuizar da sua beleza basta dizer que se estendem pelas formosíssimas margens do rio Minho.

Entre a vila e o rio há um olho de águas sulfureas, muito medicinares. Próximo também do mesmo rio, porém na distancia de três quartos de légua de Monção, vê-se uma curiosa antigualha. É uma elevada torre que o vulgo denomina Vara do Castelo, porque fazia parte do lindo castelo de Lapela, fundado por ordem de D. Afonso Henriques, ainda antes de ser aclamado rei. Este Castelo foi mandado arrasar no século XVII para desafrontar a praça de Monção, ficando só em pé, para memoria, aquela torre.


A meia légua ao sul de Monção, encontra se o magnifico palácio da Berjoeira, ricamente adereçado no interior e rodeado de belos jardins, com uma grande quinta de regalo. Foi começado em 1806 por Luiz Pereira Velho de Moscoso e por ele acabado no fim de vinte e oito anos de trabalhos, nunca interrompidos. Dizem que importou numa soma que não anda longe de quatrocentos contos. Pertence actualmente ao filho do fundador, o senhor Simão Pereira Velho de Moscoso.

Noutro sitio das cercanias de Monção, chamado Agrelo, há uma curiosidade natural digna de ver-se. É uma gruta formada por um enorme penedo e tão espaçosa que podem estar dentro dela, comodamente, muitas pessoas.

O termo de Monção é mui fértil. Produz muito milho e centeio, legumes, frutas vinho, linho, etc. Cria-se nele bastante gado de diversas espécies e abunda em caça miúda. O rio Minho fornece a vila de muito e bom peixe, principalmente de lampreias e salmão.

Monção conta mais de mil e duzentos moradores.

Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelos Censos 2011 Monção conta com 19 210 habitantes

Freguesias de Monção

Abedim, Anhões, Badim, Barbeita, Barroças e Taias, Bela, Cambeses, Ceivães, Cortes, Lapela, Lara, Longos Vales, Lordelo, Luzio, Mazedo, Merufe, Messegães, Monção, Moreira, Parada, Pias, Pinheiros, Podame, Portela, Riba de Mouro, Sá, Sago, Segude, Tangil, Troporiz, Troviscoso, Trute, Valadares 

História de Miranda do Douro e imagem de 1860 do antigo brasão



História de Miranda do Douro e imagem de 1860 do antigo brasão


A CIDADE DE MIRANDA DO DOURO

Na parte mais meridional da província de Trás os Montes, onde o Douro a separa do reino de Leão, ergue-se a cidade de Miranda, sentada sobre fragas, em lugar montuoso, na margem direita daquele rio.


Apesar da antiguidade e diversos nomes romanos, que o autor da Corographia Portugueza atribui a esta povoação, parece com melhor fundamento que teve principio no governo de D. Afonso Henriques, sendo simplesmente infante. E há quem date a fundação do ano de 1136. O que é provável, atendendo ás guerras que o moço D. Afonso Henriques sustentou contra seu primo, rei de Leão, é que edificasse naquele ano o castelo de Miranda, como atalaia e guarda daquela fronteira contra as invasões dos leoneses e que, depois conforme o costume e necessidades desses tempos, os moradores dos campos fossem procurando o abrigo da nova fortaleza e construindo casas em volta de suas muralhas.

Crescendo a povoação, levantou se em torno dela, para sua defensa, uma cerca de muros com suas torres e portas. Porém, todas estas fortificações, por mal construídas ou pelo efeito natural das guerras, achavam-se em grande ruína no fim de século e meio- El rei D. Dinis começou a reconstrui-las no ano de 1294 e no de 1297 fez a Miranda vila, dando-lhe foral com muitos privilégios.

As tristes causas, que ali tinham atraído habitantes vieram por fim a cessar, mas a povoação teve depois maior incremento pelas causas opostas àquelas. A longa paz trouxe relações amigáveis ás duas nações rivais e o comercio em breve fez prosperar as povoações de uma e outra fronteira.

Querendo el rei D. João III remediar alguns males que se davam no arcebispado de Braga, por causa da demasiada extensão do seu território, resolveu tirar-lhe a província de Trás os Montes e criar nela um bispado. Impetrou portanto a erecção da nova diocese, que lhe foi concedida por bula do papa Paulo III, de 22 de Maio de 1545. A sede episcopal foi colocada em Miranda, que por esse motivo foi elevada pelo mesmo monarca á categoria de cidade.

Entre os foros e privilégios concedidos por D. João III á nova cidade, foi um deles a prerogativa de enviar procuradores ás cortes, destinando-se-lhes para assento o quarto banco- A alcaidaria mor foi dada aos marqueses de Távora. Não sabemos se o seu brasão de armas lhe foi concedido também por essa ocasião. Consiste num escudo coroado, tendo no meio um Castelo com três torres e sobre a torre do centro, a lua em quarto crescente, com as pontas voltadas para baixo. A fortaleza dizem que comemora a fundação da cidade, que teve principio no seu castelo; e a lua em crescente, querem que signifique a esperança ou o prognóstico do engrandecimento sucessivo da povoação.

Na porfiosa luta da restauração da nossa independência, no século XVII, padeceu a cidade de Miranda, como todas as povoações da raia. Por essa ocasião fizeram-se-lhe algumas obras de fortificação e apropriou-se o antigo castelo ao uso da artilharia, para o que se derrubaram as quatro torres que se erguiam nos seus quatro ângulos, até ficarem na altura dos lanços de muro que as unia.

Na guerra da sucessão de Espanha, travada entre esta nação e a França de uma parte e a Inglaterra, Portugal, Holanda e o império Alemanha da outra, foi a cidade de Miranda tomada por traição no dia 8 de Julho de 1710. O sargento mor Pimentel entregou a praça ao marquês de Bay por seis mil dobrões, que recebeu, ficando a guarnição prisioneira de guerra. Porém no ano seguinte, foi esta afronta vingada por D. João Manuel, conde da Atalaia, que depois de um curto mas rigoroso cerco, tomadas as obras de defesa exteriores e aberta a brecha na muralha, fez render a praça por capitulação aos 15 de Abril, entregando-se a guarnição prisioneira de guerra.

Rebentando novas hostilidades entre os dois países em 1762, o exercito espanhol, comandado pelo marquês de Sarria, invadiu e assenhoreou-se de quase toda a província de Trás os Montes. Até ao ano seguinte, em que se fez a paz, padeceu Miranda infinitas vexações.

Em 1770 foi desmembrado o bispado de Miranda, criando-se com o território que se lhe tirou o bispado de Bragança. Dez anos depois, foram outra vez reunidas as duas dioceses, pela bula de 27 de Setembro de 1780, mas então perdeu a cidade de Miranda a sua preeminencia eclesiástica. A sede episcopal transferiu-se para a cidade de Bragança.

Na grande luta que Portugal sustentou no começo deste século (19), contra o poder da Espanha e da França, que pretendiam unidas avassala-lo e dividi-lo, Miranda e toda a província do Trás os Montes foram vítimas de invasões assoladoras e também glorioso teatro do heróico esforço que, secundando o grito de independência levantado em outras terras do reino, tanto contribuiu para libertar o país dos seus opressores.

Dos muitos e diversos prejuízos que a cidade teve, em meio de tantas vicissitudes e desgraças, não a tem ressarcido o tempo, antes pelo contrario, porque nas variadíssimas adversidades porque tem passado Portugal, desde a paz geral de 1815, até hoje, Miranda com toda a província de Trás os Montes é a parte mais queixosa do reino. Enquanto que no resto do país se operam melhoramentos, que o vão transformando dando-lhe seguras condições de prosperidade, aquela província jaz como desligada do reino, á falta de comunicações fáceis e jaz também em grande torpor e decadência, á mingua de industria e movimento. Ainda agora é que o progresso começa a bater ás portas desta província.


Não tem esta pequena cidade mais que uma paroquia, que é um templo do três naves edificado por el rei D. João III para servir de catedral e quem durante quase dois séculos e meio, gozou dessa honra.

Além desta igreja, os seus principais edifícios são a casa da Misericórdia, hospital e o seminário, construído pouco antes da extinção do bispado de Miranda. Dentro e fora da cidade há varias capelas. Não há fontes no recinto dos muros, mas sim muitos poços, mais excedentes pela quantidade da agua que possuem que pela qualidade desta. Junto porém á cidade há quatro fontes.

Miranda ainda conserva o seu velho castelo e cerca de muralhas, com três portas, tudo em estado de mais ou menos ruína. A sua posição é mais defensável por natureza, que por arte, pois que além daquelas antigas fortificações, a sua principal defensa consiste num forte construído junto à cidade na época da restauração de 1640.

O clima é tão frio e áspero no inverno e tão ardente no verão que há ali um rifão que diz: «em Miranda há nove meses de inverno e três de inferno.» Nesta ultima estação secam-se de ordinário as ribeiras dos seus subúrbios e desaparece ou definha-se a vegetação.

O rio Douro corre mui perto da cidade, apertado e violento e tem aí um pequeno porto. Também na sua vizinhança passa o rio Fresno, que desagua no Douro e tem uma ponte de pedra, e junto dela uma fonte que é alimentada por um aqueduto que vem sobre arcos desde o sitio de Vilarinho.

Apesar de ser bastante pedregoso, o termo produz muitos cereais, legumes, vinho, frutas e gado. A principal industria da povoação consistia há tempos e julgamos que ainda hoje, em curtimentos de coiros e em certos tecidos de lã ordinários, para consumo da localidade. Conta a cidade uns quatrocentos e tantos fogos.


Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelo Censos 2011 Miranda do Douro conta com 7462 habitantes


Freguesias de Miranda do Douro (com os nomes em Mirandês entre parênteses) 

Águas Vivas (Augas Bibas), Atenor (Atanor), Cicouro (Cicuiro), Constantim (Custantin), Duas Igrejas (Dues Eigreijas), Genísio (Zenízio), Ifanes (Anfainç), Malhadas, Miranda do Douro (Miranda de L Douro). Palaçoulo (Palaçuolo), Paradela, Picote (Picuote), Póvoa (Pruoba), São Martinho de Angueira (San Martino), Sendim (Sendin), Silva (Silba), Vila Chã de Braciosa (Bila Chana de Barceosa) 

História de Mértola e imagem de 1860 do antigo brasão



História de Mértola e imagem de 1860 do antigo brasão

A VILA DE MÉRTOLA


Foi Mértola uma das mais importantes e nomeadas cidades da antiga Lusitânia, com o nome de Mirtilis Julia.

Segundo a opinião de alguns escritores, deveu a sua origem aos tírios e fenícios que, fugindo das armas vitoriosas de Alexandre Magno, vieram aportar á Lusitânia e aí fundaram, trezentos e dezoito anos antes do nascimento de Cristo, uma povoação sobre o Guadiana a qual denominaram Mirtilis, que quer dizer Nova Tiro e que, ao diante, se corrompeu em Mértola.

Seja ou não verdade esta origem, pelo menos não repugna dar-lhe credito. Os fenícios eram o povo mais industrioso da antiguidade. Foi a primeira nação, de que há noticia, que se deu com fervor e perseverança ao trafico comercial, saindo do seu país para permutar as suas mercadorias no estrangeiro e para explorar fontes de riqueza em remotas regiões.

A Península Ibérica, país então selvagem e mui afastado do centro de civilização dessa época, era uma das regiões que os fenícios mais frequentavam. Navegando terra a terra, percorriam todas as costas do Mediterraneo, devassando os rios que nele vêm desaguar e, saindo ao oceano, vinham também surgir nos nossos rios, principalmente no Guadiana no Sado e no Tejo. Exploravam as terras vizinhas; recolhiam os produtos que mais lhes convinham, sobretudo miniferos; e nos sítios mais ricos, ou que mais apropriados lhes pareciam a quaisquer vantagens, fundavam pequenas colónias.

É possível, portanto, que no caso de não ser exacta aquela noticia, aqueles navegadores aventureiros, em algumas das suas excursões pelo Guadiana, fundassem junto ás suas margens uma povoação.

O que é fora de duvida é que no tempo em que Roma estendia por toda a parte o seu domínio, era Mirtilis uma cidade de tal importância que mereceu ser elevada, pelos orgulhosos senhores do mundo, á preeminencia de município do antigo Lacio, prerogativa que bem poucas cidades das Hespanhas puderam alcançar. Os seus moradores, talvez em sinal de gratidão por alguns favores recebidos, acrescentaram-lhe o nome de Júlio César, ou este, para a honrar, lhe deu o seu nome, com o que se ficou chamando Mirtilis Julia. Encontram-se muitas noticias desta cidade nos autores antigos e também se têm achado, nos próprios lugares, muitos vestígios seus, que atestam a sua prosperidade e grandeza.

Nas invasões dos bárbaros do norte, que destruíram o império romano e depois, na dos árabes, que derrocaram a monarquia goda, padeceu muito aquela cidade, na espoliação das suas riquezas, na ruína dos seus edifícios e na morte e dispersão dos seus habitantes. É provável que tantas calamidades a deixassem inteiramente arruinada, como aconteceu a todas ou quase todas as principais cidades da peninsula. Os moiros reconstruíram-na e de novo a povoaram, porém na guerra cruenta que em breve se acendeu entre o islamismo e cristianismo, viu-se exposta a novos desastres e vicissitudes até que o nosso rei D. Sancho II a conquistou no ano de 1239, unindo-a para sempre á coroa de Portugal.

Desta vez não foi mais feliz que nas guerras anteriores, pois que nessa luta tremenda de cristãos e moiros, a espada do vencedor era tão inexorável para os homens como para os monumentos. D. Sancho II mandou-a povoar e fez doação dela á ordem militar de Santiago, para que os seus cavaleiros tomassem o encargo de defender aquela posição importante, por ficar fronteira á Andaluzia e próxima do Algarve, onde os moiros conservavam florescentes estados e grande poder.

Já se vê que em tais circunstancias não podia crescer e desenvolver se a povoação, que não era por certo apetecível uma vivenda tão vizinha de inimigos tão figadais. Por conseguinte só veio a tomar algum incremento depois que os sarracenos foram expulsos da Andaluzia e do Algarve.

Deu-lhe foral de vila el rei D. Dinis, sendo de há muito conhecida pelo seu actual nome de Mértola. Gozava então de voto em cortes, sentando-se os seus procuradores no banco décimo oitavo. Eram seus alcaides mores os condes de Santa Cruz, titulo e família hoje extintos.

O seu brasão de armas é um escudo de prata e nele um cavaleiro de Santiago a cavalo e armado de escudo e espada, em acção de arremeter. Na parte superior, juntos a um canto do escudo, tem dois martelos.

Está sentada esta vila na encosta de um monte, cujas faldas banha o Guadiana pelo lado de este e o pequeno, mas fundo, rio de Oeiras pelo sul. Dista da cidade de Beja nove léguas, para o sul e onze da foz do Guadiana.

Contém a vila de Mértola uns dois mil e quatrocentos habitantes, com uma paroquia, igreja e hospital da Misericórdia e cinco ermidas. Teve um convento da ordem militar de Santiago.

A sua posição é bastante defensável por natureza e alguma coisa fez a arte em outros tempos para a tornar mais forte. As margens do Guadiana e da ribeira de Oeiras fazem-lhe alegres e aprazíveis os subúrbios, assim como as águas dos dois rios concorrem para os fazer produtivos o termo, que se estende até ás serras de Caldeirão, Agra e S. Varão, é dos mais férteis do Alentejo. Produz cereais, legumes frutas, vinho, cêra, muito mel, gado e caça. O Guadiana fornece a vila de diversas espécies de peixe, sobretudo de solhos, em que abunda. Tem duas feiras no ano, uma a 13 de Junho e a outra a 21 de Setembro.

Tanto no terreno ocupado pela vila, como nas imediações, têm-se encontrado em diferentes épocas, muitos objectos de antiguidade e alguns de grande apreço artístico, como estátuas, vasos, colunas, cippos, etc. De uma bela ponte, que os romanos construíram sobre o Guadiana, ainda restam vestígios. O nosso erudito escritor D. frei Amador Arraes, bispo de Portalegre, falando numa sua obra da vila de Mertola, diz que entre umas estátuas de mármore que nos fundamentos da Misericórdia desta vila se acharam, vira uma de uma matrona admiravelmente lavrada.

Na antiga Mirtilis padeceu martírio o bispo S. Fabricio e nela nasceu S. Varão, irmão de Santa Barbara e de S. Brissos, o qual, vivendo vida eremitica na serra a que deu o seu nome, aí morreu pelos anos de 300 da era cristã. No sitio da sua sepultura, fundou-se depois uma ermida que, de reconstrução em reconstrução tem chegado até aos nossos tempos e é muito venerada e procurada daqueles povos. Próximo da ermida mostra-se a gruta em que o santo eremita viveu.

Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelo Censos 2011 Mértola conta com 7289 habitantes

Freguesias de Mértola

Alcaria Ruiva, Corte do Pinto, Espírito Santo, Mértola, Santana de Cambas, São João dos Caldeireiros, São Miguel do Pinheiro,São Pedro de Solis, São Sebastião dos Carros

domingo, 23 de outubro de 2011

História de Marvão e imagem de 1860 do antigo brasão




História de Marvão e imagem de 1860 do antigo brasão

A VILA E PRAÇA DE MARVÃO

Num dos mais altos cabeços da serra de Portalegre, na província do Alentejo, está assentada a vila e praça de Marvão. Todavia, posto que este monte conte meia légua de elevação, o cume é perfeitamente plano.

Para os lados de norte, sul e oeste, é formado todo o monte de rocha viva, como que cortada a prumo, até a um profundíssimo vale, com tais quebradas e tão escarpada penedia, que o acesso por ali é impossível. O ingresso para a vila é pelo lado de leste, onde o dorso da montanha está despido de rochedos e se eleva com menos precipitada inclinação. Porém ainda assim e apesar de subir em voltas, o caminho é muito íngreme e penoso.

Como esta parte é a que olha para a fronteira de Espanha, de onde dista uma légua, é nela que se acham as principais fortificações da praça, pois que as outras estão defendidas pela natureza. Na raiz do monte ergue-se pois a primeira muralha, que é banhada pelo pequeno rio Aramenho, o qual lhe serve de fosso. Dentro da vila para oeste levanta-se o castelo, acompanhado de alguns baluartes.

Dizem os nossos antiquários que foi fundada esta vila quarenta e quatro anos antes do nascimento de Cristo, pelos herminios, antigo povo da Lusitânia que habitava na serra da Estrela e suas circunvizinhanças e que, vindo a arruinar-se ou sendo destruída na invasão dos sarracenos, foi mandada reedificar e povoar no ano da era cristã de 770, por um moiro chamado Marvão, que era senhor de Coimbra e do qual tomou o nome.

El rei D. Dinis mandou edificar o castelo e a cerca de muralhas; e nos tempos da guerra da restauração contra o domínio de Castela, fizeram-se-lhe algumas obras de fortificação, segundo o sistema moderno.

Marvão gozava antigamente de voto em cortes com assento no banco décimo primeiro e tinha por alcaides mores os condes da Atalaia.

Consiste o seu brasão de armas de um castelo de oiro em campo azul, tendo por cima o escudo das quinas e duas chaves.

Divide se a vila em duas paroquias, uma da invocação de Santa Maria e a outra intitulada de Santiago. Tem casa de Misericórdia, hospital e quatro ermidas.

Os moradores fornecem-se de agua de uma grande cisterna que há no Castelo, junto á entrada de um poço de agua nativa e de uma fonte que fica na encosta do monte próximo ao caminho que conduz para a vila.

Marvão encerra uma população de mil e trezentas almas. De vários sítios da vila, descobre-se um horizonte dilatadissimo. Vêm-se, entre outras serranias, as da Estrela e de Beja e diversas povoações.

Nos subúrbios tinha um convento de frades franciscanos. O rio Aramenho faz férteis os campos circunvizinhos, onde há algumas hortas e pomares. O termo produz cereais, legumes e azeite e nele se criam gados e caça.

Numa quinta que ali possui o senhor conde da Atalaia, têm- se achado muitos vasos de barro, medalhas, inscrições e outras antiguidades. Não muito longe, ainda dentro do termo de Marvão, descobrem se ruínas de edifícios antigos em uma grande extensão de terreno, que bem mostram ter existido ali uma povoação importante. Conforme a opinião de um nosso escritor, que se deu muito ao estudo das antiguidades do nosso país, o padre Luiz Cardoso da congregação de S. Filipe Néri, essas ruínas são de uma cidade que se denominava Arménia. Diz o mesmo autor que o nome de Aramenha, que se dá ali a uma freguesia e o do Aramenho, porque se conhece o rio, são corruptelas do nome daquela cidade.

No distrito desta freguesia de Aramenha, ergue-se a serra da Portagem, nas abas da qual, para o lado do ocidente, há uma caverna de muita profundidade, que terá cento e cinquenta palmos de altura. Dela segue pelas entranhas da serra e em direcção do norte outra caverna compridissima, onde os curiosos não se têm atrevido a penetrar muito em razão da falta de luz e ar.  As paredes e abobadas destas cavernas são de rocha e dizem que mostram sinais de terem sido abertas por esforço de arte humana. É tradição naqueles povos que foi uma mina de chumbo que aí esteve em exploração.

Dista Marvão duas léguas da cidade de Portalegre, para o nordeste e uma da vila de Castelo de Vide para o sueste. Valença de Alcântara é a povoação do reino vizinho que lhe fica mais perto, na distancia de duas léguas. Porém, á parte mais próxima da fronteira, como acima, dissemos não vai mais de uma légua.

Por Ignacio de Vilhena Barbosa

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Pelos Censos 2011 Marvão conta com 3553 habitantes

Freguesias de Marvão:

Beirã, Santa Maria de Marvão, Santo António das Areias, São Salvador da Aramenha

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

História da Cidade de Lisboa



História da Cidade de Lisboa

A CIDADE DE LISBOA

Como acontece a todas as cidades de origem antiga, a historia da fundação de Lisboa e dos seus primeiros tempos anda envolvida em mil fábulas. Umas dão-lhe Ulisses por fundador, o celebre capitão grego, dizendo que do seu nome veio á cidade o de Ullyssipo, depois corrupto em Olisipo. Outras contam que a fundou um companheiro do deus Baco, chamado Luso e que daqui tirou o país a denominação de Lusitânia e os habitantes a de lusos. Outras ainda atribuem a sua origem a Elisa, bisneto de Noé.

O que de tudo isto se pode coligir com boa razão, é que a antiguidade desta nobre povoação é tal que, havendo memorias suas anteriores á era cristã, ainda assim se esconde a sua origem nas trevas dos tempos.

Tomando pois para ponto de partida uma época conhecida, tanto por noticias históricas de todo o credito, como por monumentos, diremos que Júlio César, que morreu quarenta e cinco anos antes do nascimento de Jesus Cristo, por honrar Lisboa, que então se chamava Olisipo, deu lhe o nome de Felicitas Júlia, que queria dizer felicidade de Júlio e concedeu-lhe o foro de município romano. Aquela honra e este privilegio, de que os romanos eram muito avaros, provam de sobejo a importância e grandeza de que já nesse tempo gozava esta nossa cidade.

Como os limites que nos impusemos neste trabalho, não nos permitem fazer nem mesmo o esboço da historia de Lisboa, referiremos tão somente os principais sucessos de que tem sido teatro.

Depois de um longo período de sujeição aos romanos, destruído o império destes dominadores do mundo pelos bárbaros do norte, foi Lisboa presa a seu turno dos mesmos bárbaros. Ao principio, passou de novos a novos senhores até que os visigodos nela fixaram o seu domínio, que durou três séculos acabando no ano de 714, pela perda da batalha de Guadalete, que os moiros ganharam, assenhoreando- se em breve espaço de toda a península.

Esta invasão foi mais fatal a Lisboa que as dos povos do norte, não só porque os moiros envolveram na sua fúria e vingança os habitantes e os edifícios, mas também porque este novo domínio, dando causa a uma guerra de extermínio entre o islamismo e o cristianismo, expôs a nossa cidade aos horrores e estragos de vários assédios e conquistas.

Tomada de assalto no fim do século VIII ou principio do IX, por D. Afonso, o Casto, rei da Galiza e das Astúrias; reconquistada pelos árabes no ano de 811; novamente entrada e saqueada, em 851, por D. Ordonho III, rei de Leão; outra vez recuperada pelos sarracenos; ganha de novo, no ano de 1093, por D. Afonso VI, rei de Leão e Castela; passado pouco tempo tornada á sujeição muçulmana; foi resgatada, ,para a fé cristã e desta vez para sempre, até nossos dias, por D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, no dia 21 de Outubro de 1147, depois de um cerco de cinco meses.

Capital

Na segunda metade do século XIII estabeleceu a sua residência em Lisboa el rei D.  Afonso III, tendo sido Coimbra a corte dos quatro primeiros soberanos. Nesse mesmo século, correndo o ano de 1288, teve lugar a fundação da universidade de Lisboa por el rei D. Dinis, que foi o primeiro monarca nascido nesta cidade.

Terremoto

No ano de 1356, reinando D.  Afonso IV, padeceu esta cidade um grande terremoto, que lhe causou consideráveis estragos, arruinando a capela mor da Sé. Porém, dezassete anos depois, em 1373, sendo rei D. Fernando, sobreveio-lhe maior calamidade, por causa da guerra que se acendeu entre Portugal e Castela. Posta em apertado sitio por um numeroso exercito castelhano, experimentou muita variedade de horrores, sendo um deles o incêndio dos seus arrabaldes. Em Dezembro de 1383, por ocasião da morte del rei D. Fernando, rebentaram na cidade graves desordens e tumultos por motivo da sucessão da coroa, assassinando o mestre de Avis ao conde João Fernandes Andeiro, castelhano, nos Paços reais da Moeda, hoje cadeia do Limoeiro, no dia 3 daquele mês. E no ano seguinte veio el rei D. João I de Castela, que se intitulava rei de Portugal, por sua mulher, a rainha D. Beatriz, filha única do nosso falecido rei D. Fernando, pôr cerco a Lisboa por mar e por terra, com grande poder. Durou o cerco cinco meses, no fim dos quais se retirou o inimigo depois de muitos combates e opressão, de que ficaram como tristes vestígios muitas ruínas nos edifícios da cidade e nas embarcações do Tejo.

Glória

O século XV foi mais propicio para Lisboa, cuja grandeza e prosperidade muito deveram aos acontecimentos extraordinários que nele tiveram lugar. Em 25 de Julho de 1415, largou do Tejo a poderosa armada que conduziu el rei D. João I e os infantes seus filhos á conquista de Ceuta, que foi a pedra fundamental do poder de Portugal na África e o preludio de mais longínquas navegações e de mais largas conquistas. E no decurso desse mesmo século, viu Lisboa partir do seu magnifico porto, as armadas que conquistaram Arzila, Tanger, Alcácer Ceguer, Azamor, Safim e outras terras africanas; e as que descobriram as nossas ilhas da Madeira e Porto Santo, Açores, Cabo Verde e outras, toda a costa de África, ocidental e oriental e, enfim, a Índia e o Brasil.  A instituição da irmandade da Misericórdia, na capela de Nossa Senhora da Terra Solta, na Sé correndo o ano de 1498, foi sem duvida um digno remate para este século tão glorioso para Portugal. Todavia nele padeceu Lisboa o terrível açoite da peste.

Judeus

No século seguinte experimentou Lisboa e todo o reino as mais opostas vicissitudes da sorte. O seu primeiro quartel, apesar dos motins e matança dos judeus, que horrorizaram esta cidade em 1506, foi todo de gloria para as armas de riqueza, para o tesouro, de poderio para o soberano, de lustre para as letras, de esplendor para as artes e de prosperidade para o comercio. Lisboa viu-se o empório comercial de todo o mundo. Abrangeu todo este período no seu reinado el rei D. Manuel, que por tantas felicidades mereceu o epíteto de Afortunado.

Inquisição

No segundo quartel começou a decadência da monarquia, apesar do brilho com que as suas armas ainda continuavam a resplandecer na Índia. Estabeleceu-se o Tribunal da Inquisição, que tão nefasto foi a Lisboa e a toda a monarquia. Introduziram se os jesuítas, que trouxeram ao país benefícios envoltos em muitos males. Ateou-se novo a peste, que absorveu milhares de vidas; e sobreveio a Lisboa um terremoto no dia 7 de Janeiro de 1531, que causou lamentáveis estragos.

Terremoto, peste e Filipes

Os dois últimos quartéis do século foram para o reino e mais ainda para a capital, uma época de continuadas calamidades. Um terremoto em 28 de Janeiro de 1551; a grande peste que, em 1569, assolou Lisboa e o país; a perda del rei D Sebastião em África, no ano de 1578; a morte sucessiva de todos os membros da família real até á do cardeal rei em 1580; a invasão dos castelhanos; o desbarate do exercito de D. António prior do Crato, filho bastardo do infante D. Luís e pretendente á coroa, em Alcântara, junto a Lisboa; e, enfim, a usurpação de Filipe II, tudo nesse mesmo ano; a destruição no meio de um grande temporal da invencível armada, que saiu do Tejo contra a Inglaterra em 30 de Maio de 1588 e na qual se perderam muitas embarcações e muitíssimas vidas de portugueses; e, finalmente, a subversão de uma parte do monte de Santa Catarina, com três ruas cheias de casaria, que se sepultaram nas ondas do Tejo na noite de 22 de Julho de 1597; tais foram os lamentáveis sucessos que constituem, em breve epilogo, a historia de Lisboa na segunda metade do século XVI.

Restauração

A vinda a Lisboa de Filipe III de Espanha e família real; as festas da sua entrada na cidade; as cortes para o reconhecimento do príncipe seu filho; os excessivos rigores da opressão castelhana; a gloriosa revolução do primeiro de Dezembro de 1640, que pôs a coroa sobre a fronte de D. João IV; a conjuração do duque de Caminha, marquês de Vila Real, arcebispo de Braga e outros, em favor de Espanha, descoberta e castigada com a prisão perpetua do arcebispo e com a morte dos seus cúmplices na praça do Rossio em 29 de Agosto de 1641; a tentativa de assassínio contra D. João IV, em 1647; a heróica luta travada com a Espanha, em sustentação da nossa independência e prosseguindo com felicidade até ao cabo; as intrigas, escândalos e desordens, que se passaram na capital, desde o começo do reinado do infeliz D. Afonso VI, até a sua prisão e deposição em Novembro de 1667; foram os mais notáveis acontecimentos do século XVII.

O seguinte principiou por acender, na Europa, a guerra chamada da sucessão de Espanha, em que D. Pedro II de Portugal se envolveu, tomando o partido do arquiduque de Áustria, Carlos, que mais tarde ocupou o trono imperial da Alemanha com o nome de Carlos VI.

A 9 de Março de 1704, desembarcou em o Terreiro do Paço este príncipe, intitulando-se Carlos III, rei de Espanha. Depois de alguma demora na cidade, partiu com o exercito aliado português e inglês a invadir o pa´s vizinho e sustentar os seus direitos. Nesta luta chegou o nosso exercito, comandado pelo marquês das Minas, a tomar Madrid e aí fazer aclamar aquele príncipe.

Bartolomeu de Gusmão

No ano de 1709, teve lugar no Terreiro do Paço, a ascensão de um balão aerostatico pelo padre Bartolomeu de Gusmão e foi esta a primeira experiência que se fez na Europa, pois precedeu setenta e quatro anos a que fizeram em França pela primeira vez, em 5 de Junho de 1783, os irmãos Montgolfier, que são reputados os autores desta invenção.

Ouro do Brasil

A descoberta e exploração das minas de oiro e de brilhantes no Brasil, trouxeram a Portugal e Lisboa, principalmente, uma nova era de prosperidade grandeza e fausto. Durante o longo reinado de D. João V, desde 1707 até 1750, viu esta cidade alargar-se o seu âmbito; erguerem-se grandes edifícios do estado e religiosos; erigir-se a patriarcal; criarem-se academias e aulas publicas; povoar-se o Tejo de embarcações de guerra e sair da sua foz uma forte esquadra em defensa da Itália e contra a Turquia.

Febre Amarela

Todavia, para que não deixasse de haver sombras neste quadro de tão brilhantes cores, rebentou em Lisboa, no ano de 1723, a terrível epidemia da febre amarela, que fez inumeráveis vitimas. Alguns incêndios consideráveis vieram também, naquele período, afligir a cidade.

Terremoto de 1755




O reinado d el rei D. José I, de 1750 a 1777, é a mais memorável época dos fastos de Lisboa, por que nesse tempo tiveram lugar a sua maior desgraça e o seu maior esplendor. Aos impulsos da terra, ao embate do mar e á voracidade das chamas, derrocou-se, aluiu-se e abrasou-se a maior e melhor parte da cidade, no fatal dia primeiro de Novembro de 1755. Ao aceno del rei D. José I, auxiliado pelo génio assombroso do seu grande ministro, o marquês de Pombal, levantou-se Lisboa do seu túmulo, formosa e grandiosa, como nunca o fora.

Távoras

N essa época de ilustradas reformas em todos os ramos da administração publica e de importantes melhoramentos em todas as condições da vida económica da cidade, os outros sucessos mais notáveis foram o atentado contra a vida del rei D. José em 3 de Setembro de 1758; a execução, na praça de Belém, do duque de Aveiro, do marquês e marquesa de Távora e outros cúmplices naquele crime, em 13 de Janeiro de 1759; a expulsão dos jesuítas nesse mesmo ano; e as festas magnificas pela inauguração da estátua equestre del rei D. José, em Junho de 1775.

Academia e Casa Pia

No ultimo quartel do século XVIII, engrandeceu-se a cidade com algumas construções grandiosas, tais como a basílica do Santíssimo Coração de Jesus e Cordoaria; principiou- se o novo palácio real da Ajuda, no mesmo sitio em que acabava de arder uma grande parte do palácio velho; projectaram-se e começaram-se outras grandes obras, que não se concluíram; instituiu-se a academia real das ciências, a biblioteca publica e a Casa Pia, tudo fundação da rainha D. Maria I. Visitaram Lisboa e residiram aqui por algum tempo o príncipe de Gales, depois Jorge IV e outros príncipes seus irmãos, duas princesas marroquinas e um outro príncipe africano.

Invasões francesas, Constitucionalismo e Guerra Civil

No século actual (19), tem sido Lisboa teatro de muitos e mui graves acontecimentos, tais como: a partida da família real para o Brasil, em 29 de Novembro de 1807, acompanhada de uma grande parte da nobreza elevando imensos capitais; a entrada do exercito francês logo no dia seguinte; o seu embarque precipitado daí a nove meses; a execução dos primeiros mártires da liberdade, em 1817, no campo de Santa Ana e junto á torre de S. Julião da Barra; a revolução de 1820, que proclamou a monarquia constitucional; o regresso del rei D. João VI e sua família em 1821; a contra revolução que reestabeleceu o poder absoluto em 1823; as festas e regozijos em Julho de 1826 pelo juramento da Carta Constitucional, outorgada por el rei D. Pedro IV, na sua elevação ao trono português; a guerra civil entre os partidos liberal e absolutista, que produziram a usurpação da coroa da senhora D. Maria II em 1828 e a sua restauração em 1833, na qual obraram prodígios de valor os defensores dos seus direitos, capitaneados por seu augusto pai, o imortal duque de Bragança, ex-imperador do Brasil e rei de Portugal; e as lutas sangrentas entre as fracções do partido liberal até ao começo do reinado del rei, o senhor D. Pedro V.

Epidemia de Cólera

Neste período, foi assolada por três mortíferas epidemias: a cholera morbus em 1833 è 1856 e a febre amarela em 1857.

Todavia, apesar de tantos infortúnios e contrariedades, o seu engrandecimento e aformoseamento têm sido tão progressivos e maravilhosos, desde que se restaurou a liberdade em 1833, que se pode dizer, sem receio, que operaram uma completa transformação nesta cidade. Faríamos uma longa resenha se houvéssemos de enumerar todos os melhoramentos, morais e materiais, com que a têm dotado o governo, por meio de varias reformas ilustradas e as suas câmaras municipais, por via de incessantes esforços patrióticos no desempenho de suas árduas funções. A sua situação geográfica e o impulso natural da civilização europeia, preparam-Ihe um futuro brilhantíssimo.

Visitas importantes

Neste período de 1833 para cá, Lisboa tem sido visitada de muitos príncipes e princesas das principais famílias soberanas. Especificaremos os seguintes: a rainha Adelaide, viúva de Guilherme IV de Inglaterra; a rainha Cristina, mãe da rainha Isabel de Espanha; o duque soberano de Saxe Coburgo; o duque Fernando, pai del rei, o senhor D. Fernando e os seus filhos, os príncipes Augusto e Leopoldo; a princesa Clementina, filha do rei Luís Filipe; o príncipe e princesa de Joinville; o duque e duquesa de Nemours; o duque d'Aumale; o duque de Montpensier e sua esposa, a infanta D. Maria Luísa, irmã da rainha de Espanha; o arquiduque Maximiliano, irmão do imperador da Áustria; o grão duque Constantino, irmão do imperador da Rússia; o príncipe Adalberto, irmão do rei de Baviera; o príncipe de Gales e o príncipe Alfredo, filhos da rainha Vitoria; o duque de Cambridge, primo desta soberana; o conde de Paris, neto do defunto rei Luís Filipe; o príncipe de Orange, filho herdeiro do rei de Holanda; o principe Guilherme da Prússia, sobrinho do rei deste estado; Ibrahim Pachá, filho de Mehemet Ali, vice rei do Egipto; o príncipe Leopoldo de Sigmarigen, etc.

No antigo regímen Lisboa gozava de voto em cortes com assento no primeiro banco. Tem por brasão um escudo coroado e nele uma nau, com um corvo á popa e outro á proa, o qual lhe foi dado por D. Afonso Henriques, em memoria do navio com os dois corvos, que no seu tempo, transportou a esta cidade o corpo de S. Vicente, encontrado no cabo deste nome, no reino do Algarve.

Situação e Clima

Lisboa está situada sobre a margem direita do Tejo, a duas léguas da sua foz, que tanta distancia vai daí até Belém, onde principia a erguer-se a cidade. Conta perto de duas léguas de extensão, de este a oeste desde Belém até Xabregas; e meia légua de largura, de norte a sul, desde o Tejo até ás barreiras de Campolide.

A sua situação é sumamente aprazível e o seu clima dos mais temperados e benéficos da Europa. Sentada em majestoso anfiteatro, sobre varias colinas que ostentam, como em exposição artística, templos, palácios e jardins; banhada pelas águas do Tejo que, misturando-se com as do oceano, formam diante da cidade um vasto golfo, sulcado continuamente por tanta infinidade e variedade de embarcações nacionais e das diversas potencias europeias; precedida e seguida á beira mar de lindos arrabaldes, onde avultam formosos monumentos de eras afortunadas, belas quintas e casas de campo; Lisboa oferece aos viajantes que demandam o seu porto, um dos mais grandiosos e encantadores panoramas que se encontram em todo o globo.

Porto

O seu porto é um dos mais amplos e seguros do mundo; e hoje atenta a crescente prosperidade do Brasil e o começo do desenvolvimento da África ocidental, é o mais adaptado para um grande empório comercial que, certamente, se estabelecerá, logo que um caminho de ferro, secundado pela telegrafia eléctrica, nos ponha em imediata comunicação com toda a Europa. Desde a barra até á praça do Comercio, a sua largura regula por meia légua. Depois forma uma grande bacia ou reconcavo, na parte do sul, que lhe dá duas léguas de largo, entre o arsenal do exercito e a vila do Barreiro; e três léguas, entre Braço de Prata, arrabalde oriental da cidade e a vila d Aldeia Galega.

Fortalezas e Fortes

A barra é defendida pelas fortalezas de S. Julião e de S. Lourenço ou do Bugio, edificadas em frente uma da outra, mediando um espaço de mais de uma milha. A primeira foi começada por el rei D. João III, continuada por D Sebastião e cardeal rei D. Henrique e terminada por Filipe II de Espanha; e a segunda teve principio no governo de D. Sebastião e concluiu-se durante a usurpação castelhana.


Vários fortes, construídos em diferentes épocas, guarnecem as duas margens do Tejo, desde a sua foz até à cidade. Anteriormente á fundação daquelas fortalezas, a defesa do porto de Lisboa estava confiada á torre de S. Sebastião de Caparica, vulgarmente chamada Torre Velha, e á torre de S. Vicente de Belém, que cruzavam as balas da sua artilharia. Aquela, reconstruída por el rei D. Sebastião, mas cuja primeira fabrica foi obra de D. João I, serve actualmente de lazareto. A de S. Vicente, projectada por D. João II e executada por el rei D, Manuel, é ao presente fortaleza de registro e ao mesmo tempo um dos mais lindos e curiosos monumentos de arte da capital.

Divisão Eclesiástica

A respeito da divisão civil eclesiastica de Lisboa dá-se uma circunstancia notável e talvez única na historia das grandes povoações; e vem a ser que, nas diversas alterações porque tem passado aquela divisão, ora tem sido diminuída, ora aumentada a cidade pelo simples efeito de um decreto. Quando se instituiu a patriarcal, D. João V dividiu Lisboa em duas cidades distintas, com dois senados da câmara e mais autoridades respectivas e em duas dioceses com prelados separados. Uma denominando-se Lisboa Oriental, continuou a ser sede de um arcebispo. A outra, a que se deu o nome de Lisboa Ocidental, foi erigida em patriarcado. No fim porém de alguns anos, foi extinto o arcebispado; e reunidas as duas cidades, tornaram as coisas ao estado anterior sob o governo eclesiastico de um patriarca.

El rei D. José, vendo o arrabalde de Belém povoar-se e crescer até pegar com a cidade, incorporou-o nela, decretando que fosse considerado como um dos seus bairros. De então para cá têm-se estreitado mui consideravelmente os laços que prendem o novo bairro aos antigos da cidade. a ponto de formarem uma não interrompida povoação- Todavia há sete para oito anos foi restringido o âmbito de Lisboa. criando-se os dois novos concelhos de Belém, para o ocidente e dos Olivais, para o oriente.

Entretanto, apesar desta divisão contraria á ordem natural do desenvolvimento das cidades, continuaremos a considerar Belém como parte integrante, que é, de Lisboa.

Não nos permitindo os limites deste nosso trabalho que historiemos todas as mudanças que tem havido na organização geral da cidade, falaremos só da actual.

Bairros

Divide-se administrativamente a capital em quatro distritos ou bairros, chamados de Alfama, Rossio, Bairro Alto e Alcântara, cada um com seu administrador, fora outras autoridades subalternas. Judicialmente está dividida em seis bairros ou julgados, presididos por seis juízes de direito, que dão audiência no extinto convento da Boa Hora e constituem, com os jurados, o tribunal de primeira instância. No mesmo edifício funcionam três juízes de policia correccional e os dos órfãos. A divisão fiscal compõe-se de recebedorias, de freguesia, cada uma das quais abrange de ordinário duas e três paroquias e é dirigida por um recebedor sob a fiscalização de um escrivão de fazenda. Quanto ao militar, tem uma guarnição composta de quatro regimentos de infantaria, dois batalhões de caçadores, um regimento de lanceiros, um regimento de artilharia e um batalhão de sapadores, com um general comandante da força armada. E a policia da cidade é feita por dois regimentos da guarda municipal, um de infantaria e outro de cavalaria e por cabos de policiam uns tantos por cada freguesia, sob as ordens de um regedor de paroquia.

A organização municipal consta de uma câmara municipal com treze camaristas, eleitos de dois em dois anos e entre os quais se reparte o governo da cidade, por pelouros da iluminação, da limpeza, das obras dos jardins e passeios públicos, etc.

Eclesiasticamente está dividida em trinta e nove freguesias, incluindo Belém.

Como capital de distrito, do patriarcado e de toda a monarquia, Lisboa é sede da corte, das duas câmaras legislativas, dos ministérios do reino, guerra, fazenda, justiça, marinha, estrangeiros, obras publicas comercio e artes; do conselho de estado; do cardeal patriarca; do supremo tribunal de justiça; dos tribunais da relação, do comercio, de primeira e segunda instância, do supremo conselho de justiça militar, da relação eclesiastica e do tribunal de contas; do conselho ultramarino; de um governador civil; de um general comandante da primeira divisão militar do reino; e de uma infinidade de repartições dependentes dos diversos ministérios.

Sé de Lisboa


Não é conhecida ou é muito duvidosa a época da instituição da diocese lisbonense. A noticia autêntica mais antiga que dela se encontra, é respectiva ao ano de 589, em que era bispo de Lisboa um prelado chamado Paulo. Com a invasão dos moiros, perdeu a cidade esta preeminencia, que recuperou logo depois de tomada por D. Afonso Henriques, sendo nomeado bispo D. Gilberto. El rei D João I alcançou do papa Bonifácio IX, por bula de 10 de Novembro de 1394, a erecção desta igreja em metropolitana e foi seu primeiro arcebispo D. João Annes. Entre os arcebispos seus sucessores, contam-se seis cardeais, três destes príncipes, D. Jaime, filho do infante D. Pedro duque de Coimbra e neto de D. João I; o infante D. Afonso e o infante D. Henrique, filhos del rei D. Manuel. A instâncias del rei D. João V, o papa Clemente XI erigiu em patriarcado a parte Ocidental da cidade de Lisboa e do arcebispado, por bula de 7 de Novembro de 1716; e por solicitação do mesmo soberano, foi extinto o arcebispado e unido ao patriarcado, por bula de Benedito XIV, datada de 13 de Dezembro de 1740. A patriarcal foi criada com tão grandes privilégios e com tamanho fausto e grandeza que, nas funções religiosas, era uma imitação em ponto mais pequeno da corte do sumo pontífice. Por um destes privilégios, os patriarcas são declarados cardeais pelo papa no primeiro consistório, depois da sua nomeação. O primeiro patriarca foi D. Thomas de Almeida, da casa dos senhores marqueses de Lavradio, sendo transferido do bispado do Porto.

Igrejas e Conventos

Lisboa encerra mais de duzentos templos, vinte e cinco dos quais pertencem a conventos de religiosas, que são umas trezentas, presentemente. O primeiro em antiguidade e hierarquia é a Sé Patriarcal. É muito incerta a época da sua fundação. Uns a atribuem a D. Afonso Henriques; outros aos moiros; e outros ainda a eras muito mais remotas. As ruínas que lhe têm causado vários terremotos e as reconstruções que tem tido, alteraram numas partes e destruíram noutras as feições primitivas do monumento. É um grande templo de tres naves que, apesar de tudo, contém algumas antigualhas curiosas. Na capela mor estão os túmulos de D. Afonso IV e da rainha D. Beatriz. Também aí se acham sepultados outros príncipes, arcebispos e muitas pessoas distintas. Possui vasos sagrados e alfaias de muita riqueza e primor artístico.


As outras igrejas mais notáveis são: Santa Maria de Belém, outrora pertencente ao mosteiro de monges de S. Jerónimo e hoje paroquia; foi edificada por el rei D. Manuel em agradecimento e memoria do descobrimento da Índia e no próprio sitio onde embarcou Vasco da Gama para essa ousada empresa. É um formoso e magnifico monumento do ultimo período da arquitectura gótica. Nele repousam, em túmulos de mármore, o fundador e sua segunda mulher, D. João III e a rainha D. Catarina, el rei D. Sebastião ou uns ossos que vieram de África como seus, o cardeal rei e vários infantes filhos del rei D. Manuel e D. João III.

A basílica do Coração de Jesus, fundada pela rainha D. Maria I em 1779. É um templo muito sumptuoso, construído de ricos mármores, com infinita variedade de belas esculturas. Na capela mor jaz, em soberbo mausoleo, a rainha fundadora.

S. Vicente de Fora, que pertenceu ao convento dos cónegos regrantes de Santo Agostinho, actualmente residência do cardeal patriarca. Da primitiva fabrica, que foi obra de D. Afonso Henriques, nada existe. Tudo o que se vê foi reconstrução de Filipe II de Castela, pouco depois de usurpar a coroa de Portugal. É uma grande e rica igreja de tres naves, também construída de bons mármores de cores e enriquecida de algumas obras de mosaico. Ao lado da capela mor, está o jazigo dos patriarcas e, por trás daquela, o real panteão da casa de Bragança, desde el rei D. João IV, que descansa num magnifico túmulo.


A igreja de S. Roque, que foi dos jesuítas e agora é da Misericórdia, é notável pela riquíssima capela de S. João Baptista, mandada fazer em Roma por el rei D, João V, armada e benzida dentro da igreja de S. Pedro pelo papa Clemente XIV, que nela disse a primeira missa; e que custou dois milhões de cruzados, com os vasos sagrados, paramentos e mais alfaias que aí se conservam. É fabricada de verde antiquo, porfido, jaldo, alabastro, lapis lazuli, ametistas e cornelina. Os três painéis de mosaico são admiráveis.

S. Domingos, igreja outrora do convento dos frades dominicos e ao presente paroquia de Santa Justa. Foi reconstruída inteiramente depois do terremoto de 1755. É um templo vastíssimo, de uma só nave, todo guarnecido de belas colunas colossais de mármore cor de rosa, Os painéis são de Pedro Alexandrino, um dos nossos pintores mais estimados dos fins do século passado (18).

Nossa Senhora dos Mártires, a mais antiga das paroquias de Lisboa, fundada por D. Afonso Henriques no sitio onde se enterraram os estrangeiros que morreram em seu auxilio no assedio e tomada de Lisboa. Destruída em 1755 pelo terremoto, foi logo depois reedificada com profusão de bons mármores.

A igreja paroquial de Nossa Senhora da Encarnação é um grande templo, levantado depois do terremoto.

A igreja de Jesus, que foi dos religiosos terceiros franciscanos e agora é paroquia de Nossa Senhora das Mercês e a igreja dos Paulistas, que foi dos frades da congregação da Serra d' Ossa e ao presente é freguesia de Santa Catarina, são dois vastos e ricos templos. Este foi começado em 1647 e escapou ao terremoto. Aquele, derrocado completamente por este cataclismo, é reconstrução posterior.

As igrejas paroquiais de S. Nicolau e S. Julião, cuja reedificação se concluiu há poucos anos, são dois belos templos, em que se admiram magníficos mármores de cores e excelentes esculturas. O tecto do primeiro foi pintado pelo senhor Fonseca e o do segundo pelo senhor Joaquim Rafael, ambos lentes de pintura da academia das belas artes.

A igreja de Nossa Senhora da Graça que pertenceu aos eremitas de Santo Agostinho e actualmente paroquia de Santo André e Santa Marinha, é recomendável pelo santuário do Senhor dos Passos, por alguns bons quadros e pelo riquíssimo túmulo de mármore e bronze com lindos mosaicos em que jaz D. Mendo de Foios, secretario de estado de D. João V, o qual se acha na sacristia. Junto á casa do capitulo do convento contíguo, que ao presente é quartel militar, está a sepultura do grande Afonso de Albuquerque.


A igreja de Santo António, fundada por el rei D. Manuel e, por disposição testamentaria de D. João II no próprio lugar das casas em que nascera o Taumaturgo; arruinada pelo terremoto de 1755 e reedificada desde os alicerces por el rei D. Pedro III, é um templo fabricado com riqueza, mas de uma arquitectura acanhada e mesquinha, principalmente no exterior. É administrado pela câmara.


A igreja de Nossa Senhora do Loreto, freguesia dos italianos residentes na capital, erigiu-se no século XVI, ardeu a primeira vez em 1651 e a segunda em 3 de Novembro de 1755, tendo ficado ilesa do terremoto. É um bom templo; contudo muito menos sumptuoso nesta ultima reedificação que na anterior.

A igreja de Nossa Senhora do Livramento, chamada vulgarmente da Memoria, em Belém, fundada por el rei D. José, no sitio onde lhe deram os tiros e em agradecimento por ter escapado deste atentado, é toda de mármore por dentro e com uma cúpula de cantaria.


A igreja da Conceição Velha é digna de especial menção pelo seu formoso pórtico e janelas de architectura gótica. Era aqui a grandiosa igreja da Misericórdia, obra del rei D. Manuel. Destruída pelo terremoto, menos a capela do Santíssimo e a porta travessa que lhe ficava fronteira, aproveitaram-se na reedificação, a primeira para capela mor e a segunda para porta principal de um templo de muito menores dimensões, que se deu aos freires de Cristo com a invocação de Nossa Senhora da Conceição, em troca de outra igreja deste nome que eles possuíam e que teve de demolir se por ocasião da nova edificação da cidade.


A igreja arruinada do Carmo, que o ilustre Condestável D. Nuno Álvares Pereira fundou em memoria da celebre batalha de Aljubarrota, a qual o terremoto passado arruinou, é ainda assim um dos nossos monumentos históricos mais respeitaveis.

A igreja, por acabar, de Santa Engrácia, começada no século XVII, é um colosso de pedraria de arquitectura pesada e original.

Praças, Largos e ruas

Contam se em Lisboa treze praças principais, cinquenta e dois largos, trezentas cinquenta e sete ruas, duzentas e dezasseis travessas, sessenta e cinco calçadas e cento e dezanove becos. As praças mais belas são as seguintes. A do Comercio, vulgo Terreiro do Paço, vastíssima, com três magníficos cais sobre o Tejo, cercada dos palácios das secretarias de estado, alfandega e outras repartições, é ornada no centro com a estátua equestre de D. José I, obra do insigne escultor Joaquim Machado de Castro e fundida por Bartolomeu da Costa. A estátua equestre, fora o pedestal, tem trinta e um palmos e meio de altura, é de bronze e tem de peso oitenta mil seiscentos e quarenta arrateis. Foi inaugurada em 27 de Maio de 1775, com extraordinarias festas.

A Praça de D. Pedro, antigamente do Rossio, é grande e também regular. No lado do norte ergue-se o majestoso teatro de D. Maria II e, no centro, está principiado um monumento a D. Pedro IV.

A Praça da Figueira serve de mercado.


A Praça do Pelourinho é mais pequena que as precedentes. Guarnecem-lhe os lados de leste e do sul os edifícios do banco de Portugal e do arsenal da marinha. No meio eleva-se uma esbelta coluna vasada e inteiriça, que foi Pelourinho.


A Praça dos Romulares, com um cais sobre o rio, é pequena mas regular e orlada de bons prédios e de árvores.

A Praça da Ribeira Nova é o mercado do peixe, também com um cais.

A Praça de S. Paulo, com a igreja paroquial deste santo, é guarnecida de árvores e tem no centro um belo chafariz.

A Praça da Alegria é toda plantada de arvoredo, com bonitas casas em volta.

A Praça nova ao Loreto, cujo terreno estava há pouco ocupado com os restos do velho palácio dos marqueses de Marialva e com vários casebres edificados nas suas ruínas. Todos os prédios que a cercam são de arquitectura regular.

O Largo do Carmo, arborizado e com um bom chafariz, tem em redor prédios regulares e a velha igreja do Carmo.

Campo de Santa Ana é uma grande praça modernamente aformoseada com passeio de arvoredo ajardinado. De entre muito bons edifícios que a guarnecem, sobressai a rica e linda casa do senhor Costa Lobo.

A Praça de D. Fernando II, antigamente Largo de Belém, é uma vasta praça orlada de árvores, banhada pelo Tejo do lado do sul, onde tem um óptimo cais e decorada do lado do norte pelo palácio do picadeiro real e pelos jardins do real paço de Belém.

A Praça do Príncipe Real, antigamente da Patriarcal Queimada, é arborizada e vai ter melhoramentos.


As melhores ruas são as cinco, que saem da praça do Comercio: rua Augusta, Áurea, Bela da Rainha, Nova da Alfandega, e do Arsenal, as ruas Nova del rei, Nova do Almada, Nova do Carmo, Chiado, de S. Francisco, do Alecrim, Larga de S. Roque, da Escola Politecnica, da Fabrica das Sedas, Direita da Junqueira, etc.

Palácios Reais

Os palácios reais são os da Ajuda, e Belém, das Necessidades e Bemposta.


O da Ajuda foi começado pelo príncipe regente D. João, logo depois do incendio que, pelos anos de 1795, devorou uma grande parte do palácio velho da Ajuda, construído á pressa, de madeira, para residência del rei D. José e sua familia, depois que o terremoto de 1755 lhe destruiu os paços da Ribeira, O novo paço, devido aos arquitectos José da Costa e Silva e Francisco Xavier Fabri, apenas tem levantada uma terça parte da sua planta geral, mas ainda assim, no que está feito, que já tem custado muitos milhões de cruzados, se poderia acomodar uma numerosa familia real- Encerra muitos e espaçosissimos salões e está decorado com grande numero de estatuas de mármore e de pinturas dos nossos melhores escultores e pintores modernos.


O palácio das Necessidades é a residência ordinaria del rei e familia real. Foi mandado fazer por D. João V, para hospedagem dos principes estrangeiros que visitassem esta cidade. Ao presente acha-se interiormente ornado e guarnecido com muita elegancia e riqueza. Contém numerosos objectos de arte de muita valia e primor em pintura e escultura, um rico museu organisado por el rei, o senhor D. Pedro V e pelo senhor infante D. Luís, uma boa livraria e uma bela colecção de armas antigas, pertencente a el rei, o senhor D. Fernando. A quinta contigua é muito formosa, tanto pelo gosto com que está plantada, como pela riquissima colecção de plantas exoticas que possui.



O palácio de Belém foi comprado ao conde de Aveiras por el rei D. João V, que o melhorou e cercou de jardins ornados de cascatas, lagos, estatuas, vasos e viveiros. Tem uma quinta com lindas ruas de bosque. Costuma servir este palácio para os bailes da corte, No topo da quinta está um palacete chamado do Patio das Vacas, porque a sua entrada principal deita para um pequeno largo ou pátio deste nome.

O palácio Velho está imediato ao novo da Ajuda. É a parte que escapou ao incêndio e que, apesar disso, é um grande edifício que estende uma das suas frentes pelo jardim botanico.


O palácio da Bemposta foi fundado pela rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança, viuva de Carlos II de Inglaterra e filha do nosso rei D, João IV. Nele viveu nos seus óptimos anos el rei D. João VI e aí faleceu a 10 de Março de 1826. A capela contém alguns quadros de merecimento e boas obras de escultura. É Colegiada, servida por cónegos. Neste palácio acha-se estabelecida a escola do exercito. Tem uma extensa quinta.

Arsenais

Há na cidade quatro arsenais, um de marinha e tres do exercito. O primeiro é magnifico. É obra do marquês de Pombal. Está hoje muito melhorado. Possui um soberbo dique, uma caldeira, dois estaleiros excelentes, oficinas grandes, armazens e uma vasta sala do risco, onde há uma corveta para exercício dos aspirantes.

Dos três arsenais do exercito o chamado Fundição de baixo, teve por fundador el rei D. João V, posto que geralmente se crê ser D. José I. Tem um rico pórtico de cantaria, ornado de colunas e troféus. Encerra, além dos armazéns e oficinas, varias salas de armas.

O chamado Fundição do Campo de Santa Clara guarda um curioso deposito de peças de artilharia antigas, tomadas pelos portugueses em diversas batalhas. Tem a celebre colubrina de Diu e muitos e lindos canhões espanhóis, franceses, ingleses e holandeses. No mesmo edilicio está um museu de maquinas, de armas e de diversas antiguidades e curiosidades.

O arsenal denominado Fundição de cima contém, além das oficinas de fundição e outras, o modelo da estátua equestre.

Teatros

Os teatros são sete. S. Carlos, de opera italiana, edificado em 1793, grande e bem decorado, com cinco ordens de camarotes e uma esplêndida tribuna real.


O Teatro de D. Maria II, de declamação, começado em 1844 e concluído em 1847. É um sumptuoso monumento com quatro frentes, todas de mármore, ornado de colunas, estatuas, altos e baixos relevos. As decorações interiores também são ricas. Tem quatro ordens de camarotes, com tribuna real. Está edificado no sitio onde esteve o antigo palacio dos Estáos, depois transformado em inquisição e depois, ainda, em palácio do tesouro publico que, ardendo em 1836, deu ocasião a edificar-se o teatro. Teve este por arquitecto Fortunato Lodi.

O Teatro de D. Fernando, de declamação, construído pelo arquitecto francês Arnould Bertin, nos restos por acabar da igreja de Santa Justa. Foi inaugurado em 1849. Tem quatro ordens de camarotes e camarote real particular.

O Teatro do Ginasio, de comédia e farsa lírica, concluido em 1852, pelos desenhos dos senhores Rambois e Cinatti. Tem três ordens de camarotes, com camarote particular para a familia real.

O Teatro da rua dos Condes, de declamação, é fundação da segunda metade do século passado (18). É pequeno e mal construido e decorado.

O Teatro das Variedades, de declamação, é o antigo teatro do Salitre, também do século passado (18) e, como o anterior, de péssima construção e pobremente ornado. Tem tres ordens de camarotes e um deles da família real.

O Café Concerto é um belo edificio construido há três anos. Encerra um grande e elegante salão onde se costumam dar bailes de mascaras durante todo o carnaval e um teatrinho para farças líricas francesas. Além destes ha varios teatros particulares.

O circo do Campo de Santa Ana, para corridas de toiros, erigido em 1829; o circo do Salitre, para exercicios equestres e ginasticos, feito no século passado; a Floresta Egípcia, com um salão para bailes de mascaras no carnaval; completam os espectaculos públicos da capital.

Jardins


Jardins e passeios conta Lisboa os seguintes. O Passeio Publico, foi plantado pelo marquês de Pombal, aumentado e muito melhorado desde 1833 para cá, com pórticos e gradaria de ferro em volta, com uma nova plantação dirigida com mais gosto, com uma cascata, quatro lagos, tendo um destes cento vinte e nove pés de circunferencia e três estátuas de mármore, duas que representamos rios Tejo e Douro, feitas por Alexandre Gomes, falecido em 1801 e discipulo do insigne escultor italiano Alexandre Justi; e a outra representando uma nayade, obra do sinzel do senhor Assis, lente da academia de belas artes.

O Passeio da Estrela, o maior e mais belo de todos os que estão dentro da cidade, delineado e plantado com muito bom gosto em 1850, cercado de grades de ferro e aformoseado com diversas construções nos anos seguintes. Contém uma excelente e copiosa colecção de árvores de bosque e plantas de jardim, uma cascata, quatro lindissimos lagos, estufa, elegantes pavilhões, caramachões, etc.

O Passeio de S. Pedro de Alcântara, começado em 1833 para 1834. A sua situação elevada proporciona aos que o visitam um delicioso e variado panorama. Na parte superior tem um copado bosque e na parte inferior jardim com dois lagos, cascata e vários bustos.

O Jardim da Alfandega, estende-se pela frente da alfandega grande, ao longo do Tejo. Tem uma pequena estufa.

O Passeio da Junqueira, situado junto ao Tejo e correndo paralelo à rua direita da Junqueira, que é guarnecida de belos palácios. Foi plantado nos fins do reinado da rainha D Maria I.


O Passeio do Campo Grande é fora da cidade, mas a pouca distancia das barreiras. Foi plantado no reinado de D. Maria I, por ordem de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, ministro do reino. Tem perto de um quarto de légua de extensão e é o único passeio para carruagens e cavaleiros. Consta de largas e copadas ruas de bosque e vários jardins. As duas estradas que correm dos lados de fora e junto dele, são orladas de casas de campo e jardins. Neste passeio faz se em Outubro uma grande feira mui concorrida.

Aqueduto


O grande reservatorio das Amoreiras e o aqueduto das Águas Livres, formam o mais grandioso monumento de Lisboa. Toda esta obra foi traçada e executada pelo engenheiro Manuel da Maia e por ordem de D. João V. Teve principio em 1729 e no fim de vinte anos estava concluido o aqueduto. A construcção do reservatorio prolongou-se pelos seguintes reinados vindo a terminar-se em 1834. O aqueduto corre ora soterrado ora sobre arcos que, ao todo, em sitios diversos, são cento vinte e sete. Os mais celebrados, pelo arrojo e elegância da construção, são chamados por antonomasia «Os arcos das aguas livres». É a maior e mais atrevida obra deste género que há na Europa. Tem esta ponte-aqueduto trinta e cinco arcos que sustentam a galeria por onde vêm os canos da agua e dois passeios para gente de pé, um de cada lado. O arco grande conta duzentos e trinta pés e dez polegadas de altura e cento e sete e oito polegadas de largura. A maior elevação de todo o monumento é de duzentos sessenta e tres pés. Resistiu ao terremoto. O reservatório leva perto de onze mil pipas de agua. A extensão das diversas galerias do aqueduto, longitudinal e transversais, perfaz a soma de sete léguas.

Chafarizes


Lisboa é abastecida de agua por muitas fontes e chafarizes, uns alimentados por aquele aqueduto e outros por mananciais que nascem do monte do castelo de S. Jorge. Os de melhor fabrica: são o das Necessidades, no largo em frente do paço, com um esbelto obelisco; o das Janelas Verdes. com uma boa estátua de Vénus; o de Belém; o de Alcântara, com uma acanhada estátua de Neptuno; o da praça de S. Paulo, com uma engraçada pirâmide; o da Esperança; o do Carmo, com os seus quatro arcos formando um como pavilhão; e enfim, a humilde fonte da Samaritana, junto a Xabregas, como memoria da sua illustre fundadora, a rainha D. Leonor mulher de D. João II e irmã del rei D. Manuel.

Hospitais


Os principais hospitais da cidade são sete. O de S. José, é o primeiro e pode comparar-se no seu serviço aos melhores estrangeiros. Ocupa o antigo convento de Santo Antão, que foi dos jesuítas, começado em 1579. Tem dez enfermarias de cirurgia e sete de medicina. Encerra ordinariamente para cima de mil enfermos. A botica, laboratório químico, deposito de roupas, cozinha, dispensa e outras mais oficinas são magnificas. Possui cerca e um jardim botânico.

O Hospital do Desterro, no edilicio do extinto convento de Nossa Senhora do Desterro de monges de S. Bernardo, é uma delegação do de S. José.

O Hospital de Rilhafolhes, no extinto convento dos congregados da missão de S. Vicente de Paulo, é de alienados de ambos os sexos. Tem uma grande cerca e um belo estabelecimento de banhos públicos e para uso do hospital, construído em 1851.

O Hospital de S. Lázaro, para moléstias cutâneas contagiosas e crónicas.

O Hospital da Marinha, para os doentes da armada e repartições da marinha. Foi edificado expressamente para este serviço por mandado do príncipe regente D. João e principiou-se em 1797. É um belo edifício, situado em terreno alto, com extensa vista de cidade e mar. Tem doze enfermarias e grandiosas oficinas.

O Hospital da Estrela, para militares, no extinto convento de Nossa Senhora da Estrela, de monges de S Bento.

O Hospital de Belém, também militar, no extinto convento da Boa Hora.

Além destes há muitos outros hospitais de confrarias e irmandades; a Casa de Saude, hospital particular que recebe doentes pagando um tanto por dia e dois hospitais estrangeiros, o de S. Luís, rei de França, dos franceses e o dos Ciprestes, dos ingleses.

Ha mais os seguintes estabelecimentos de caridade. A Santa Casa da Misericordia, asilo dos expostos, no antigo convento de S. Roque, dos jesuítas, fundado em 1567, e a instituição da Misericordia no fim do século XV, no reinado de D. Manuel. Tem a seu cargo, dentro e fora do edifício mais de dez mil enjeitados. A Casa Pia, asilo e casa de educação de órfãos pobres, no antigo mosteiro de Santa Maria de Belém, de monges de S. Jerónimo. Fundou esta instituição a rainha D. Maria I em 1783. Em 1834 passou do edificio do Desterro para o actual, sendo então este estabelecimento pio reformado e melhorado e continuando a ter progressivos melhoramentos. Contém de oitocentos a novecentos alunos, de ambos os sexos e um colégio de surdos mudos, para todos os quais há mestres e oficinas de todas as artes liberais e ofícios mecânicos. O edifício, obra del rei D. Manuel, como já dissemos falando da igreja, tem partes de muita riqueza artística, como o claustro, refeitório casa do capitulo por acabar etc. O Asilo da mendicidade, instituido no reinado da senhora D. Maria II no extinto convento de Santo António dos Capuchos, fundado em 1570 e reedificado depois do terremoto. Os pobres de ambos os sexos aqui recolhidos regulam por novecentos. Asílos da infância desvalida há diversos na cidade e um no Campo Grande, em edifício construido expressamente para esse fim pelo corpo do comercio de Lisboa, em comemoração da exaltação ao trono de sua magestade o senhor D. Pedro V. Esta instituição data de 1834 e tem por protectora sua magestade a imperatriz duquesa de Bragança. O Asilo de Nossa Senhora da Conceição, de raparigas abandonadas, é de fundação recente. Ha um recolhimento de irmãs de caridade.

Cadeias

Há na cidade quatro cadeias. A do Castelo, para militares; a do Limoeiro, para presos civis; a do Aljube, que serve actualmente para mulheres; e a da Galé, dentro do arsenal da marinha, para os condenados a trabalhos públicos. A do Limoeiro foi o antigo paço real da Moeda, onde morou el rei D. Fernando e onde o mestre de Avis, depois rei D. João I, assassinou o celebre valido da rainha D. Leonor Teles, chamado João Fernandes Andeiro, conde de Ourem. As torres da barra e a de Belém já têm servido de prisão e têm casas proprias para isso.

Quartéis

Os quarteis de tropa são dez. O do corpo de marinheiros, em Alcantara, edificado há pouco, é o mais belo e melhor de todos. O dos lanceiros, na calçada d Ajuda, também é grandioso. O de infantaria nº 1, na mesma calçada, é vasto e tem no meio uma grande praça de parada. O de S João de Deus, de infantaria nº 2, ocupa o convento que foi dos hospitaleiros de S. João de Deus, fundado no século XVII. É um bom edificio. O de Campo d Ourique, de infantaria nº 16, foi construido no começo deste século. O de Vale de Pereiro, de caçadores nº1. O da Cruz dos quatro Caminhos, do regimento de artilharia nº1. O da Graça, de infantaria nº 10, no convento que pertenceu aos eremitas de Santo Agostinho. O do castelo de S. Jorge, de caçadores nº 5. O do Carmo, da guarda municipal, no convento que foi dos frades carmelitas.

Edifícios importantes

Os outros edifícios principais da cidade ainda não mencionados são os seguintes. O da Escola Politecnica, majestoso palácio que está em reconstrução. Era o convento dos jesuítas da Cotovia, onde o marquês de Pombal fundou, depois da extinção desta, ordem o Colégio dos Nobres, que a seu turno foi extinto e substituido por aquela escola. O antigo edifício foi destruido por um incendio em 1843.

O Palácio das Cortes era o Convento de S. Bento da Saúde, de monges beneditinos, construido em 1598. É um edificio imenso e todavia não chegou a concluir-se. As duas salas dos pares e deputados foram construidas em 1834. Também se acha acomodado nele o Arquivo Real da Torre do Tombo, onde se guardam muitos documentos importantes e preciosidades históricas e artisticas, entre as quais citaremos a famosa Bíblia dos Jerónimos, dada por el rei D. Manuel ao mosteiro de Belém, levada por Junot para França em 1807 e restituida depois da paz geral, mediante a gratificação de quarenta mil cruzados, para a viúva daquele general que a possuía. Vieram seis volumes, sendo sete.

O do Banco de Portugal, na praça do Pelourinho, é propriedade da câmara municipal, que ocupa, para as suas sessões e secretaria, o palácio da praça do Comercio, que forma o ângulo do ocidente. A grande sala das sessões da câmara é ornada de ricos panos dr Arrás, de um quadro de Nossa Senhora da Conceição, feito por José da Costa Negreiros e três quadros com os retratos de corpo inteiro del rei D. João VI, del rei D. Pedro IV e da rainha, a senhora D. Maria II.

O da Alfandega Municipal, outrora terreiro publico sobre o Tejo, deposito e mercado de cereais, é um grande e majestoso edifício, mandado fazer em 1766 por el rei D. José I.

O da Cordoaria, á Junqueira, edificado por D. Maria I, é vastissimo. A sala ou armazem aonde se fazem as amarras e cordas, tem duzentas braças de comprimento.


O da Fábrica do Tabaco era o convento de S. Francisco de Xabregas, de franciscanos. É um grande edificio de arquitectura mui regular, situado junto ao Tejo, a pouca distancia das barreiras da Cruz da Pedra. Como estabelecimento fabril é coisa magnifica.

O da Imprensa Nacional só é digno de menção pelo estabelecimento tipografico que encerra, que está perfeitamente organizado e servido; e o da Casa da Moeda pelas preciosidades que aí se guardam.

O da Academia Real das Ciências era o convento de Jesus, de religiosos da terceira ordem de S. Francisco. Foi fundado em 1615, destruido pelo terremoto e reconstruido depois. Está nele o museu nacional e galeria de pinturas que devem ser transferidos para o edifício da escola politechnica, logo que estejam prontas as salas para os receber.

O novo Matadouro, que está em construcção na Cruz do Tabuado.


Não possui esta cidade palácios particulares que se possam chamar sumptuosos. Todavia alguns tem, que sobresaem por beleza de arquitectura ou por suas proporções grandiosas ou pela riqueza dos seus aposentos. Sob este triplice ponto de vista, as melhores residencias são as dos senhores duques de Palmela, ao Calhariz e na rua da Fabrica da Seda; condes do Sobral, ao Calhariz; marquês de Viana, ao Rato; conde de Farrobo, na rua do Alecrim; Bessone, na rua do Ferregial de Cima; marquês de Castelo Melhor, ao Passeio Publico; marquês de Pombal, na rua das Janelas Verdes, habitado por sua majestade a imperatriz; marquês da Ribeira Grande, de Fonseca e do visconde da Junqueira, todos três na rua da Junqueira; marqueses de Abrantes, na calçada do mesmo nome; visconde de Porto Covo de Bandeira, na rua de S. Domingos á Lapa; baronesa de Barcelinhos, ao Chiado; Amaral, na rua da Fabrica da Seda; conde de Redondo, a Santa Marta; marquês de Lavradio, no Campo de Santa Clara; marquês de Niza, a Xabregas; e condes de Valadares, ao Carmo.


Conta Lisboa muitos estabelecimentos literarios e de instrução publica, dos quais enumeraremos os principais. Escola politechnica; escola do exercito; naval; de construção naval; medico cirurgica; de farmacia; veterinaria; do comercio; conservatorio real de Lisboa; instituto industrial; instituto regional de agricultura; três liceus; colegio militar; colegio dos aprendizes do arsenal academia; das belas artes; academia real das ciências.

Bibliotecas

E as seguintes bibliotecas: Biblioteca publica, no convento de S. Francisco, que foi de franciscanos, instituida pela rainha D. Maria I, cuja estátua em mármore de Carrara, feita segundo o modelo de Joaquim Machado de Castro, por Faustino José Rodrigues e Feliciano José Lopes, adorna uma das suas salas. Encerra mais de cento e quinze mil volumes impressos, dez mil manuscritos, entre uns e outros muitas obras raras e ricas e um medalheiro com mais de vinte e cinco mil medalhas. Biblioteca da academia, também publica, no convento de Jesus, com cinquenta mil volumes. Biblioteca de S. Vicente, no convento deste nome, ao qual pertencia, contém uns vinte e dois mil volumes. Pertence actualmente aos patriarcas de Lisboa. Biblioteca da marinha, no edifício do respectivo arsenal, com uns onze mil volumes. Biblioteca das Necessidades, fundada por D. João V, no convento de Nossa Senhora das Necessidades dos congregados de S. Filipe Nery, contigua e fazendo parte do paço real do mesmo nome. Contém uns trinta mil volumes. Biblioteca da Ajuda, era a antiga livraria real, consta de uns vinte e oito a trinta mil volumes. A dos Paulistas, no convento deste nome e pertencente á sociedade Promotora da Industria. Além destas, há outras ainda em diversos estabelecimentos de instrução e em repartições publicas e muitas particulares ricas e copiosas.

Museus

Museus, além do nacional do das Necessidades, e da fundição do Campo de Santa Clara, de que já falámos, há o da escola politecnica, o da marinha, no arsenal, o arqueologico, da biblioteca publica, o de Benfica, de sua alteza real a senhora infanta D. Isabel Maria; o dos marqueses de Angeja, na rua da Junqueira; o do senhor conde de Tomar; e varios outros mais particulares.

Jardins botanicos contam-se o da Ajuda, o de Jesus, da academia real das ciencias e o de S. José, da escola medico cirurgica.

Cemitérios

São sete os cemitérios. O de Nossa Senhora dos Prazeres e o do Alto de S. João, povoados de ricos mausoleos e plantados de árvores e flores, são os melhores. O da Ajuda, é também arborizado, mas tem poucos túmulos. O dos Ciprestes, pertencente aos ingleses, que nele têm a sua capela, possui muitos e bons mausoléus. O da Boa Morte, dos alemães, é pequeno; assim como o de S. Luís, dos franceses; e o dos judeus.

Castelo


Lisboa conserva poucas antiguidades, além das que vão citadas. Entretanto é importante e digna de atenção a cidadela mourisca e os restos do paço dos reis moiros, no castelo de S. Jorge. Ainda aí se vê a porta onde se entalou Martim Moniz para facilitar a tomada da cidade. Sobre a porta está a sua cabeça em marmore, mandada ali pôr por D. Afonso Henriques, A parte moderna do Castelo, onde está a bateria, prisões, casa do governador, etc. acha-se aformoseada com muito arvoredo e flores. Restam tambem algumas torres e pedaços da muralha del rei D. Fernando, em diferentes pontos da cidade- Na parede de uma casa a Madalena estão embebidas umas lapidas com inscrições romanas, encontradas em escavações.

Lisboa é iluminada a gaz desde o ano de 1849. Possui muitos e bons cafés, boas hospedarias e casas de pasto, varias casas de assembleia, de que é principal o Club Lisbonense; muitos estabelecimentos de carruagens publicas e alguns do banhos; grande numero de fabricas, laboratorios e gabinetes de física, numerosas companhias de comercio e de navegação, etc. A sua população, incluindo Belém, ascende hoje a trezentas mil almas.

Feiras

As suas principais feiras são fora da cidade. Dentro limitam-se a simples feiras de arraial, devendo contudo mencionar a classica feira da Ladra, que se faz todas as terças feiras no Campo de Santa Anna e immediações  e na qual se vende todo o genero de objectos usados e alguns tambem novos e gado cavalar. Das de fora a mais notavel e concorrida é a que se faz no Campo Grande em Outubro e dura quinze dias. Hoje está em grande decadencia pelo feliz resultado das comunicações faceis. Pela Pascoa do Espirito Santo, ha em Sacavém uma feira importante em gados e neste mesmo artigo tambem são de importancia a do Lumiar, em Junho, a da Agualva, em Maio e a de Nossa Senhora da Luz, em Setembro. No primeiro domingo de cada mês ha mercado de gado junto ao chafariz do Campo Grande.

Arrabaldes


Os arrabaldes de Lisboa são formosos, apesar de que os montes sejam em geral despidos de arvoredo, por serem quase todos terras lavradias. Os Vales porém são deliciosos, pelas muitas quintas de regalo e bonitas casas de campo que os povoam. Os mais frequentados e mais belos são ao norte Benfica, onde sobressaem as ricas quintas e palacios da senhora infanta D. Isabel Maria, dos senhores marqueses de Fronteira, dos senhores condes do Farrobo e a que pertenceu á falecida viscondessa da Regaleira. Queluz, onde se ergue um grande palacio real com magnificas salas e com a maior e mais sumptuosa quinta de regalo que ha em todo o reino, obra del rei D. Pedro III. No palacio nasceu e morreu o senhor D. Pedro IV. Belas, notavel pela quinta e palacio antiquissimo dos senhores condes de Pombeira. Lumiar, com a formosissima quinta e palacio dos senhores duques de Palmela. Nossa Senhora da Luz, aonde está o colegio militar, cujo edificio mandou fazer para hospital a infanta D. Maria, ultima filha del rei D. Manuel. Ao ocidente, Pedrouços, com uma bela quinta e palacio dos senhores duques de Cadaval ; Caxias, com um pequeno palacio real e quinta, em que avulta uma soberba cascata e grandes jardins; Oeiras, celebre pelas magnificas quintas e palacio do senhor marques de Pombal. Ao oriente, Grilo, com o palacio e uma linda quinta dos senhores duques de Lafões; Chelas, com um antiquissimo e grande mosteiro de conegas regrantes; Poço do Bispo, com o palacio e quinta patriarcal; Olivais e Sacavem, com muitas quintas particulares e um convento de freiras.



Os subúrbios e termo de Lisboa produzem muitos e excelentes trigos e outros cereais; grande quantidade de batatas e cebolas, de que se faz importante exportação; bem como de laranjas e outras frutas; são mimosos de todo o genero de hortaliças, legumes, frutas, criação e caça. O Tejo e a vizinha costa do mar abastecem a cidade de infinita variedade de pescado, que também exporta.

Ilustres

Lisboa, finalmente, tem sido berço de muitos e mui insignes varões, que a têm ilustrado e servido o país com honra e gloria. O seu catalogo é imenso. Nomearemos tão somente os que por mais eminentes nos vêm agora à memoria. O papa João XXI, nascido e baptisado na freguesia de S. Julião, chamava-se antes de subir ao solio pontifício Pedro Julião, e como escritor era conhecido com o nome de Pedro Hispano. Santo António, nascido e baptizado na paroquia da Sé. El rei D. João I, o defensor da independência de Portugal e o plantador do nosso poder na África. João das Regras, o celebre jurisconsulto que persuadiu, com a sua eloquência, os três estados do reino reunidos em cortes a pôr sobre a fronte do mestre de Avis, D. João I, a coroa portuguesa que D, João I, de Castela disputava á força d armas. D. Duarte de Menezes, terceiro conde de Viana, um dos maiores heróis das nossas empresas de África, O infante D. Pedro, duque de Coimbra, filho del rei D. João I, que com tanta sabedoria e justiça e com geral aceitação dos povos regeu Portugal durante a menoridade del rei D. Afonso V, seu sobrinho. D. Francisco de Almeida, primeiro vice rei da Índia; e D. João de Castro, quarto vice rei do mesmo estado e que são duas das nossas maiores glorias militares. Luís de Camões, príncipe dos poetas da península e um dos primeiros épicos do mundo. D. Fr. Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga, um dos mais sabios e virtuosos prelados que têm florescido neste reino e que tanto lustre lhe deu quando foi assistir e tomar parte no concilio tridentino, António Ferreira, um dos nossos mais distintos poetas e autor da primeira tragédia que se compôs na peninsula hispanica e a segunda que apareceu no orbe literario. D Francisco Manuel de Melo, tão elegante na poesia como na prosa. O padre António Vieira, o mais eloquente e energico de todos os nossos oradores sagrados e também o mais elegante, discreto e primoroso de todos os nossos escritores. Francisco Manuel do Nascimento, mais conhecido pelo nome de Filinto Elysio, distinctissimo poeta e prosador, autor de muitas obras estimadissimas e restaurador da boa linguagem portuguesa. E, finalmente, o senhor Alexandre Herculano, o nosso primeiro historiador.


Por Ignacio de Vilhena Barbosa


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Pelo Censos 2011 Lisboa conta com 545 245 habitantes