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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

S. Paulo - Contra Jesus e contra as mulheres

S. Paulo, que considera que fora de Cristo e da sua doutrina não há nada de bom, além de promover uma série de dogmas que claramente não têm nada a ver com Jesus mas que serviram de bases ao cristianismo, estabeleceu a difamação da sexualidade, o rebaixamento da mulher, o menosprezo do casamento e o ascetismo.

Encontramos a raiz «askein» (infra) uma só vez no Novo Testamento e colocada na boca de Paulo, esse homem supostamente calvo e curvado, que sofria de crises alucinatórias, talvez de origem epilética. Apesar de tudo, e em total contradição com o Evangelho, as suas cartas atordoam com a mortificação, o aniquilamento dos afectos, o ódio ao corpo. A sarx, a carne, aparece como o autêntico poiso do pecado. No corpo não há nada de bom; é um «corpo para a morte», tudo o que quer «significa morte» e «inimizade contra Deus». O cristão tem que «atormentar e submeter», «crucificar» e «matar» o corpo e assim sucessivamente.

Repetidamente, Paulo - talvez um impotente ou ao menos um homem cheio de complexos sexuais - combate a luxúria (porneia), o «vício», as «obras obscuras», as «orgias ou bacanais», a «luxuria e as libertinagens», «o contacto com gente libertina», os «adúlteros», os «libertinos e pederastas», «os actos de impureza, fornicação e libertinagem». Estes são os pecados principais. depois vêm a idolatria, a hostilidade, a violência e tudo o mais. Repetidamente se lê: «mortificai os vossos membros apegados ao terreno, nos quais habitam a luxúria, a imoralidade, as paixões, os maus desejos (...). «Fujam da fornicação! Qualquer outro pecado que o homem comete fica fora do seu corpo, mas quem fornica peca contra o seu próprio corpo».

Com tais ataques contra o prazer - está a nascer a moral cristã -, Paulo afunda-se por baixo do próprio judaísmo do seu tempo, pois os mestres da Torah foram ao menos capazes de unir o desprezo pela mulher com a valorização positiva da sexualidade. Paulo, pelo contrário, na sua Apologia do Amor, fala em sofrer tudo, suportar tudo, esperar tudo; em Corinto entrega ao Diabo um amante (supõe-se que amante de uma filha ou enteada sua) e declara que está maduro para o Inferno.

Claro que como missionário Paulo precisava das mulheres; elogia-as como «colaboradoras» e «combatentes». Mas na prática, Pulo priva a mulher da palavra no culto, por princípio. «As mulheres nas assembleias da comunidade devem calar-se, pois não estão autorizadas a falar, mas têm que se submeter (...); trata-se do tristemente famoso «Mulier taceat in ecclesia», algo que fez escola e não só na história da Igreja. Nem mesmo Maria merece a Paulo uma única menção.

A pobre ideia que tem da mulher fica demonstrada na primeira Carta aos Coríntios: Deus-Cristo-Homem-Mulher. Além disso ordena o uso do véu durante a oração e o ofício divino: um símbolo da sua inferioridade, pois levar o véu significa «envergonhar-se do pecado que a mulher trouxe ao mundo». Paulo continua a difamar a mulher, pois o homem, pelo contrário, «é a imagem e o reflexo de Deus». Não é o homem que procede da mulher, mas a mulher do homem; tão-pouco foi criado o homem por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem». E ainda saca da manga a Lenda da Queda do Antigo Testamento num sentido anti-feminista: « É assim que a mulher deve levar um sinal de sujeição sobre a cabeça, por causa dos anjos».

A desqualificação do matrimónio também acarreta dificuldades aos exegetas assumidos. O apóstolo não concebe uma comunidade espiritual, emocional ou social entre o homem e a mulher, só meramente sexual.

São Paulo começa com a frase fundamental: «é bom para o homem não tocar na mulher». Não proíbe o casamento, mas desejaria que «todos os homens fossem como eu», isto é, solteiros. Qualifica-o como «recomendável». A homens e mulheres, viúvas e jovens, a todos queria ver livres do casamento, seriam «mais felizes» sem casamento; admite-o por simples concessão à carne, como um mal necessário «por causa da fornicação»: mas permanecer solteiro «é melhor».

S. Paulo nunca conheceu Jesus.



Jesus não era um asceta

Jesus não foi nenhum asceta. O relato dos seus quarenta dias de jejum é claramente mítico e, além disso, tem numerosos paralelismos com Herácles, Zaratustra ou Buda. Por outro lado, este duvidoso jejum é muito particular. Jesus não se instala, como João Baptista, no deserto; pelo contrário, afasta-se dele, precisamente porque reprova a mortificação. E, claro, combate o ascetismo dos fariseus. Não evita o mundo, os prazeres ou as festas e, faz tão poucos jejuns que os seus inimigos o rotulam de «glutão e bebedor de vinho». Surpreende a quantidade de vezes em que é convidado ou anfitrião. E os seus discípulos, diz a Bíblia, «não jejuam»; assistiam a banquetes «com alegria» que por certo desaparecia quando lhes calhava jejuar em nome do Senhor.

No começo do século II ainda se sabia que Jesus não tinha predicado a mortificação. Não tinha dito: reservai uns dias de jejum; açoitai as costas... a ideia já de si é ridícula.

Jesus nunca discriminou as mulheres

Jesus relacionou-se com as mulheres em completa liberdade. Não as considerava de segunda classe e nunca as discriminou. A ideia não fica desmentida pelo facto de que não havia mulheres entre os doze apóstolos, pois esta é claramente uma construção tardia, que corresponde aos doze Patriarca e às doze Tribos de Israel. As mulheres formavam parte dos discípulos de Jesus e talvez até fossem mais numerosas que os homens. Segundo uma antiga versão de S. Lucas, Jesus foi acusado pelos judeus, entre outras coisas de seduzir e extraviar as mulheres (e as crianças). Jesus dirigia-se às mulheres, o que num homem, e ainda mais num rabino, resultava inapropriado e desconcertava os seus prosélitos. Violou o sabbat por uma mulher, curou espetacularmente muitas mulheres e estas agradeceram-lhe, ajudaram-no e mantiveram-se a seu lado até à cruz, quando os seus discípulos, com excepção de José de Arimateia, há muito haviam desaparecido do mapa.

Jesus foi a um casamento. Como se não bastasse, nem sequer condenou uma adúltera, uma sentença que muito incomodou os primeiros cristãos. Nenhum outro texto neo-testamentário foi tão reinterpretado e tantas vezes tentaram eliminá-lo. Lutero tirou da história a conclusão que, provavelmente o próprio Jesus, com Maria Madalena (considerada pelos cátaros como sua mulher ou amante) e outras pessoas, tinha violado o matrimónio para participar completamente da natureza humana. Em qualquer caso, como não considerava a mulher como uma coisa, tão-pouco considerou o adultério como um delito contra a propriedade. Ainda que alguns detalhes apontem nessa direcção, continua sem se poder provar que ele mesmo estivesse casado; o que seria muito possível.

Jesus considerou o matrimónio tão estritamente como quase ninguém antes Dele, mas não disse uma palavra sobre a sua finalidade. E não se encontra nenhuma palavra sua contra o mesmo. Se fosse o caso, com que ganas se teria Paulo agarrado a tais palavras, em vez de admitir que não tinha nenhum preceito do Senhor a esse respeito. Qualquer mitigação da líbido no seio do matrimónio - que depois se converteu numa exigência da Igreja - só podia aparecer-lhes como absurda, uma posição a que alude aquela frase - rotunda afirmação do amor físico - segundo a qual os esposos devem se «uma só carne».

Jesus nunca defendeu o celibato

O ascetismo cristão não tem em Jesus nenhum apoio. Jesus representa o celibato, a discriminação feminina e matrimonial, os jejuns e outras penitências em tão escassa medida como o militarismo e a exploração.

Nunca pregou contra a libido como tal, nunca considerou o sexual per se, como contrário a Deus. A continência também não tem nenhuma base tradicional comum anterior aos quatro evangelhos. Não custa muito imaginar com que radicalidade teria Jesus condenado o mundo dos instintos se o assunto lhe tivesse interessado. Em troca costumava relacionar-se com pecadores e prostitutas. E as lendas do seu nascimento virginal - que se encontram apenas nos evangelhos mais recentes e seguem o modelo dos filhos de deuses, nascidos exactamente dessa maneira - também não incluem qualquer espécie de comentário ascético.

Em Mateus 19.12 uma misteriosa sentença bíblica reza: «E há várias razões que podem levar um homem a não se casar: alguns são incapazes de nascença, outros foram tornados incapazes pelos homens e outros abstêm-se de casar por causa do Reino dos céus. Aquele que puder compreender isto, que compreenda.» Mas esta passagem, que levou certos cristãos a nada menos que a castração, só aparece em S. Mateus. Falta em todos os outros evangelhos; supostamente porque teria chocado os «ouvidos dos gentios» mas provavelmente porque Jesus nunca a disse, porque é uma interpolação de Mateus. No tempo de Paulo mal se conhecia. De contrário, como poderia ignorá-la o difamador das mulheres e do matrimónio? Como não a referiu no capítulo 7 da sua primeira Carta aos Coríntios, sobre a vida conjugal? Por acaso não admitiu expressamente que não havia nenhuma palavra do Senhor sobre a virgindade? E, coisa notável, que Jesus não fala dos solteiros ou dos celibatários («agamoi»), mas dos castrados, ou seja, dos que estavam incapacitados para o matrimónio («eunuchoi»).

Certamente a passagem é difícil e admite várias interpretações. Mas o que é incontestável é que nela não se determina concretamente a que espécie de castrados se refere, pelo que a frase não pode servir de base ao celibato generalizado. Além disso, só excepcionalmente foi nesse sentido interpretada pelos papas ou pelos sínodos.

O Orfismo e o Novo Testamento

No século VI surgiu a primeira religião salvítica da Grécia: o orfismo. É atribuída ao mítico Orfeu e produziu um grande número de «textos sagrados». Quem vivesse de acordo com eles, diziam, sobreviveria entre os bem-aventurados; que se obstinasse, teria um terrível destino depois da morte. Segundo as crenças órficas, a alma encontra-se prisioneira do corpo, como o cadáver numa tumba. Regressa à Terra sob a forma de pessoas ou animais constantemente renovados, até à sua libertação definitiva mediante a negação do corpo, mediante a ascese. De modo que os órficos, que se chamavam a si mesmos «Puros» e praticavam já uma espécie de «indulgências» (formulas mágicas para libertar vivos e mortos das penas do Além) e algo parecido com as missas pelos defuntos, evitavam a carne, os ovos, os legumes e a lã no que vestiam, e não confiavam na sua própria força de vontade, mas na misericórdia e salvação divinas.

Provavelmente o orfismo depende da doutrina - em muitos aspectos análoga - de Pitágoras (580-510 a.C.), o qual, ainda em vida, gozou de uma verdadeira veneração quase divina: curou doenças do corpo e da alma, acalmou uma tempestade, foi insultado e perseguido, desceu aos infernos e ressuscitou finalmente dos mortos, antecipando muitos dos elementos do Novo Testamento. Pitágoras rebaixa a mulher: «Há um princípio bom, que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau, que criou o caos, a escuridão e a mulher.»

A Bíblia e a farsa Monoteísta

A religião antiga de Israel não era ainda o monoteísmo sobrenatural da época post-exílica, mas politeísta e polidemónica, como a de todos os semitas. Também não há provas de que os israelitas acreditassem na ressurreição dos mortos, uma ideia que pode ter aparecido por influência persa; provavelmente, o mais antigo documento que a refere é o chamado Apocalipse de Isaías, em que voltava à vida graças ao nevoeiro, o que recorda certas ideias da religião cananeia da fertilidade.

Aparte Jeová que, aparentemente, foi descoberto por Moisés no culto do seu sogro Jetro, os chamados Patriarcas Abraão, Isaac e Jacob - estimados na tradição cristã como colunas do monoteísmo - veneraram, entre outros, o deus semita El, situado no topo do panteão cananeio, cujo nome significa «O deus verdadeiro» e cujo título, «o touro» expressa a sua irresistível potência, pois seduz as mulheres pelo tamanho do seu membro viril. Na Jerusalém da época pré-davídica é adorado como deus superior; em muitas passagem da parte mais antiga do Antigo testamento, é chamado «O Supremo» o «Criador do Céu e da Terra» (qoneh samayim wa-ares); a amostra mais antiga de fé criacionista na Bíblia! Mais tarde Jeová foi facilmente identificado com El, ainda que então o deus pagão aportou alguns rasgos positivos à imagem israelita de Deus.

Mas o culto do antigo judaísmo não incluía somente a El, deus do grande membro, criador do mundo; também se veneravam as pedras sagradas, uma prática que se estendia por toda a Terra. As pedras sagradas foram associadas com a vida sexual, e durante muito tempo os homens consideravam-nos como seres animados, carregados de poder e portadoras da fertilidade. Os menires, espalhados por vários continentes, frequentemente com forma de falos ou adornados com eles, também têm, pelo menos parcialmente, significado genital.

Especialmente na religião cananeia, as pedras sagradas (do tamanho das actuais tumbas) foram usadas como menires (massebah em hebraico). Se os pilares e colunas de Asera eram signos da deusa mãe da fertilidade, as pedras simbolizavam o deus masculino e talvez houvesse algumas na Arca da Aliança. Em todo o caso, o patriarca Jacob, adormecido,segundo a Bíblia, sobre uma pedra e abençoado logo com quatro mulheres, a quem Deus fez tantas promessas em sonho - e não só a ele, mas também à sua «semente» repetidamente mencionada -, reconhece que aquela pedra é befel, «casa de Deus» (El). «Que santo» exclama o piedoso personagem, «é este lugar; aqui estão verdadeiramente a Casa de Deus e as Portas do Céu» (o que se converteu posteriormente no intróito da liturgia romana do Natal). E levanta a pedra como «sinal» e esfrega-a com azeite. Jacob volta a construir este tipo de símbolos fálicos em duas passagens bíblicas posteriores que nos falam novamente da sua semente, dos seus filhos e dos filhos dos seus filhos, símbolos que adoptarão formas cada vez mais elaboradas e valiosas e, evidentemente, proibidos no Deuteronómio, condenados pelos profetas e destruídos finalmente no ano de 620, no reinado de Josías, juntamente com muitos outros remanescentes do culto pagão. No entanto, ainda hoje existem na Palestina e países vizinhos numerosos menires e os árabes continuam a untar as pedras sagradas com azeite, os primitivos dançam è sua volta com o pénis na mão, acreditando na força geradora, ou esfregam as partes genitais e os peitos, com o fim de conceber um filho ou conservar o leite.

Os israelitas, que eram circuncidados e juravam pelo falo, conheciam, obviamente, o culto fálico. Temos certos menires de aspecto fálico; Isaías menciona a um deus priápico do lar; Ezequiel, imagens masculinas de ouro e prata com as quais se desencadeia a luxúria; em Jeremias, os israelitas dizem da pedra: «tu engendraste-nos»; e no Eclesiastes menciona-se «lançar pedras» junto com «abraçar» com o significado de fazer filhos. O Medievo cristão ainda conhece a pedra genetrix, a pedra materna da procriação,as lapides vivi ou pedra animada, segundo uma inscrição da catedral de Aquisgrano. E Matilde de Magdeburgo, a apaixonada de Cristo, apostrofa instintivamente o seu prometido: «Tu, pedra eminente».

Mas os veneráveis patriarcas não somente renderam culto aos deuses e ao culto fálico. O Antigo Testamento revela também traços do seu culto às árvores. A árvore, eterno símbolo nos mitos dos povos, foi durante muito tempo um símbolo da força vital e das qualidades genitais. Frequentemente foi vista como homem ou mulher, ou até andrógino e lugar de origem dos filhos, como divindade animada. E precisamente na religião de Canaã e na desflorestada Palestina foi o símbolo específico da fertilidade. Os habitantes da antiga Canaã - onde os demónios arbóreos se chamavam el ou elon - edificaram «sob as verdes árvores» a partir de pedras sagradas e postes e também «sob as verdes árvores» celebravam as festas da fertilidade. E assim, o mesmo patriarca Abraão planta um arbusto de tamarisco(em Beer-Seba) e invoca ali o famoso  «an- 'adonai 'el 'olam». (o tolerante patriarca deixa inclusivamente ali abandonada a sua própria esposa no harém de um príncipe).

Mais tarde os sínodos cristãos recearam cada vez mais essa duradoura divinização das árvores. dos tabernáculos, das fontes e das rochas e, como ocorreu em 692, no sínodo de Toledo, castigam por isso os crédulos: «se pessoas eminentes, com três libras de ouro, se pobres, com cem açoites», ou como no sínodo de Paderbom, em 785: »ao nobre com sessenta, ao homem livre com trinta e ao litus quinze solidi. Pode-se não pagar a multa, ficar como servo na igreja até que a soma seja conseguida».

Jeová, que originalmente tinha sido um espírito da natureza, um deus vulcânico, da tempestade ou das tormentas que  não tinha nada de feminino, nem sequer sacerdotisas, com o decorrer do tempo livrou-se de todos os competidores de Israel. Foi o único Deus do Mundo Antigo que se fez adorar sem imagens; todo o entusiasmo religioso de carácter agrário foi considerado demoníaco e a esfera do cosmos, outrora sagrada, foi objecto de uma desmistificação de graves consequências.

Os israelitas, que provavelmente ocuparam algumas partes da Palestina no século XIII a. C. e se misturaram com os hebreus, com os quais eram aparentados mas que estavam ali estabelecidos antes, empreenderam rapidamente guerras de conquista e aniquilação, co Jeová tinha ordenado: «Derrubai os seus altares e destruí os seus ídolos, deitai fogo aos seus bosques e reduzam os seus deuses a escombros». E assim, com a sua benção, e servindo de exemplo para uma longa tradição cristã, houve matanças de moabitas e amonitas, filisteus, madianitas e arameus; foram especialmente frequentes os confrontos com os cananeus - também denominados «amorreus» ou «hititas» pelo Antigo Testamento, que os caracteriza como completamente corrompidos -, aos que se contentaram com impor o exílio ou tributos.

Não obstante, em Canaã, onde os nómadas ou semi-nómadas israelitas entraram em contacto com um antigo universo cultural, com a Grande Mãe, os deuses El e Baal, os acasalamentos sagrados, a prostituição e a desfloração rituais, numa palavra, com uma religião de festas magníficas e estímulos sensuais, chegou-se a assimilações de todos os tipos. Pois se é verdade que estas tinham começado já na época dos Patriarcas,a o princípio só afectaram o culto rústico de Jeová em campo aberto, onde se plantavam - entre libações imoderadas e copulações colectivas sobre a terra - as árvores a Asera, chamadas pelo próprio nome da deusa.


Mas paulatinamente o sincretismo chegou também aos santuários centrais do reino. Assim, Salomão (965-928), além de erigir templos a deuses estrangeiros, dotou o de Jeová - construído segundo modelos fenícios por um arquitecto cananeu - de muitos símbolos do culto da fertilidade (açucenas, leões, touros)... Claro que o coração real, «seduzido» finalmente pela sua mulher estrangeira, «deixou de pertencer por inteiro ao Senhor». E o seu sucessor Jeroboão I (928-907) manteve esta tradição e representou Jeová, nos novos templos a ele dedicados de Betel e Dan, como uma figura invisível sobre um vitelo de ouro (os bezerros de ouro da Bíblia), da mesma forma que os cananeus imaginavam ao seu deus supremo Baal sobre um touro.

Baal foi adorado cada vez mais intensamente, mas também a Grande deusa Mãe, da qual foram encontradas numerosas estátuas na Palestina, a maioria despidas. Mais adiante, o rei Manassés consagrou uam Asera em sua honra no templo de Jerusalém e, em tempos de Jeremias, as mulheres ainda cozinhavam uns bolos para ela. Chegou-se até à prostituição cerimonial. Em Silos os filhos do sacerdote de Jeová dormiam «com mulheres que tinham serviço à entrada do recinto sagrado»; muitos outros «sacrificavam com as hetairas consagradas»; «pai e filho reúnem-se com a prostituta (...), deitam-se sobre os vestidos contratados junto daquele altar». E também Jeremias se lamenta das idas e vindas dos jerosolimitas às kadesh.

Elias (quem fez prender quatrocentos e cinquenta profetas de Baal e os matou) e Eliseu no século IX, Amos, Oseias e Isaias no VIII, não deixam de condenar o culto de diferentes baales e também o de Asera, ainda que muitas vezes nem sequer sabem exatamente que costume religioso é cananeu e qual originalmente israelita. E, definitivamente, a mesma polémica bíblica está cheia de ressonâncias procedentes da herança literária cananeia, pelo qual acaba dependendo, linguisticamente, daquilo que combate.

Jeová ordena ordena uma e outra vez: «Deves destruir os seus altares, desfazer as suas imagens e cortar os seus bosques»;  uma e outra vez proíbe conviver com aqueles que «estendem a prostituição com os seus deuses». Uma e outra vez os profetas disparatam. Oseias - que foi enganado pela própria mulher Gomer (comprada por quinze siclos de prata e uma medida e meia de cevada) durante os ritos de fertilidade cananeus, o que provavelmente o empurrou mais do que outra coisa para a vocação proféetica - ruge, em prosa e em verso, contra o espírito da luxúria, contra «os dias dos baales, quando ela sacrificava e se embelezava com anel e colar e perseguia os seus amantes, esquecendo-se de mim, assim falou Jeová (!)» (O profeta chamou a uma filha concebida com Gomer «Não compadecida» e a um filho «Não do meu povo»). Isaías fala calorosamente do «engendro do adúltero e da prostituta, concebido entre os terebintos, sob qualquer árvore frondosa». «Sobre montanha alta e escarpada preparaste o teu leito (...) estendeste as mantas sobre a cama e vendeste-te aos teus pretendentes preferidos». Ezequiel, com uma força simbólica e metafórica quase inigualável, dá conta de «abominações» cada vez maiores: as filhas de Israel prostituem-se com os assírios, com os babilónios, com os egípcios «cujos membros eram como membros de burros e a sua ejaculação como ejaculação de sementais». E também os filhos de Israel, exclama jeremias, transformaram-se em adúlteros. «Hóspedes de bordéis, converteram-se em sementais bem alimentados e rijos, cada qual relinchando atrás da mulher mais próxima.»

Não se enganava S. Bento quando proibiu aos seus monjes ler o Heptateuco (os cinco livros de Moisés, o livro de Josué e o dos Juizes) em horas noturnas. «Há outros momentos para os ler», opina... com alguma ligeireza.


Deschner, História Sexual do Cristianismo

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Missas negras

Na Idade Média também sobreviveram restos de antigos cultos extáticos e levaram a cabo variadas práticas sexuais, que frequentemente culminavam em desflorações e acasalamentos colectivos, que tinham o coito como meta, «como um sacramento», é significativo o facto de muitas destas cerimónias tivessem lugar entre ruínas de templos pagãos ou outros vestígios da Antiguidade. Sob os alicerces de Notre-Dame de Paris descobriu-se um altar (consagrado a Cernuno, uma divindade cornuda) sobre a qual se celebravam «missas negras». Vale a pena notar que os participantes destas cerimónias também estavam fortemente compenetrados do seu sentido, e tinham tal convicção de que, por estes procedimentos, tinham assegurado a imortalidade, que morriam sem temor nem arrependimento. As jovens elogiavam tais orgias, alimentadas de bases arcaicas e da própria vida, como «a mais nobre das religiões» fonte de indescritiveis deleites e êxtases e «enfrentavam a morte com a mesma tranquila inteireza dos primeiros cristãos». A suposta fórmula de um culto testemunhado na Eslavónia (Croácia) até ao século XII reza: «Hoje queremos alegrar-nos  de que Cristo está vencido».

Continuou havendo cristãos a quem pareciam absurdas as ideias sobre o carácter pecaminoso da sexualidade. Por exemplo, no século XVIII, a jovem abadessa do convento das dominicanas de Santa Catalina de Prato reconheceu durante um processo que «posto que o nosso espírito é livre, só a intenção converte uma acção em maldade. Assim que basta elevar-se espiritualmente até Deus para que nada seja pecado». A jovem equiparava o extase místico à cópula dos amantes e descobria a vida eterna e o paraíso, neste mundo, na «transubstanciação da união do homem e da mulher». Gozamos a Deus através do acto, «por meio da cooperação do homem e da mulher» por meio «do homem em que reconheço a Deus». E concluía: «A actividade a que erradamente chamamos impura é a autêntica pureza; é a pureza que Deus nos ordena e que nós, por sua vontade, devemos praticar; sem ela não há caminho para encontrar a Deus, que é a Verdade».

Mesmo assim, certas correntes secretas da Cabala cultivavam a magia sexual. Jacob Frank (1712-1791), fundador da seita dos zoharistas ou contratalmudistas, não interpreta a chegada do Messias, a Salvação, desde uma perspectiva histórica, mas que recorria a um ponto de vista simbólico e orgiástico-sexual, através do despertar interior de cada ser humano, da comunicação íntima com uma mulher. «Eu digo-vos que todos os judeus estão desgraçados porque esperam a chegada do Salvador e não a chegada da jovem.»

Frank via na jovem «uma porta para Deus».

Sexo Sagrado

Sexo Sagrado

O culto da Grande Mãe e os mistérios da vegetação ligados a ela eram o momento preferido para a celebração de orgias com coitos rituais. Por analogia, em virtude de um acto mágico (que pretendia obter algo em troca e algo igual), a divindade devia fazer-se presente e transmitir a sua força, sobretudo através das mulheres.

Naquele tempo havia o costume generalizado da perda da virgindade antes do casamento, no templo. Nenhuma rapariga podia casar-se sem ter passado antes pelo ritual da defloração. Como representante do deus actuava um homem qualquer, que permanecia no anonimato. Esta circunstância era conhecida tanto na Índia como em algumas tribos negras ou no Médio Oriente. Na zona do templo de Ishtar, em Babilónia, as raparigas esperavam em filas ao longo das ruas, até que um homem lhes atirava umas moedas com as palavras «em honra da deusa», que obrigavam a escolhida a segui-lo e entregar-se. Heródoto, sublinha que «ela tem que ir com o primeiro que lhe deita algo no regaço e não pode rejeitar ninguém. Quando se deita assim com o homem e cumprido o seu dever para com a deusa, volta a casa e nem por muito dinheiro voltaria a fazer o mesmo».

Claro que a isso se prestavam muitas outras. A co-habitação no templo, como segunda forma em importância de relações sexuais sagradas (e sem prejuízo da sempre florescente prostituição profana), foi exercida profissionalmente por muitas mulheres. Sobretudo nas cidades semíticas e da Ásia Menor; segundo Heródoto, em quase todos os povos. As raparigas do templo, denominadas na Babilónia kadistu (sagradas), foram chamadas hieródulas (donzelas sagradas) na Grécia, kadesh (consagradas) em Jerusalém ou devadasis (servidoras da divindade) na Índia. Descritas pelos portugueses como balladeiras ou baiadeiras e difamadas pelos modernos como simples prostitutas, originalmente, longe de serem desprezadas, frequentemente estiveram acima das outras mulheres. Mesmo as filhas dos nobres podiam oferecer-se ritualmente durante longas temporadas sem que ninguém desdenhasse depois casar com elas. Até alguns reis consagravam as suas filhas nos santuários e faziam-nas actuar como meretrizes aquando de grandes festas. As prostitutas do templo serviram como representantes e, de certo modo, como emanações da Grande Mãe e, com a sua entrega, permitiram ao homem alcançar a união mística, a participação no sagrado, a mais íntima, sensível e palpável das comunhões com a divindade.

Da Babilónia - cuja religião, sem fé no além, foi provavelmente a primeira que incorporou as prostitutas sagradas, protegidas pelo Código de Hammurabi, a mais antiga compilação de leis do mundo - o costume passou para a Síria, o país fenício, Canaã, Ásia Menor, Grécia, Pérsia e sul da Índia. Milhares de hieródulas actuavam nos diversos templos; em Comana, a capital da Capadócia, no santuário da deusa Ma (mãe); no Ponto, num templo rodeado pelo rio Iris, situado sobre penhascos e dedicado a Anaitis, uma deusa semítica mesclada com a deusa da fertilidade Ardvisura; no templo de Afrodite em Corinto, a cujas mulheres, famosas pelos seus encantos, Píndaro dedicou uma das suas mais belas odes. E mais de dois mil anos depois um certo Ulrich Megerle de Messkirch (Baden), que adoptou o nome a Abraão a Santa Clara como agostinho descalço, clama contra «as mulheres de Corinto» as «loucas» que, mil vezes por dia, «se oferecem para emparelharem com os sementais fornicadores em honra de Vénus e no seu templo« e que «são tão sem-vergonha» que, para excitar os «velhacos fornicadores, aproximam-se com a cabeça descoberta, o rosto destapado, os olhos abertos, para mostrar a sua formosa figura».

Até no templo de Jeová em Jerusalém existiu durante algum tempo um bordel sagrado, obviamente enérgicamente combatido pelos profetas. A prostituição religiosa também parece ter sido praticada entre os germanos, no culto do deus da fecundidade, Freyr. Na Índia o costume conservou-se nalguns templos do sul até hoje.

Uma terceira forma de antigas relações sexuais rituais era o casamento sagrado (hieras gamos), o mais importante de todos os cultos da Antiguidade. Com ela procurava-se aumentar a potência, a fertilidade e, em geral, o bem estar da comunidade, mediante o juntar ritualmente duas pessoas, em que se acreditava que a deusa estava temporalmente incorporada na mulher eleita; como o Senhor na hóstia, no catolicismo.

Os casamentos sagrados celebravam-se já entre os sumérios; o rei-sacerdote consumava-os com a grande sacerdotisa na festa de ano novo.

As cerimónias do hieras gamos praticaram-se também com animais sacralizados, desde tempos remotos.

Mas, originalmente, os casamentos sagrados eram seguidos de copulações colectivas, como ocorria nas grandes festas da natureza no culto de Ishtar, onde primeiro copulavam o rei e a grande-sacerdotisa diante dos olhos de todo o povo e depois acasalavam os reunidos de forma mais ou menos aleatória. Tal promiscuidade era orgia no sentido original, sacrifício, culto ao deus. O mundo cristão perverteu depois aquele significado convertendo-o em diabólico; a orgia, então o ritual mais sagrado das antigas religiões, transformou-se numa ideia que incluía toda a espécie de intervenções demoníacas, bruxas a voar, missas negras e coisas semelhantes.

No entanto, o sacrum sexuale sobreviveu no próprio cristianismo; continuaram a existir correntes, consideradas heréticas pela Igreja, que veneravam tradições completamente diferentes e também viam Deus actuar na sexualidade, que não aceitavam nem a mania ascética nem el conceito de pecado dos católicos: amalricianos, begardos ou «Irmãos do Espírito Livre».

E na Antiguidade teve lugar em certos círculos de cristão gnósticos, além do ritual místico-simbólico, o ritual real da união erótica. No culto seminal dos fibionistas, os casados, depois do coito, saboreavam o esperma em jeito de comunhão. E os carpocracianos chegaram à comunidade de mulheres através da rejeição do casamento. Clemente de Alexandria, um dos Padres da Igreja, lamentava-se da situação: « Um funesto costume reina entre os carpocracianos, pois sempre que há um banquete, os homens e as mulheres devem excitar os seus apetites, apagar as luzes e acasalar a seu gosto. A isto chamam satisfação do espírito».

Deschner, História Sexual do Cristianismo

Festas Romanas em honra do Falo

Festas Romanas em honra do Falo


Em Roma celebravam-se com pompa as Liberalia, uma antiquíssima festa do deus Liber ou Baco que, pelo menos em Lavinium, durava um mês inteiro e era de completa libertinagem. Durante a mesma, um gigantesco falo percorria a cidade e o campo numa faustosa carroça e as matronas mais importantes decorava, diante de todo o povo, o «membrum inhonestum», como diz Santo Agostinho, com coroas de flores.  Na festa de Vénus, em Agosto, as damas conduziam o amado membro em procissão festiva desde o Quirinal até ao templo de Vénus e depositavam-no no regaço da deusa. O povo romano levava o falo como talismã; e os seus generais vitoriosos levavam-no numa bandeira na frente dos seus carros de triunfo, antes de ser incorporado ao culto imperial.

O símbolo fálico dos Papas




A cruz egípcia com a asa (crux ansata), equivalente à letra T, com uma asa ovalada na parte superior (originalmente o signo hieroglífico «ankh» vida), combinação gráfica dos órgãos genitais masculino e feminino, era um símbolo da vida. Foi Osíris, um deus da vegetação que assegurava a imortalidade, e por outros deuses, e mais tarde (sob o cristianismo, que tudo distorce) foi aceite pelos coptas como signo da força vivificante da cruz de Cristo. Ainda podemos encontrar este símbolo fálico - que desde o século IV é símbolo da dignidade papal e desde o século VI da arcebispal - no palio sobre a casula dos prelados católicos, no qual a entrada do pescoço corresponde à asa da cruz ansata.





Deschner, História Sexual do Cristianismo

Da Deusa Mãe Terra ao Pai Céu

Da Deusa Mãe Terra ao Pai Céu

Na primeira época da cultura agrária, aparecem por todo o lado divindades femininas, adoradas pelo segredo da fertilidade, o ciclo eterno da sucessão e a extinção.

Para adorá-la, os homens erigem templos, representam-na de mil formas, em estátuas monumentais, em pequenos ídolos, majestática, vital, com ancas largas e vulva saliente, ainda que também como uma esbelta vampira, demoníaca, com grandes olhos e olhar enigmático.

Temos testemunho dela como deusa principal cerca de 3200 a.C.. É conhecida já na religião suméria, a mais antiga que conhecemos. A sua imagem encontra-se na arca sagrada de Uruk, cidade da Mesopotâmia cujas origens remontam à pré-história. Adoram-na em Nínive, Babilónia, Assur e Menfis. Podemos descobri-la também na forma da grande deusa indiana Mahadevi; vemo-la em inúmeras matres ou matrae - as deusas dos celtas cobertas de flores, frutos, cornos da abundância ou crianças - e podemos identificá-la no Egipto sob os rasgos de Isis, o modelo da Maria cristã.

O seu aspecto muda: entra em cena uma vezes como mãe ou como «virgem» e «grávida imaculada» ou como deusa de combate, a cavalo e com armas e, claro, sob diferentes formas de animais, por exemplo a figura de um peixe, uma égua ou uma vaca. E os nomes também mudam. Os sumérios chamam-lhe Inanna, os hurritas Sauska, os assírios Militta, os babilónios Ishtar, os sírios Atargatis, os fenícios Astarte; no Antigo testamento denominam-ma de Asera, Anat ou Baalat (a companheira de Baal), os frígios Cibeles, os gregos Gaia, Rhea ou Afrodite, os romanos Magna Mater. Adorada desde a pré-história, a sua imagem é o ídolo mais antigo da humanidade e a característica mais constante dos testemunhos arqueológicos em todo o mundo.

A Grande Mãe, que aparece em montanhas e bosques ou junto de certas fontes, cuja força vital e bendições se sentem de ano para ano, é a guardiã do mundo vegetal, da terra frutífera, o ideal da beleza, do amor sensual, da sexualidade transbordante, senhora também dos animais. Os mais sagrados são para ela as pombas, os peixes e as serpentes: a pomba, é uma antiga imagem da vida, já no Neolítico; o peixe, um típico símbolo do pénis e da fertilidade; e a serpente, mais uma vez pela sua semelhança com o falo, também é um animal sexual, que expressa a regeneração e a força. No Cristianismoa, tão dado a inverter valores, a pomba representa o Espírito Santo, o peixe converter-se-á no símbolo d Eucaristia - a palavra grega «ichthys» forma um anagrama do nome de «Jesus, Filho de Deus, Salvador [Jesus Christos Theou Hyios Soter]. E a serpente personificará o negativo desde o primeiro livro da Bíblia, sendo rebaixada a símbolo do Mal, que deslizará furtivamente pelo chão ou entre as colunas das igrejas medievais.

A Grande Mãe não está somente ligada à Terra, com as forças telúricas. O seu poder estende-se - já entre os Sumérios - «pela ladeira do Céu», é a «Senhora do Céu», deusa da estrela Ishtar, a Estrela da Manhã e do Entardecer, com a qual é identificada cerca de 2000 a.C.; é «Belti», como a designam os Babilónios, literalmente «Nossa Senhora»; é, segundo Apuleio, «senhora e mãe de todas as coisas», a santa, clemente e misericordiosa, a virgem, uma deusa que, sem ficar grávida, dá à luz.


No Neolítico aparece então o deus masculino associado à deusa mãe, o que é um reflexo da nova situação da sociedade agrária e da crescente importância económica do homem, consequência da criação de gado e da agricultura. Pois como tratador do gado e agricultor, o homem adquiriu progressivamente os mesmos direitos da mulher, hortelã e recolectora e, sobretudo, foi considerado cada vez mais como procriador. E é com este novo estatuto do homem que surgem cada vez mais divindades masculinas, a princípio ainda subordinadas às femininas, como filhos ou amantes, mas mais tarde igualando-as e, finalmente, nas culturas patriarcais, serão dominantes. A Grande Deusa Mãe +e destronada e reduzida a divindade subalterna, depois deusa do mundo inferior. Do mesmo modo, a mulher vê o seu papel rebaixado, o seu poder reprodutor diminuído, enquanto o prestígio do homem, do pai, aumenta. Só ao falo se reconhece agora potência e força vital. Assim, Apolo proclama nas Euménides de Esquilo: «A mãe não dá vida ao filho, ela nutre o embrião. A vida é criada pelo pai».

De qualquer maneira, a divindade masculina surge tardiamente na história da religião e obtém a sua dignidade como filho da deusa mãe. O filho da deusa mãe converte-se muitas vezes em seu amante, e assim surge o dualismo característico das culturas arcaicas, o pensamento das polaridades, o mito do casal divino que concebe o mundo: Pai Céu e Mãe Terra, cujo casamento sagrado constitui o centro do culto e da fé.

Deschner, História Sexual do Cristianismo

A Igreja e o Sexo



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Endovélico, deus dos Lusitanos continua a ser adorado

Endovélico, deus dos Lusitanos, continua a ser adorado

Paralelamente aos locais de culto da Deusa-Mãe, facilmente rebap­tizados, tornou-se necessário rebaptizar locais de culto a um Deus mas­culino, de cariz protector, que recebia há milénios profunda devoção. Trata-se do DELIS ENDOVÉLICO que, não só protegia a guiava os seus fiéis lusitanos, como também dava acesso a conhecimentos acer­ca do futuro através da leitura dos oráculos, feita pelos respectivos sa­cerdotes.

A religião cristã evita a representação de Deus Pai em escultura venerável, apresentando a sua figura estritamente em conjunto, na Trindade Pai/Filho/Espírito Santo. No culto ao DEUS ENDOVÉLICO, por altura da ocupação romana, representou-se este deus como uma figura humana, com a cabeça de homem idoso de barbas compridas, bem ao estilo da interpretação de Deus Pai durante a Idade Média. Mas, não se querendo substituir ENDOVÉLICO por Deus Pai, optou­-se pela figura do Arcanjo São Miguel, o qual acabou desta forma por assumir um lugar de grande relevo, não só na antiga Lusitânia, como também em Portugal. Este arcanjo protector a justiceiro acompanhou, quer o renascimento da identidade lusitana no Portugal do século XII, quer a sua expansão pelos confins do mundo. Coube a D. João IV a decisão de o substituir, como padroeiro do reino, por Nossa Senhora da Conceição, que era venerada em Vila Viçosa. Pedindo a pagando ao Papa o reconhecimento desta padroeira, o rei tentou obter disfarçada­mente o reconhecimento politico da Casa de Bragança como nova Casa Reinante de Portugal, acabando assim por destruir um culto ancestral.


O grande historiador a arqueólogo português Professor Leite de Vasconcellos já no século passado se tinha dado conta da frequente "coincidência" do facto de igrejas ou capelas do início da cristianização da Lusitânia, dedicadas ao Arcanjo São Miguel, serem construídas em locais antigamente dedicados ao culto do DEUS ENDOVÉLICO. Pode mesmo afirmar-se, com um certo grau de certeza, que as terras cujos nomes incluem este arcanjo são amigos locais de culto endovélico.

Rainer Daehnhardt, PÁGINAS SECRETAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Religião: Santa Petronilha, a filha de S. Pedro


Religião

Santa Petronilha, a filha de S. Pedro

Os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas mencionam que Sião Pedro era casado quando conheceu a Jesus. Outros escritos referem que Pedro morava na Galileia com a esposa e a sogra.

É também possível que Pedro, quando chegou a Roma, estivesse acompanhado de algum dos seus filhos.

O corpo de santa Petronilha, sepultado em Roma, é venerado como sendo o da filha de S. Pedro.

A festa em honra desta virgem e mártir celebra-se a 31 de Maio.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Lamashtu a Deusa-Demónio

Lamashtu a Deusa-Demónio



Na mitologia mesopotâmica, Lamashtu era um demónio feminino, monstro, deusa maligna ou semideusa que ameaçava as mulheres durante o parto e, se possível, raptava crianças enquanto mamavam. Ela iria roer seus ossos e sugar o seu sangue, além de ser acusada de uma série de outras maldades. Era filha do Deus do Céu, Anu.

Lamashtu é descrita como um híbrido mitológico, com um corpo peludo, cabeça de leoa, com dentes e orelhas de burro, dedos e unhas compridas, e os pés de um pássaro com garras afiadas. Ela é frequentemente mostrada em pé ou ajoelhada sobre um jumento, cuidando de um porco e um cachorro, e segurando cobras. Tem algumas funções e semelhança com o demónio Lilith da Mesopotâmia.



O pai de Lamashtu era o Deus do céu Anu (Sumer An). Ao contrário de muitas outras figuras e representações demoníacas habituais na Mesopotâmia, de Lamashtu foi dito que actuava por maldade e vontade próprias, em vez de seguir as instruções dos deuses. Era uma deusa ou semideusa por direito próprio.

Deu à luz sete sete bruxas. As suas maldades incluíam (mas não estavam limitadas a), matar crianças, gestantes e recém-nascidos, causando danos às mães e gestantes, comer homens e beber o seu sangue, perturbar o sono, trazendo pesadelos, destruindo colheitas, infestando rios e lagos, e ser portadora da doença, e morte.

Pazuzu, um deus ou demónio, era invocado para proteger o parto  contra a malevolência do Lamashtu, geralmente usando-se amuletos e estátuas. Apesar de Pazuzu ser portador da fome e da seca, ele também foi chamado para a protecção contra o mal e contra a praga, mas era considerado mais poderoso e popularmente invocado contra a feroz e maliciosa rival Lamashtu.

terça-feira, 12 de março de 2013

Como surgiu o celibato dos padres


Mas como é que a ideia de celibato dos padres se impõe na Igreja cristã, sendo que a proibição ou estigmatização do sexo vai contra os mais elementares instintos da natureza humana, estando, portanto, condenada ao fracasso?

Muito cedo, nos primeiro evangelhos canónicos, os de Mateus e Lucas, nota-se um apreço especial e destacado pela virgindade - da mãe do Redentor em concreto - movida pelo desejo de exaltar o maravilhoso e extra_humano que tinha sido o processo de encarnação do Salvador. Ora acontece que não era o judaísmo mas a religiosidade do mundo greco-romano quem tinha um apreço especial pela virgindade. As vestais e as sacerdotisas virgens de todo o tipo encontram-se nos santuários pagãos do helenismo e não no mundo judaico. Portanto, essa tendência do primeiros evangelhos corresponde mais ao espírito pagão que ao judaico.

Também ajudou o apreço pela virgindade que muito cedo se entendesse num sentido anti-sexo uma sentença muito obscura, provavelmente metafórica, de Jesus acerta do status especial daqueles que desejassem um acesso preferencial ao reino de Deus: «E alguns fizeram de si mesmos eunucos por amor do reino dos céus» (Mateus 19,12). Desde muito cedo, em meados do século II, que se nota uma exaltação extrema da virgindade de Maria, antes, durante e depois do parto, e uma tendência em ver no texto acima referido a prova de que Jesus também tinha levado uma vida de celibato, virginal e continente.

Desde finais do século III começou a estender-se o costume, contrário a uma carta de Paulo - mas escrita na realidade por um discípulo -, de que o bispo «fosse varão casado uma única vez, que governe bem a sua casa e mantenha submissos os seus filhos» (1 Timóteo 2, 2-4), de que todos os que aspirassem ao episcopado deviam ser não só celibatários nesse momento, mas que nunca tivessem contraído matrimónio. Por isso se elegiam bispos só entre os monges, que faziam votos de castidade absoluta. E aqueles, que pelas suas qualidades especiais fossem escolhidos para bispos enquanto estavam casados, requeria-se deles, desde o momento da ordenação, que se abstivessem de todo o tipo de relações sexuais, mesmo com a sua própria esposa.

Pouco a pouco, a partir do século IV, foi-se postulando que não só os bispos, mas também os sacerdotes e diáconos, fossem sexualmente continentes uma vez designados para esses cargos. Podiam ser eleitos para eles estando casados, mas pedia-se que ajustassem a sua situação à dos bispos. Deviam abster-se completamente do sexo, ainda que não acabar com o seu matrimónio.

Os bispos guardavam, pelo menos exteriormente este preceito canónico, mas não os «presbíteros» ou sacerdotes correntes do clero «secular», não pertencentes a uma ordem religiosa, que continuavam a contrair matrimónio. Apesar disso e teoricamente, durante a época patrística e toda a Idade Média, o direito canónico continuou a exigir aos sacerdotes que - mesmo casados - ao menos se mantivessem continentes e que não mantivessem relações nem sequer com a sua esposa. Portanto, podiam viver com uma mulher, mas sem sexo. Esta lei eclesiástica era válida, tanto para a Igreja ocidental como para a oriental.

Queixas contra os sacerdotes que não seguiam estas prescrições do direito canónico, encontram-se por toda a parte, tanto na legislação dos Concílios, como noutros documentos não exactamente eclesiásticos, como as cartas do imperador Justiniano, que faleceu em 565.

Mas se o clero mas baixo fazia orelhas moucas a estas prescrições, também o mesmo acontecia nas altas esferas da Igreja, papas incluídos.

No que diz respeito aos papas há que dizer que além de serem governados pelas leis da natureza como qualquer mortal, a sua posição de príncipes não só eclesiásticos mas também seculares, as suas abundantes riquezas, a possessão absolutamente hegemónica da religião católica, quase sem oposição, fez com que se portassem como tais e viviam deixando-se levar pelos seus desejos mais primários... e como príncipes tinham meios para satisfazê-los.

De vez em quando, no entanto, a sede de Pedro era ocupada por homens piedosos, normalmente provenientes de mosteiros ou, mais raramente, do meio dos cristãos seculares, que tentavam uma reforma da péssima situação ligada ao sexo. A reforma da péssima situação moral do clero e do papado na Baixa Idade Média teve inicio nos sínodos locais de Metz e de Mogúncia nos finais do século IX. Neles proibiu-se expressamente não só a prática de relações sexuais com as esposas, que já era tradição serem proibidas, mas o próprio matrimónio dos clérigos. Começava a sentir-se a tendência de impor obrigatoriamente o celibato eclesiástico.

Um desses homens piedosos que tinha sido  eleito papa foi um monge prestigioso, de nome Hildebrando, que nem sequer era sacerdote - papa de 1073 a 1085 - e que adoptou o nome de Gregório VII. Entre outras reformas, empreendeu a da situação do clero com a ideia de que a prescrição do celibato absoluto e obrigatório para todos os sacerdotes, tanto seculares como religiosos, seria a solução para a perversão sexual do clero. No Sínodo organizado em Roma no ano de 1075, Gregório destituiu todos os padres casados, mas a sua luta por aplicar o celibato à força, encontrou forte resistência, especialmente na Alemanha, França e Inglaterra.

Apesar desta oposição, em 1123 o primeiro Concílio de Latrão, nos seus cânones 3 e 21, aprovou de maneira definitiva, até hoje, a obrigatoriedade do celibato para todos os membros do clero.

Uns anos mais tarde, em 1139, uns quinhentos bispos reunidos no Segundo Concilio de Latrão, confirmaram esta proibição e acrescentaram penas aos que não se tivessem separados das suas esposas, proibindo, além disso, que os católicos assistissem a missas oficiadas por sacerdotes casados. No Concílio de Trento, em finais do século XVI, no seu cânon 24, declarou que qualquer matrimónio celebrado depois da ordenação sacerdotal é inválido.

Finalmente, em 1917, o Código do Direito Canónico declarou finalmente, de modo explicito, que estar casado era um impedimento absoluto para ser ordenado sacerdote.

Porque odeia o sexo o Cristianismo mais tradicionalista?


Porque odeia o sexo o Cristianismo mais tradicionalista?

Não existe no judaísmo nenhuma rejeição ao sexo.

Também se sabe que o judaísmo pensava e pensa que uma das formas de glorificar a Deus durante o descanso sabático é a prática de sexo dentro do matrimónio precisamente nesse dia e em honra da festa e de Deus, que a estabeleceu.

Sendo esta a mentalidade judaica, é estranho que o cristianismo, herdeiro do judaísmo, tenha tido uma atitude tão adversa em relação ao sexo ao longo da história. E porquê? Por várias razões. Em primeiro lugar, porque o cristianismo não é apenas herdeiro do judaísmo que chamaríamos de «normativo», mas mais de um ramo apocalíptico e ascético dele. Segundo, porque o cristianismo nascente, sobretudo nas igrejas fundadas por Paulo - que depois da catástrofe do ano 70 d.C., com a destruição de Jerusalém e do seu templo e a dispersão do povo judeu pelos romanos - foram a maioria, tem uma grande componente de conceitos gnósticos; e, em terceiro lugar porque, como seita apocalíptica que foi nos seus começos, tinha o cristianismo uma forte consciência do fim eminente do mundo. Tudo isto, bem misturado, relativizava poderosamente o sexo dentro do movimento cristão.

Para quê preocupar-se com o sexo, quando o fim do mundo está ali ao virar da esquina? Qualquer leitor de Paulo, sobretudo da sua Primeira carta aos cristãos de Corinto, observará que esta ideia é determinante para explicar como o Apóstolo não condena o matrimónio, mas o considera como um mal menor, e como defende que a virgindade é um estado muito superior ao do matrimónio.

De seitas semelhantes ao cristianismo primitivo temos como exemplo os Essénios, que como é sabido só tomavam mulher com fins reprodutivos e imaginavam uma Jerusalém ideal, com o seu templo renovado, onde as mulheres não entrariam e as a união sexual dentro do matrimónio devia realizar-se fora das muralhas da cidade sagrada.

Quanto ao gnosticismo, é sabido que não se encontrava ainda totalmente desenvolvido na primeira metade do primeiro século da nossa era, quando vivem Jesus e Paulo, mas não é menos verdade que uma certa «atmosfera gnóstica» era predominante na religiosidade do Mediterrâneo oriental desse tempo. Segundo a gnosis, a melhor parte e a mais autêntica do ser humano é o espírito. Este é como uma centelha divina por procede do Deus transcendente. Essa centelha está prisioneira da matéria, isto é, do corpo do homem e neste mundo material. É lógico que a centelha divina deva retornar ao seu lugar. Este retorno constitui a salvação. A matéria e o espírito, o mundo de cima e o de baixo são inconciliáveis. O que recebe a revelação desde o céu e pretende salvar-se deve recusar e libertar tudo o que é material e corporal por meio da ascetismo. O sexo pertence à matéria, ao mundo de baixo e às trevas; não faz outra coisa que criar prisões carnais, o corpo, onde está acorrentado o espírito. É necessário libertar-se do corpo. Alguns ramos do cristianismo em formação, sobretudo nos séculos II e III, levaram até às últimas consequências estas doutrinas proclamando que o cristão que desejasse alcançar a salvação deveria abster-se totalmente do sexo: o matrimónio fica proscrito.

Tendo o cristianismo estes ingredientes no seu seio, não é de estranhar que, fiel aos seus princípios até hoje, e apesar das profundas mudanças de mentalidade, se observe nele, sobretudo no seu ramo católico mais tradicionalista, uma profunda aversão pelo sexo.


Jesus Cristo era casado


Jesus Cristo era casado

Não existe no judaísmo nenhuma rejeição ao sexo. É conhecido de todos os que estudam o século I da nossa era, como um dos argumentos a favor do estado civil de Jesus como casado é que sendo este «rabino» devia por isso estar unido em matrimónio, pois o judaísmo não podia conceber já no século I da nossa era que um mestre da religião judaica não chegasse ao estado de plenitude do ser humano que é a vida em casal. Deus dispôs finalmente que o homem conseguisse a sua integridade social e psicológica não em solitário, mas em companhia.

Também se sabe que o judaísmo pensava e pensa que uma das formas de glorificar a Deus durante o descanso sabático é a prática de sexo dentro do matrimónio precisamente nesse dia e em honra da festa e de Deus, que a estabeleceu.

Los Papas y el Sexo, Eric Frattini



quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Bíblia sagrada: Não haverá puta entre as filhas de Israel...



A Bíblia sagrada: Não  haverá puta entre as filhas de Israel...

A Biblia sagrada: contendo o Novo e o Velho Testamento João Ferreira de Almeida (ca. 1628-1691) - 1819

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

The Cover of a Breviary between the years 1202 and 1231. Engraved by WC Edwards


The Cover of a Breviary between the years 1202 and 1231. Engraved by WC Edwards

The Cover of a Breviary very richly ornamented and containing fourteen figures. In the centre is the Virgin throned with the infant Jesus on her lap. The other figures are explained by the legend on the border to be the Archangels Michael and Gabriel, the four Evangelists with the heads of their emblematic Animals. St Berthold, St Nicolas, St Oswald and St Martin; and personifications of Virginity and Humility. The flowing pattern is worked in gold wire, the interstices being filled up with enamel. A memorial at the end of the volume appears to fix the date of the transcription between the years 1202 and 1231. Engraved by WC Edwards