Mostrar mensagens com a etiqueta santarém. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta santarém. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de junho de 2011

História: Tomar - Da Ordem do Templo à Ordem de Cristo (II)

História

Tomar

2ª parte

Da Ordem do Templo à Ordem de Cristo

Memória acerca do convento de Cristo em Tomar 

Prósperos e brilhantes continuavam os negocios da Ordern até ao ano 1190; porém no decurso deste uma furiosa borrasca veio perturbar tanta ventura. O Miramolim de Marrocos, Abu Jussof havia falecido em Algeciras das feridas e desgosto da derrota de Santarém em 1184, e deixando o trono e o califado do ocidente a seu filho Jacub lhe legou particularmente o encargo de vingá-lo e aos seus das injurias e malfeitorias dos cristãos. Com efeito, no ano 1190, reinando já em Portugal elrei D. Sancho, veio em pessoa o orgulhoso e irritado Califa, acompanhado de inúmeravel exército, que as memorias do tempo elevam a um número quase prodigioso, e atravessando a Beira assentou seu campo em volta do castelo de Tomar, estendendo-se pelas povoaçôes vizinhas, e por outras como Torres Novas, que nessa ocasião foi assolada. Achando os Freires do Templo determinados a defender-se, ordenou aos seus assaltassem o castelo, que por 6 dias sucessivos foi combatido com a fúria e tenacidade que é de supôr de muçulmanos que acommetiam à vista do que dizíam chefe dos crentes, irritados da pequenês do recinto acometido e do número de seus defensores. Repelidos sempre pelos templários vingavam- se os mouros na povoação da vila em que nãо deixaram pedra sobre pedra; mas desenganados por fim levantaram seus arraiais e deram volta para as suas terras. Este grande sucesso com o livramento prodigioso dos cercados, consta do letreiro que ainda hoje dura insculpido numa lápide do castelo, em que se lê o seguinte traduzido do latim bárbaro daquele tempo: « Nа era 1228 (ano de Cristo 1190) aos 3 dias das nonas de julho veio a Miramolim de Marrocos com 400 homens de cavalo e 500 de pé combater este castelo, e o teve cercado seis dias, destruindo tudo se achava fora de seus muros. E foi Deus servido livrar ao mestre D. Gualdim e aos Freires das mãos de seus inimigos. O rei de Marrocos foi obrigado a retirar-se e a voltar para a sua pátria com inúmerável perda em homens e cavalos.» A tradição porém supre a sucinta notícia do letreiro que nessa ocasião do sítio houvera um conflito tâo aceso junto a uma porta do castelo, que se ficou chamando «porta do sangue» pelo muito que aí derramaram os mouros. Nós procurámos com grande curiosidade esta porta, que será custosa de descubrir sem um guia e prático do local; e tivemos a fortuna de a contemplar por entre uma emaranhada balsa de silvas e arbustos silvestres que a ocultam. Existe ela na extremidade du um caminho coberto que antigamente saía para o lado nascente fronteiro á vila. A dita porta era postigo ou porta falsa destinada a fazerem-se por ela sortidas contra o inimigo; pareceu-nos que desde muitos anos foi tapada de pedra e cal formando hoje parte do muro; porém pela parte interior se contempla ainda muito distintamente o caminho coberto e o âmbito da porta encaixada na raiz da muralha, e o arco da abobeda de cantaria em que no centro se vê entalhada a cruz da Ordern do Templo. De crer é portanto à vista do mau resultado empresa para os mouros, e do azado da porta, que enquanto os inimigos dos cristãos atacavam o castelo pelos outros mais accessíveis, sairiam estes em sortida forte pelo dito caminho cpberto e seu postigo, e fariam grande estrago em seus contrários desprevenidos ou desfavorecidos no ingreme da encosta. É certo que a interpreza do castelo de Tomar se tornou funesta aos mouros, porque a crónica gótica concorda em substância com o letreiro acima, e a história árabe, suposto oculte segundo o costume dos muçulmanos o que lhes é desairoso, apontea contudo a jornada do Miramolim até aos campos de Santarém e a sua voila a Marrocos sem ganhar praça ou castelo em Portugal e apenas rico de despojos e com «13 cativos entre mulheres e crianças»; ostentação digna dos sequazes de Mahomet. Desde então nunca mais о distrito de Tomar foi assoberbado рог invasões muçulmanas; e os templários para acharem inimigos da cruz que combatessem Ihes era forçoso passar as raias de seus dominios e tomar parte nas guerras e expediçôes da Andaluzia e do Algarve, até mesmo ajudando os reis vizinhos da Península, como sucedeu na tomada de Sevilha, e na batalha das Navas de Tolosa. Os reis e os príncipes portugueses trataram sempre a Ordem do Templo com grande veneração e consideração, e não só em vida Ihe fizeram mercês e donativos, mas até nas ultimas disposições testamentárias se lembravam ordinariamente deles com especial deferência, como se pode ver do contexto dos que se acham ñas provas da Hist. Geneal. do P. Souza: «chegando elrei D. Afonso II a precaver que na minoridade possivel de sucessor à corôa fossem os templarios os guardas, depositarios e defensores do reino para lho entregarem depois.»

Assim progrediu e engrossou a Ordem do Templo nos 6 primeiros reinados, quando em tempos d' elrei D. Dinis sobreveio a catastrofe da sua extinção no concílio de Viena no Delfinado no ano 1311, havendo durado quase 214 anos depois da sua instituição. Não é do nosso assunto moralisar sobre a justiça e conveniência deste estrondoso acontecimento, que ainda hoje tem como em suspensão todos os homens pensadores; é certo, contudo, que os templários de Portugal foram achados sem culpa, e elrei D. Dinis, o homem do seu tempo talvez mais capaz de conhecer e venerar a justiça, sujeitando-se como todos os demais príncipes cristãos à medida geral do concílio, fez valer por meio de seus embaixadores ao papa esta circunstância, e respeitar como soberano os direitos da coroa portugueza para não deixar dispor dos bens e casas da Ordem como sucedeu noutras potências. Suspendido assim até certo ponto o golpe transcendente da extinção total da Ordem, o mesmo soberano negociou do papa João XXII, successor de Clemente V, a criação de uma nova Ordem com a mesma nalureza com idêntico destino, com os mesmos domínios, privilégios e isenções, e até com o mesmo hábito dos antigos cavaleiros do Templo, e com o mesmo distintivo da cruz, um pouco mais ornada do que a antecedente na extremidade das hasteas; milicia igualmente religiosa e generosa, destinada a combater infiéis e a defender o reino das invasões maometanas; sujeita ao chefe da igreja na parte religiosa, e obedecendo aos reis portugueses como cidadãos e como cavaleiros, o que foi desde o começo clausula e condição fundamental da sua admissão e estabelecimento. Expediu enfim o papa João XXII, estando em Avinhão, a bula da criação e fundacão da nova milicia da Ordern de Nosso Senhor Jesus Cristo, em 14 de março de 1319, a qual foi aceite por elrei D. Dinis em Santarém, aos 5 de maio do mesmo ano. E para não ficar dúvida alguma de que a nova Ordem era como uma substituição e transformaçao de outra Ordem de cavalaria, destinada aos mesmos fins, lhe nomeou logo Mestre D. Gil Martins, que antes о era de S. Bento de Aviz, por cuja regra e estatutos se ficou governando a Ordem de Cristo enquanto não teve Definições e estatutos próprios.


Do castelo e convento de Tomar pertencentes já á Ordem de Cristo

«Entre as demais causas (diz o papa João XXII na citada bula) e razões que nos foram expostas por parte do mesmo rei D. Dinis por seus procuradores o nobre varão João Lourenço, cavaleiro de Monsarás, e o muito veneravel padre Pedro Peres, conego de Coimbra, foram as graves injúrias e inumeráveis dão-nos, e outros diferentes e enormes males que lhe tinham feito e nâo cessavam de fazer os sarracenos, inimigos perpétuos da fé, assim nos anos passados como até agora; e porque no Algarve que é fronteira dos ditos inimigos, e na praça de Castro Marim e seu fortissimo castelo, se havia de estabelecer uma nova milicia de lidadores de Cristo, com ajuda dos quais e seu propósito se poderia dar remédio de ora avante ás injurias, danos e males em que a fera mão do inimigo se tem empregado há muito tempo, e descobrir-se caminho mais fácil, não sómente para resistir aos rebates dos inimigos, mas ainda para quebrantar e rebater o impelo e acometimentos dos mesmos, e para recuperar outras partes intermédias que estavam ocupadas desde muito tempo por suas enganosas ciladas. Nós, tendo entendidas diligentemente as ditas causas e razões, e discorrendo nelas com atenta consideração por amor da segurança e amparo dos fiéis, e por muitos bens que com о favor de Deus daíi se haviam de seguir, dispozemos de acolher favoravelmente o louvavel intento que nesta parte tinha elrei.»

Atentem reflectidamente os leitores nalgumas das frases deste rescrito, e notem aí apontados os prognósticos dos altos e venturosos destinos da nova milicia de Cristo. Aí se não continham sómente as tarefas, aliás relevantes, de repelir as incursöes barbarescas, e guardar a fronteira de seus ataques e devastações, mas também se antevia a possibilidade de recuperar outras partes ocupadas desde longo tempo pelas ciladas de Mahomet e seus sectarios, e se punha já a mira em outros bens e contingências felizes que daí se haviam de seguir. Admiravel vaticinio, que, em menos de um século, se principiou a verificar na tomada de Ceuta, e em pouco mais desse espaço se executou á letra nos descobrimentos, navegações, e conquistas do nobre Mestre da dita milicia, o infante D. Henrique, e nas demais que se seguiram até o estabelecimento do imperio português no Oriente.

Conforme os votos do soberano português, e os motivos da criação da Ordem de Cristo, se estabeleceu no começo a sede e cabeça dela na praça e castelo de Castro Marim, onde é de supôr que residira o primeiro Mestre dela, D. Gil Martins, com a flor dos cavalleiros aptos para a guerra. No governo desle e de seus sucessores D. João Lourenço, D. Martim Gonçalves Leitão, D. Estevão Gonçalves e D. Rodrigo Annes é provavel que não houvesse alteração nesta disposição, e que о castelo e convento de Cristo estivesse regido por um Comendador mór que era о primeiro em graduação de toda a Ordem depois do Mestre. Em tempos porém d'elrei D. Pedro I, ou fosse que о enfraquecimento dos mouros na Peninsula, limitados ao reino de Granada, e as excursões marítimas dos de Barberia fossem já menos temíveis, ou enfim por outras causas que ignoramos, voltou a residir em Tomar no ano de 1356 o Mestre da Ordem D. Nuno Rodrigues, pessoa de grande consideração e valimento para com o mesmo soberano; e daí em diante até os nossos dias ficou sendo constantemente a mesma casa de Tomar cabeça e baliado de toda a Ordern de Cristo.

Sucedeu a D. Nuno Rodrigues D. Lopo Dias de Sousa, sobrinho da rainha D. Leonor, em tempos d' elrei D. Fernando, o qual governou a Ordern por espaço de 46 anos. No convento e castelo de Tomar se achava ele quando aí passou o infante D. João com a tensão sinistra de matar-lhe a mãe em Coimbra, e daí lhe expediu inútilmente aviso o dito Mestre, como contam nossos chronistas. Aí mesmo residia quando de volta de Abrantes descia para a jornada de Aljubarrota o condestável e logo depois elrei D. Joao I; e com quanto a obscuridade da epoca e os interesses embates dos partidos o contivessem então numa espécie de observação e neutralidade armada, é certo que debatidos, declarados e definidos os direitos nacionais que puseram a coroa na cabeça do ilustre Mestre de Aviz, o mesmo D. Lopo não sómente se decidiu com a Ordern de Cristo a favor da nova dinastia, apesar de ser ele mesmo ramo da antecedente, ligado por interesses de familia à rainha de Castela, mas ajudou grandemente a restauração do reino pondo-se em campo, combatendo o partido castelhano até ficar prisioneiro infeliz tentativa de Torres Novas.

Continua


História: Da origem e fundação do castelo de Tomar pelos Cavaleiros do Templo (I)

História

Tomar

Da origem e fundação do castelo de Tomar pelos Cavaleiros do Templo

1ª Parte

Entre as ordens famosas de cavalaria, que o entusiasmo religioso e guerreiro dos cruzados na Palestina fundaram em Jerusalém por principios do seculo XII se distinguiu em valentía militar, e em dedicação cavaleirosa e devota, a dos templarios. De pequenos princípios com o instituto, ou antes propósito no começo limitado e restricto, de dar escolta e gasalhado aos peregrinos, pouco a pouco estenderam suas tarefas, tomaram- se belicosos, numerosos e fortes; fizeram soar alto na Europa, dominada então dos mesmos principios, a relevância da sua profissão; e passados anos, no concilio de Troyes, em que assistiu S. Bernardo, o zeloso fautor da cruzada, se aprovou a Ordern do Templo no ano de 1128.

A fama da generosa valentía, e da vida regular e monástica destes briosos guerreiros, não podia deixar de encontrar simpatias no nascente Portugal, resgatado havia pouco do jugo sarraceno. De crer é que o próprio conde Henrique, voltando da Síria, desse as primeiras noticias desta nova criação; o certo porém é que já no governo de sua viúva a rainha D. Teresa, se encontram templários estabelecidos no país. Parece que a casa principal da Ordern entäo era em Braga; mas tinham propriedades cm varias outras terras da provincia de Entre Douro e Minho, e a mesma rainha lhes havia doado a vila de Fonte-Arcada de Penafiel no ano de 1126. Depois da aprovação e confirmação da Ordern no ano sobredito de 1128, lá foram os cavaleiros do Templo afrontar os mouros na sua mesma fronteira, e guardar o castello de Soure, que aquela princesa e seu segundo marido D. Fernando da Trava, lhes doaram com o território adjacente em terra deserta na Estremadura para o cultivarem e povoarem; e o principe D. Afonso, que nesse mesmo ano havia tomado o governo a sua mãe, lhes confirmou a dita doaçâo, declarando na mesma carta da concessâo fazer isto «pelo muito amor que tinha aos cavalleiros do Templo, e porque era seu confrade.»

Passaram anos de continuas guerras, que era o emprego anual do infatigável príncipe; conseguirá ele levantar o forte castelo de Leiria, defendiam-lhe os templários a retaguarda deste porto avançado, e daí em uma noite, acompanhado de 150 bravos aventureiros, em que se contavam alguns daqueles, cometeu aquella briosa e admiravel surpresa de Santarém de que se assenhoreou no ano de 1147. Na marcha desta memorável jornada, no meio das profundas e agras meditações que lhe de viam inspirar as dificuldades mesmas da empresa, e os riscos a que se expunha a si e aos outros, fez voto a Deus de dar aos cavaleiros do Templo e á sua Ordern todos os direitos eclesiásticos de Santarém, se fosse feliz na tentativa. Verificou-se ela venturosíssimamente, e os templários em princípio da sua posse entraram de levantar a igreja de Santa Maria da Alcaçova, e a cuidar do seu novo estabelecimento, tanto mais querido quanto es tava nas fronteiras dos inimigos da cruz. Porém este projecto se desvaneceu anos depois; porque restaurada Lisboa, em 1147, o bispo D. Gilberto reclamou a integridade de seus direitos diocesanos, disputou Santarém aos templários, seguiu-se encarniçado litigio que durou muito tempo. Ainda nisto achou o cuidadoso e prudente monarca arbítrio para resalvar os primores da sua palavra real, e concordando os dissidentes substituiu por outra mais ampla a doação controvertida; fez com que os Freires desistissem de Santarém, conservando apenas por memória a igreja de Santiago, e doou- lhes o castelo de Ceras com largo territorio adjacente. Já por este tempo era Mestre do Templo o famoso D. Gualdim, o qual, partindo com os seus Freires ao dito castelo, e achando-o mal colocado para os fins da instituição da Ordem, entrou de levantar outro em Tomar, ponto central e mais acommodado para a povoação e defesa de seus vastos dominios. As circumstâncias do local com efeito demonstram a sabedoria daquela preferência. Uma concha ou enseada abrigada de montes com suficiente capacidade, regada pelas plácidas e cristalinas águas do Nabão, era ali azada para uma boa povoação; um padrasto que ali vizinho, numa das extremidades da concha, se elevava alcantilado, convidava a coroá-lo com forte castelo; e as mesmas tradições religiosas do sitio o faziam venerando, e reclamavam a restauração do culto católico. Fora ali o nascimento e o martírio de Santa Iria; existia o celebrado pego em que seu corpo foi arrojado á corrente; e em Santa Maria dos Olivais existiría talvez ainda algum resto do templo antigo, e do mosteiro de monges beneditinos que o habitaram desde os tempos góticos. D. Gualdim fez reparar a igreja que dedicou para os ofícios religiosos de seus Freires ali conventuais, e edificou para defesa de todos o fortíssimo castelo com suas torres e muralhas, que ainda hoje se observam em pé e quase direitas através de quase 7 seculos, porque nas ameias de seus baluartes estiveram sempre esculpidas ou talhadas as Cruzes vitoriosas de duas ordens venerandas.

Construido o castelo de Tomar e restaurada a igreja de Santa Maria dos Olivais, ali ficou sendo a casa capitular e cabeça da Ordem do Templo, e esta teve no decurso do reinado d'elrei D. Afonso I um incremento e preponderância admirável. Os créditos e serviços dos cavaleiros, e a relevância da pessoa do seu chefe acarretaram-lhe doações, privilégios, e senhorios de castelos, vilas, e territórios que seria longo enumerar. Na província da Estremadura somente teve a Ordem do Templo, até o ano de 1185, em que faleceu aquele soberano, os castellos seguintes e suas dependências: Soure, Ega, Redinha e Pombal, resultado das primitivas doações da rainha D. Teresa e de seu augusto filho, Tomar, Ceras, Zezere e Almourol; de ma neira que aos denodados cavaleiros do Templo, como que estava confiada a guarda e defesa da Estremadura, tendo estes na mão as chaves das duas portas, por onde nela podiam penetrar os mouros: uma sobre o Zezere para os que viessem da Beira baixa, e a do Tejo em Almourol aos que da Andaluzia penetrassem pela provincia do Alentejo. Uma só prova, entre muitas que poderiamos apontar, decide da grande confiança daquele mesmo soberano nos cavaleiros do Templo; e foi ela dada em ocasiäo especial. Havia a fortuna urna só vez voltado as costas ao venturoso monarca: um acidente imprevisto ao saír a porta de Badajoz lhe fez perder urna batalha e a liberdade, ficando prisioneiro de seu sobrinho D. Fernando, rei de Leão; conduzido mal ferido a Avila aí negociou a paz ,e veio pouco depois fazer uso das caldas de Lafões em curativo de sua moléstia, Era este lento e demorado, e picavam ao incansável soberano os cuidados da defesa do Alentejo, e da guerra, que por aquele lado era forçoso sustentar; lembrou-se dos seus valentes templários de Tomar, e chamando о Mestre D. Gualdim encarregou-o e á sua Ordem da defesa daquela provincia, e do proseguimento da guerra, dando e doando desde logo à mesma Ordern a terça parte de tudo quanto se ganhasse e estendesse por aquele lado. Esta notável doaçao foi feita e assinada nas ditas caldas de Lafões em setembro do anno de 1169.

Continua


sexta-feira, 10 de junho de 2011

História de Abrantes (Portugal) e brasão de 1860




História

Abrantes em 1860

A VILA DE ABRANTES

É esta vila de Abrantes uma das mais antigas não só da província da Estremadura, mas de Portugal. Atribui- se a sua fundação aos galos celtas, 308 anos antes do nascimento de Cristo.

Abrantes foi próspera sob o domínio dos romanos, os quais lhe deram o nome de Tubuci, posto que alguns antiquários querem que esta denominação pertencesse à vila de Tancos.

Destruído o império romano pelos povos do norte, em breve estes invadiram a península hispânica (ano de 409) e assim passou Abrantes sucessivamente de uns a outros possuidores.

Durante o governo dos godos, ao que parece, se começou a chamar Aurantes, pela razão do muito oiro que aí se tirava das areias do Tejo.

Invadida novamente a península pelos árabes no século VIII, vencidos a seu turno os godos, e aniquilado o seu poder, ficou Abrantes sob o jugo sarraceno. Os moiros chamaram-lhe Líbia.

No ano de 1148 Abrantes foi conquistada pelas armas cristãs, tendo á sua frente a D. Afonso Henriques, o ilustre fundador da monarquia. Passados trinta e um anos, veio pôr- lhe cerco, com poderoso exército, Aben Jacob, filho do Miramolim de Marrocos. Neste estreito assédio obraram os seus moradores singulares proezas, até que tiveram a fortuna de ver o inimigo desbaratado e desalentado, levantar seus arraiais e recolher-se ás suas terras. Em remuneração deste feito concedeu-Ihe D. Afonso Henriques muitos privilégios.

Com a expulsão dos moiros perdeu logo o nome que estes lhe tinham dado, pois que os portugueses começaram a chamar-lhe Avrantes, corrupção do de Aurantes. Aquele também com o tempo se corrompeu no de Abrantes que actualmente tem.

Querem alguns autores, que em uma reunião de cortes a que concorreram os procuradores desta vila, se travara entre estes e os de Torres Novas uma acalorada disputa sobre a precedência de usarem da palavra, e que el rei decidindo a questão em favor dos primeiros, lhe dissera: Hablad antes (falai antes), de onde se originou a vila o nome de Abladantes, corrupto depois em Abrantes. Na historia dos godos vem denominada Ablantes. Contudo a primeira etimologia parece-nos a mais verdadeira.

Está situada a vila de Abrantes na margem direita do Tejo, em lugar elevado, o que lhe dá a vantagem de desfrutar deliciosas vistas do rio, e dos aprazíveis campos e montes que a rodeiam, onde se vêem muitas hortas e pomares.

No seu princípio, Abrantes constava unicamente de duas grandes ruas, chamadas a rua Nova e a do Castelo, que corriam junto desta fortaleza, que lhe ficava a cavaleiro. Depois arruinaram-se aquelas e foi-se estendendo a vila pelo dorso do monte até um sitio cheio de salgueirais, dos quais ainda conserva a memória em nome da fonte do Salgueiro. A sua população anda actualmente por umas cinco mil almas. Dista cinco léguas de Tomar e vinte e três de Lisboa- Deu-lhe foral el rei D. Afonso Henriques em 1179, o qual foi reformado por el rei D. Manuel em 1510. Nas antigas cortes tinham assento os seus procuradores no banco nono.

Abrantes tem quatro paroquias: S. Vicente, S. João Baptista, Santa Maria do Castelo e S. Pedro; casa da Misericórdia e hospital, varias ermidas, dois conventos de freiras e dois das extintas ordens religiosas. A igreja de S. Vicente é o seu principal templo, tanto pela sua antiguidade como pela grandeza e magnificência da sua fábrica. A sua primeira fundação é muito anterior á monarquia. Tinha por orago a Nossa Senhora da Conceição, quando o primeiro alcaide mor do castelo de Abrantes, tendo assistido em Lisboa á trasladação do corpo de S. Vicente, e obtido de el rei D. Afonso Henriques um dente daquelle mártir, levou-o e depositou-o naquele templo, que desde então se intitulou de S. Vicente. No século XVI achando-se muito arruinado, foi completamente reedificado por ordem de el rei D. Sebastião, conservando-se só da antiga fabrica, para memória, a capela que passou a intitular-se de Nossa Senhora da Conceição. Concluiu-se no ano de 1590.

A igreja de Santa Maria do Castelo é de muita antiguidade e duvidosa origem. É pequena e tem tido diversas reedificações, porém encerra muitos objectos de arte e memórias históricas nos túmulos da família dos marqueses de Abrantes, que aí têm o seu jazigo. O mausoleo de Diogo Fernandes d' Almeida, vedor da fazenda dos Reis D. Duarte e D. Afonso V, falecido em 1450, e o de D. António d' Almada, que morreu em 1556, são de muita beleza e primor artístico.

O mosteiro de Nossa Senhora da Graça de religiosas dominicas, teve princípio no ano de 1384. Fundou-o D. Vasco de Lamego, bispo da Guarda, e foi habitado por conegas regulares de Santo Agostinho; e no ano de 1548, tendo passado as freiras sete anos antes á observância da regra de S. Domingos, se mudaram para o novo convento construído no Rossio.

O outro convento de Abrantes é de freiras franciscanas, e da invocação de Nossa Senhora da Esperança. Este foi modernamente suprimido.

O extinto convento de frades de S. Domingos, que se intitulava de Nossa Senhora da Consolação, foi obra de el rei D. Manuel, que o acabou em 1517.

O de Santo António de piedosos, foi edificado por D. Lopo de Almeida em 1526.

Sobranceiro á vila de Abrantes, como dissemos, fica o seu antigo castelo, e aí também um bom palácio dos marqueses de Abrantes, seus alcaides mores.

É esta vila de Abrantes praça de guerra desde o tempo da regência do príncipe D. Pedro, depois rei, segundo do nome, que mandou fazer as fortificações modernas, a que posteriormente se acrescentaram algumas obras. Padeceu muito na guerra da restauração contra Castela, e na invasão dos franceses em 1807 teve de franquear as suas portas ao marechal Junot, na sua marcha sobre Lisboa.

Abrantes tem algumas boas ruas e uma grande praça, que é a principal, onde se ergue a casa da câmara edifício espaçoso e regular construido no século passado.

A feira anual de Abrantes, a 24 de Fevereiro, é muito concorrida. Finalmente Abrantes faz um grande comércio com Lisboa por meio do Tejo, e tem por armas quatro flores de liz, e quatro corvos, com uma estrela no meio em campo azul. Vêm-lhe as flores de liz do seu primeiro alcaide mor que teve parte na conquista de Lisboa, e parece era do origem francesa. Os corvos se lhe juntaram em honra e memória de S. Vicente, por causa da relíquia que lhe foi levada. A estrela, dizem uns que é em sinal de ter sido terra de moiros, e outros em comemoração de ter tido por orago da sua mais antiga paroquia a Nossa Senhora da Conceição.

Residiram por vezes nesta vila el rei D. Manuel e a rainha D. Maria, sua segunda mulher, que nela deu á luz os infantes D. Luís e D. Fernando. Este último, que foi casado com D. Guiomar Coutinho, essa rica herdeira, filha do conde de Marialva, cujos amores com o marquês de Torres Novas, filho de D. Jorge, duque de Coimbra, formam o mais singular e complicado romance da história portuguesa, habitou também nesta vila, numas casas que no século passado pertenciam ao morgado Manuel Soares Galhardo Themudo Caldeira.

***

Source


Pelos Censos 2011 Abrantes tem 39 362 habitantes


Abrantes é uma cidade do distrito de Santarém.




segunda-feira, 6 de junho de 2011

Portugal - Eleições 2011 - Resultados Santarém


Resultado das Eleições para a Assembleia da República de 5 de Junho de 2011 - Santarém

PSD - 37,72%, 5 deputados (Em 2009: 26,97%, 3 deputados)
Deputados eleitos pelo PSD em Santarém: Miguel Relvas, Vasco da Cunha, Carina João, Duarte Marques, Nuno Rafael Serra

PS - 25,85%, 3 deputados (Em 2009: 33,7%, 4 deputados)
Deputados eleitos pelo PS em Santarém: António Serrano, Idália de Menezes Moniz, João S. Galamba

CDS/PP - 12,3%, 1 deputado (Em 2009: 11,22%, 1 deputado)
Deputado eleito pelo CDS/PP em Santarém: Filipe Lobo d'Ávila

CDU - 9,02%, 1 deputado (Em 2009: 9,26%, 1 deputado)
Deputado eleito pela CDU em Santarém: António Filipe Rodrigues

BE perde deputado eleito em 2009

sábado, 19 de fevereiro de 2011

História: Igreja de Santa Maria dos Olivais em Tomar, imagem de 1848




História

Viagem ao passado de Tomar

Igreja de Santa Maria dos Olivais em 1848

Numa bella planície a três legoas das margens do Tejo, está edificada a formosa (Tomar) povoação deste nome. O mestre dos templários D. Gualdim Paes, seu fundador, lhe deu foral por três vezes. pelo annos de 1147, 1162 e 1174.

Uma antiga inscripção que existe perto das escadas que sobem para o adro do convento da ordem de Christo, e se acha repetida em varios outros logares, segundo é tradição, data a fundação da villa (Tomar) do anno de Christo de 1162. Entretanto não vale a pena referir todos os argumentos que se apresentaram em favor de ua e outra opinião.

No senhorio de Tomar continuaram os mestres do Templo, até á extincção desta cavallaria (1312), passando ao dos mestres de Christo, ordem instituída por D Diniz em substituição daquella, e para a qual fez passar todos os bens que lhe pertenciam.

É Tomar terra bem povoada de monumentos de arte christã, cuja descripção nos mereceria mais larga esiriptura, se nos não fallecèra espaço e os elementos indispensáveis para a fazer, com proveito commm; contentàmo-nos com enumera-los O famoso convento da ordem de Christo, bella amostra de architectura digamos assim, nacional, e a sua veneranda egreja, debaixo da invocação de Santa Maria do Olival; a egreja de S. João Baptista; as duas pontes lançadas sobre o Nabão, e muitos outros edifícios e construccões de bôa architectura.




A torre que existe no estado que a estampa representa, em frente da egreja matriz, pertencia á antiga cerca, e pela airosa construcção della se conhece que alli andaram as mesmas mãos, que cobriram esta boa terra de tão primorosos monumentos, que são outros tantos pregoeiros da glória e do nome portuguez.

Tomar é uma cidade em que abunda tudo quanto é mais necessário á vida. e o seu concelho é rico de producções agrícolas de toda a espécie. Contam-se em todo elle, aproximamente 4,500 fogos. 

Ainda existe quasi toda a cinta de muralhas que torneava a povoação; estes muros, hoje em estado de grande deterioração, que presencearam tão rijo pelejar, tão porfiados combates, presidem agora somente aos seus bellos campos, graciosas veigas, e lindos pontos de vista, dando á povoação o caracter grave e solemne de velho cavalleiro que, quebrado de forças, repousa na primeira pedra que Deos lhe depara, e depois, sôfrego e saudoso, contempla a terra que viu as suas gentilezas e os seus triumphos!

Mais sobre Tomar em Antikuces

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

História: Santarém em 1755



História

Santarém em 1755

Comarca de Santarém 


Em eminente sítio, entre deliciosas campinas, que fertiliza o celebrado Tejo, assenta a nobilíssima Villa de Santarém, quatorze legoas distante de Lisboa, há latitude de trinta e nove gr. e dezanove min. e na longitude de nove gr. e cincoenta minutos. A sua fundação (Santarém) se attribue a Abidis XXIV, Rei de Hespanha, 1100 anos antes da vinda de Cristo. Os Romanos a enobreceram (Santarém) fazendo-a Convento jurídico, ou lugar de residência de uma das três Relações, que tinham na Lusitânia para a administração da justiça, impondo-lhe o nome de Esca Abidis; os Mouros lho chamaram Calibicastro, e conservou este nome até o reinado de Recesvinto, Rei Godo pelos anos de 653, que se começou a chamar Santarém, pelo milagre de aparecer o corpo dn Santa Eiria no meio das águas do Tejo. 

Aos Árabes a conquistou (Santarém) ElRey D. Afonso Henriques em 21 de Abril de 1093, mas caindo segunda vez nas mãos dos infiéis a tomou (Santarém) por interpreza ElRey D. Afonso Henriques em 15 de Março do 1147, dando-lhe foral com grandes privilégios, que depois confirmou ElRey D. Afonso III. Nela esteve a segunda Relação (Santarém) e Casa do cível deste Reino, até que no reinado de D. João I se trasladou para Lisboa e no tempo de Filipe Prudente para a Cidade do Porto. 

(Santarém) Tem voto em Cortes com assento no banco primeiro, e nela as celebraram os Reis D. João I, D. Duarte e D. João II. Os seus moradores se dividem em treze Freguesias (Santarém) a saber: Nossa Senhora das Maravilhas, S. Salvador, S. Nicolau, S. Estêvão, S. Julião, S. Lourenço, S. Martinho, S. João de Alfange, S. Eiria, S. Cruz, Santiago, S. Mateus, e a Real Colegiada de S, Maria de Alcáçova, que consta de vinte prebendas, que se repartem em três Dignidades, dezassete Cónegos, quatro meyos Cónegos e hum Prior do habito de Avis, Sacristão, que administra os Sacramentos aos Fregueses. As dignidades são Chantre, Mestre Escola e Tesoureiro mor.

Ennobreçe esta Vila (Santarém) com treze Conventos de diferentes Religiões, a saber: o dos Padres Eremitas de S. Agostinho, fundado em 1376. N. Senhora de Jesus de Religiosos Terceiros de S. Francisco, fundado em 1617. O Convento das Donas Religiosas Dominicas em 1240. O Colégio (Santarém) dos Padres da Companhia de Jesus. O Convento de Religiosos da Santíssima Trindade em 1218. O de S. Francisco da Observância em 1263. O dos Arrabidos em 1589. O de Carmelitas descalços em 1647. O Mosteiro de S. Bento em 1571. O de S. Domingos fundado por EIRey D. Sancho II. Neste Convento (Santarém) se guarda a beatilha ensopada em sangue  que corre da sagrada partícula a que chamam o Santo Milagre. O de Religiosos descalços de Santo Agostinho. O de Santa Catarina. Colégio (Santarém) dos Padres Terceiros de S. Francisco fundado em 1470. Tem mais três Hospícios de Religiosos Arrabidos, Antoninhos e Terceiros de S. Francisco, casa de Misericórdia (Santarém) com três Hospitais (Santarém), e neles muitas Mercieiras, e outras fundações de muita piedade.

Para o governo desta Vila assistem nela hum Juiz do Tombo, que é Desembargador, Corregedor, Provedor, Juiz de fora do cível e crime, Juiz dos órfãos, Vereadores, Procurador do Concelho, Escrivão da Câmara (Santarém), Juiz do Povo, Mesteres, e Casa de vinte e quatro. Alistam-se nela doze Companhia de Ordenanças, e em todos os tempos foi esta Vila exemplo de fidelidade para com os seus Príncipes. Casas de Religião que há nesta Comarca:

O Convento de Arrabidos dos de Vale de Figueira.

O Convento de Religiosas Bernardas de Almoster fundado em 1299.

Santo Onofre de Religiosos Franciscanos da Golegã.

Nossa Senhora das Virtudes de Relígiosos Franciscanos de Aveiras.

São Francisco Convento de Religiosos Terceiros da Vila da Erra fundado em 1582.

Nossa Senhora da Serra Convento de Padres Dominicos de Almeirim.

São Gregório Convento de Carmelitas calçados de Torres Novas fundado em 1558.

S. Santo António Convento de Arrabidos da mesma Vila de Torres Novas fundado em 1561.

O Espírito Santo Convento de Terceiras de São Francisco de Torres novas 1536.




 

Descripçam corografica do reyno de Portugal, 1755

História da Comarca de Ourém em 1755

 



História

Ourém em 1755

Comarca de Ourém 

Em trinta e nove gr. e quarenta e três min. de latitude e nove e ciocoenta min. de longitude, está situada a Villa de Ourem, vinte e duas léguas distante de Lisboa, a qual mandou povoar (Ourém) ElRey D, Afonso Henriques pelos annos de 1148. Se a deo á Infanta D. Teresa, sua filha, e por isso he a primeira terra (Ourém) de infantado que houve no Reyno. Está em sitio eminente por serem mais convenientes à fortificação daqueles tempos os sitios de aspera e dificl subida.

EIRey D Pedro II lhe reformou o foral em Lisboa pelos annos de 1695, (Ourém) tem voto em Cortes com assento no banco quatorze, e casa de Misericórdia (Ourém) com Hospital, e estra muros o Convento de S. António de Capuchos da Provicia da Soledade fundado em 1602.

A Matriz desta Villa (Ourém) he insigne Collegiada, que fundou o Senhor D. Afonso, Conde de Ourem, Marquês de Valença, filho primogénito de I Duque de Bragança, com invocação de nossa Senhora da Misericordia no Pontificado de Eugenio V, reinando em Portugal o Senhor Rey D. Afonso V. Consta a Colllegiada de Prior, Chantre, Thesoureiro mór ,e de dez Cónegos, todos da apresentação da Serenissima Casa de Brngança. O Prior tem mais de três cruzados, o Chantre dous mil, o Thesoureiro mor mil e quinhentos, os Cónegos cada um quatrocentos mil réis. O termo desta Villa (Ourém) he muito fértil e povoado, pois só em quatro Parochias se contam cento e cincoenta lugares, com mais de tres mil pessoas mayores. Consta a Comarca de dezoito Freguezias com perto de três mil fogos e dezoito mil almas, e de sete Villas, das quaes Porto de Mós tem voto em Cortes com assento no banco dezasete, e o Convento de Bom Jesus de Recolletos de S. Agostinho, extra muros de Porto de Mós.


Descripçam corografica do reyno de Portugal, 1755

sábado, 12 de fevereiro de 2011

História: Tomar em 1755




História

Tomar em 1755

Comarca de Thomar 

Esta notável Villa (Tomar) teve antigamente outro assento não longe do que agora tem, e outro nome, porque foi conhecida com o de Nabancia, situada da outra parte do rio Nabão, para o Oriente. A primeira memoria, que se acha della (Tomar), é pelos anos 653 de Christo, em  que padeceo nella (Tomar) glorioso martyrio a bem aventurada S. Eiria, em cujo tempo dominava um régulo chamado Castinaldo com subordinação aos Reys Godos, que possuiram todas as Hespanhas. Na invasão dos Mouros foy destruida Nabancia, e permaneceo deserta até que o anno de 1159 ElRey Dom Afonso Henriques fez doação daquella terra aos Templários, os quaes a povoaram no lugar que hoje occupa, a saber, em trinta e nove gr. e quarenta minutos de latitude e dez e cinco minutos de longitude, vinte e duas legoas distante de Lisboa.

Tem duas Igrejas Parochiaes ambas collegiadas. Na primeira que era Convento de Relígiosos de S. Bento, quando Santa Eiria alcançou o martyrio, e tem por orago N. Senhora da Assumpção; jazem (Tomar) sepultados todos os Mestres dos Templários (Tomar) desde D. Gualdim, que foy o primeiro em Portugal, até D. Lourenço Martins, em cujo tempo pelos annos de 1308, foy extinga esta Milícia, presidindo na Igreja de Deos o Papa Clemente V.

A segunda Freguesia he da invocação de S. João Bautista, em cujo districto está o Convento de Franciscanos Obsevantes da Província de Portugal, fundado em 1635. Tem mais hum Convento de Religiosas Franciscanas que tem por orago a S. Eiria, fundado em 1476, e outro de Capuchos da Província da Piedade, casa de Misericordía (Tomar) e Hospital (Tomar), e outros muitos edifícios particulares que ennobrecem esta Villa e os seus moradores.

Na parte mais eminente della (Tomar), da banda do Occaso está o famoso Convento cabeça, e baliado da Ordem de Cristo (Tomar), cuja maravilhosa fabrica em grandeza, custo e architectura mostra bem que foy empenho dos Senhores Reys D. Manoel, D João o III, D. Sebastião, e de dous Filipes. Todos os Monarchas dotarão de tantas rendas, privilegios, izençoens, e mercês, que he das cousas grandes, que ha no Reyno, e em toda a Chistandade. Antigamente tinha Freires Clerigos, mas ElRey D. João o III, o reduziu a Ordem regular, em que hoje se conserva. O seu Prelado tem o título de D. Prior de Thomar, e Geral da Ordem de Chrísto, do Conselho de S. Magestade, e nas Cortes tem assento com os Prelados do Reyno.

A fabrica material he de tanta capacidade, que pode hospedar dous Reys com toda a sua comitiva, sem que grandes hospedes incommodem os Religiosos do Convento. Nelle celebrarão Capitulo geral e Cortes os Reys João III, D. Felippe II e III, e ElRey D. Sebastião. Os D. Priores presidem nos Capítulos geraes, quando não assiste EIRey como Grão Mestre, e quando elle está presente occupa o primeiro lugar á mão direita. Tem tido vinte e quatro Prelados illustres em santidade e letras.

A Ordem de Cristo teve principio na extinção da dos Templários (Tomar) e dos bens que ficaram delles, impetrou ElRey D. Dinis Bullas de confirmação da Ordem que instituia de nosso Senhor Jesus Cristo, o que com efteito concedeo o Papa João XXII em quatorze de Março de 1319. O primeiro Mestre que teve, se chamou D Gil Martins, que no seu Convento de Tomar sem pompa alguma no sepulcro pelo ordenar assim no seu testamento. Esta esclarecida Milicia he hoje das mais ricas que tem a Christandade; passam de quinhentas as Commendas, e Alcaidarias móres, que se dão com seu habito não havendo casa illustre no Reyno que se não distinga com esta preciosa insignia. As rendas chegam a quatrocentos mil cruzados, e por este computo se pode ver quanto excede ás outras Ordens Militares que ha dentro das Hespanhas, e que não ha muitas nos Reynos estranhos que possam entrar á comparação com esta illustrissíma e poderosa Milicia, de quem Sua Magestade por Bullas Apostolicas he perpetuo Grão Mestre e Administrador, e nesta qualidade governa o espiritual desta Comarca por hum Ecclesiastico que toma a titulo de Prelado da jurisdicção quasi Episcopal da notável Villa de Tomar, e de todos os vassallos e terras adherentes da Ordem Militar de nosso Senhor Jessu Christo.

O governo civil da Villa (Tomar) corre por conta de hum Ouvidor que entra em correição em quarenta e oito Villas, de que se compoem o Mestrado. O termo delle, e da Villa (Tomar) capital he fertilissimo de frutas, vinhos, azeite, pão, caças e peixe, que lhe vem do Tejo, do Zezere, e do mar Oceano, de que resulta ser muito povoado, pois passam de duzentos os lugares, de que se compoem as onze Freguezias, se contam no termo de Thomar, com oito mil seiscentos e quarenta e três pessoas mayores, todos ricos a beneficio da cultura da pingue terra, que habitam e fabricam. Na Comarca (Tomar) se contam secenta e oito Freguesias (Tomar), vinte mil fogos, setenta mil almas, vinte e seis Villas, das quaes Abrantes tem voto em Cortes com assento no banco nono e os Conventos seguintes:

S. Cita Convento de Recolletos Franciscanos termo de Tomar.

Nossa Senhora do Loreto Convento de Capuchos Franciscanos da Província de S. António no termo de Payo de Pelle.

Nossa Senhora da Consolação Convento de Religisos Dominicos de Abrantes fundado em 1472.

S. António Convento de Capuchos Piedosos da mesma Villa (Abrantes) fundado em 1526

Nossa Senhora da Graça de Religiosas Dominica da mesma Villa (Abrantes) fundado era 1384

Nossa Senhora da Esperança de Freiras Franciscanas da mesma Villa.

Nossa Senhora da Luz Convento de Domínicos no termo do Pedrógão grande.

O Convento de Carmelitas descalços de Figueiró dos Vinhos.

Nossa Senhora da Confolação de Religiosas de S. Francisco da mesma Villa (Figueiró dos Vinhos) fundado em 1549.

Nossa Senhora da Charidade Convento de Franciscanos da Provincia da Piedade do Sardoal.

Mais sobre Tomar em Antikuces



 

Descripçam corografica do reyno de Portugal, 1755

domingo, 30 de janeiro de 2011

História: Lenda do Castelo de Almourol (Vila Nova da Barquinha)

História


Almourol 
Vila Nova da Barquinha

Quero contar-vos a historia 
Do castello do Almourol, 
Vê-se de Tancos na frente 
Ao descobrir do arrebol. 
Bate nas velhas muralhas 
D'aurora o primeiro sol 
Senta se no meio do Tejo 
Como se fosse um pharol 

F. GOMES DE BRITO 

A Lenda do Castelo de Almourol

Diz a tradição que D. Ramiro, senhor do castelo, partiu d'alli a combater africanos, apesar dos rogos de sua esposa e de sua filha, ambas lindas como os amores.

Que depois de cometer mil atrocidades, e cheio de orgulho pelas suas façanhas, regressava ao seu castelo, quando um dia se perdeu no meio d'um bosque, aonde encontrou duas mouras, mãe e filha, tão belas e formosas como a esposa e filha, que havia deixado em seu castelo.

A filha trazia uma bilha com agua, e como D. Ramiro estava devorado com sede, dirigiu se ás mouras, exigindo-lhe a entrega da agua para ele beber; mas fez isto por tal forma, que a rapariga assustada deixou cair a bilha, que se quebrou.

Furioso D. Ramiro, enristou com a lança ao peito da jovem, e depois de a atravessar com uma lançada, fez o mesmo á mãe, que morreu amaldiçoando o cavaleiro.

Neste momento aparecia um jovem filho e irmão das mouras, e o cavaleiro trouxe-o cativo para o seu castelo.

O mouro tinha apenas 11 anos, mas jurou vingar a morte dos seus, e quando chegou ao castelo e viu a mulher e filha de D. Ramiro, decidiu logo que seriam elas as vitimas imoladas á sua vingança.

Correram os anos, e a esposa de D. Ramiro, um dia, morreu definhada, sem se lhe conhecer a causa, porque o mouro lhe havia aplicado um veneno subtil.

Desgostoso D. Ramiro partiu a commetter novas crueldades, e deixou o mouro em companhia de sua filha.

Amaram-se os dois, e este amor foi uma luta terrível para o mancebo, que se recordava do seu juramento de vingança, mas a força d' aquele fazia esquecer esta.

Um dia chegou D. Ramiro ao castelo, acompanhado por um cavaleiro a quem destinava а mão de sua filha, o que foi um raio que veio ferir os dois amantes.

Furioso o mouro contou tudo a Beatriz, as crueldades de seu pai os protestos de vingança, a morte da mãe, e a luta que havia entre o amor que lhe tinha, e o desejo de vingança.


O que se seguiu a esta confissão não se sabe; o que é certo porém é que o mouro e Beatriz desapareceram sem haver mais novas d'elles, e que D. Ramiro morreu com desgostos, e o castelo abandonado foi caindo em ruínas.

Diz mais a tradição; que em noite de S. João aparecem numa das torres do castelo o mouro abraçado com Beatriz, D. Ramiro rojando-se aos pés do mouro, a mulher junto a ele respondendo - perdão, sempre que o mouro diz - maldição.

Algum viajante que ali passar em noite de S. João, procure, se quiser, verificar se a tradição é exacta; mas em quanto o não conseguir, aproveite sempre qualquer ocasião que tenha para gozar o magnifico e variado panorama, que apresenta o castelo situado no centro do Tejo, espectáculo que gozará com prazer, se tomar lugar do lado direito da carruagem, seguindo esta da Barquinha para a Praia.


***


O Castelo de Almourol, localiza-se na Freguesia de Praia do Ribatejo, Concelho de Vila Nova da Barquinha, Distrito de Santarém.




quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

História: Acampamento militar de Tancos concluído


Publipt! Clique Aqui!




História

Acampamento militar de Tancos concluído


Concluídos os trabalhos do acampamento em Tancos, parte da guarnição de Lisboa e alguns corpos da província marcharam já para aquelle campo, onde, reunida em breve toda a força de artílheriam cavallaria, caçadores e infanteria, começarão as grandes manobras e exercícios.

O acampamento está bem disposto, e, embora não se encontrem n'elle bastantes commodidades, o que não era possível por muitas circunstancias, o soldado não se mostra descontente de estar lá, e crê que a instrucção que adquirir ha de ser util ao exercito.

Os trabalhos do abarracamento foram habilmente dirigidos. O campo offerece bello aspecto, e está bem situado. O terreno não é barrento, o que em occasiao de chuvas evita os lamaçaes que incommodariam o soldado e o impossibilitariam de entregar-se desembaraçado aos diversos exercícios para que alli o levaram. As barracas reaes, situadas em eminência, estão arranjadas com gosto e elegância. Quando sua magestade fôr alli, dentro ou junto das suas barracas, parecerá, em occasiao dc manobras, que preside a ellas.

A força que este anno se reúne em Tancos não excederá, talvez, a 10 000 homens. Os exercícios militares devem durar pouco mais de um mez.

A imprensa, em geral, tem-se occupado da conveniência ou inconveniência da organisaçao do campo de Tancos, mas algumas folhas, adversas ao governo, tratam o assumpto com parcialidade e exaggeraçao notáveis fazendo apreciações nada conformes á justiça.



ANNUARIO DO ARCHIVO PITTORESCO PUBLICAÇÃO MENSAL Nº 34, outubro 1866

Publipt - Publicidade na Internet

História: Arranca campo de manobras de Tancos


Publipt! Clique Aqui!




História

Arranca campo de manobras de Tancos

Trato-se definitivamente da organisação do campo de manobras na charneca de Tancos. Mais de mil e duzentos homens se occupam em aplanar o terreno, construir as barracas e canalisar a agua para o abastecimento do campo. Apesar da actividade que se tem dado ás obras, não se poderá concluir para o praso indicado, que eram os primeiros dias do mez corrente; mas julga-se provavel que o principio da instrucção do corpo de exercito que vae marchar para Tancos, não vá muito além da primeira quinzena.

Os corpos que já começaram a fazer o serviço da guarnição da capital em ordem de marcha, estão promptos para marchar ao primeiro aviso. A força reunida no campo eleva-se a dez mil
homens de todas as armas. No dia do anniversario do principe real, 28 do corrente, haverá grande parada no campo, á qual deve ir el-rei.

Sua magestade tem alli uma barraca especial para quando quizer assistir ás manobras e porventura pernoitar no acampamento. O sr. infante D. Augusto marchará com o
regimento de lanceiros, de que é coronel honorario.




Publipt - Publicidade na Internet

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

História - Santarém: Cheia no Tejo



História

Notícias de Santarém: Cheia no Tejo

O mau tempo, que reinou nos ultimos dias de maio e principios de junho, causou muitos prejuizos à lavoira. Em uma carta de 4 d'este mês, que de Santarém escreviam a uma folha da capital lemos as seguintes linhas:

«A cheia continuou a sua enchente até hontem à meia noite; esteve parada até ás três horas da manhã de hoje, e foi então que principiou a vasar e assim tem continuado, mas vagarosamente. São incalculaveis os prejuizos que esta cheia causou; searas que tinham sido preservadas das outras cheias, agora foram inundadas; e muitas foram as terras que ficaram por amanhar.

Esta cheia subiu acima da ultima tres palmos! Um dos grandes contratempos occasionados pela cheia foi a agua cobrir muitos terrenos destinados a pastagens, e ha lavradores que estão sustentando os gados a palha, como se estiveramos no pino do inverno. Ha duas victimas da cheia.

As victmas foram com effeito dois pobres trahalhadores, que indo em companhia de outros para Vallada, não calculando que a cheia subisse tanto, cairam em um pego onde morreram. Eram dois irmãos. Os demais trahalhadores tinham passado felizmente a salvo .»



História: Primeira feira de cavalos da Golegã


História

Primeira feira de gado cavalar da Golegã

Verificou se na Gollegã a feira e o concurso de gado cavallar que tinham sido adiados por causa das providencias sanitarias que se adoptaram quando o cholera-morbus invadiu a cidade de Elvas. No concurso foram admittidos 39 cavallos, sendo 7 da casa real, de extraordinaria belleza e finissima raça; 15 do sr. Raphael Jose da Cunha, um dos mais abastados e primorosos criadores nacionaes; 5 do sr. Rodrigo da Cunha Franco; 2 do sr. conde de Sobral; 1 do sr. Jose Maria de Seixas da Chamusca; e 1 do sr. Francisco Vaz Monteiro.

Para a feira foi uma commissao de remonta, presidida pelo sr. commandante geral da guarda municipal de Lisboa, e alli comprou 65 cavallos para diversos corpos de cavallaria.


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

História: Criado Concurso de gado cavalar na Feira da Golegã


História

Criado Concurso de gado cavalar na Feira da Golegã


Foi creado por decreto de 10 de junho ultimo, um concurso annual de gado cavallar no Ribatejo. Ao concurso serão unicamente admittidos cavallos nascidos e criados em Portugal, seja qual for a sua procedencia, uma vez que não tenham menos de quatro annos nem mais de seis.

O concurso effeituar-se-ha na Golegã, na ocasião da feira de S. Martinho em 11 de novembro.

O ministerio das obras publicas applica para este concurso a quantia de 500$000 réis que será assim distribuida:
Premio de honra - Uma taça de prata no valor ile 250$000 réis. Premios pecuniarios - 1º, 100$000 réis; 2º 60$000 réis; 3º 40$000 réis; 4º 30$000 réis; 5º 20$000 réis.

O premio de honra será conferido ao productor ou creador que apresentar os seis melhores cavallos. O primeiro premio pecuniario ao productor ou creador que apresentar os melhores cavallos; o segundo ao concorrente que apresentar o melhor cavallo; os premios restantes serão conferidos aos concorrentes que apresentarem cavallos immediatos em merito.


ANNUARIO DO ARCHIVO PITTORESCO PUBLICAÇÃO MENSAL JULHO N 19 1865