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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

História: Setúbal em 1755 (Setúbal, Palmela, Alcacer do Sal, Almada)

História

Setúbal em 1755

Comarca de Setuval


Setúbal, Palmela, Alcacer do Sal, Almada

EM trinta e oito gr. e vinte e oito min. de latitude e nove e dezoito min. de longitude, seis léguas distante de Lisboa, em uma enseada que forma o Oceano, onde se mete o rio Sado, está assentada a nobre Vila de Setúbal, fundada conforme a vulgar opinião pelo Patriarca Tubal, 2103 annos antes da vinda de Cristo. Tomaram a (Setúbal) os Mouros aos quais a conquistou D. Fruela, Rei de Leão, pelos anos de 760, e ficando arruinada a mandou povoar de novo no ano de 1170 ElRey D. Afonso Henriques, e seu filho D. Sancho I lhe deu foral (Setúbal), que confirmarão o Senhores Reis seus sucessores. (Setúbal) Tem voto em Cortes com no banco quatro, e quatro igrejas Paroquiais a saber: S. Julião com seiscentos e vinte fogos, S. Maria da Graça com seiscentos fogos, S. Sebastião com oitocentos e setenta fogos, e N. S. Anunciada, e extra muros N S da Ajuda. Tem mais Casa de Misericórdia (Setúbal) com vinte cinco cruzados de renda, dois Hospitais (Setúbal), e os Conventos seguintes: Senhora do Carmo de Carmelitas calçados fundado em 1598. O de Religiosos descalços da mesma Ordem; o dos Religiosos Trinos. O Colegio dos Padres da Companhia, que tem cadeiras de Latim e Teologia Moral, o Convento de S. Domingos fundação delRey D. Sebastião em 1566. O dos Padres descalços de S. Agostinho, o de S. Francisco da Observância da Província de Xabregas, o de Jesus (Setúbal) de Freiras Capuchas da mesma Ordem fundado 1489. O de S. João Convento de Freiras Dominicas fundado em 1529. O de nossa Senhora dos Anjos de Missionários de Varatojo fundado em 1681.

É esta Vila (Setúbal) muito abundante e rica, e habita nela muita fidalguia com grandes morgados, porque o sal, que se fabrica, é uma das espécies de maior lucro em todo o Reino.Os seus dízimos são tão copiosos que se pagam deles vinte e uma Comendas da ordem de Santiago (Setúbal), de cujo mestrado é esta Vila a principal, ainda que o Convento dos Freires está em Palmela. Nesta Comarca (Setúbal) a cinto léguas de distancia de Lisboa e uma de Setúbal está em sitio eminente fundada a nobre Vila de Palmela em trinta oito gr. e trinta e hum min. de latitude e em nove e vinte min. de longitude, em que está o Convento (Palmela) de Freires da Ordem Militar de Santiago com a dignidade de Prior mor, e tem jurisdição quase Episcopal no mesmo Convento (Palmela). ElRey D. Afonso Henrinques foi instituidor (Palmela) de um Priorado dependente dos mestres desta religiosa Milícia dos Reinos de Castela, e assim se conservou até o reinado delRey D. Dinis, o qual pelos anos de 1290, com autoridade do Pontífice Nicolau IV, a separou da sujeição dos mestres Castelhanos e nomeou por primeiro Mestre a Dom João Fernandes, ampliando muito as suas rendas, de sorte que hoje tem sessenta comendas que rendem mais de duzentos mil cruzados, com que ficou sendo tão rica e considerável como a de Castela, que tem quase a mesma renda. O Mestrado desta Ordem está unido á Coroa em perpetua administração. As Vilas desta Comarca (Palmela) que tem voto em Cortes são Alcácer do Sal, e Almada, no Banco sexto, e Palmela no banco treze. Compõem-se de dezoito Vilas com quarenta e duas Freguesias, e perto de dez mil fogos, e trinta duas mil almas e dos Conventos seguintes:

S. António Convento de S. Francisco da Observância de Alcácer do sal fundado em 1524.

Arascooli Convento de Religiosas Franciscanas da mesma Vila de Alcácer do Sal.

O Convento de Recoletos de S. Francisco de Alcochete.

O Convento de Religiosos Arrábidos da Verderena.

Nossa Senhora da Rosa de Religiosos Paulistas fundado em 1413.

O Convento de Religiosos Arrábidos de Palhais, de que foi primeiro Guardião o pasmo da penitencia São Pedro de Alcântara seu fundador em 1542.

O Convento de Religiosos de Santo Agostinho descalços da Sobreda.

O Convento de Religiosos Arrábidos de Caparica.

São Paulo Convento de Religiosos Dominicos de Almada.

O Convento de Religiosos Dominicos de Azeitão da invocação de nossa Senhora da Piedade fundado em 1454.

Nossa Senhora da Conceição de Religiosos Arrábidos termo de Palmela fundado em 1578.

Nossa Senhora da Consolação de Alferrara de Religiosos Paulistas fundado em 1381.

O Convento de nossa Senhora da Arrábida primeira Casa religiosa desta Província, 1542.




Descripçam corografica do reyno de Portugal, 1755

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

História: Convento de Palmela, imagem de 1860





História


Imagem de 1860

Convento de Palmela

Com o desenho do castelo de Palmela,do corrente volume demos algumas noticias a respeito da antiguidade d'esta vila, do seu castelo moirisco, e da fundação do convento que el rei D. João I ali mandara edificar para residência dos freires, e cabeça do mestrado da ordem de Santiago. 


Hoje, dando a gravura do frontispicio da igreja do mesmo convento, poucas mais acrescentaremos. 


Como ao apostolo Santiago tocou por sorte a pregação do evangelho na Hespanha, o tomaram os espanhóis para seu patrono; e depois, gratos ao auxilio que lhes prestava este santo, cujo nome invocavam como grito de guerra nas batalhas contra os moiros, instituíram a ordem militar que ainda hoje subsiste. 


Quase todos os nossos antigos escritores remontam a fundação da ordem de Santiago ao século IX, seguindo a lenda da batalha de Clavijo, ganhada aos infiéis por el- rei D Ramiro I de Leão, na qual se diz que o santo apostolo entrara na peleja, bem montado, acutilando e derrubando centenares de moiros, pelo que a ordem, que dizem se instituíra logo depois d'essa batalha, tomou por insígnia a terrível e vitoriosa espada. 


Mas a opinião hoje seguida, á vista de documentos desconhecidos dos antigos, é que esta ordem foi instituída em 1170, reinando Afonso VIII em Castela, e Fernando II em Leão, fazendo voto os cavaleiros que n'ella professavam, de empregarem toda a sua vida, e gastarem toda a sua fazenda, na continuação da guerra contra os moiros. 


Foi por este voto que os cavaleiros de Santiago, sabendo que D. Afonso Henriques estava cercado em Santarém pelo rei moiro de Sevilha, vieram socorre-lo; e tão prestante foi o auxilio, que o nosso primeiro monarca admitiu logo esta ordem no seu reino, fazendo-lhe doação de muitas vilas e lugares. 


Também eles o ajudaram na conquista de Lisboa; pelo que D. Afonso lhes deu a ermida dos santos mártires Veríssimo, Máxima e Júlia, á beira do Tejo, para aí fazerem convento. Aqui assistiram, até que tomando o mesmo rei a vila de Alcácer do Sal aos moiros, a deu aos cavaleiros de Santiago, que tomaram posse do castelo, e sagraram a mesquita de que fizeram convento para a ordem, obra sumptuosa de que hoje apenas restam vestígios. 


Sancho II, conquistando a forte vila de Mértola, fez desta praça de armas e fronteira da Andaluzia, ordenando que a defendessem os cavaleiros de Santiago, e que passassem para ela o seu convento. 


Aqui esteve a sede d'esta milícia religiosa, desde 1239 até que em 1423 (e não 1443, como por lapso de revisão se lhe sobre o Castelo de Palmela), el- rei D. João I, sendo mestre da ordem o infante D. João, seu filho, mandou que o convento mestral e cabeça da ordem fosse no castelo de Palmela. 


Este convento foi feito com muito vagar, porque só em 1482 se acabaram as obras, concorrendo muito para esta conclusão o príncipe D. João, filho del rei Afonso V, que sucedeu a seu pai na coroa d'este reino, e foi o décimo quarto mestre de Santiago. 


N'este convento residia o prior mor da ordem, que era dignidade prelaticia, tinha mitra, e era sempre provido este cargo em pessoas mui qualificadas. 


Durante quatro séculos residiram os freires de Santiago n'esta casa, até que extinta esta corporação com as demais ordens religiosas em 1834, ficou o convento devoluto e o templo secularizou-se. 


Ninguém se lembrará já de que ali jazem muitos mestres e priores-mores, da tão longa serie d'elles que ilustraram Portugal pelas armas e pelas letras? 


Já o dissemos e repetimos: se não é possível ter a bom recato as cinzas, o jazigo dos nossos antepassados gloriosos, porque o estado não tem recursos para conservar todos os edifícios onde se acham essas veneráveis relíquias, trasladem-se para algum templo dos que temos bem amplos para o efeito. 


São muitos os finados que tem jus a um lugar n'esse pantheon; mas agora caberão em pouco espaço os que encheram o mundo de sua fama e nossa gloria!



***

Pelo Censos de 2011 Palmela conta com 62 549 habitantes

Freguesias de Palmela

Marateca, Palmela, Pinhal Novo, Poceirão, Quinta do Anjo

sábado, 22 de janeiro de 2011

História: Convento de Jesus em Setúbal III (imagem 1860)


História


Setúbal

Convento de Jesus em Setúbal

III

Imagem 1860



Da já citada historia manuscrita d'este convento, extraimos a seguinte noticia das obras que n'ele mandou fazer el rei D. Sebastião, e a narrativa do conceito em que tinha as freiras, como singelamente conta a religiosa cronista sóror Leonor de S. João.

«Na era de 1561, em cortes, renunciou a rainha D. Catarina (viúva de D João III) o governo que se deu ao infante e cardeal D. Henrique, seu parente e cunhado, o que obrou com muita satisfação dos povos e pobres, entrando no numero d' eles as religiosas d este convento, recebendo mercês e esmolas eguaes ás dos reis seu pae e irmão. E na mesma era, o rei, menino de sete annos (D. Sebastião) assignou um alvará para não pagarem coima os bois e mais animaes d'este convento; e na era de 1566, por outro alvará deu liberdade para se ir buscar toda a lenha necessaria á sua coutada da Murta, mandando ao couteiro a désse. Por outro alvará concedeu que podessem mandar buscar toda a pedra para as obras, da que vem por lastro nas embarcações que portam n' este rio; e assim deu outros poderes para que das condemnacões da taxa dessem a este convento certo numero de esmolas, obrigando por outro, aos ofíiciaes da alfandega, cumpram o que mandou sobre esta taxa. Confirmou e assignou os alvarás e provisões que atrás fica dito de seus antecessores; deu peças de valia e ornamentos para a igreja vestuário, ás religiosas e servos de fóra, pagando fisicos, botica, e tudo o mais necessario com a liberalidade de seus antepassados. E mais queria dar ao convento ordinárias cada ano, o que as freiras não aceitaram, para com mais perfeição guardarem a pobreza; ainda que para isso foram constrangidas dos prelados e confessores.

Mandou mais o dito rei, á sua custa, refazer a casa do ante-coro, que estava repartida em três mui escuras, as quais se fizeram n'uma muito formosa de duas naves, com quatro arcos de pedraria, pintado o tecto com santos da nossa ordem, a escada mui larga de duas voltas, de tabuleiro espaçoso feito de pedraria cercada de grades de ferro pintadas, e os maineis. O que mais ilustra a obra é um Cristo Crucificado do tamanho de um homem, de grande devoção, em uma capela e altar, com que fica tudo perfeito, e três formosos arcos de pedraria que fazem volta ás portas do convento; feito tudo á custa del-rei, o qual desejando entrar no convento, o não fez, parecendo-lhe causar algum modo de inquietação ás religiosas.

Á igreja vinha muitas vezes, mandando pedir o abençoassem ao entrar da porta; e ao sair d'ela, olhando para a grade algumas vezes, sorria-se, outras limpava as lagrimas que com devoção chorava. Assim lhe acontecia quando recebia algum mimo, juntamente com pão mole, que costumava pedir, o punha nos olhos, e beijando-o mandava o guardar, dizendo que era só para ele o pão das suas freiras santas. E assim as nomeava sempre, não consentindo cair no chão uma bonina das que lhe mandavam, e á que lhas levava festejava com palavras d'amor e agradecimento.

Achei mais escrito, que indo uma vez ao convento de Palmela, se não quiz sentar a jantar, até lhe não mostrarem janella d' onde visse este nosso; e levado a ella disse com grande alegria:« Já vi o meu convento de Jesus, vamos á mesa.» E assim se diz, que quem o queria agradar, falava-lhe n'esta casa, e na fama da sua religião, do que recebia sumo contentamento. Mas por justos juízos de Deus, permitiu carecesse este reino do gosto que tinha em possui-lo, e que fosse mais inclinado ás armas, e outros bons e catolicos costumes, que a procurar sucessão no reino. Todos seus intentos pos em conquistar os mouros, o que cometeu em vida da rainha sua avó, chegando ás fronteiras de África, aonde vendo sua pouca companhia e muitos dos inimigos,, por conselho de soldados velhos se tornou a Portugal, voltando lá depois para nunca mais regressar.»

Tem este convento muitas relíquias de fama; porém a de mais estimação para as freiras, é o cranio de uma das cinco mil virgens, com que as presenteou o celebre duque de Alva, quando invadiu Portugal em 1580. Não sabemos se esta relíquia tem autentica, mas sim que o general castelhano era muito capaz de a forjar.

Mais sobre o Convento de Jesus em Setúbal aqui em Antikuices


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

História: Convento de Jesus em Setúbal II


História


Convento de Jesus em Setúbal


II

Do manuscrito citado no artigo antecedente, que é o códice B, 3-60 da biblioteca nacional de Lisboa, vamos extractar a resumida historia da fundação d' este convento, com a indicação das preciosidades, que ainda hoje possui, dos bons tempos del-rei D. Manuel. Com a historia do convento vem á mistura outras curiosas daquele tempo, como por exemplo a queima de mais de um milhão de livros árabes, que mandou fazer em Oran o celebre cardeal Ximenes, regente de Espanha durante a menoridade de Carlos V.

«No ano de 1500, seguindo mestre Boutaca as obras do convento, conforme o debuxo que sonhara em Itália, como já nele estavam algumas religiosas, ordenavam elas a seu gosto as oficinas, com muita consolação da fundadora, a qual n' este tempo residia na cidade de Lisboa, por el- rei D. Manuel ai assistir, estando aposentada no circuito do convento de Santa Clara para de mais perto haver as esmolas del-rei, e mais os privilégios, alvarás e mercês que lhe apontava. N'este ano deu el-rei um alvará, em que mandou ás justiças da terra não consentissem levantarem-se casas, por nenhum modo, defronte, nem ao redor d'este convento; alvará que está assinado por ele e por seu sucessor, que o confirmou com os mais.

«E assim deu el-rei um sino grande dos bons que no reino, com os nomes de Jesus e Maria nele esculpidos, e outro menor; campainhas grandes e pequenas para o uso da igreja e convento, ornamentos ricos, e muitos de varias sedas e guarnições; a opa de rico bordado e imaginaria com que foi levantado rei, de que ainda hoje estão guarnecidos dois ornamentos; assim deu os vasos de prata dourados para os altares, cofres de tartaruga e da China, chapeados de prata, para o sacrario, e outros em que estão corporais e sanguinhos.


«Deu mais tapeçarias, alcatifas e outras peças, com muitas pérolas e aljofres, com que se ornaram patenas e bolsas; e também mui ricos retábulos, que juntos com os que deu a rainha D. Leonor, sua irmã, se fez o da capela-mor, uma das formosas peças que se podem ver por serem, assim ricos como devotos, mandados de presente pelo imperador Maximiliano, primo dos ditos rei e rainha. Deram também notáveis relíquias e uma riquisima cruz em que estão muitas, como adiante se verá.

«A nossa fundadora, entre os negócios do convento, ordenava também os de seus filhos, de modo que acabados os de Marta, pudesse com quietação entregar-se aos de Maria, como ao diante se verá. Da cidade de Lisboa, onde permanecia, avisava as religiosas e o procurador de fora sobre o que era necessário, entregando-lhe as esmolas de dinheiro, e as mais que el-rei dava para a sustentação e necessidades das freiras e convento. Escreveu para esta vila a um fidalgo, pedindo- lhe quisesse ser seu procurador, o que ele aceitou com muito gosto; e indo logo a Lisboa, se lhe fez procuração, na qual a fundadora lhe deu seu poder e autoridade, para nesta vila comprar e trespassar certas fazendas ao hospital de Nossa Senhora da Anunciada, ficando livre um pedaço de terra ao redor d'este convento. E assim deu mais o foro d'outra vinha, com que rematou os foros que ao hospital tinha comprado, e d' estas fazendas se fizeram escrituras publicas, que no nosso cartório estão; assim como uma doação que fez mestre Gil, cirurgião-mor do reino, com licença delrei, em que deu um pedaço de terra que iguala com a que a fundadora comprou. Foi feita esta doação em 29 de Abril de 1503. Junto a estas escrituras está outra, porque consta ter o procurador do convento tomado posse pacificamente das ditas terras e chão.

N'este tempo morreu o papa Alexandre VI, a quem sucedeu Júlio II. O nosso rei mandou logo dar-lhe a obediência por seu embaixador D. Diogo de Souza; e entre as coisas que impetrava para bem de seu reino, pediu também para este convento, a instâncias da fundadora, um breve em que confirmasse os que tinham dado Inocencio VIII e Alexandre VI, e assim o declara com o mais que se segue, e é que nunca o convento possa ser de frades nem de freiras de outra regra e profissão, mas sempre das senhoras pobres de Santa Clara, guardando a primeira regra, com que foram fundadas pelas de Gandia, cidade de Valença; e que não passe o numero de trinta e três, procurando sempre irem de bem em melhor, na guarda das ditas coisas e de sua profissão, e que havendo lugar despejado e parenta da linha da fundadora, que queira entrar nele, se lhe de primeiro que a outra: e que a capela debaixo do altar-mor seja a de D. João Manuel, filho da fundadora, e para seus filhos e netos, não sepultando a outros nela; e que a seu filho D. Nuno Manuel na mesma forma concede outra capela, que ele faria defronte do altar maior, debaixo do coro e tribuna, chegando a altura até ela, e largura da mesma igreja. Assim lho concedeu o papa, declarando ter ela gastado dez mil cruzados de sua fazenda e seus filhos, adquirindo dos Reis e padroeiros muitos mais; e que a instância del-rei D. Manuel concede todas estas coisas, e as confirma para sempre, dando também licença ao mesmo rei e á rainha D. Maria, sua mulher, para entrarem no convento alguns dias no ano. Foi dado o breve ás três calendas de maio de 1505. Está no convento em pergaminho.

«No tempo d'este rei e papa, se tomou a cidade de Orão aos moiros, pelo rei de Castela D. Fernando, pae da mesma rainha D. Maria nossa padroeira, governando em seu lugar D. Francisco Ximenes de Cisneiros, religioso da nossa seraphica ordem, cardeal de Hespanha e arcebispo de Toledo, chanceller-mór de Castella, inquisidor-mór d'ella, e reformador de todas as religiões, por ordem do mesmo papa Julio II; o que fez com suma satisfação, assim do mesmo papa como dos reis christãos. Em Granada converteu á santa fé, elle e outros frades da nossa religião, tanto numero de moiros, que não tinham mãos a baptisar, e pelas do arcebispo foram quatro mil. Queimou um milhão e cinco mil livros mahometanos; edificou á sua custa grande quantidade de igrejas, conventos, collegios e seminarios. E para a armada de Orão ofifereceu gastos e pessoa. Ordenou duzentas villas no anno de 1509, e logo viu no ceo, em signal de victoria, a insignia da santa vera cruz, e a tornou a ver estando o arraial apparelhado para a batalha, e elle a cavallo, vestido de pontifical sobre o habito, e assim iam os mais religiosos revestidos, com espadas cingidas, cruz levantada, e estandarte com ella, tendo de uma parte e da outra as armas do santo arcebispo, cuja pratica de espirito e valor, animou os soldados a commetter tão grande empresa, entoando primeiro: Vexilla regis prodeunt. Houveram victoria, que foi das maiores do mundo acontecidas, pois morrendo só trinta christãos, mataram passante de quatro mil moiros, e captivaram oito mil. Em quanto durou a batalha, esteve o nosso arcebispo no campo com as mãos levantadas em oração, pedindo victoria, e com ella entraram pela cidade de Orão os frades com cruz levantada cantando o liymno - Te Deum laudamus. O povo deitava pelas ruas ramos e palmas com palavras de louvor ao arcebispo, ao que elle respondeu: Non nobis, Domine, non nobis, sed nomine tuo da gloriam. O alcaide lhe deu em paz as chaves da cidade, e trezentos christãos que estavam captivos

Os quadros vindos de Allemanha, n'este manusscripto mencionados, ainda se conservam no mosteiro, como verificou o conde Raczynski em 1844, segundo elle refere no seu importante livro Les arts en Portugal.

Estes quadros, em numero de 17, são dos attribuidos ao celebre pintor Grão Vasco; porém o citado conde, por alguns annos ministro da Prussia junto á corte de Lisboa, e que os foi examinar a Setubal, com quanto se não julgasse habilitado para os capitular como taes, faz d'elles tanto apreço, que aponta esta collecção por uma das mais preciosas que elle viu em Portugal de quadros originaes, e designa o auctor d'elles, na classificação que fez de diversos artistas e epochas, pela selecção de peintre des tableaux de Setúbal.

A lista que nos dá d' estes 17 quadros é a seguinte, coisa que nenhum português tinha feito antes d'elle.

1. S Franciso recebendo as Chagas
2 Annunciação de Nossa Senhora
3 O nascimento de Christo
4 A Circumcisão
5 A adoração dos Reis 6 A santa Veronica
7 Jesus crucificado
8 O Calvario
9 A Assumpção de Nossa Senhora
10 O santo Sepulchro 11 A Resurreição
12 Santas religiosas
13 Santos martyres
14 Santo Antonio
15 A Ascensão
E mais dois quadrinhos representando a Prisão de Christo e a Flagellação.

«On dit (conclue o conde Raezynski) que ces tableaux sont l'ouvrage de Gran- Vasco, mais il n'y a aucun document que Ie prouve, cependant on sait positivement que ces tableaux ont eté donnés à ce couvent par les rois qui en furent les patrons Dom João II et Dom Manuel.»

Hoje que o novo caminho de ferro do sul nos leva de Lisboa a Setubal em tão poucos minutos, devem ser mui agradaveis aos que prezam as nossas antiguidades, e amam as artes, estas e outras noticias dos monumentos e sitios, que dão nome á novissima cidade patria do nosso Bocage.

Continua aqui, em Antikuices

ARCHIVO PITTORESCO SEMANÁRIO ILLUSTRADOANNO 1860

História: Convento de Jesus em Setúbal I - imagem 1860




História

Setúbal

Convento de Jesus em Setúbal - 1ª parte

Imagem 1860

Festejámos o despacho que ultimamente teve a antiquíssima Setúbal, de ser elevada á categoria de cidade, com lhe gravarmos n' estas paginas o seu mais notável monumento artístico, qual é o convento de freiras de Santa Clara, denominado de Jesus, fundado hoje perto de quatro séculos.


Já era tempo de dar titulo e foros de cidade a esta vila, que pela sua topografia, porto marítimo, produção, comercio e população, fora sempre contada entre as principais do reino, tendo apenas sobre si Lisboa, Porto, e Viana.

Por varias vezes a imprensa, desde 1842, instou por esta promoção, e nós fomos d'esses. Por fim ouve uma vereação que definitivamente requereu esta preeminencia, e a conclusão do ramal do caminho de ferro do sul, que para aquella povoação se abriu agora, veio resolver o despacho de que nos congratulamos, com aquela alegria d'alma que nos infunde qualquer progresso ou engrandecimento desta boa terra.


O convento que hoje estampámos em gravura, é quase todo obra do grande edificador, el-rei D. Manuel, e um dos bons tipos que nos restam do estilo e desenho do arquitecto do mosteiro de Belém, o mestre Botaca.


A historia da fundação do convento de Jesus de Setúbal conserva se manuscrita na secção dos códices da biblioteca nacional de Lisboa, e tem titulo: - Historia da antiga e curiosa fundação do convento de Jesus, da vila de Setúbal, escrita por Sóror Leonor de S. João.

Eis como a boa da madre conta qual foi o principio desta edificação:


«Em 1489, inspirou Deus em Justa Rodrigues Pereira, dona nobilíssima e de santos e altos pensamentos, ama do duque D. Manuel que depois foi rei de Portugal, que fundasse n'esta vila um mosteiro de freiras da primeira regra de Santa Clara. E sabendo ela que mestre Boutaca era vindo das Italias ás obras d el rei D João (II) pela fama de seu engenho, e que estava na mesma terra, achando-se ela presente, entendeu que abria o Senhor caminho a seus intentos, mandou logo chamar ao dito mestre, e disse- lhe como desejava fazer um convento de freiras capuchas, e da regra acima dita, pelo não haver na Hespanha, e declarando-lhe o modo e traça como o queria, ficou o mestre maravilhado e respondeu-lhe: "Ora não mais, senhora, esse é o convento que me foi mostrado em sonhos nas Italias, e trago debuxado."


Ficou ela mui consolada, e foi dar conta a el-rei D João II, que então reinava, e lhe disse como desejava fazer um convento, e se havia de intitular o nome d'elle Jesu."

El-rei lhe respondeu: "Ama, a muito vos atreveis!" Ela replicou e disse: "Senhor se Jesu houver mister alguma coisa de V.A. far-lha-ha?" O christianissimo rei tirou então a gorra da cabeça, e com ela baixa disse: " A Jesu, a pessoa e a coroa."


Ela então prostrada aos pés del-rei, lhe beijou a mão pela mercê, e pediu-lhe a consumasse impetrando breve e licença do papa.»

Assim, dito e feito, se levantavam então grandes monumentos!

Em quanto não chegava de Roma a competente bula, se foi comprando o chão para o convento e cerca; e pouco depois se começou a edificar, tudo isto por conta d'el rei D João II, o qual falecendo n'este meio tempo, seu sucessor D. Manuel, não só continuou, mas ampliou grandemente a obra, de tal sorte, que na opinião do clássico agiographo Jorge Cardoso "esta igreja é das sumptuosas que de freiras n'este reino, de abobada e três naves com colunas de jaspes, lavradas de modo que representam dois cordões torcidos entre si, que alguns querem seja própria empresa do dito rei."

Como se vê da nossa estampa, este monumento tem muitas parecenças com o de Belém, n'alguns accessorios, esculturas e rendados, o que não admira porque o mesmo arquitecto Botaca, e o mesmo rei D. Manuel, são autores de um e de outro.

O que mais sobresai neste de Setúbal, é a cor da pedra de que ele é revestido, extraida das pedreiras da vizinha serra de S. Filipe, o que lhe dá um aspecto ainda mais vetusto. Tem esta pedra uma cor atijolada, porém não igual, por isso lhe chamam os antiquários "vermelho antigo."


O conde de Raezyuski, na sua importante obra Les arts en Portugal, faz a devida comemoração d'este monumento de arquitectura manuelina.

Noutro artigo havemos de referir algumas particularidade d'este convento, tiradas do citado manuscrito da madre Leonor.

Continua aqui, em Antikuices