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sábado, 17 de setembro de 2011

História de Borba e brasão antigo (imagem de 1860)


História de Borba e brasão antigo (imagem de 1860)

A VILA DE BORBA

Na província do Alentejo, meia légua ao poente de Vila Viçosa, e a duas léguas de Estremoz, está assentada a Vila de Borba, num vale formoso e ameno.

Pretendem alguns antiquários, que tivera por primeiros fundadores os galos celtas. Nas diversas invasões que a Lusitânia padeceu, esteve por largos anos sujeita ao domínio de Roma, depois ao dos godos e outros povos do norte que, destruindo o império romano, avassalaram toda a península hespanica; e destes passou ao dos árabes, que a seu turno os venceram e desalojaram das terras conquistadas.

Correndo o ano de 1217, resgatou-a do poder dos infiéis el rei D. Afonso II, e ficou desde então parte integrante da monarquia portuguesa. Arruinada e abandonada, por esta ocasião, pelos seus moradores, o mesmo monarca a mandou reedificar e povoar de novo. Deu-lhe foral el rei D. Dinis e geralmente se lhe atribui a fundação do seu castelo. Todavia, uma pedra com dois malhos nela esculpidos, e a tradição de que junto à vila, no sitio hoje chamado «os Mosteiros», existira um convento de templários, dão algum fundamento para se supor que o Castelo foi obra destes e não de el rei D. Dinis, que talvez tão somente o reparasse.

Dizem os etimologistas que o nome de Borba se deriva de um grande barbo, que apareceu em época remota numa fonte que está dentro do castelo, e alegam para prova o brasão de armas da vila, em que figuram dois daqueles peixes.

Divide-se a povoação em duas paroquias: uma da invocação de Nossa Senhora do Soveral, e outra dedicada a S. Bartolomeu. A primeira, que é a matriz, é um bom templo de três naves, sustentadas por quatorze colunas de mármore branco, sete de cada lado e com um belo portal, também de colunas. Foi edificada no ano de 1401 por D. fr. Fernando Rodrigues de Sequeira, mestre da ordem militar de Avis, á qual esta igreja pertencia.

A outra paroquia é de uma só nave e de construção muito mais moderna. Está no seu distrito o convento de Nossa Senhora das Hervas ou das Servas, de religiosas franciscanas de Santa Clara, fundado pelos anos de 1600. Também tinham na mesma freguesia um colégio, os religiosos de S. Paulo, primeiro eremita, principiado em 1704.

O hospital e casa da misericordia estão situados dentro do castelo. O templo desta foi reedificado no começo do século passado (18). Os outros templos da vila são: Capela dos terceiros de S. Francisco, e as ermidas de Santo António e de S. Sebastião. Porém fora dos muros há mais cinco ermidas.

O velho castelo ergue-se junto das muralhas da vila, para o lado do nascente. Tem no meio uma praça para onde deita uma alta torre quadrangular, em que se vêem uns toscos e mal distintos caracteres e os dois malhos esculpidos a que acima nos referimos.


Tem Borba ruas espaçosas e boas, e a sua casa da câmara é um dos melhores edifícios municipais de todo o reino. Abastecem-na de excelente agua muitas fontes dentro e fora de seus muros. Extrema-se de todas, pela grandeza da fabrica e beleza da arquitectura, a que o antigo senado da câmara mandou fazer em 1781, Este esbelto chafariz está colocado num espaçoso largo ao sair da vila. É todo de mármore branco, com cinco bicas e três tanques. Entre muitos ornatos esculpidos com perfeição, avulta o busto da rainha D. Maria I, então reinante.


A abundância de agua destas fontes, de que se forma uma pequena ribeira, faz os arrabaldes mui férteis e viçosos, povoados de muitas hortas e pomares e algumas bonitas quintas, ornadas de frondosos arvoredos. É notável entre estas ultimas, a dos senhores condes das Galveias. É também celebrado pela sua linda floresta, o extinto convento de Nossa Senhora da Consolação, que pertenceu aos religiosos capuchos da província da Piedade e que é conhecido em todo o Alentejo pelo nome popular de convento do Bosque. Foi fundado em 1505 pelo duque de Bragança D. Jaime. Fica a um quarto de légua da vila. É uma estância deliciosa, pela majestade das árvores seculares que assombreiam a cerca e pela copia e frescura das águas que aí correm, em fontes e levadas, ou se despenham em cascata.

Do alto de um monte que bem merece o nome que tem de Boa Vista, vizinho ao convento, goza-se de um panorama admirável. Avistam se daí as vilas de Veiros, Evoramonte, Estremoz, Fronteira, Cabeço de Vide, Monforte, Vila Boim, Terrugem, Jerumenha, Vila Viçosa e a cidade de Portalegre; e em Espanha, Olivença, Villa Real e S. Jorge.

O concelho de Borba produz cereais, muito azeite, algum vinho e frutas. Nas suas montanhas há ricas pedreiras de mármores, principalmente branco e azul, da mais fina qualidade. De uma destas pedreiras foram levados para Évora, na primeira metade do século passado (18), todos ou quase todos os riquíssimos mármores de que se reconstruiu a sumptuosa capela mor da sé desta cidade. Dizem autores antigos que também nas mesmas montanhas, existem minas de prata, e se encontram turquesas e outras pedras preciosas.

No primeiro de Novembro faz-se em Borba uma feira de três dias a que concorre muita gente. A população d esta vila excede a três mil almas.

A vila de Borba tinha voto nas antigas cortes, tomando os seus procuradores assento no banco décimo quinto. Há diversas opiniões sobre o seu verdadeiro brasão de armas. Querem uns, que seja um castelo e ao pé uma fonte com um barbo. Outros dizem que é um rochedo sobre agua, da qual saem dois barbos, e assim está pintado na Torre do Tombo. A opinião que achamos mais seguida é a que se conforma com a estampa junta: um escudo simplesmente com dois barbos a sair da agua.

Por Ignacio de Vilhena Barbosa


***
Pelo Censos 2011 Borba tem 7406 habitantes


Borba é uma cidade do Distrito de Évora, região Alentejo

Freguesias de Borba

Matriz (Borba), Orada, Rio de Moinhos, São Bartolomeu (Borba)

Eleições Autárquicas - 11/10/2009

Votação por Partido em BORBA


PS: 2764/63,1% - 4 mandatos
PCP - 836/19,1% - 1 mandato


Candidatos Eleitos pelo Circulo: Borba

PS - Ângelo João Guarda Verdades de Sá
PS - Artur João Rebola Pombeiro
PS - Humberto Luís Russo Ratado
PCP-PEV - Joaquim José Serra Silva
PS - Rosa Maria Basílio Véstia

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

História: Templários em Portugal - 6ª parte - Ordem de Cristo - O Fim dos Cavaleiros


História

Templários

6ª parte

Ordem de Cristo - O Fim dos Cavaleiros







Antes de passarmos adiante consignaremos aqui um triste sucesso que por esquecimento deixámos de mencionar no lugar competente. O virtuoso e infeliz rei D. Duarte, atribulado pelo cativeiro do infante D. Fernando, seu irmão, e pela peste que assolava o reino, indo procurar um refugio no convento de Cristo, aí morreu vitima daquela terrível epidemia, no dia 9 de Setembro de 1438.

Falecendo el rei D. Manuel em 1521, seu filho, el rei D. João III, assumiu o governo da ordem de Cristo, por bula do papa Adriano VI.

Passados dois anos foi a Tomar, e aí celebrou o oitavo capitulo geral da ordem de Cristo.

Imbuído naquelas ideias, que em verdes anos lhe assoberbavam já o espírito, e movido daquelas sinistras influencias que o levaram muitas vezes, no decurso do seu reinado, a sacrificar os interesses e o esplendor da nação ao fanatismo religioso e, pior ainda do que isso, ás intrigas e tramas anti-nacionais acobertadas com o manto da religião, pensou fazer um acto meritório perante Deus convertendo em frades os cavaleiros de Cristo.

Autorizado pelo capitulo, que facilmente se dobrou ao capricho real, procedeu a uma completa reforma da ordem, fazendo dos cavaleiros conventuais religiosos de cogula, e sujeitando- os á clausura e regularidade monástica. A bula pontifícia de aprovação não se fez esperar muito.

Desta maneira os cavaleiros de Cristo, lançando longe de si a espada, até então sempre pronta a desembainhar-se e a combater pela pátria e pela fé, depondo aquela bandeira gloriosa que tremulara nos primeiros baixeis que desvendaram os mistérios Oceano; esses intrépidos cavaleiros, a quem Portugal devia tanta gloria, agora roubados á pátria, fizeram voto solene perante os altares de viver somente para o serviço da igreja, reclusos entre as paredes do claustro.

A esta metamorfose, seguiu-se depois a incorporacão definitiva do mestrado da ordem de Cristo na coroa. A instâncias del rei D. João III, e por bula do sumo pontífice Júlio III, expedida no ano de 1551, foram declarados grão mestres perpétuos das três ordens militares do reino, os soberanos de Portugal, varões ou fêmeas.

O governo do convento de Tomar continuou a pertencer ao prior mor, ficando este com honras de bispo, e poder quase episcopal em todas as igrejas da prelazia de Tomar, bem como nas das conquistas em que a ordem tinha jurisdição. Compunha- se o património da ordem de Cristo, de quatrocentas e quatro comendas e vinte e uma vilas e lugares.

Da antiga ordem religiosa e guerreira, que tão poderosamente concorreu para o engrandecimento da monarquia portuguesa, apenas restou como estímulo e recompensa para as nobres acções em serviço da pátria, a sua divisa autorizada, a cruz vermelha, como condecoração civil, e as suas rendosas comendas.

Aqueles a quem o soberano, na qualidade de grão mestre, conferia tais prémios faziam profissão numa igreja da ordem, mas sem votos que lhes prendessem a liberdade e sem residência no convento.

Foram estes cavaleiros seculares que ainda continuaram a sustentar por algum tempo, e até certo ponto, o nome ilustre da ordem, cujo brilho se foi mareando ao embate das desgracas que produziram a decadencia da monarquia.

Para a execução da reforma moral efectuou el rei D. João III muitas e grandes obras no convento de Tomar. Construiu claustros, dormitórios, refeitório e outras oficinas, com que ficou o edifício apropriado à vida monástica dos seus moradores.

Presidiu el rei D. Sebastião a dois capítulos gerais da ordem, um reunido em Lisboa no ano de 1568, numa sala do hospital de Todos os Santos, que estava situado no Rossio, do lado de leste, o outro na igreja de Santa Maria do Marvila, em Santarém, correndo o ano de 1573.

Foi efémero o reinado do cardeal rei D. Henrique, mas como quisesse aperfeiçoar a obra del rei D. João III, seu irmão, introduzindo nela alguma nova reforma, determinou que o breviário cistereiense de que usavam os freires no convento de Tomar, fosse substituído pelo breviário romano.

A este curto, porém triste período da nossa historia, seguiu-se a catástrofe da perda da independência de Portugal. Se fosse mister demonstrar a decadência moral em que se achava a ordem de Cristo nessa época, e quanto tinha degenerado nos seus filhos o espírito de patriotismo que outrora os animara e distinguira, seria suficiente apontar para a predilecção que os Filipes de Castela tiveram pela ordem de Cristo, predilecção por tal modo testemunhada durante os sessenta anos da usurpação, que faz presumir que esta encontrara nos freires de Tomar grande apoio.

Alguns homens houve nesse tempo em Portugal, distintos pelo saber e de provado amor do seu país, que reconhecendo a impossibilidade em que se achava a nação, depois das gravíssimas perdas que experimentára, de resistir ao poder de Castela, então poderosíssima, se curvaram ante a força dos acontecimentos, aceitando resignados a escravidão como consequencia natural deles. Foram deste numero os sábios virtuosos prelados das dioceses de Braga e Algarve, D. Fr. Bartolomeu dos Mártires e D. Jerónimo Osório. Mas é certo que o usurpador, avaliando justamente os seus sentimentos, acatou neles as virtudes e ciência que lhes atraiam o respeito e amor povo, mas não lhes deu testemunho da real afeição.

Filipe II de Castela, entrando em Portugal no ano de 1581, para se fazer reconhecer por soberano deste país, escolheu o convento de Tomar para a reunião dos três estados, que haviam de assinar a sentença que o duque d Alva lavrara à frente do exercito castelhano. Quem conhece o local em que se reuniram os delegados da nobreza, do clero e do povo, sabe que não foi a capacidade das salas que determinou a escolha do edificio; que se essa fora a razão, lá estava o mosteiro de Alcobaça com todo o direito da preferência.

O mesmo soberano fez algumas alterações nos estatutos da ordem, a pedido e contento dos freires, lançou os fundamentos a duas construções, que só se podem contar entre as mais grandiosas daquele magnifico edifício, mas também entre as mais sumptuosas de Portugal. Falamos do aqueduto, principiado em 1595 e do claustro chamado dos Filipes.

D. Filipe III de Castela, e II dos que reinaram em Portugal, prosseguiu com essas obras, pondo o remate ao aqueduto. Vindo a Lisboa com seus filhos em maio de 1619, em Outubro desse mesmo ano partiu para Tomar. Durante a sua residência no convénio de Cristo, presidiu ao 11º capítulo geral da ordem. Neste capitulo se continuou com as reformas dos estatutos, principiadas por Filipe II, e que se concluíram nos três dias, 16, 17 e 18 de Outubro, em que funcionou esta assembleia. D. Filipe IV de Castela, que veio a Portugal somente uma vez, sendo príncipe, e que desde o começo do seu reinado patenteara por diversos modos a sua aversão a este país, a ponto de não mostrar benevolencia senão para com os seus parciais, foi complacente com os freires de Cristo, e ordenou que não se levantasse mão da obra do claustro filipino até ser acabada, o que se realizou sob o seu governo, apesar de ter sido grande a despesa e de se achar a fazenda publica malbaratada por causa das guerras estrangeiras e pela má administração interior.

Durante a guerra da restauração da independência, que absorveu todo o reinado del rei D. João IV e parte do de seu filho, el rei D. Afonso VI, nenhum acontecimento notável se registou nos anais do convento de Tomar. Todavia, sendo regente do reino o príncipe D. Pedro, pela deposição del rei D. Afonso VI seu irmão, deu-se um facto que consignaremos aqui, por nos parecer que vem em abono da opinião que acima exarámos. Como não foi possível obter-se da corte de Roma, apesar das incessantes diligencias empregadas pelo nosso governo, a confirmação de bispos nomeados durante a luta com a Espanha, sucedeu que ao cabo dos vinte e sete anos que durou esta guerra, achavam-se vacantes quase todas as dioceses do reino e das suas possessões de além mar. Feita porém a paz com a Espanha, no ano de 1668, logo a corte pontifícia se prestou a reconhecer a independência de Portugal e a dinastia de Bragança. Portanto, apenas se restabeleceram as boas relações com a cúria romana, apressou-se o príncipe regente a fazer a nomeação dos prelados para as sés vagas de Braga, Lisboa, Évora, Coimbra, Viseu, Porto, Miranda, Guarda, Lamego, Leiria, Portalegre, Algarve, Funchal, Angra, Goa, Bahia, Angola, S. Tomé, Malaca, Cabo Verde, Meliapor e outras.

Sendo o maior numero destas vagaturas em dioceses ultramarinas sujeitas à jurisdição espiritual da ordem de Cristo, apenas figura entre aquelas nomeações, um único freire do convento de Tomar, D. Fr. Pedro Sanches, apresentado na mitra de Angola.

Cremos pouco provavel que em tão larga nomeação de bispos para terras doadas no espiritual á ordem de Cristo, em compensação dos sacrifícios que fez, e a que o país deve o descobrimento e posse delas, a dita ordem não seria contemplada apenas com uma mitra das menos importantes, se não houvera no animo do príncipe regente e dos seus ministros, algum espinho contra ela.

Tendo já assumido o titulo de rei D. Pedro II, foi derrogada por ele a pratica estabelecida da prova de nobreza dos quatro avós, como condição necessária para qualquer individuo ser admitido na ordem.

No fim deste reinado deu hospedagem o convento de Tomar a dois soberanos.

Rebentara a guerra da sucessão de Espanha, em que Portugal tomou partido pelo pretendente áquela coroa o arquiduque de Áustria Carlos. Chegou este príncipe a Lisboa em Março de 1704, intitulando-se Carlos III, rei de Espanha. Em maio puseram-se em marcha para entrar em campanha as tropas portuguesas e as inglesas, que tinham vindo com o arquiduque. Pouco depois saíram de Lisboa para o exercito os dois soberanos, e tomando o caminho de Santarém a Leiria, Coimbra e Guarda, entraram em Espanha. No seu regresso a Lisboa, depois de verem frustrados os seus planos, vieram poisar ao convento de Tomar, primeiro el rei D. Pedro II, e passados alguns dias o pretendente, de modo que só em Santarém se reuniram. Este príncipe chegou a ser aclamado rei em Madrid, mas afinal teve de desistir das suas pretensões, e mais tarde, por morte de seu irmão o imperador José II, subiu ao trono de Alemanha com o nome de Carlos VI.

Passados dez anos tornou o convento de Tomar a ser honrado com a visita do soberano de Portugal, mas desta vez foi visita festiva, e não a retirada de uma campanha mal sucedida. Agora era el rei D. João V, então na flor dos anos, acompanhado de seus irmãos, os infantes D. António e D. Manuel, e de um brilhante cortejo, que ali iam ver e admirar o monumento coevo com a fundação da monarquia a que estão associadas tantas memorias gloriosas.

Nesse século, como no actual, os fastos da afamada ordem de Cristo e do seu convento monumental apenas se limitaram a comemorar, como acontecimentos prósperos, a visita de príncipes; e, entre os adversos, os estragos que padeceu o edifício pela invasão dos franceses no ano de 1810, e por ocasião da sua retirada no ano seguinte. As cadeiras do coro, obra magnifica e de muito primor artístico, mandadas fazer por el rei D. Manuel, foram inteiramente destruídas e queimadas, servindo aos soldados de lenha para se aquecerem e fazerem a comida. Desapareceram alguma alfaias preciosas, que os freires não puderam levar consigo quando abandonaram apressadamente o convento á aproximação do inimigo. E no arquivo também foram grandes as perdas, desencaminhando-se muitos documentos valiosíssimos.

Desde então a decadência da ordem foi acompanhada da decadência do edifício. Tendo sido relaxada a clausura por uma reforma levada a efeito anteriormente àquele sucesso, e da qual fora encarregado o principal Castro, os freires vendo-se com liberdade de viverem fora do convento, principiaram a descurar u sua conservação, que pela vastidão do edifício era difícil e mui dispendiosa.

Assim começou a arruinar-se antes de ser desabitado; mas logo que ficou devoluto, pela extinção das ordens religiosas em 1834, as devastações dos homens e as injurias do tempo tem estendido a ruína a quase todas as partes daquele grandioso edifício. E estaria hoje todo por terra, sem dúvida com irreparável perda para a historia e para as artes, e com grande vergonha para este país, se não fossem os esforços, desvelos e perseverança do sr. conde de Tomar. Tendo comprado ao estado, em 1843, a cerca do convento e uma pequena porção deste, em tempo que era ministro do reino, cuidou logo em salvar da ultima destruição a parte do edifício que é monumento de arte e pertencia e ainda pertence á nação. Depois, aproveitando- se, a prol do monumento, da visita com que ali o honraram em 1843 suas majestades e altezas, a sra. D. Maria e el rei o sr. D. Fernando, e os dois príncipes que sucederam no trono áquelta soberana, projectou dar começo a obras, não só de reparação e conservação, mas também com que pouco a pouco se fosse restaurando, como se praticava no edifício da Batalha. Os acontecimentos políticos que sobrevieram obstaram a que tal projecto se efectuasse. Porém, desde que as paixões partidárias se foram acalmando, não tem cessado de requerer dos poderes públicos providências para a conservação de tão venerando edifício. E se não tem conseguido quanto seria para desejar, é certo que alguma coisa tem obtido, de que se estão vendo excelentes resultados.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

História: Templários em Portugal - 5ª parte - Ordem de Cristo - Descobrimentos




História

Templários

5ª parte

Ordem de Cristo - Descobrimentos


Não são concordes os nossos historiadores sobre o ano em que se levou a efeito a mudança da ordem de Cristo do castelo de Castro Marim para o de Tomar. É tal a divergência de opiniões que até discordam acerca do reinado em que se realizou aquele acontecimento. Dizem uns que fora em tempo de D. Afonso IV, e que a dita ordem apenas estivera em Castro Marim catorze anos, isto é até 1334. Outros põem este sucesso no mesmo reinado mas no fim dele, em 1356, um ano antes do falecimento daquele monarca. Querem outros que se efectuasse a mudança durante o governo del rei D Pedro I, sendo 6º mestre da ordem D. Nuno Rodrigues. Finalmente outros pretendem que isto sucedera no tempo do referido mestre, mas reinando já el rei D. Fernando.

lnclinámo-nos mais para esta ultima opinião, sem que todavia a julguemos incontestável, mas porque se nos afigura ter por si, á mingua de documentos que a todas faltam, maior numero de probabilidades.

Transferida, pois, a cavalaria de Cristo para o castelo e convento de Tomar, aí celebrou o mestre D. Nuno Rodrigues o quarto capitulo geral da ordem.

Nos primeiros anos que se seguiram á mudança da ordem para Tomar, não ocorreu sucesso algum notável com relação a esta cavalaria, exceptuando a eleição do mestre D. Lopo Dias de Sousa, por morte de D. Nuno Rodrigues. Esta eleição, porém, constituiu um caso novo e muito singular, porque D. Lopo não pertencia á ordem, e contava então apenas doze anos de idade. Cessará a admiração que isto deve causar aos nossos leitores dizendo-lhes que tão jovem mestre era filho de D. Maria Telles de Menezes, e por conseguinte sobrinho da rainha D. Leonor Telles de Menezes, que obteve del rei D. Fernando, seu marido tudo quanto a ambição e os seus caprichos lhe ditavam.

Não quis o papa Bonifácio IX aprovar semelhante eleição; mas tanto instou el rei por influencia da rainha, que afinal conveio o pontífice em confirmar a D. Lopo no mestrado de Cristo, sendo a ordem governada durante a sua menoridade por um administrador.

Todas estas resoluções que então pareceram a muita gente, e eram, sem dúvida escandalosas, consideradas porém como um precedente, deram em resultado, mais tarde, um grande esplendor para a ordem e imensos benefícios para o país, o que demonstraremos em lugar próprio. E aprouve também á Providência que a criança escolhida pelo régio favor para mestre de uma ordem de cavalaria tão autorizada e poderosa, viesse a tornar-se digna de tão alto cargo, pela nobreza e elevação do seu carácter, pelo valor do seu braço e pelo seu acrisolado patriotismo.

D. Lopo Dias de Sousa, de quem descendem os duques de Lafões e de Palmela, logo ao tomar posse do mestrado de Cristo, por ter completado os vinte e cinco anos, de idade, deu prova de possuir as qualidades que acima lhe atribuímos.

Achava-se a nação dividida em parcialidades que disputavam com as armas na mão sobre a sucessão da coroa por morte del rei D. Fernando. De um lado estavam os populares, capitaneados pelo mestre de Avis, e tendo hasteada a bandeira da independência e da liberdade; do outro lado achava-se D. João I, rei de Castela, que á frente do seu exercito e de bom numero de fidalgos portugueses, pretendia cingir a coroa de seu sogro, el rei D. Fernando.

D. Lopo não hesitou no partido que devia seguir. Não obstante ter no arraial castelhano sua prima co-irmã a rainha D. Beatriz, pretendente ao trono de Portugal, e a rainha D. Leonor, sua tia, partira de Tomar com um punhado de cavaleiros de Cristo, e veio sobre Torres Novas com o intento de a libertar do poder dos castelhanos. A empresa foi temeraria e o termo dela infeliz, porque declarando-se a vitoria pelo maior numero, o mestre de Cristo e os seus valentes companheiros foram destroçados e levados prisioneiros para Santarém onde jazeram até que o mestre de Avis, já aclamado rei de Portugal, e triunfante nos campos de Aljubarrota, os veio libertar.

Entretanto se as paredes de uma prisão impediram que o mestre D. Lopo se assinalasse nas batalhas que se pelejaram pela independência da pátria, não obstaram a que a ordem de Cristo participasse da gloria que alcançaram as armas portuguesas contra exércitos de Castela. O comendador mor de Cristo e os seus cavaleiros fizeram prodígios de valor memorável batalha de Aljubarrota.

Passados vinte anos ilustrou-se esta famosa milícia numa empresa não menos árdua e gloriosa, mas desta vez coube ao mestre D. Lopo tirar a desforra do impedimento que lhe pozeram quando o dever o chamava a combater pela pátria. Aquela empresa foi a conquista de Ceuta no ano de 1415.

Poucos anos sobreviveu a esta vitoria o mestre D. Lopo, e por sua morte sucedeu-lhe no governo da ordem o infante D. Henrique, duque de Viseu.

O infante não querendo sujeitar-se ao voto da pobreza a que seria obrigado na qualidade de mestre, pois que já todo estava entregue ao estudo da matemática, fantasiava empresas que demandavam avultados cabedais, valendo-se do precedente que se dera com ultimo mestre, durante a menoridade do qual a ordem fora governada por um administrador, obteve pontífice que o confirmasse no governo dela com o titulo de governador e administrador em 1418.

A nomeação do infante para tão importante foi ainda uma recompensa com que el rei D João I quis galardoar os serviços relevantes que seu intrépido filho prestara na expugnação da cidade de Ceuta.

Investido no governo da ordem de Cristo, passou D. Henrique a residir por algum tempo no castelo de Tomar, onde fundou para sua habitação uns Paços, que ainda existem, posto que arruinados, e conhecidos ao presente pela denominação de paço da rainha D. Catarina, em razão de ter nele residido por vezes esta excelente princesa, mulher del rei D. João III.

Durante a sua longa administração, o infante D. Henrique fez importantes obras no convento de Tomar, entre as quais avultam dois claustros, um sobretudo mais sumptuoso e mais belo, que ainda hoje é conhecido pelo nome do fundador. Todavia, essas obras materiais são um insignificante padrão da sua memoria, comparadas com os grandiosos cometimentos que o imortalizaram, ilustrando e dando celebridade ao mesmo tempo á ordem de cavalaria que teve a fortuna de o ter por chefe.

Ao cabo de algum tempo, que não excedeu a três anos, consagrado a melhorar o governo da ordem e reconstruir e ampliar os seus edifícios, cedendo ao amor do seu estudo predilecto, e a uma força oculta, sem dúvida a mão da Providência, que o impelia para as empresas marítimas, trocou a residência Tomar, onde o cercavam honras, poder, grandeza e fausto quase soberanos, pelo inóspito promontório, onde lançara, logo depois do seu regresso de Ceuta, os fundamentos da sua vila de Sagres. Chegado aí, tratou de se habilitar para realizar o vasto e audacioso plano que concebera. Criou escolas de matematica, de cosmografia e de navegação, erigiu um observatorio astronómico, fundou oficinas de construcão naval e chamou junto de si os homens distintos naqueles ramos dos conhecimentos humanos, que lhe foi possível atrair a Sagres, à forca de liberalidades de príncipe.

Quando viu que de todos estes esforços simultâneos começavam a aparecer os desejados frutos, deu principio ás tentativas que mais tarde se tornaram em descobrimentos importantíssimos, através do Oceano.


A maior parte dos cabedais que se despenderam para os levar a efeito; alguns dos nautas encarregados dessas árduas missões; e finalmente, as bandeiras que flutuavam em todas as embarcações enviadas ao descobrimento de novos mares e de novas terras, pertenciam á ordem de Cristo.

De tão nobre e generoso esforço somente quis o infante para si a gloria, de modo que do imenso proveito que dele resultou colheu a ordem a parte principal de envolta tambem com muita honra e fama.

El rei D. Afonso V, por caria de doação passada no ano de 1454 e confirmada por bulas do papas Nicolau V e Calisto III, concedeu à ordem de Cristo a espiritualidade das terras conquistadas e por conquistar, como se Tomar fosse, palavras formais da doação. Quer isto dizer que desde então lhe pertenceriam a jurisdição espiritual dessas terras, com todos os rendimentos que andavam anexos a semelhante poder. Por conseguinte o encargo que a doação régia cometeu á ordem de Cristo de fundar igrejas e evangelizar em todas as terras que á sua custa tivesse descoberto e fosse descobrindo, foi-lhe amplamente compensado com a vastidão de seus domínios, com as avultadas rendas que deles auferia, e com o imenso prestigio, autoridade e influencia que daí lhe provinha.

Celebrou o infante D. Henrique em Tomar o quinto capitulo geral da ordem. Por sua morte, acontecida no ano de 1460, sucedeu-lhe no governo desta milícia, com o mesmo titulo de administrador e governador, seu sobrinho e herdeiro o infante D. Fernando, filho del rei D. Duarte, irmão de D. Afonso V e pai del rei D. Manuel.

Governou este príncipe a ordem por espaço de dez anos, seguindo os exemplos e continuando no mesmo empenho do seu antecessor. A sua morte precoce, deu ocasião a um caso ainda mais singular que o que aconteceu na eleição de D. Lopo Dias de Sousa. Sendo nomeado para lhe suceder naquele cargo seu filho D. João, de mui tenra idade, a infanta D. Beatriz, sua mãe, solicitou e obteve do sumo pontífice, uma bulia que a investiu no governo da ordem de Cristo durante a menoridade de seu filho.

Por morte de D. João, 3º duque de Viseu, falecido muito novo, sucedeu-lhe no mestrado seu irmão D. Diogo, que foi 4º duque de Viseu. Este príncipe morreu na flor da idade, assassinado em Setúbal por el rei D. João II, seu primo, que o achou cúmplice no crime de conspiração contra a sua pessoa. Sucedeu-lhe na casa e no cargo de governador e administrador da ordem de Cristo seu irmão D. Manuel, duque de Beja.

Aqui principia um novo período de engrandecimento e de lustre para a ordem de Cristo. O duque de Beja pouco tardou em subir ao trono de Portugal, e a estreia do seu reinado foi como todos sabem a descoberta da Índia e do Brasil, ás quais se seguiu uma série não interrompida de descobrimentos e de conquistas. E a todas essas empresas gloriosas andou sempre associada a ordem de Cristo, porque se despendia nelas todos os rendimentos do mestrado, e porque muitos dos heróis que as conduziam levavam no peito a cruz vermelha divisa de tão esclarecida cavalaria.

Não trocou D. Manuel o governo da ordem pelo ceptro de Portugal. Conservou aquele em todo o seu reinado. Durante os trinta e sete anos que presidiu aos destinos da milícia de Jesus Cristo, residiu por vezes em Tomar, celebrou aí capítulos gerais em 1492 e 1503, em que se fizeram importantes reformas nos estatutos ou constituição da ordem, procedeu a obras de construção de muita sumptuosidade da igreja e convento da ordem, criou com a aprovação do papa Leão X, muitas comendas novas na mesma ordem para com elas recompensar os grandes serviços prestados pelos seus vassalos na dilatação do domínio português na África, na Ásia e na América, e finalmente fundou por conta da ordem, e para ficarem sujeitas á sua jurisdição, inumeraveis igrejas em todas essas terras d'além mar.

História: Templários em Portugal - 4ª parte - Ordem de Cristo - Castro Marim e Salado


História

Templários

4ª parte

Ordem de Cristo - Castro Marim e Salado


Posto que a instituição da ordem de cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo fosse celebrada solenemente em Santarém a 14 de maio de 1320, só no ano seguinte é que se estabeleceu em Castro Marim, em razão das obras a que se procedeu dentro do castelo para acomodação dos cavaleiros, para os exercícios do culto divino e serviço da ordem.

Pela bula da sua instituição foi determinado que se regeria esta ordem pela regra de S. Bento e reformação da de Cister, ficando sujeita á visitação do dom abade geral do mosteiro de Alcobaça, da dita ordem de Cister ou de S. Bernardo.

Assim que a ordem se instalou em Castro Marim, fez o seu mestre D. Fr. Gil Martins a constituição pela qual se havia de reger a nova milícia. Passados cinco anos foi ampliada esta constituição, e no decurso do tempo por varias vezes a reformaram os mestres segundo as necessidades da época e sempre com a aprovação do dom abade do mosteiro de Alcobaça.

O habito primitivo dos cavaleiros assemelhava-se, segundo parece, ao de que usava a ordem de Calatrava em Castela. com escapulario branco- Em 1330 acrescentou-se-lhe a cruz vermelha. e no capitulo celebrado em Tomar no ano de 1503, a que presidiu el rei D. Manuel, foi ordenado o habito na forma de um manto branco que cobria todo o corpo do cavaleiro, de maneira que, para servir-se das mãos, era mister traze-lo arregaçado, só dos lados sobre os braços. No lugar correspondente ao peito, tinha o manto uma cruz vermelha, mas só parecida com a dos templários na cor não no feitio. A destes era composta de quatro braços iguais, cujas pontas quase se tocavam descrevendo um circulo. A cruz dos cavaleiros de Cristo tinha então como hoje tem o distintivo desta ordem. que todos conhecem. dois braços mais curtos que a haste. A cruz vermelha tinha dentro em si outra, fendida, que a alvura do manto fazia branca; e que nas veneras actualmente usadas pelos cavaleiros e comendadores é feita de esmalte branco.

Eram cinco (?) as dignidades da ordem. A de mestre era a primeira e principal. Seguia-se-lhe a de dom prior mor do convento de Tomar, que, em conformidade com os estatutos, tinha a seu cargo o governo temporal do convento, e exercia jurisdição espiritual em todos os membros da ordem em qualquer parte que se achassem. Incumbia-lhe, por morte do mestre, convocar o capitulo geral para a eleição do novo mestre, chamando por cartas os cavaleiros ausentes, e tomando ao novo prelado o juramento de fidelidade e obediência ao sumo pontífice. A terceira dignidade era a de comendador mor, ao qual pertencia o governo da ordem quando por falecimento do mestre, o dom prior mor se achava ausente ou enfermo. Nos actos de solenidade a que assistia o mestre, gozava este da preeminencia de ter ou levar diante de si o comendador mor com um estoque desembainhado ao ombro, pegando-lhe pela ponta. Era claveiro a quarta dignidade. Tinha a seu cargo as chaves do convento, a administração e distribuição dos mantimentos e a fiscalização da despesa. A quinta dignidade era a de sacristão mor, o qual cuidava de tudo quanto dizia respeito ao serviço de ornamentação do templo e durante o capitulo tinha em suas mãos os selos da ordem. Alferes da ordem de Cristo era, finalmente a sexta e ultima dignidade O alferes levava a bandeira da ordem nos actos solenes em que o mestre comparecia, tais como nas procissões e na guerra em que esta milícia tomava parte. A bandeira era quadrada, de cor branca, e tinha no centro a cruz vermelha da ordem, na forma por que acima a descrevemos.

Tomaram posse os cavaleiros de Cristo do castelo de Castro Marim, com o firme propósito em desempenho do seu instituto de combater os infiéis que dominavam na vizinha Andaluzia e nas terras fronteiras d'além mar. Porém, antes que se lhes proporcionasse ocasião de medirem as suas armas com as dos sarracenos, tiveram de se defender em apertado cerco, e com encarniçada luta, no seu próprio castelo, contra hostes cristãs.

Casara el rei de Castela D Afonso XI com a infanta D. Maria filha do nosso rei D. Afonso IV; porém, rendendo-se logo depois em desordenada paixão á formosura de D. Leonor Nunes de Gusmão, esqueceu-se em breve de todos os deveres conjugais. Incendido cada vez mais nesses amores escandalosos, com tantos desprezos e afrontas tratava a rainha, que este procedimento deu origem, primeiro, a representações e queixas de seu sogro el rei D Afonso IV, e depois ao rompimento de uma guerra porfiosa.

Rebentou a luta em diferentes pontos da fronteira, de modo que, ao mesmo tempo que as tropas portuguesas entravam triunfantes por uma província de Castela, levando tudo a ferro e a fogo, invadiam os castelhanos o nosso país por outra parte, devastando quanto encontravam na passagem.

Saíram a oporem-se a uma destas invasões, sucedidas na província do Minho, o arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira, e o bispo do Porto, á frente de pouco numerosa mas valente hoste, e o mestre da ordem de Cristo D. Estêvão Gonçalves Leitão, com os seus intrépidos cavaleiros. Foi tão glorioso para as armas portuguesas o resultado da acção, tamanho destroço experimentou o inimigo, perdendo, além das bagagens e de grande numero de prisioneiros, trezentos homens mortos no campo, entre os quais se contava um dos seus comandantes, D. João Rodrigues de Castro, que o rei de Castela jurou vingar se dos cavaleiros de Cristo, que pelo seu valor mais que os outros tinham contribuído para semelhante vitoria. Foram portanto a vila e castelo de Castro Marim como assento da ordem de Cristo o alvo da vingança castelhana.

O inimigo transpoz o Guadiana, atravessou o Algarve, e apresentou se inesperadamente diante dos muros de Castro Marim. Achava- se a praça mal guarnecida, porque a maior c melhor parte dos cavaleiros andava ocupada no extremo oposto do reino a castigar a ousadia do inimigo. Souberam, porém, resistir galhardamente os defensores da praça, auxiliados pelos habitantes da vila, mas este triumfo custou a perda de setenta portuguezes dos arrabaldes da villa, que os castelhanos levaram prisioneiros, e cento e oitenta que deixaram mortos na praça e fora dela.

Fora pequena a vingança para os rancores de Afonso XI. Assim tratou sem demora de aprontar mais numeroso e valente exercito, ao qual cometeu a empreza de destruir até aos fundamentos aquele baluarte de valorosos guerreiros, diante dos quais recuavam vencidos os leões de Castela.

Reunidas pois numerosas tropas, talvez o mais poderoso exercito castelhano que naquella campanha transpoz as fronteiras de Portugal, o inimigo entrou no Algarve junto á villa de Alcoutim e assolando tudo na passagem, para que o terror o precedesse e lhe facilitasse os triumfos marchou rapidamente sobre Castro Marim.

Desta vez não estava a praça desprevenida, antes pelo contrario, achava-se perfeitamente apercebida para uma resistencia a todo o transe. O ataque anterior pozera a ordem de Cristo de sobreaviso. O mestre D. Estêvão Gonçalves Leitão, logo que teve noticia do primeiro acometimento dos castelhanos, e do modo, vergonhoso para elles, por que um punhado de cavaleiros de Cristo lhes fez rosto com tanta gentileza, frustrando-lhes completamente o intento, previu que o orgulho de Castella não tardaria a vir mais temivel e reforçado buscar a desforra contra a ordem que o humilhára. Tratou, portanto, de se recolher a Castro Marim com todos os seus cavaleiros; e desde que aí chegou, não pensou nem lidou em outra coisa senão em dispor todos os meios para a defensa da praça,

Quando o inimigo, apenas chegado, investiu com as muralhas da villa, que crêra levar do primeiro assalto, tal era a confiança que tinha no seu grande poder, ficou desconcertado vendo-se repelido com extraordinaria perda de mortos e feridos. Crescia o seu assombro todas as vezes que empenhava em novo assalto mais vigoroso e decidido esforço; a sorte era sempre a mesma, sempre repelido e desbaratado.

Ao cabo de muitos dias de assedio, e de rijos e sucessivos combates, vendo baldadas todas as suas tentativas e tanto sangue castelhano derramado inutilmente, levantou cerco o general inimigo, e lá foi saciar nas povoações indefesas a vingança dos danos recebidos no campo da batalha em combate leal. O exercito castelhano regressou ao seu país depois de ter exercido crueis devastações nos suburbios de Tavira, em Faro, Loulé e outras terras. Todos estes successos se passaram no ano de 1335, em que D. Estêvão Gonçalves fora elevado á dignidade de mestre.

Os perigos por que passara a ordem de Cristo em questões alheias ao seu instituto, durante o curto periodo do seu estabelecimento em Castro Marim, o esforço sobrehumano que foi mister empregar para sair victoriosa sendo o inimigo tão poderoso e a praça tão fraca, por mal fortificada, a impossibilidade, ou pelo menos dificuldade de a tornar tão forte quanto o pediam a segurança e o decoro de uma corporação que, além de fazer vida da guerra por preceito religioso, lhe cumpria sustentar, em toda a sua altura a fama gloriosa da ordem de cavallaria de quem era herdeira e representante; todas estas considerações resolveram o mestre D. Estêvão Gonçalves a diligenciar a mudança da ordem para lugar mais conveniente.

Representou pois a el rei D. Afonso IV alegando por um lado as razões que aconselhavam esta mudança, e por outro lado as vantagens que ofereciam o castelo e villa de Tomar, tanto para segurança como para comodidade e lustre da ordem. A circunstancia de ser um ponto central e não estar longe de outros castelos tambem pertencentes á ordem de Cristo, o que collocava esta em estado de melhor poder defender-se a si propria e ao reino, no caso invasão inimiga; aquela circunstancia, repetimos, habilmente explorada pelo mestre. Não anuiu el-rei ao requerimento de D. Estêvão, apesar de se compenetrar das razões que lhe serviam de fundamento. Parece que receou oposição da sede pontificia, estando ainda recentes a catastrofe dos templários, e as duvidas do papa em instituir uma ordem que herdeira daquela, e até certo ponto sua representante.

Perseverando pois a ordem de Cristo em Castro Marim, não tardou a illustrar-se novamente parte activa e conspicua em uma das mais celebradas vitorias das armas portuguesas.

Os moiros de Africa e de Hespanha, sabendo os reis cristãos da peninsula andavam envolvidos em guerras entre si, julgaram ser ocasião propicia avassalar de novo os reinos que os campeões da cruz tinham subtrabido ao seu

Reunindo em um só corpo todos os homens dessas diferentes monarquias sarracenas, e animando-se com um supremo esforço, dispozeram-se os infiéis para dar principio á empreza, invadindo a Castella com um dos mais poderosos exercitos que tem pisado terras da peninsula.

Então é que D. Afonso XI caiu em si, arrependendo-se de ter sacrificado tantas vidas preciosas, e malbaratado tanto dinheiro em lutas mais caprichosas que honrosas para a sua coroa e para a nação. Dando de mão, em tais apuros, ao orgulho e aos caprichos, humilhou-se ante a esposa a quem tanto até então ultrajara, e patenteando-lhe o perigo que ameaçava derrubar o seu trono e reduzir seus vassallos á escravidão, pediu-lhe encarecidamente que fosse em pessoa solicitar del rei, seu pai, perdão para ele dos agravos que lhe tinha feito, e socorro a prol dos seus reinos e da cristandade.

A rainha D. Maria esquecendo-se de um longo passado cheio das mais pungentes afrontas que se podem fazer ao coração de uma esposa, veio pressurosa a Portugal. Ora procurando persuadir com razões, ora suplicando com lagrimas, logrou mover o animo del rei D. Afonso IV em favor da pretensão que a trazia aos braços paternais.

Juntou el rei á pressa as suas tropas, e, colocando-se á frente dellas poz-se a caminho de Sevilha, a reunir-se com o exercito castelhano, que era comandado pelo rei D. Afonso XI. Pouco depois encontraram-se os exercitos cristãos com os infiéis. Travou-se o combate proximo do Salado, rio que corre na Andaluzia entre as cidades de Sevilha e Granada. Era desigual a força dos combatentes, pois que as tropas musulmanas excediam muito em numero as cristãs. Mas com tal ardor e entusiasmo se precipitaram estas sobre o inimigo, que rompendo-lhe as fileiras, envolvendo-as e desordenando-as, viram alfim o seu arrojo coroado pelas palmas da vitoria 28 de outubro de 1340.

Fugiram os sarracenos, deixando no campo muitos milhares de mortos e prisioneiros, contando- se entre estes um principe; e no seu arraial, que todo caiu em poder dos vencedores, um riquissimo despojo, de que o nosso rei D. Afonso IV não quiz para si mais que algumas bandeiras que mandou collocar na sé de Lisboa e uma trombeta que, depois da sua morte, foi posta sobre o seu tumulo na capela mor da mesma igreja.

Tiveram os portuguezes a mais gloriosa parte neste memoravel triumfo, e de entre as hostes de Portugal a que mais se estremou em acções de valor e coragem foi a dos cavaleiros de Cristo, capitaneada pelo seu 4º mestre, D. Estêvão Gonçalves Leitão.

História: Templários em Portugal - 3ª parte - Ordem de Cristo



História

Templários

O Fim da Ordem do Templo e o Nascimento da Ordem de Cristo


Pouco depois de rebentar em França a perseguição contra a ordem do Templo, em todos os países católicos onde esta ordem existia, instaurou-se processo contra seus cavaleiros por determinação pontifícia.

Foi convocado em Salamanca um concilio de todos os bispos de Espanha e Portugal a que presidiu o arcebispo de Toledo D. Gonçalo, para inquirirem da vida e costumes dos templários da península.

Em quanto funcionava este tribunal eclesiastico, reconhecendo desde logo el rei D. Dinis que a ruína da ordem do Templo era irremediável, pois que á sua perspicácia não escaparam certas circunstancias que lhe revelaram esse sucesso, que se preparava como negocio ajustado e resolvido entre Filipe IV de França e o papa Clemente V, no momento ou talvez antes da sua elevação ao pontificado, não se limitou a mandar devassar dos usos e costumes dos templários em todas as terras do reino onde tinham residência, o que lhe cumpria fazer em observância da bulia que a este respeito lhe enviara o pontífice. O monarca português, com a prudência e bom senso que distinguiram o seu governo, ordenou que ao mesmo tempo que se inquirisse da vida dos templários, se tirasse uma larga inquirição das jurisdições da ordem, das proveniencias dos seus bens, e das preeminencias que os Reis de Portugal sempre tiveram sobre ela.

El rei D. Dinis não tinha razões de queixa dos templários, antes pelo contrario, estava tão convencido dos bons serviços que o seu reino lhes devia. que por varias vezes. de seu motu proprio lhes deu provas da estima e munificencia régias. Porém, obedecendo como bom filho da igreja ao vigário de Jesus Cristo no que tocava aos negócios espirituais e puramente eclesiasticos, tratou de se premunir com os documentos necessários para se opor quando se apresentasse a ocasião que esperava, ás invasões da curia pontificia nos direitos da coroa portuguesa.

O resultado do inquérito foi favorável o mais possível aos cavaleiros do Templo portugueses. Entre tão grande numero de testemunhas chamadas a juízo, nenhuma os acusou de corrupção nos costumes, nem de heresia ou idolatria. Quanto á primeira culpa livrou-os sem dúvida de caírem nela duas circunstancias especiais que não se davam em França nem em outros paises do centro da Europa. A guerra sem tréguas em que andaram ocupados os portugueses, e, por conseguinte, os templarios, desde a fundação da monarquia e introdução da ordem neste reino até á expulsão final dos moiros para além das praias do Algarve, no reinado de D. Afonso III, não era tempo azado para corrupção de costumes. Este virus introduz-se ordinariamente no corpo social, ou em quais quer congregações de homens, quando o ócio lhes abre a porta, e não enquanto os cuidados e o trabalho lhes entretém o espírito e lhes dá ocupação aos braços.

Quanto ás outras culpas de heresia ou idolatria, ninguém se lembrou de acusar os nossos templários nem apareceu vestígio algum, antes ou depois da extinção da ordem, que pudesse servir de prova da sua cumplicidade em semelhantes delitos.

Tendo-se pois concluído a devassa, sem que os templários portugueses ficassem nela culpados, não permitiu el rei D. Dinis que fossem perseguidos. E quando este soberano, em virtude da extinção da ordem decretada pelo concilio de Vienna em 1312, se viu obrigado a intimar os cavaleiros para saírem das suas residências e largarem os hábitos de templários, a todos deu casas em que se agasalhassem provendo também á sua subsistencia.

Em seguida mandou el rei tomar posse por conta da coroa de todas as casas ou templos, castelos, senhorios e mais bens que haviam pertencido á ordem.

A este tempo já el rei andava em grande contestação com o papa sobre os bens dos templários. O pontífice queria dispor a seu bel prazer daqueles que lhe parecesse, incorporando o restante deles nos da ordem de cavalaria de S. João de Jerusalém. E era esta ultima aplicação a que o citado concilio determinara para a totalidade dos bens dos templários. El rei D Diniz protestando contra semelhante usurpação, e pugnando energicamente pelos direitos da sua coroa, recusava obedecer neste ponto ao papa e ao concilio,

Alegava D. Dinis que a maior parte dos bens da ordem provinham de doações régias, feitas com a condição expressa de se empregarem os seus cavaleiros na defensa do reino contra os moiros, e na conquista dos territórios por eles ainda então ocupados; e que noutra parte era proveniente de legados que, se não tinham aquela clausula explicita, eram todavia ditados pela mesma intenção. Portanto, sendo a ordem extinta, e tendo deixado de existir a intenção, a causa e o motivo pelos quase aqueles bens se haviam desmembrado da coroa, agora lhe pertenciam por direito de reversão.

Insistia o papa em querer que prevalecesse a tudo a sua autoridade e os seus pretendidos direitos; e, tentando pô-los em execução. fez doação do castelo de Tomar ao cardeal Bertrando.

Opos-se D. Dinis a esta doação, e sustentou a luta com a cúria pontifícia ainda por alguns anos. durante os quais entraram nos cofres do estado todos os rendimentos da extinta ordem do Templo.

Enfim, o ilustrado e patriótico soberano português achou um meio de conciliação que mandou propor ao papa e que por este foi aceite, graças á sabedoria, resolução e firmeza com que D. Dinis soube sustentar a dignidade e direitos da sua coroa e a honra e interesses da nação.

Propoz D. Dinis que, em reformação da ordem do Templo em seu reino ,fosse instituída uma nova milícia de cavaleiros de Jesus Cristo, para lidarem também como os da extinta ordem na defensa da fé, na guerra contra os moiros e no acrescentamento da monarquia portuguesa, entregando-se-lhes todos os bens dos templários. E para cortar quaisquer dúvidas e objecções plausíveis que a cúria pontifícia poderia opor, declarava el rei que para colocar a nova ordem na fronteira do seu reino, o mais perto possível de terras de infieis, de modo que ficasse perfeitamente habilitada para desempenhar as obrigações do seu instituto, lhe faria doação do castello de Cástro Marim, excellente fortaleza situada junto á costa do Algarve, defronte de Africa.

Não havia que impugnar tão justa pretenção, O papa João XXII, que então ocupava a cadeira de S. Pedro, expediu a bula de 14 de março de 1319, que instituia a ordem de cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo em Portugal, na forma proposta por el rei D. Dinis.

Achava-se este monarca nos seus paços da Alcaçova em Santaremc quando chegaram com a referida bula os procuradores que ele havia mandado ao papa para advogarem a sua justiça e os interesses da nação naquela porfiosa demanda.

Cheio de satisfação por ver alfim coroados os seus esforços, el rei D. Dinis celebrou a ceremonia da instituição da ordem com toda a solenidade, em um dia de maio de 1320, na presença de toda a corte e de D. Gil Martins, mestre que então era da ordem militar de S. Bento de Avis, ao qual logo ali investiu no cargo de 1º mestre da nova ordem de Cristo, conforme vinha determinado na bula pontifícia.

Todas as propriedades. senhorios. jurisdições e mais bens que tinham pertencido á ordem do Templo, foram por el rei entregues á ordem dos cavaleiros de Jesus Cristo, menos os rendimentos que entraram nos cofres da coroa durante os oito anos da contestação del rei com o papa, que era o tempo que tinha decorrido desde o ano de 1312, em que a ordem do Templo fora abolida. Desses rendimentos houve el rei solene quitação dada pelo mencionado mestre D. Gil Martins, na qual se declarava que em compensacão deles, recebia a ordem de Cristo a vila de Castro Marim.

Tratou-se imediatamente e com a maior actividade, da fundação do convento dentro do castelo de Castro Marim para habitacão dos cavaleiros de Cristo; e assim que o edificio se achou em circunstancias de lhes dar agasalho, foi a nova milícia ali estabelecer a sua séde.

A maior parte dos cavaleiros templários foram admitidos e professaram na ordem de Cristo, incluindo o seu ultimo mestre D. Vasco Fernandes, que foi feito eommendador de Montalvão e viveu até ao anno de 1323.
Tal foi a origem dessa famosa cavalaria, que tão longe e com tanta gloria levou o nome de Portugal e a luz do Évangelho, que tão celebre se fez na historia universal dos povos pelos descobrimentos arrojados que efectuou ao aceno do imortal infante D Henrique seu administrador e governador.

História: Templários em Portugal - 2ª parte

História


ORDEM DO TEMPLO EM PORTUGAL


2ª parte




FUNDAÇÃO DO CASTELO DE TOMAR 


Voltando ao ponto de que nos afastou a historia e descrição da igreja de Santa Maria do Olival, achámos a D. Gualdim Pais ocupado a procurar lugar apropriado para a fundação de um castelo. Ofereceu-lho tal qual o podia desejar um monte que se ergue na margem direita do Nabão, com duas vertentes íngremes e alcantilado e cortado quase a prumo para o lado de uma extensa planície á qual fica sobranceiro.

Agradado do sitio pela fortaleza natural dele, pela fertilidade dos terrenos circunvisinhos, e por não ficar muito distante da igreja de Santa Maria do Olival, que se lhe levanta defronte e á vista na margem esquerda do rio, o mestre dos templários deu ali principio com toda a actividade á construção do castelo.

Apesar da ignorância e barbaridade dos tempos, lembraram-se de comemorar não só o ano mas até o dia em que teve começo esta obra, circunstancia que muitas vezes deixou de ser atendida em fundações importantes e em épocas que já se presumiam de civilizadas.

Em uma lapida que se acha embebida na parede da igreja, ao lado da porta principal e sobre o tabuleiro das escadas, lê-se a seguinte inscrição em letras góticas:

E.M LX, VIII: Regnante: Alphonso Illustrissimo Rege Portugalis: 
Magister Gualdinus: Portugalensium Militum Templi: cum Fratribus suis Primo die Martii: cepit: edificare Hoc Castellum: Nomine Thomar: quod Prefatus Rex obtulit Deo: et Militibus Templi. 

Diz em vulgar: «No primeiro dia de Março do ano 1198, reinando Afonso ilustríssimo rei de Portugal, Gualdim, mestre dos cavaleiros do Templo em Portugal, começou juntamente com os seus freires, a edificar este castelo, cujo nome é Thomar; o qual, estando acabado, el rei o ofereceu a Deus e aos cavaleiros do Templo».

Fr. Bernardo da Costa, na sua Historia da militar ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, impressa em 1771, toma a data da inscrição por 1168, e sobre esta base falsa assenta uma serie de considerações e juízos absolutamente errados. O travessão que se vê sobre a letra X da referida data, como aqui pomos, quer dizer que se deve contar o mesmo X como quarenta, e não pelo seu simples valor de dez. Assim fica sendo aquela data 1198, era de César, então geralmente adoptada e seguida, a qual corresponde á de 1160 do nascimento de Cristo.


Esta e outras abreviaturas, usadas mais ou menos nas inscrições góticas, dando ocasião a interpretações erróneas, tem originado muitas controversas intermináveis por buscarem conjecturas para argumentos quando bastaria uma palavra que, decifrando o enigma, esclarecesse a questão e acabasse com as disputas.

Ao mesmo tempo que iam crescendo as paredes do castelo, fundava D. Gualdim Pais uma povoação por baixo da mesma fortaleza, na planície que se estende entre a raiz do monte e o rio.  A ambas deu o nome de Tomar, que até então era o do rio, passando este a denominar-se Nabão, nome que tinha antes da invasão dos moiros, e lhe provinha da cidade de Nabancia, que se erguia como dissemos em outro lugar, na sua margem esquerda. Os moiros, que, depois na conquista do nosso país mudaram ou apropriaram á índole da sua língua os nomes das terras, dos rios e das montanhas, chamaram ao Nabão Thomar ou Thamar, que quer dizer agua doce e clara.

Passados dois anos concedeu o mestre do Templo foral, com muitos privilégios e isenções, á povoação que fundara, e que n esse tempo contava bastantes casas e um bom núcleo de moradores. O foral a que D. Gualdim Pais chama carta de Firmidoem de direito, tem a data de Novembro de 1200, que é o ano de Cristo de 1162.

A nova de tal regalia, a fama guerreira dos cavaleiros do Templo, e a sombra tutelar de tão forte castelo, em breve atraíram á nascente povoação muitas famílias vindas de longes terras.

A ordem do Templo já então se achava poderosa pelas doações feitas pela rainha D. Teresa e por seu filho el rei D. Afonso Henriques, e por nós mencionadas em lugar próprio. Porém, depois que se instalou no seu alcaçar de Tomar, engrandeceu- se mais e com maior rapidez, crescendo de dia para dia em senhorios, influencia, poder e gloria.

Aquele triste e sabido acidente que sobreveiu a D. Afonso Henriques numa das portas de Badajoz, quando pelejava contra os leoneses, foi causa dos rápidos progressos dos templários durante este reinado. Aquele soberano, vendo-se impossibilitado de prosseguir na guerra contra os moiros, primeiramente por ter quebrado uma perna e ficado prisioneiro de seu genro, D. Fernando II, rei de Leão; e depois de recobrada a liberdade por causa do longo curativo a que teve de sujeitar-se, e que por fim lhe deixou a saúde enfraquecida, encarregou os seus briosos templários não só da guerra e defensa das fronteiras do sul do seu reino, mas também da continuação das suas empregas guerreiras contra os infiéis. Como recompensa, para mais lhes excitar o ardor, fez-lhes doação da terça parte das terras que conquistassem além do Tejo.

Tais estímulos para quem já os tinha tão fortes nas tradições gloriosas da ordem, nos preceitos da regra, nos seus hábitos e ideias cavaleirosas, enfim, na sua própria e natural ambição de gloria, impeliram a D. Gualdim Pais e aos seus templários de facção em facção, de batalha em batalha, com tamanho arrojo e valor, que em breves anos estava quase todo o Alentejo expurgado de sarracenos, e a cruz de Jesus Cristo campeando triunfante sobre importantes praças pouco antes mouriscas.



No meio deste brilhante período da sua existência, foi a ordem do Templo sobresaltada por um grande perigo, que ameaçou sepultar em uma terrível catástrofe todos os loiros por ela colhidos a troco do sangue de seus filhos.

O malogro da expedição do imperador de Marrocos Yusuf Abu Yacub, quando em 1184, transpondo o Mediterraneo com exercito numeroso e unido aos sarracenos da Hespanha, tentou amparar na península o império mauritano, que se aluía e derrocava aos vigorosos impulsos do nosso primeiro rei; o vergonhoso destroço daquele soberano diante dos muros de Santarém, onde foi vencido por um punhado de valentes e o seu grande exercito disperso; a sua morte em Algeciras, ocasionada pelas feridas recebidas naquele memorável combate (24 de Julho de 1184); enfim, todas estas perdas e afrontas armaram de ira e desejo de vingança a Yusuf Abu Yacub, filho e sucessor daquele soberano. Porém uma revolta dos seus próprios estados obstou ao cumprimento dos seus desígnios. A rebelião assumiu proporções tão grandes, ameaçando substitui-lo no trono por um seu irmão, que foram precisos alguns anos para a vencer e sufocar completamente.

Enquanto estas coisas se passavam, o bravo sucessor de D. Afonso Henriques, el rei D. Sancho I, levando as suas armas vitoriosas ao coração do Algarve, ultimo refugio dos sarracenos nesta parte da península, assaltara e fizera render ao domínio da cruz Silves, a torreada e populosa capital do Algarve.

Esta vitoria do rei português, coincidindo com o vencimento da revolta em Marrocos, acendeu de novo e com mais força no peito do imperador muçulmano o seu entranhado ódio contra os cristãos.

Yusuf Abu Yacub entregou-se então de corpo e alma aos preparativos da guerra, com um ardor que parecia delírio. Era um esforço extremo e desesperado, não só para saciar no sangue dos campeões de Cristo a vingança de tantos agravos, mas também, e principalmente, para opor um dique aos triunfos sucessivos das armas cristãs; para levantar o espírito dos muçulmanos do abatimento em que o lançaram tão continuadas desditas; para impedir, finalmente, que se apagasse na península o facho do Alcorão, que de dia para dia se amortecia despedindo de si já frouxos raios.

Toca-se pois a rebate por todas as terras de Marrocos, pregando-se a guerra santa e chamando-se ás armas a mocidade. Partem emissários para todas as cortes muçulmanas da Hespanha, incitando- as a disporem-se para a luta em defensa comum.

Congregaram-se, alfim, todos os elementos de destruição. O horizonte politico de Portugal carregou-se de negras nuvens, e o trovão precursor da tempestade ribombando ao longe, deu o alerta a todos os portugueses.

A noticia da tremenda invasão que estava prestes a romper as fronteiras do reino, foi correndo de boca em boca até chegar aos mais recônditos lugares do país. El rei D. Sancho I recolheu-se a Santarém com os guerreiros que lhe foi possível reunir, julgando que o inimigo se dirigia desta vez como da outra, com preferência a esta forte praça de guerra. Os habitantes dos campos e das povoações indefesas, levando consigo o mais precioso do seu móvel, buscaram refugio nas fortalezas mais próximas. E os alcaides e senhores de castelos prepararam-se para uma resistência a todo o transe.

O exercito marroquino que passara o estreito na primavera do ano de 1190, engrossado na Andaluzia com as hostes vindas de Córdova, de Granada, de Sevilha e de outras cidades sarracenas, caminhando a marchas forçadas já no interior de Portugal, atravessou o Tejo em fins de Junho, e deixando Santarém na retaguarda, acomete e toma o castelo de Torres Novas, e, sem perder tempo, apresenta-se de improviso diante do castelo de Tomar.

Para que o precedesse o terror, Yacub levava adiante de si o facho da assolação. A sua passagem ficava assinalada por toda a parte com o incêndio, o saque e o morticínio.

Os templários e quantos infelizes se acolheram á sua fortaleza, viram, com dor de alma, de cima das ameias, o fogo reduzindo a povoação vizinha a um montão de ruínas, e tornando em cinzas as searas, que já lourejavam em volta da casaria de Tomar.

Por seis dias sucessivos foi o castelo combatido com repetidos assaltos, em que as hostes inimigas se renovavam de instante a instante, conservando por conseguinte sempre frescas as forças e sempre vigoroso e encarniçado o acometimento.

Parece incrível como podiam resistir tão poucos defensores do castelo contra tão numerosos inimigos. Mas tal era o valor dos templários; tais a coragem e presteza com que corriam de um ponto a outro, onde o perigo mais urgia; tamanho o amor que os prendia á sua casa capitular; tão viva e arraigada em seus corações a fé no auxilio divino; que o seu esforço foi invencível, logrando zombar de todo o poder do imperador de Marrocos e dos soberanos seus aliados.

A mesma lapida em que está a inscrição comemorativa da fundação do castelo tem gravada por baixo a inscrição que comemora aquele cerco e gloriosa defensa. Diz assim em letras góticas e no latim bárbaro daqueles tempos.

Era MCCXXVIII: m Nonas Julii 
Venit Rex de Marroquis ducens cccc 
Milia equitum et quingenta milia peditum: et obsedit castrum istud per sex dies: et delevit quantum extra murum invenit castellum: et prefatus magister cum fratribus suris liberavit: Deus de manibus suis: ipse Rex remeavit in patria sua cum innumerabili detrimento hominum et bestiarum. 

Em português quer dizer:

«Na era de 1228 (que é o ano 1190 da era de Cristo) aos cinco de Julho, veio o rei de Marrocos, trazendo quatrocentos mil homens de cavalo e cinquenta mil de pé; pôs cerco a este castelo por seis dias, destruindo quanto achou fora dos muros do castelo; e ao sobredito mestre (D. Gualdim Pais, referido na inscrição que está próxima desta) com os seus freires livrou Deus de cair nas suas mãos; e o mesmo rei voltou para a sua pátria com extraordinario prejuízo de homens e cavalos.»

O numero de soldados que compunham o exercito de Yacub está extraordinariamente exagerado nesta inscrição, quer se tomem os cccc milia equitum et quingenta milia peditum por quatrocentos mil cavaleiros e quinhentos mil infantes, como traduzem alguns dos nossos autores, ou se reputem em quarenta mil de cavalo e cinquenta mil de pé, como entendem outros escritores.

Nessas eras em que tão mal se providenciava para a sustentação dos soldados nas suas marchas através de um país inimigo; eras em que pelo grande atraso da agricultura, e pelas guerras que traziam quase sempre em luta os diferentes estados europeus, a maior parte das terras em cada país se achavam inteiramente incultas; em tais circunstancias, dizemos, não é crivel que um exercito que contasse quarenta mil homens de cavalaria e cinquenta mil de infantaria, pudesse caminhar com a rapidez com que as tropas do imperador de Marrocos transpuseram o estreito e atravessaram toda a Andaluzia e Portugal até Torres Novas e Tomar, chegando a estes castelos em estado de poderem intentar, sem necessidade de descanso, um assalto imediato, vigoroso e repetido por seis dias sucessivos.

Todavia é inegável, pelas razões que expendemos em outro lugar deste mesmo artigo, que o exercito que com Yacub se apresentou junto dos muros de Tomar era poderosíssimo, sobretudo em relação aos tempos.

Como se desfez esse poder, convertendo em uma retirada precipitada e desastrosa as arrogâncias e projectos de vingança do invasor, sem tentar nova empresa depois do mau sucesso das armas muçulmanas na expugnação do castelo de Tomar, é assunto em que os historiadores diversificam de opinião. Entretanto, a que parece mais plausível é a que atribui aquela retirada, quase fuga, ás febres endemicas, que no estio se costumam manifestar nos campos banhados pelo Tejo e pelo Nabão, febres que dizimaram as tropas sarracenas no seu trajecto e durante o cerco dos dois mencionados castelos, e que segundo parece feriram mortalmente o próprio Yacub ao quinto ou sexto dia do assedio do castelo de Tomar.

O que é fora de dúvida é que o inimigo levantou o cerco do castelo no dia 11 de Julho, retirando em direcção a Sevilha e Algeciras, e que o imperador de Marrocos morreu de doença antes de se embarcar para a Africa. E também não é menos certo que aquela terrível invasão, que enlutou logo no seu começo os anais da vila de Tomar, deu á historia do castelo e da ordem do Templo em Portugal a sua pagina mais gloriosa.

História: Templários em Portugal

História


ORDEM DO TEMPLO EM PORTUGAL


Os anais dos templários em Portugal estão enlaçados com a historia da fundação da monarquia e da libertação desta terra do poder dos sarracenos. Equivale isto a dizer que esses anais estão cheios de lacunas que ainda nenhum cronista preencheu e de lugares escuros onde se tem perdido em conjecturas e opiniões encontradas os diversos autores que tem tratado d esta celebre ordem de cavalaria.

O primeiro ponto que tem sido posto em dúvida é a época da introdução da ordem neste país. O segundo, quem foi nele o primeiro mestre dos templários.

Quanto á época não se limita a questão ao ano preciso em que se realizou aquele acontecimento. Tem sido matéria de controversa se foi sob o governo do conde D. Henrique de Borgonha se no da rainha D. Teresa, sua esposa, depois de viúva, se no reinado de seu filho el rei D. Afonso Henriques.

Não nos devemos porém admirar de que apresentem tal divergência de opiniões os escritores que trataram deste assunto séculos depois da extinção da ordem, quando vemos que se deram as mesmas dúvidas em tempo em que existiam ainda no país os cavaleiros do Templo.

Por ocasião da extinção da ordem em 1314, ordenou el rei D. Dinis que se tirasse uma minuciosa inquirirão sobre os usos costumes e jurisdições dos templários, e sobre as preeminencias que os Reis de Portugal tinham sobre esta ordem. Executou-se a determinação del rei. Abriram a devassa em Coimbra João Paes de Soure, e em Castelo Branco, Ayres Pires, almoxarife. Foram inquiridas muitas testemunhas de que se lavrou o competente auto, cujo original guarda no real arquivo da Torre do Tombo. Neste documento declaram algumas testemunhas, que sempre ouviram dizer, e fora, e era fama e crença terra, que os templários vieram a Portugal no do conde D. Henrique, pedindo a este príncipe os empregasse na guerra que trazia contra os moiros. No mesmo documento vê-se que outras testemunhas atribuem a D. Afonso Henriques a introdução da ordem.

Bastará porém para refutar aquela fama e a comparação da data em que o conde D. Henrique morreu, com a fundação da ordem dos templários que é muito posterior.

Entretanto é fora de dúvida que a entrada dos templários em Portugal se efectuou sob o governo da rainha viúva D. Teresa, sendo ainda menor o D. Afonso Henriques. O erudito autor Elucidário cita, em abono desta opinião varias doações e confirmações feitas por aquela soberana aos cavaleiros do Templo, cujos originais se guardavam no cartório do convento de Tomar. A mais antiga dessas doações é a do castelo e terra de Soure, que então ficavam na fronteira de território de moiros. Esta doação tem a data XIIII, K. April, E.M.C.L. XVI, que é o anno de Christo de 1128. Poucos dias depois confirmou e ampliou esta doação a rainha D. Teresa e no ano seguinte renovou- a seu filho D. Afonso Henriques.

Vê-se pois destes documentos que a ordem do Templo entrou neste país antes de ser aprovado o seu instituto pelo concilio de Troyes. celebrado no dia 14 de Janeiro de 1128. Sabe- se também por documento autentico, que já aqui existia em 1126; ignora-se porém o ano da sua entrada.

Dissemos que outro ponto controverso era o nome do primeiro mestre dos templários no nosso país. Quase todos os nossos escritores nomeiam como tal a D. Gualdim Pais. Todavia, de diferentes escrituras que existiam no cartório de Tomar, e de outras que se devem de conservar em outros arquivos do reino, citadas pelo mesmo escritor, deduz este que fora D. Gualdim Pais o sexto mestre do Templo.

O primeiro mestre de que se acha memoria naqueles documentos é de D. Guilherme Ricardo. Como tal aparece assinado em escrituras anteriores a 1126.


O segundo, D. Raimundo Bernardo, foi o que aceitou a doação do castelo e terras de Soure á rainha D. Teresa. Vivia então D. Raimundo em Braga, onde os templários tinham casa, a primeira talvez que possuíram em terra portuguesa.

Foi terceiro mestre D. Pedro Froilaz, no ano de 1140; e quarto D. Ugo de Martonio em 1143.

Sob o governo deste ultimo adquiriram os cavaleiros do Templo muita gloria combatendo ao lado del rei D. Afonso Henriques na expugnação da torreada Santarém, uma das mais fortes praças de guerra da Estremadura em que flutuava o pavilhão muçulmano. Nesta empresa ousadissima vingaram-se os templários da afronta que os moiros lhes tinham feito pouco antes no castelo de Soure, onde os cristãos, pela maior parte, foram mortos ou cativos e o castelo destruído.

Tomada Santarém aos 15 de Março de 1147, el rei D. Afonso Henriques, em cumprimento do voto que fizera, doou á ordem do Templo a jurisdição eclesiastica de Santarém.

Realizou se no ano seguinte a conquista de Lisboa, na qual os templários também auxiliaram aquele guerreiro monarca.

Investido porém D. Gilberto na dignidade de primeiro bispo de Lisboa, não tardou a pretender reivindicar a jurisdição eclesiastica de Santarém, que a ordem do Templo usufruía. Correu grande e prolongado litígio no país e em Roma, a que a final pôs termo el rei D. Afonso Henriques, persuadindo os templários a cederem aquela jurisdição, recebendo em troca o castelo e território de Ceras, por doação datada de Fevereiro do ano de Cristo de 1151. Era a esse tempo mestre do Templo D. Gualdim Pais, que sucedera nesse cargo a D. Pedro Arnaldo em 1157. E foram estes dois os primeiros mestres portugueses que teve a ordem neste reino.

Não obstante o que deixamos dito, este segundo ponto histórico da sucessão dos seis primeiros mestres, não é tão averiguado como o do nome do soberano que recebeu a ordem neste país. Naquele caso, o que nos faz dúvidas é a diversidade de títulos com que figuram ou se assinam nas aludidas escrituras os cavaleiros referidos como primeiros mestres. É certo que preceptor e magister é a mesma coisa; mas não nos parece que o seja procurator, sem embargo do parecer de escritores autorizados.

Quando a ordem do Templo se espalhou da Palestina pelos diversos países da Europa que a acolheram, criou os cargos de mestres, comendadores e priores, para o governo dos cavaleiros nos diferentes estados, e nas diversas casas ou conventos de cada estado, ficando todos sujeitos á autoridade do grão mestre que residia na cidade de Jerusalém. O titulo de mestre, simplesmente, ou mestre provincial, ou preceptor, designava o chefe ou governador da ordem em cada reino. O comendador ou comendador mor, parece que era o cavaleiro que tinha inspecção ou jurisdição em mais de uma casa ou convento. Prior era o titulo do prelado de cada um dos conventos.

O padre Viterbo pretende que o titulo de procurador era equivalente ao de mestre ou preceptor. Não nos parece que o seja, pois que semelhante vocábulo designa a missão especial de procurar ou tratar quaisquer negócios e não autoridade governativa ou docente. Por outro lado devemos considerar que, enriquecendo-se a ordem por via de doações régias e particulares, forçosamente havia de ter necessidade, pela acumulação de negócios e demandas, de criar o cargo de procurador na acepção restrita que lhe damos, cargo que não poderia ser compatível com as altas e variadas funções de mestre. Daremos de mão, porém, a estas questões, que não podem deixar de chamar a atenção de quem se propuser a escrever a historia dos cavaleiros do Templo, mas que mal cabem num artigo, que nem sequer pode aspirar a honras de esboço histórico, pois que não passa de uma relação de várias noticias sobre aquele assunto.

Voltando a D. Gualdim Pais, diremos que a respeito não resta a menor dúvida de que fosse mestre dos templários e natural deste país. Não se limitou a historia a arquivar somente o seu nome e titulo, escritos em doações e outros documentos; guardou e comemorou também as suas acções, gravando no mármore.

Foi sob o longo e esclarecido governo deste valoroso mestre que a ordem teve em Portugal o maior impulso e desenvolvimento. Nascido em uma aldeia próximo de Braga, então chamada Marecos, e agora Amares, em 1118, ano em que se fundou a ordem; armado cavaleiro por el rei D. Afonso Henriques em 1139, no campo de Ourique; partindo depois para Palestina onde entrou na ordem do Templo, ilustrou-se durante cinco anos nas guerras contra os da Síria e do Egipto. Voltando a Portugal ao cabo desse período foi feito comendador da casa dos templários em Braga, onde se achava nesta qualidade no ano de 1148. Nove anos depois foi nomeado mestre da ordem neste reino.

Em 1159 fez-lhe D. Afonso Henriques a doação do castelo e território de Ceras, de que que acima falámos. Precederam e sucederam a esta muitas outras doações de terras, castelos e outras propriedades feitas pelo mesmo soberano ao dito mestre, em recompensa dos muitos e grandes serviços que os templários lhe fizeram, auxiliando-o eficazmente nas suas arrojadas empresas contra os moiros.

Entre os castelos de que tratam aquelas doações figura o celebre castelo de Almourol, fundado pelos romanos sobre uma ilha de escarpados rochedos que se ergue do meio do Tejo, quase em frente de Tancos, e levantado das ruínas em que então se achava por D Gualdim Pais.

Cuidando com diligência e actividade de assegurar e defender contra os sarracenos os territórios doados á ordem, apressou se D Gualdim a edificar, nas terras pertencentes ao senhorio de Soure, o castelo de Pombal, e nas de Cera, ou Ceras, além de uma fortaleza, a igreja que havia de servir de cabeça da ordena.

Neste território, pois, escolheu para a edificação da casa, as vizinhanças do sitio em que se viam ainda alguns vestígios da antiga cidade de Nabancia, que florescera no tempo do domínio romano, e que fora destruída ao que se presume pela invasão dos árabes. Jaziam aquelas ruínas sobre uma colina na margem esquerda do rio Tomar, que mais tarde trocou este nome que os árabes lhe puseram para significar a pureza de suas águas, pelo de Nabão que hoje tem, como derradeira memoria da cidade, cujos restos forneceram os materiais para as construções dos templários.

O desejo de aproveitar o castelo de Ceras, obra muito anterior, arruinada provavelmente pelos destruidores do império romano na sua entrada na Lusitânia no século V; o pensamento devoto, talvez, de fundar a sede da ordem num lugar já memorando para a religião pela existência de um antigo mosteiro
beneditino, que fora sentar-se no meio daquelas solidões, entre o rio e as relíquias da cidade de Nabancia, num lugar, finalmente, santificado no século VII com a vida e martírio da virgem Santa Iria ou Irene; foi tudo isto certamente o que levou D. Gualdim Pais a lembrar-se de reedificar o castelo, apesar da impropriedade do sitio para uma fortaleza, e a reconstruir o convento e igreja que pertenceram aos monges beneditinos, dando lhe a invocação de Santa Maria do Olival.



Corria pois o anuo de 1159 quando D. Gualdim Pais começou a reconstrução do castelo de Ceras para fortaleza principal da ordem, e ao mesmo tempo a reedificação do antigo mosteiro e igreja dos beneditinos, aquele para habitação dos cavaleiros durante a paz, e esta para os exercícios do culto divino e também para jazigo dos membros da ordem.

Todavia em quanto os trabalhos progrediam, reconheceu o mestre dos templários que a situação do castelo era péssima, tanto por se achar em meio de terras áridas e estéreis, como por carecer de elevação e de outras condições naturais, sem as quais mal se podia defender uma fortaleza segundo o uso de guerra daquele tempo, contra um exercito forte e aguerrido. Resolveu, por conseguinte, escolher lugar mais apropriado para a fundação de uma fortaleza que devia ser o ponto de partida das empresas cavaleirosas de homens que faziam da guerra profissão de vida e preceito religioso.

Defronte da fachada da igreja, três ou quatro metros afastada do adro, levanta-se uma torre quadrada, que mostra bem visivelmente ser obra de duas épocas mui distantes entre si. A parte mais antiga eleva-se do solo até metade da altura do edifício. Esta parte é sem dúvida coeva com a fundação do vizinho templo. É toda construída de cantaria tostada e carcomida pelo correr dos séculos. Além de uma porta, baixa e muito estreita, de forma ogival, na face que olha para o templo, não tem nem apresenta sinais de ter tido outra porta ou janela.

A metade superior do edifício foi acrescentada por ordem del rei D. João III, com o fim de apropriar construção dos templários a uma torre de sinos. E por essa ocasião, provavelmente, apearam a cantaria que formava as ameias, com as quais se completava aspecto guerreiro da torre primitiva. Essas pedras, cuja feição particular as não deixa confundir com quaisquer outras destinadas a diferente serviço, acham-se presentemente parte delas meio enterradas no chão, unidas umas ás outras e encostadas ao evasamento da mesma torre de ambos os lados da porta; e parte no adro da igreja, também colocadas contra parede desta, aos lados da porta principal, onde servem de assentos.

A coroa de ameias que outrora lhe cingiu o eirado; a porta tão baixa e estreita que apenas cabe ela uma pessoa, que se for nutrida será obrigada a entrar de ilharga; a falta de janelas ou frestas; e, finalmente, a muita grossura das paredes, provam em nossa opinião, exuberantemente, que fora edificada esta torre para servir de fortaleza.

Como os templários abandonassem o castelo de Ceras durante a construção da igreja de Santa Maria do Olival, passando a fundar o castelo de Tomar, do outro lado do rio, levantaram certamente aquela torre para servir de asilo e defensa, no caso de súbita agressão de moiros, aos cavaleiros que então se achassem no serviço daquele templo, e moradores no convento que lhe era contíguo.

Não faça dúvida a falta de capacidade da torre para conter uma guarnição numerosa; nem cause estranheza que, passando-se os templários para a margem oposta do rio, quisessem conservar a sua primeira morada á custa de tantos perigos para os cavaleiros a quem a confiavam.

Para o pequeno numero de templários dedicados ao serviço da igreja de Santa Maria do Olival, era a torre suficiente lugar de abrigo, e não só suficiente, mas também o mais acomodado para uma resistência cujos defensores eram poucos. Perto dali ficavam, é certo, terras de moiros, do que resultava continuas e inopinadas correrias. Porém nessas agressões imprevistas não se apresentava o inimigo em grande força, pois que o seu fim não era conquistar, mas tão somente roubar e destruir as povoações indefesas, e matar ou fazer cativos os cristãos inermes que caiam em seu poder. Para tais inimigos era a torre bastante forte; e além disso, se a hoste sarracena se obstinasse em combate-la, o socorro não se faria esperar por muito tempo, sendo este lugar e seus edifícios vistos do castelo de Tomar desafogadamente.

Quando sobrevinha invasão de exército poderoso, os rumores dos apercebimentos de guerra, dando rebate no território cristão, eram como o grito de alerta que a todos punha em guarda. Tanto a tropa como o povo se acolhiam então aos castelos e fortalezas, e os sacerdotes aí se refugiavam também, levando consigo os vasos sagrados e as imagens santas dos templos.

A razão dos templários quererem conservar a todo o transe a sua igreja de Santa Maria do Olival, não obstante achar-se em lugar ermo e tão exposto ás invasões dos infiéis, não era só em memoria de ser aquela a primeira igreja que a ordem erigiu em Portugal, mas também pela veneração em que tinham o lugar santificado outrora pelas virtudes de religiosos exemplarissimos e pela vida e martírio de uma virgem santa.

Por todas estas razões os templários consideravam esta igreja como matriz da ordem, e nesta qualidade a distinguiram sempre com todas as honras e prerogativas com que lhes foi possível autoriza-la por deliberação sua ou por graça régia e pontifícia que solicitaram e obtiveram. Os cavaleiros de Cristo, sucessores e herdeiros dos templários, conservaram-na em todas essas preeminencias, acrescentando-lhe mais algumas.

Assim pois a igreja de Santa Maria do Olival foi bailia e matriz de todas as igrejas que a ordem de Cristo possuía no reino nas ilhas na África, na Ásia e no Brasil. Gozava das honras de catedral, tendo ao seu serviço como se vê em todas as sés, um masseiro com o bastão ou ceptro, e outros com massas de prata. Era isenta da jurisdição dos bispos, não reconhecendo superior ao seu prelado senão o papa. O seu prior tinha honras de bispo, celebrava pontifical, e usufruía poderes quase episcopais na extensa prelazia de Tomar, cujas igrejas eram consideradas como capelas da de Santa Maria do Olival, de sorte que o prior desta, sendo-o ao mesmo tempo de todas as outras, punha nelas um cura que nomeava e substituía a seu bel- prazer Era nesta igreja que as duas ordens, do Templo e de Cristo, celebravam os seus capítulos e mais solenidades religiosas, não obstante ficar em muita distancia do castelo de Tomar, onde tinham a sua principal residência e templo com a suficiente capacidade para os ofícios divinos e para o esplendor do culto católico. Finalmente, também a mesma igreja foi escolhida pelas duas opulentas e poderosíssimas ordens para servir de panteão aos seus prelados e aos membros mais distintos da comunidade.

Havia nesta igreja um livro semelhante ao de Noa do convento de Santa Cruz de Coimbra, no qual se ia comemorando todos os acontecimentos notáveis não só da ordem e do país, mas também da cristandade e do mundo, tais como as fundações da ordem, os óbitos dos seus mestres e dos soberanos, vitorias obtidas contra os moiros, o martírio e a canonização de santos, terremotos grandes, tempestades, constituindo assim interessantissimos anais. Este livro, que denominavam Bezerro, perdeu-se, infelizmente.

Todas aquelas prerogativas, regalias e usos se conservaram intactos até ao reinado de D. João III. Com a reforma que este soberano introduziu na ordem Cristo, bem como nas outras ordens de cavalaria, assumindo com autorização pontifícia o cargo grão mestre de cada uma, e obrigando os cavaleiros de todas á clausura e regularidade conventual, perdeu a igreja de Santa Maria do Olival muito do antigo lustre e primazia. Os cavaleiros de Cristo, desde então denominados freires obedecendo ao preceito claustral, começaram a exercer o culto e a celebrar as solenidades da ordem na igreja edificada dentro do castelo de Tomar pelos templários, e reformada e acrescentada por el rei D. Manuel.

Passou então a igreja de Santa Maria do Olival a ser administrada por um vigário. Não a despojaram, é certo, da preeminencia que até ali disfrutára, mas privaram-na das pompas do culto que lhe davam vida e autoridade que os títulos e honras que lhe deixaram. Correram porém os tempos; operou-se no país a grande revolução social que lhe mudou as instituições, reformou os costumes, e deu novo rumo ideias; e a igreja de Santa Maria do Olival viu sumirem-se todos esses títulos e honras no cataclismo que destruiu as ordens religiosas em Portugal.

O templo, que a devoção de tantas gerações circundou de edifícios e capelas, como outras tantas igrejas sobre si, acha-se hoje em lugar ermo e meio soterrado. É a cabeça das duas ordens mais ricas e poderosas que tem havido em o nosso país; a insigne matriz de tantas igrejas erigidas na África, Ásia, na América e nas ilhas do Oceano, recebeu em troca de tão elevadas prorogativas o modesto titulo paroquia matriz da vila, hoje cidade de Tomar.


I. de Vilhena Barbosa

sexta-feira, 17 de junho de 2011

História: Tomar - Da Ordem do Templo à Ordem de Cristo (IV)

História

Tomar

Memória acerca o convento de Tomar

IV parte

Conclusão

Os claustros desta magnífica e grande casa não são menos de 8, e alguns deles de um gosto e sumptuosidade admirável. Parece que todos os príncipes e soberanos que aí foram quiseram na qualidade de mestres da Ordem rivalizar entre si e perpetuar a memória da consideração e amor que tiveram a esta casa por meio de uma bela fundação. Procedamos porém cronologicamente: e quando as noticias nos faltarem substituiremos nossas conjecturas fundadas no calculo artístico das construções mesmas.

O 1º claustro na ordem de sua antiguidade é visivelmente o que está lateral á igreja pelo lado do norte e nascente, quase no mesmo pavimento dela; pequeno no seu âmbito, arcada e abobada achatada, tosca e mal lavrada a cantaria, sem ornato algum. Parece-nos portanto que é o claustrosinho da primitiva, coevo com a fundação do castelo e próprio para aqueles começos de casa regular naquele sitio; construção sólida, mas rude e acanhada qual se usava naquela época. Do mesmo tempo nos pareceu também ser outra construção para o lado do sudoeste com entrada no patio da porta do Cano; é urna espécie de galeria, casa quadrangular sustentada em pilares, e por cima da abóbada igualmente achatada, representando como urna casa de capítulo; muito bem construída devia ser, pois que há muitos anos, segundo nos disseram, aí chove dos terrados e varandas superiores sobre as abóbadas, e não tem sinal de ruína. O convento por esse lado, e pelo do meiodia em frente da horta ou jardim próximo, é aparentemente antiquíssimo; janelas pequeninas, partidas ao meio e sustentadas por colunasinhas delgadas; as varandas, que conservaram apesar da elevação que depois deram ao edificio, apresentam a mesma aparência de construção vetusta, são da mesma arquitectura, e as supomos ou da primitiva, ou pelo menos anteriores á Ordem de Cristo. É notável porém que toda essa cantaria é de tão fina e boa pedra que ostenta ainda aquela cor de lindo amarelo tostado que admiramos na igreja e convento da Batalha.

Ao dito claustrosinho que dissemos, seguem- se dois outros a que não podemos assinalar a origem; presumimos serem já dos tempos da Ordem de Cristo, porém anteriores á época de D. João I em que a arquitectura muito se aperfeiçoou. O 4º e 5º são obra do infante D. Henrique, os mesmos de que nos dá notícia Azurara, e que em si mesmos indicam época melhora de  arte. Um deles está em estado de ruína, porque lhe vimos em parte quase descoberta a arcada e colunata superior, e julgamos que desde muitos anos está condenado a um quase total desuso; o outro mais central, é de pequena dimensão, mas de forma agradável e perfeita, género gótico, de cantaria fina e bela. O 6º claustro é do tempo d'elrei D. Manuel; o 7º d'elrei D. João III, e este ficou sem o seu completo acabamento; é vasto mas sem graça nem beleza, e nele se lê no lado do noroeste uma inscrição que declara o seu fundador. O 8º finalmente é dos Filipes, obra verdadeiramente grandiosa, e de um género novo, que seria longo descrever; este era no tempo dos freires conventuais o claustro favorito por onde passava a procissão do Corpus Christi, e outras nas grandes solenidades da casa.

Já se vê que os dormitórios, casa de capitulo, refeitórios, casa de noviços, quartos do prior mor, hospedarias, e mais oficinas do convento, obra pela maior parte d'elrei D. João III, deviam ser conformes e adequadas à capacidade de uma casa em que cabiam oito claustros. Alguns destes tomaram o nome das oficinas aí próximas; e os designam ainda agora por elas, chamando a um o claustro da casa, a outro o da botica, a outro o das cozinhas, etc.

A fachada ou frente do convento se estende em longo espaço prolongando-se pela estrada que por esse lado dá entrada à vila de Tomar; é vasta e tem seu ar de grandeza pelas altas janelas de sacada, e varandas nos ângulos do edifício, donde se goze um ponto de vista admirável, principalmente ao norte e nascente; sua arquitectura porém não é simétrica e regular, ressentindo-se o edifício na sua totalidade de haver sido construído por partes, e em diferentíssimas épocas. Pelo lado da cerca, em que este vasto paralelogramo olha ao nascente e meiodia; a perspectiva infunde maior interesse, porque estão aí quase reunidas, e como amalgamadas as diversas formas da arquitectura; porque na base dessa fachada se observam as muralhas solidíssimas de meia idade com sua cantaria grossa, e negra do tempo; sobre ela as pequeninas janelas, frestas e varandins da juventude da casa ainda templária, ou dos primeiros tempos da Ordem de Cristo; mais acima as largas e altas janelas de um tempo mais próximo, século XVI, e рог último, e como coroa, a simalha do aqueduto do século seguinte que forma uma espécie de parapeito acastelado, terminando ele mesmo num rendilhado de pirâmides com a cruz de Cristo em cima. E aqui devemos notar o partido sábio e discreto que о arquitecto soube tirar da mesma construção e direcção do aqueduto; porque encostando-o com suas arcadas á fachada do convento, não só deu a este um apoio e segurança incalculável, mas até о embelezou muito não só com o simétrico dos arcos, por entre os quais vão saindo frestas e janelas, mas com o remate engraçado e elegante de sua simalha e pirâmides. Aí nos disseram que esta parte aqueduto tem sido o elevo de curiosos e artistas, alguns dos quais admirando-a a desenharam.

A casa de capitulo e refeitório são construções sólidas e regulares, porém menos vastas do que se devia esperar de uma casa cabeça de uma Ordem de tal vulto e preponderância como a de Cristo; a primeira das duas principalmente nos pareceu pequena, e em nenhuma maneira capaz de conter a reunião dos estados do reino nas cortes de Filipe II. Nós não estamos decididos a crer que aí precisamente fossem celebradas; entretanto a tradição uniforme da vila de Tomar, onde talvez a recebeu о P. Carvalho na sua Corographia, assevera que efectivamente tiveram lugar na casa do capitulo. Elrei D. Manuel já havia sentido a pouca capacidade da antiga, porque princípio a outra que seria digna e grandiosa se acabada fosse; о que dela está feito se conserva há mais de três séculos exposto tempo com uma tenacidade estupenda. No topo dela se vê ainda о grande nicho ou pavilhão de cantaria lavrada que verosimilmente devia servir para trono de reis, ou para colocar a cadeira do mestre da Ordem que era о mesmo. О trabalho e despesa desta construção gigante só podem ser avaliados quem for ali contemplar a solidez do edifício, a sua altura a perfeição e luxo dos seus ornatos, e mais que tudo o despenhado do local, que devia tornar sumamente difícil о trabalho dos operários e a condução dos materiais.


Do estado actual do castelo com sua cerca e baluartes; e do aqueduto e cerca do convento


O castelo de Tomar com sua alcáçova, torreões, baluartes e cerca respectiva, que forma o ângulo saliente do convento de Cristo para o lado do norte e nascente, é tudo obra do Mestre do Templo D. Gualdim Paes. Com sua admirável sagacidade aproveitou ele um morro alcantilado de dificílimo acesso desde o nordeste até ao meio dia; sendo menos íngreme, porém sempre elevado o terreno pelo noroeste e sul. A cerca ou muralha exterior do castelo abrangia largo espaço até 1ª: isto é, até as muralhas que cercavam próximamente as torres do castelo. Desde cessaram as contingencias de invasões inimigas, o espaço compreendido entre a 1ª e 2ª cerca foi convertido sensatamente pelos em muito bons pomares, em hortas, e vinhas, que tudo aí produzia admiravelmente por terem uma exposição vantajosa, e poderem ser regados em todos os pontos por meio de condutos e tanques que aí se vêem ainda porque, porque a água do aqueduto chegava á maior altura do convento, serpentava discorrendo todas as oficinas e dormitórios, e até alguns dos religiosos gozavam dela nos seus jardins e alegretes particulares nos varandins e terrados de algumas celas. As muralhas e baluartes eram fortes, porque existem ainda hoje os da primitiva, à excepção da parte superior dos mesmos, que é visivelmente de data mais recente, o que se conhece até pelo mau gosto de a rebocarem de cal. Nalguns dos ditos baluartes abriram os Freires varandas e janelas donde gozavam uma vista deliciosa sobre a vila, aí tão próxima que se podem reconhecer as figuras dos passeantes, e sobre as hortas e veigas daquela formosa concha, e pelo ameno vale abaixo, partido ao meio pelo rio Nabão desde a Quinta da Granja até ao Lugar de Santa Cita, espaço de duas léguas. Uma observação curiosa que ocorre naturalmente a todos os que sobem a gozar daquele excelente ponto de vista, é que todas as ruas principais da vila estão alinhadas pelo convento, de modo que os olhos dos espectadores não acham embaraço algum e penetram pelo meio das ruas até ao rio, e ainda além no bairro de Santa Iria; prova manifesta da preponderância daquela casa e castelo de que a mesma vila foi uma emanação e dependência.

Outra curiosidade que logo dá nos olhos dos que visitam o convento de Tomar é o luxo de cruzes ali plantadas em todas as construções; no alto das portas de entrada, no aqueduto, nos chafarizes, nos portões do serviço, na cerca, no alto das capelas, nos passadiços, em toda a parte enfim, de modo que actualmente, quando a incúria e desmazelo indesculpável deixou entrar e devassar ali o génio destruidor, se observam a cada passo jazendo por terra algumas daquelas cruzes, umas inteiras outras despedaçadas. Até as séteiras abertas no alto dos muros e dos baluartes eram e são em forma de cruz, como querendo indicar aos mouros que da mesma cruz saíam lançadas e arremessadas as setas contra os que, por um sentimento inseparável de sua crença religiosa, são perpétuos adversários daquele sinal do cristianismo.

No recinto interior do castelo existia uma boa capela de Santa Catarina, de longo tempo arruinada, e mostrando na sua construção ser talvez coeva com a fundação do castelo. Lembra- nos que aquela santa era do Egipto, e aí padeceu martírio; o seu nome se tornou célebre e venerando no Oriente; e como o Mestre D. Gualdim militou por alguns anos na Síria, de crer é que daí trouxesse a devoção à santa; da mesma forma que a tradição lhe atribui a importação de uma preciosa relíquia de S. Gregório Nazianzeno, de que não temos outra notícia.

A cerca murada do convento é vasta, mas de difícil e dispendioso amanho; ela compreende, segundo ali nos disseram, 7 colinas; no meio das quais se forma um profundo vale, única porção de terreno susceptivel de mimosa produção; todo o resto são encostas íngremes e bravas que a perseverança dos Freires chegou a cobrir de vinhas e oliveiras.

Do famoso aqueduto já dissemos alguma coisa; conduz ele duas fortes nascentes de água de quase urna légua de distância; como o terreno que tinha de atravessar era intercortado de montes e vales, se descobrem em muitos lugares suas formosas arcadas, sendo as belas as que se aproximam do convento em considerável altura, e mais estupendas as sitio dos Pegões, onde foi preciso formar duas ordens de arcos para vencer a profundeza vale; aí está urna arca de água magnífica urna inscrição lapidar que indica os seus fundadores. A tradição, repetida pelo P. CarvaIho na sua Corograpbia diz que esta obra custara 60 mil cruzados.

Desta rápida e imperfeita noticia já nossos leitores podem formar algum conceito da importância desta formosa e magnífica fábrica, tanto na ordem moral como física. Quanto a esta mal se poderá fazer ideia adequada sem a ver de perto, e percorrê-la; é um labirinto, um largo e agradável grupo de edifícios e construções variadas, sucessivas ou amalgamadas, formando como uma vila tão vasta como a Tomar. No tempo da guerra peninsular se aquartelaram algumas vezes aí 3 regimentos, e não embaraçavam: os Freires no seu alojamento e obrigações, como que desapareciam na vastidão do recinto. As torres e muralhas do seu elevado castelo conferem a este todo um ar de nobreza e grandeza clássica, que prende a atenção e realça o interesse.


Conclusão: arbítrio ou pensamento nosso para a conservação do convento de Tomar

A Ordem da Milícia de Cristo existe, porque existem grão cruzes, comendadores, cavaleiros; e os reis de Portugal se presam sem dúvida de serem governadores e perpétuos administradores da Ordem; o que foi extinto unicamente foram os Freires conventuais, ou antes a conventualidade e regularidade dos Freires. Subsiste pois a Ordem de Cristo e esta por seu interesse, por sua honra e pundonor nacional deve com empenho procurar o reparo e conservação da casa cabeça da Ordem, a que estão ligadas ilustres e gloriosas recordações. Se o governo, tendo muito a que acudir, se não puder encarregar dessa tarefa, recabe ela naturalmente sobre a associação dos grão cruzes, comendadores e cavaleiros, em todas as partes do mundo em que existirem, como sócios e confrades dela pelo facto da sua profissão, e mesmo pelo de trazerem e se honrarem com a insignia da Ordem.

Três arbítrios nos ocorrem para esta empresa, que nenhum homem de coração português deixará de reputar bela e honrada:

1. - Transferir-se para aquela casa alguma instituição útil, como um seminário um colégio de educação, ou outro qualquer instituto composto de indivíduos e rendimento capaz de conservar tão grande fábrica. A famosa abadia de S. Dinis em França está hoje convertida em casa de educação das filhas dos oficiais da Legião d'Honra

2. Reestabelecer em certo modo aquela imposição antiga que pagavam para a fábrica do convento de Cristo todos os beneficiados da Ordem; estabelecida a mesma imposição por bulas pontifícias a petição dos Reis portugueses como Grão Mestres, depois de reclamada pela necessidade nos capítulos gerais, e incorporada finalmente nos Estatutos e Definições da Ordem no T. 1 9 part. 2ª, que diz assim: «Declaramos que pela Graça que a Santa Sé Apostólica concedeu aos Vigários, e Freires, Coadjutores, Comendadores, e Cavaleiros desta nossa Ordem, que podessem testar (o que dantes não podiam), lhes impôs a obrigação de pagarem três quartos da renda de um ano da Vigararia, Benefício, Coadjutoria, Comenda, ou Tença que com o Habito lhes seja dada; com o que ficarão hábeis para testar de todos seus bens.» E no 1º do mesmo T. se lê: «estão aplicados estes três quartos para a fábrica do convento de Tomar.» Ora no estado actual das coisas essa imposição пãо pode recair sobre o rendimento das comentas, beneficio ou tença, nem ser por ele arrecadada; porém como subsiste o motivo da graça, a causa debendi, se deveria substitui-la por urna certa compensação, e esta com ainda maior necessidade e urgência de aplicação para a fábrica do convento. Desta substituição temos já um exemplo prático no império do Brasil (cuja coroa julgou partilhar com Portugal o mestrado das 3 ordens militares). Aí os providos em alguma das insígnias e dignidades das Ordens têm obrigação de dar a prenda para a Ordem a que ficam pertencendo; e sem esse pagamento se Ihes não passa alvará de provimento e encarte.

О 3º arbítrio finalmente consiste numa quotização voluntária dos confrades da Ordem; esta confraria é vasta e poderosa; nela se compreendem Reis, príncipes, grandes generais, ministros, diplomatas, além de muitos de inferior hierarquia; á testa de todos está o soberano português como sucessor do Grão Mestre, aquele que pelo facto da sua entrada na Ordem prestava juramento solene de manter e sustentar as regalias e privilégios da Ordem como é expresso nos citados estatutos na part. 1ª tom. 5º; todos os demais têm deveres religiosos a cumprir pelo facto da profissão, e os que inconsideradamente se eximem dela têm os deveres de brio e pundonor, que também é vinculo de obrigaçôes para cavaleiros. Ora se aparecesse um papel congruente de convocação, um Prospectus em que se ponderasse a relevância do reparo e conservação da casa capitular, cabeça e fundação da Ordem, qual seria o individuo a ela pertencente, nacional ou estrangeiro, que se recusasse a uma módica quotização anual ? E esta contribuição voluntária, que repartidamente não seria pesada, colocada num banco ou noutra instituição mercantil segura, estabeleceria um fundo para a manutenção e reparos ordinários do edifício e para a sustentação dos guardas indispensáveis que aí habitassem, os quais poderiam (e deveriam) ser alguns cavaleiros ou Freires da Ordem mais necessitados. E os curiosos nacionais e estrangeiros que por acaso aí fossem visitar aquelas honradas e venerandas ruínas dos tempos primitivos, e as construções existentes de um infante D. Henrique, de um D. Manuel, e D. João III; em lugar de uma solidão triste, e de um desamparo e abandono indecoroso, aí encontrariam agasalhado abrigo, e homens polidos e versados na história daquela casa, para os receberem e instruírem
J.С. N. С.