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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Casa do Capítulo da Ordem de Cristo em Tomar (imagem de 1860)




Casa do Capítulo da Ordem de Cristo em Tomar (imagem de 1860)

Coevo da independência de Portugal e das nossas grandes edificações do século XII, erigido por um dos valentes capitães de D. Afonso Henriques, o mestre do Templo D. Gualdim Pais, em 1160, resume este documento a série dos estilos arquitectónicos que se sucederam desde aquele século até ao século 18, isto é, de D. Afonso Henriques até D. João V, que foi o último soberano que ali fez obra.

E, todavia, nunca se completou aquele grandioso baluarte da Ordem de Cristo, baluarte que resistiu às hostes de Miramolim, imperador de Marrocos, para agora o vermos a desmoronar pelo desleixo de quem tem a seu cargo a manutenção dos monumentos nacionais!

Todos os reis de Portugal, como grão-mestres da Ordem, contribuíram para aquela portentosa edificação; mas desde o tempo de D. João I, em que a arquitectura mais se aperfeiçoou entre nós, fizeram-se ali obras notáveis, onde se admiram construções de estilo anterior ao gótico, muitas do manuelino, e não poucas do que floresceu no tempo dos Filipes, a quem se deve a do famoso claustro chamado da Procissão do Corpo de Deus, em retribuição do muito que os freires da Ordem o ajudaram a nos tornar cativos.

A mais bela e brilhante amostra do estilo de D. Manuel, em Tomar, é a janela da casa do capítulo, que fica debaixo do coro da igreja, em frente do claustro de Santa Bárbara.

Nesta casa capitular se reuniram, a 16 de Abril de 1581, as cortes, ditas de Tomar, para jurarem a Filipe II de Espanha, rei de Portugal, depois da derrota do prior do Crato em Alcântara.

Aí se jurou e prometeu o pérfido monarca 19 capítulos, contendo os foros e regalias que devia conservar a nação portuguesa, os quais em pouco tempo infringiu escandalosamente, apesar de ter afirmado com a mão sobre o Santo Evangelho - que se algum dos seus sucessores os quebrantassem, seriam malditos da maldição de Deus, da Virgem e dos apóstolos da corte celestial.

A nossa estampa é cópia da casa do capítulo, mandada edificar por D. Manuel, mas nunca concluída.

No topo ainda se vê distintamente, o grande nicho ou pavilhão de cantaria lavrada, onde se devia colocar a cadeira do grão-mestre da Ordem, ou trono do soberano, que era o mesmo, porque o rei era sempre o grão-mestre, desde D. Dinis, que depois da extinção da Ordem dos Templários, criou a de Cristo em 1319.

Archivo pittoresco, Volume 3, 1860

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Arrenda-se a renda do Convento de Cristo em Tomar


Gazeta de Lisboa, 25 de Fevereiro de 1806

Arrenda-se a renda do Convento de Cristo em Tomar

Quem quiser tomar de arrendamento a renda da massa do Real Convento da Ordem da Cristo da Vila de Tomar; assim como também os Dízimos e Oitavos do vinho da Adega da mesma Vila e a Quinta ou Comenda da Cardiga, no termo da Vila à Golegã, tudo por tempo de 4 anos começando a renda da massa pelo S. João do presente ano, e as outras rendas pelo S. Miguel deste mesmo ano, dirija-se ao dito Real Convento na primeira Oitava da Páscoa, 7 de Abril, pelas 2 horas da tarde, que ali se hão-de arrendar as ditas rendas, e nos dias sucessivos há-de prosseguir o leilão respectivo até que se ultimem os mencionados arrendamentos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

História: Templários em Portugal - 6ª parte - Ordem de Cristo - O Fim dos Cavaleiros


História

Templários

6ª parte

Ordem de Cristo - O Fim dos Cavaleiros







Antes de passarmos adiante consignaremos aqui um triste sucesso que por esquecimento deixámos de mencionar no lugar competente. O virtuoso e infeliz rei D. Duarte, atribulado pelo cativeiro do infante D. Fernando, seu irmão, e pela peste que assolava o reino, indo procurar um refugio no convento de Cristo, aí morreu vitima daquela terrível epidemia, no dia 9 de Setembro de 1438.

Falecendo el rei D. Manuel em 1521, seu filho, el rei D. João III, assumiu o governo da ordem de Cristo, por bula do papa Adriano VI.

Passados dois anos foi a Tomar, e aí celebrou o oitavo capitulo geral da ordem de Cristo.

Imbuído naquelas ideias, que em verdes anos lhe assoberbavam já o espírito, e movido daquelas sinistras influencias que o levaram muitas vezes, no decurso do seu reinado, a sacrificar os interesses e o esplendor da nação ao fanatismo religioso e, pior ainda do que isso, ás intrigas e tramas anti-nacionais acobertadas com o manto da religião, pensou fazer um acto meritório perante Deus convertendo em frades os cavaleiros de Cristo.

Autorizado pelo capitulo, que facilmente se dobrou ao capricho real, procedeu a uma completa reforma da ordem, fazendo dos cavaleiros conventuais religiosos de cogula, e sujeitando- os á clausura e regularidade monástica. A bula pontifícia de aprovação não se fez esperar muito.

Desta maneira os cavaleiros de Cristo, lançando longe de si a espada, até então sempre pronta a desembainhar-se e a combater pela pátria e pela fé, depondo aquela bandeira gloriosa que tremulara nos primeiros baixeis que desvendaram os mistérios Oceano; esses intrépidos cavaleiros, a quem Portugal devia tanta gloria, agora roubados á pátria, fizeram voto solene perante os altares de viver somente para o serviço da igreja, reclusos entre as paredes do claustro.

A esta metamorfose, seguiu-se depois a incorporacão definitiva do mestrado da ordem de Cristo na coroa. A instâncias del rei D. João III, e por bula do sumo pontífice Júlio III, expedida no ano de 1551, foram declarados grão mestres perpétuos das três ordens militares do reino, os soberanos de Portugal, varões ou fêmeas.

O governo do convento de Tomar continuou a pertencer ao prior mor, ficando este com honras de bispo, e poder quase episcopal em todas as igrejas da prelazia de Tomar, bem como nas das conquistas em que a ordem tinha jurisdição. Compunha- se o património da ordem de Cristo, de quatrocentas e quatro comendas e vinte e uma vilas e lugares.

Da antiga ordem religiosa e guerreira, que tão poderosamente concorreu para o engrandecimento da monarquia portuguesa, apenas restou como estímulo e recompensa para as nobres acções em serviço da pátria, a sua divisa autorizada, a cruz vermelha, como condecoração civil, e as suas rendosas comendas.

Aqueles a quem o soberano, na qualidade de grão mestre, conferia tais prémios faziam profissão numa igreja da ordem, mas sem votos que lhes prendessem a liberdade e sem residência no convento.

Foram estes cavaleiros seculares que ainda continuaram a sustentar por algum tempo, e até certo ponto, o nome ilustre da ordem, cujo brilho se foi mareando ao embate das desgracas que produziram a decadencia da monarquia.

Para a execução da reforma moral efectuou el rei D. João III muitas e grandes obras no convento de Tomar. Construiu claustros, dormitórios, refeitório e outras oficinas, com que ficou o edifício apropriado à vida monástica dos seus moradores.

Presidiu el rei D. Sebastião a dois capítulos gerais da ordem, um reunido em Lisboa no ano de 1568, numa sala do hospital de Todos os Santos, que estava situado no Rossio, do lado de leste, o outro na igreja de Santa Maria do Marvila, em Santarém, correndo o ano de 1573.

Foi efémero o reinado do cardeal rei D. Henrique, mas como quisesse aperfeiçoar a obra del rei D. João III, seu irmão, introduzindo nela alguma nova reforma, determinou que o breviário cistereiense de que usavam os freires no convento de Tomar, fosse substituído pelo breviário romano.

A este curto, porém triste período da nossa historia, seguiu-se a catástrofe da perda da independência de Portugal. Se fosse mister demonstrar a decadência moral em que se achava a ordem de Cristo nessa época, e quanto tinha degenerado nos seus filhos o espírito de patriotismo que outrora os animara e distinguira, seria suficiente apontar para a predilecção que os Filipes de Castela tiveram pela ordem de Cristo, predilecção por tal modo testemunhada durante os sessenta anos da usurpação, que faz presumir que esta encontrara nos freires de Tomar grande apoio.

Alguns homens houve nesse tempo em Portugal, distintos pelo saber e de provado amor do seu país, que reconhecendo a impossibilidade em que se achava a nação, depois das gravíssimas perdas que experimentára, de resistir ao poder de Castela, então poderosíssima, se curvaram ante a força dos acontecimentos, aceitando resignados a escravidão como consequencia natural deles. Foram deste numero os sábios virtuosos prelados das dioceses de Braga e Algarve, D. Fr. Bartolomeu dos Mártires e D. Jerónimo Osório. Mas é certo que o usurpador, avaliando justamente os seus sentimentos, acatou neles as virtudes e ciência que lhes atraiam o respeito e amor povo, mas não lhes deu testemunho da real afeição.

Filipe II de Castela, entrando em Portugal no ano de 1581, para se fazer reconhecer por soberano deste país, escolheu o convento de Tomar para a reunião dos três estados, que haviam de assinar a sentença que o duque d Alva lavrara à frente do exercito castelhano. Quem conhece o local em que se reuniram os delegados da nobreza, do clero e do povo, sabe que não foi a capacidade das salas que determinou a escolha do edificio; que se essa fora a razão, lá estava o mosteiro de Alcobaça com todo o direito da preferência.

O mesmo soberano fez algumas alterações nos estatutos da ordem, a pedido e contento dos freires, lançou os fundamentos a duas construções, que só se podem contar entre as mais grandiosas daquele magnifico edifício, mas também entre as mais sumptuosas de Portugal. Falamos do aqueduto, principiado em 1595 e do claustro chamado dos Filipes.

D. Filipe III de Castela, e II dos que reinaram em Portugal, prosseguiu com essas obras, pondo o remate ao aqueduto. Vindo a Lisboa com seus filhos em maio de 1619, em Outubro desse mesmo ano partiu para Tomar. Durante a sua residência no convénio de Cristo, presidiu ao 11º capítulo geral da ordem. Neste capitulo se continuou com as reformas dos estatutos, principiadas por Filipe II, e que se concluíram nos três dias, 16, 17 e 18 de Outubro, em que funcionou esta assembleia. D. Filipe IV de Castela, que veio a Portugal somente uma vez, sendo príncipe, e que desde o começo do seu reinado patenteara por diversos modos a sua aversão a este país, a ponto de não mostrar benevolencia senão para com os seus parciais, foi complacente com os freires de Cristo, e ordenou que não se levantasse mão da obra do claustro filipino até ser acabada, o que se realizou sob o seu governo, apesar de ter sido grande a despesa e de se achar a fazenda publica malbaratada por causa das guerras estrangeiras e pela má administração interior.

Durante a guerra da restauração da independência, que absorveu todo o reinado del rei D. João IV e parte do de seu filho, el rei D. Afonso VI, nenhum acontecimento notável se registou nos anais do convento de Tomar. Todavia, sendo regente do reino o príncipe D. Pedro, pela deposição del rei D. Afonso VI seu irmão, deu-se um facto que consignaremos aqui, por nos parecer que vem em abono da opinião que acima exarámos. Como não foi possível obter-se da corte de Roma, apesar das incessantes diligencias empregadas pelo nosso governo, a confirmação de bispos nomeados durante a luta com a Espanha, sucedeu que ao cabo dos vinte e sete anos que durou esta guerra, achavam-se vacantes quase todas as dioceses do reino e das suas possessões de além mar. Feita porém a paz com a Espanha, no ano de 1668, logo a corte pontifícia se prestou a reconhecer a independência de Portugal e a dinastia de Bragança. Portanto, apenas se restabeleceram as boas relações com a cúria romana, apressou-se o príncipe regente a fazer a nomeação dos prelados para as sés vagas de Braga, Lisboa, Évora, Coimbra, Viseu, Porto, Miranda, Guarda, Lamego, Leiria, Portalegre, Algarve, Funchal, Angra, Goa, Bahia, Angola, S. Tomé, Malaca, Cabo Verde, Meliapor e outras.

Sendo o maior numero destas vagaturas em dioceses ultramarinas sujeitas à jurisdição espiritual da ordem de Cristo, apenas figura entre aquelas nomeações, um único freire do convento de Tomar, D. Fr. Pedro Sanches, apresentado na mitra de Angola.

Cremos pouco provavel que em tão larga nomeação de bispos para terras doadas no espiritual á ordem de Cristo, em compensação dos sacrifícios que fez, e a que o país deve o descobrimento e posse delas, a dita ordem não seria contemplada apenas com uma mitra das menos importantes, se não houvera no animo do príncipe regente e dos seus ministros, algum espinho contra ela.

Tendo já assumido o titulo de rei D. Pedro II, foi derrogada por ele a pratica estabelecida da prova de nobreza dos quatro avós, como condição necessária para qualquer individuo ser admitido na ordem.

No fim deste reinado deu hospedagem o convento de Tomar a dois soberanos.

Rebentara a guerra da sucessão de Espanha, em que Portugal tomou partido pelo pretendente áquela coroa o arquiduque de Áustria Carlos. Chegou este príncipe a Lisboa em Março de 1704, intitulando-se Carlos III, rei de Espanha. Em maio puseram-se em marcha para entrar em campanha as tropas portuguesas e as inglesas, que tinham vindo com o arquiduque. Pouco depois saíram de Lisboa para o exercito os dois soberanos, e tomando o caminho de Santarém a Leiria, Coimbra e Guarda, entraram em Espanha. No seu regresso a Lisboa, depois de verem frustrados os seus planos, vieram poisar ao convento de Tomar, primeiro el rei D. Pedro II, e passados alguns dias o pretendente, de modo que só em Santarém se reuniram. Este príncipe chegou a ser aclamado rei em Madrid, mas afinal teve de desistir das suas pretensões, e mais tarde, por morte de seu irmão o imperador José II, subiu ao trono de Alemanha com o nome de Carlos VI.

Passados dez anos tornou o convento de Tomar a ser honrado com a visita do soberano de Portugal, mas desta vez foi visita festiva, e não a retirada de uma campanha mal sucedida. Agora era el rei D. João V, então na flor dos anos, acompanhado de seus irmãos, os infantes D. António e D. Manuel, e de um brilhante cortejo, que ali iam ver e admirar o monumento coevo com a fundação da monarquia a que estão associadas tantas memorias gloriosas.

Nesse século, como no actual, os fastos da afamada ordem de Cristo e do seu convento monumental apenas se limitaram a comemorar, como acontecimentos prósperos, a visita de príncipes; e, entre os adversos, os estragos que padeceu o edifício pela invasão dos franceses no ano de 1810, e por ocasião da sua retirada no ano seguinte. As cadeiras do coro, obra magnifica e de muito primor artístico, mandadas fazer por el rei D. Manuel, foram inteiramente destruídas e queimadas, servindo aos soldados de lenha para se aquecerem e fazerem a comida. Desapareceram alguma alfaias preciosas, que os freires não puderam levar consigo quando abandonaram apressadamente o convento á aproximação do inimigo. E no arquivo também foram grandes as perdas, desencaminhando-se muitos documentos valiosíssimos.

Desde então a decadência da ordem foi acompanhada da decadência do edifício. Tendo sido relaxada a clausura por uma reforma levada a efeito anteriormente àquele sucesso, e da qual fora encarregado o principal Castro, os freires vendo-se com liberdade de viverem fora do convento, principiaram a descurar u sua conservação, que pela vastidão do edifício era difícil e mui dispendiosa.

Assim começou a arruinar-se antes de ser desabitado; mas logo que ficou devoluto, pela extinção das ordens religiosas em 1834, as devastações dos homens e as injurias do tempo tem estendido a ruína a quase todas as partes daquele grandioso edifício. E estaria hoje todo por terra, sem dúvida com irreparável perda para a historia e para as artes, e com grande vergonha para este país, se não fossem os esforços, desvelos e perseverança do sr. conde de Tomar. Tendo comprado ao estado, em 1843, a cerca do convento e uma pequena porção deste, em tempo que era ministro do reino, cuidou logo em salvar da ultima destruição a parte do edifício que é monumento de arte e pertencia e ainda pertence á nação. Depois, aproveitando- se, a prol do monumento, da visita com que ali o honraram em 1843 suas majestades e altezas, a sra. D. Maria e el rei o sr. D. Fernando, e os dois príncipes que sucederam no trono áquelta soberana, projectou dar começo a obras, não só de reparação e conservação, mas também com que pouco a pouco se fosse restaurando, como se praticava no edifício da Batalha. Os acontecimentos políticos que sobrevieram obstaram a que tal projecto se efectuasse. Porém, desde que as paixões partidárias se foram acalmando, não tem cessado de requerer dos poderes públicos providências para a conservação de tão venerando edifício. E se não tem conseguido quanto seria para desejar, é certo que alguma coisa tem obtido, de que se estão vendo excelentes resultados.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

História: Templários em Portugal - 2ª parte

História


ORDEM DO TEMPLO EM PORTUGAL


2ª parte




FUNDAÇÃO DO CASTELO DE TOMAR 


Voltando ao ponto de que nos afastou a historia e descrição da igreja de Santa Maria do Olival, achámos a D. Gualdim Pais ocupado a procurar lugar apropriado para a fundação de um castelo. Ofereceu-lho tal qual o podia desejar um monte que se ergue na margem direita do Nabão, com duas vertentes íngremes e alcantilado e cortado quase a prumo para o lado de uma extensa planície á qual fica sobranceiro.

Agradado do sitio pela fortaleza natural dele, pela fertilidade dos terrenos circunvisinhos, e por não ficar muito distante da igreja de Santa Maria do Olival, que se lhe levanta defronte e á vista na margem esquerda do rio, o mestre dos templários deu ali principio com toda a actividade á construção do castelo.

Apesar da ignorância e barbaridade dos tempos, lembraram-se de comemorar não só o ano mas até o dia em que teve começo esta obra, circunstancia que muitas vezes deixou de ser atendida em fundações importantes e em épocas que já se presumiam de civilizadas.

Em uma lapida que se acha embebida na parede da igreja, ao lado da porta principal e sobre o tabuleiro das escadas, lê-se a seguinte inscrição em letras góticas:

E.M LX, VIII: Regnante: Alphonso Illustrissimo Rege Portugalis: 
Magister Gualdinus: Portugalensium Militum Templi: cum Fratribus suis Primo die Martii: cepit: edificare Hoc Castellum: Nomine Thomar: quod Prefatus Rex obtulit Deo: et Militibus Templi. 

Diz em vulgar: «No primeiro dia de Março do ano 1198, reinando Afonso ilustríssimo rei de Portugal, Gualdim, mestre dos cavaleiros do Templo em Portugal, começou juntamente com os seus freires, a edificar este castelo, cujo nome é Thomar; o qual, estando acabado, el rei o ofereceu a Deus e aos cavaleiros do Templo».

Fr. Bernardo da Costa, na sua Historia da militar ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, impressa em 1771, toma a data da inscrição por 1168, e sobre esta base falsa assenta uma serie de considerações e juízos absolutamente errados. O travessão que se vê sobre a letra X da referida data, como aqui pomos, quer dizer que se deve contar o mesmo X como quarenta, e não pelo seu simples valor de dez. Assim fica sendo aquela data 1198, era de César, então geralmente adoptada e seguida, a qual corresponde á de 1160 do nascimento de Cristo.


Esta e outras abreviaturas, usadas mais ou menos nas inscrições góticas, dando ocasião a interpretações erróneas, tem originado muitas controversas intermináveis por buscarem conjecturas para argumentos quando bastaria uma palavra que, decifrando o enigma, esclarecesse a questão e acabasse com as disputas.

Ao mesmo tempo que iam crescendo as paredes do castelo, fundava D. Gualdim Pais uma povoação por baixo da mesma fortaleza, na planície que se estende entre a raiz do monte e o rio.  A ambas deu o nome de Tomar, que até então era o do rio, passando este a denominar-se Nabão, nome que tinha antes da invasão dos moiros, e lhe provinha da cidade de Nabancia, que se erguia como dissemos em outro lugar, na sua margem esquerda. Os moiros, que, depois na conquista do nosso país mudaram ou apropriaram á índole da sua língua os nomes das terras, dos rios e das montanhas, chamaram ao Nabão Thomar ou Thamar, que quer dizer agua doce e clara.

Passados dois anos concedeu o mestre do Templo foral, com muitos privilégios e isenções, á povoação que fundara, e que n esse tempo contava bastantes casas e um bom núcleo de moradores. O foral a que D. Gualdim Pais chama carta de Firmidoem de direito, tem a data de Novembro de 1200, que é o ano de Cristo de 1162.

A nova de tal regalia, a fama guerreira dos cavaleiros do Templo, e a sombra tutelar de tão forte castelo, em breve atraíram á nascente povoação muitas famílias vindas de longes terras.

A ordem do Templo já então se achava poderosa pelas doações feitas pela rainha D. Teresa e por seu filho el rei D. Afonso Henriques, e por nós mencionadas em lugar próprio. Porém, depois que se instalou no seu alcaçar de Tomar, engrandeceu- se mais e com maior rapidez, crescendo de dia para dia em senhorios, influencia, poder e gloria.

Aquele triste e sabido acidente que sobreveiu a D. Afonso Henriques numa das portas de Badajoz, quando pelejava contra os leoneses, foi causa dos rápidos progressos dos templários durante este reinado. Aquele soberano, vendo-se impossibilitado de prosseguir na guerra contra os moiros, primeiramente por ter quebrado uma perna e ficado prisioneiro de seu genro, D. Fernando II, rei de Leão; e depois de recobrada a liberdade por causa do longo curativo a que teve de sujeitar-se, e que por fim lhe deixou a saúde enfraquecida, encarregou os seus briosos templários não só da guerra e defensa das fronteiras do sul do seu reino, mas também da continuação das suas empregas guerreiras contra os infiéis. Como recompensa, para mais lhes excitar o ardor, fez-lhes doação da terça parte das terras que conquistassem além do Tejo.

Tais estímulos para quem já os tinha tão fortes nas tradições gloriosas da ordem, nos preceitos da regra, nos seus hábitos e ideias cavaleirosas, enfim, na sua própria e natural ambição de gloria, impeliram a D. Gualdim Pais e aos seus templários de facção em facção, de batalha em batalha, com tamanho arrojo e valor, que em breves anos estava quase todo o Alentejo expurgado de sarracenos, e a cruz de Jesus Cristo campeando triunfante sobre importantes praças pouco antes mouriscas.



No meio deste brilhante período da sua existência, foi a ordem do Templo sobresaltada por um grande perigo, que ameaçou sepultar em uma terrível catástrofe todos os loiros por ela colhidos a troco do sangue de seus filhos.

O malogro da expedição do imperador de Marrocos Yusuf Abu Yacub, quando em 1184, transpondo o Mediterraneo com exercito numeroso e unido aos sarracenos da Hespanha, tentou amparar na península o império mauritano, que se aluía e derrocava aos vigorosos impulsos do nosso primeiro rei; o vergonhoso destroço daquele soberano diante dos muros de Santarém, onde foi vencido por um punhado de valentes e o seu grande exercito disperso; a sua morte em Algeciras, ocasionada pelas feridas recebidas naquele memorável combate (24 de Julho de 1184); enfim, todas estas perdas e afrontas armaram de ira e desejo de vingança a Yusuf Abu Yacub, filho e sucessor daquele soberano. Porém uma revolta dos seus próprios estados obstou ao cumprimento dos seus desígnios. A rebelião assumiu proporções tão grandes, ameaçando substitui-lo no trono por um seu irmão, que foram precisos alguns anos para a vencer e sufocar completamente.

Enquanto estas coisas se passavam, o bravo sucessor de D. Afonso Henriques, el rei D. Sancho I, levando as suas armas vitoriosas ao coração do Algarve, ultimo refugio dos sarracenos nesta parte da península, assaltara e fizera render ao domínio da cruz Silves, a torreada e populosa capital do Algarve.

Esta vitoria do rei português, coincidindo com o vencimento da revolta em Marrocos, acendeu de novo e com mais força no peito do imperador muçulmano o seu entranhado ódio contra os cristãos.

Yusuf Abu Yacub entregou-se então de corpo e alma aos preparativos da guerra, com um ardor que parecia delírio. Era um esforço extremo e desesperado, não só para saciar no sangue dos campeões de Cristo a vingança de tantos agravos, mas também, e principalmente, para opor um dique aos triunfos sucessivos das armas cristãs; para levantar o espírito dos muçulmanos do abatimento em que o lançaram tão continuadas desditas; para impedir, finalmente, que se apagasse na península o facho do Alcorão, que de dia para dia se amortecia despedindo de si já frouxos raios.

Toca-se pois a rebate por todas as terras de Marrocos, pregando-se a guerra santa e chamando-se ás armas a mocidade. Partem emissários para todas as cortes muçulmanas da Hespanha, incitando- as a disporem-se para a luta em defensa comum.

Congregaram-se, alfim, todos os elementos de destruição. O horizonte politico de Portugal carregou-se de negras nuvens, e o trovão precursor da tempestade ribombando ao longe, deu o alerta a todos os portugueses.

A noticia da tremenda invasão que estava prestes a romper as fronteiras do reino, foi correndo de boca em boca até chegar aos mais recônditos lugares do país. El rei D. Sancho I recolheu-se a Santarém com os guerreiros que lhe foi possível reunir, julgando que o inimigo se dirigia desta vez como da outra, com preferência a esta forte praça de guerra. Os habitantes dos campos e das povoações indefesas, levando consigo o mais precioso do seu móvel, buscaram refugio nas fortalezas mais próximas. E os alcaides e senhores de castelos prepararam-se para uma resistência a todo o transe.

O exercito marroquino que passara o estreito na primavera do ano de 1190, engrossado na Andaluzia com as hostes vindas de Córdova, de Granada, de Sevilha e de outras cidades sarracenas, caminhando a marchas forçadas já no interior de Portugal, atravessou o Tejo em fins de Junho, e deixando Santarém na retaguarda, acomete e toma o castelo de Torres Novas, e, sem perder tempo, apresenta-se de improviso diante do castelo de Tomar.

Para que o precedesse o terror, Yacub levava adiante de si o facho da assolação. A sua passagem ficava assinalada por toda a parte com o incêndio, o saque e o morticínio.

Os templários e quantos infelizes se acolheram á sua fortaleza, viram, com dor de alma, de cima das ameias, o fogo reduzindo a povoação vizinha a um montão de ruínas, e tornando em cinzas as searas, que já lourejavam em volta da casaria de Tomar.

Por seis dias sucessivos foi o castelo combatido com repetidos assaltos, em que as hostes inimigas se renovavam de instante a instante, conservando por conseguinte sempre frescas as forças e sempre vigoroso e encarniçado o acometimento.

Parece incrível como podiam resistir tão poucos defensores do castelo contra tão numerosos inimigos. Mas tal era o valor dos templários; tais a coragem e presteza com que corriam de um ponto a outro, onde o perigo mais urgia; tamanho o amor que os prendia á sua casa capitular; tão viva e arraigada em seus corações a fé no auxilio divino; que o seu esforço foi invencível, logrando zombar de todo o poder do imperador de Marrocos e dos soberanos seus aliados.

A mesma lapida em que está a inscrição comemorativa da fundação do castelo tem gravada por baixo a inscrição que comemora aquele cerco e gloriosa defensa. Diz assim em letras góticas e no latim bárbaro daqueles tempos.

Era MCCXXVIII: m Nonas Julii 
Venit Rex de Marroquis ducens cccc 
Milia equitum et quingenta milia peditum: et obsedit castrum istud per sex dies: et delevit quantum extra murum invenit castellum: et prefatus magister cum fratribus suris liberavit: Deus de manibus suis: ipse Rex remeavit in patria sua cum innumerabili detrimento hominum et bestiarum. 

Em português quer dizer:

«Na era de 1228 (que é o ano 1190 da era de Cristo) aos cinco de Julho, veio o rei de Marrocos, trazendo quatrocentos mil homens de cavalo e cinquenta mil de pé; pôs cerco a este castelo por seis dias, destruindo quanto achou fora dos muros do castelo; e ao sobredito mestre (D. Gualdim Pais, referido na inscrição que está próxima desta) com os seus freires livrou Deus de cair nas suas mãos; e o mesmo rei voltou para a sua pátria com extraordinario prejuízo de homens e cavalos.»

O numero de soldados que compunham o exercito de Yacub está extraordinariamente exagerado nesta inscrição, quer se tomem os cccc milia equitum et quingenta milia peditum por quatrocentos mil cavaleiros e quinhentos mil infantes, como traduzem alguns dos nossos autores, ou se reputem em quarenta mil de cavalo e cinquenta mil de pé, como entendem outros escritores.

Nessas eras em que tão mal se providenciava para a sustentação dos soldados nas suas marchas através de um país inimigo; eras em que pelo grande atraso da agricultura, e pelas guerras que traziam quase sempre em luta os diferentes estados europeus, a maior parte das terras em cada país se achavam inteiramente incultas; em tais circunstancias, dizemos, não é crivel que um exercito que contasse quarenta mil homens de cavalaria e cinquenta mil de infantaria, pudesse caminhar com a rapidez com que as tropas do imperador de Marrocos transpuseram o estreito e atravessaram toda a Andaluzia e Portugal até Torres Novas e Tomar, chegando a estes castelos em estado de poderem intentar, sem necessidade de descanso, um assalto imediato, vigoroso e repetido por seis dias sucessivos.

Todavia é inegável, pelas razões que expendemos em outro lugar deste mesmo artigo, que o exercito que com Yacub se apresentou junto dos muros de Tomar era poderosíssimo, sobretudo em relação aos tempos.

Como se desfez esse poder, convertendo em uma retirada precipitada e desastrosa as arrogâncias e projectos de vingança do invasor, sem tentar nova empresa depois do mau sucesso das armas muçulmanas na expugnação do castelo de Tomar, é assunto em que os historiadores diversificam de opinião. Entretanto, a que parece mais plausível é a que atribui aquela retirada, quase fuga, ás febres endemicas, que no estio se costumam manifestar nos campos banhados pelo Tejo e pelo Nabão, febres que dizimaram as tropas sarracenas no seu trajecto e durante o cerco dos dois mencionados castelos, e que segundo parece feriram mortalmente o próprio Yacub ao quinto ou sexto dia do assedio do castelo de Tomar.

O que é fora de dúvida é que o inimigo levantou o cerco do castelo no dia 11 de Julho, retirando em direcção a Sevilha e Algeciras, e que o imperador de Marrocos morreu de doença antes de se embarcar para a Africa. E também não é menos certo que aquela terrível invasão, que enlutou logo no seu começo os anais da vila de Tomar, deu á historia do castelo e da ordem do Templo em Portugal a sua pagina mais gloriosa.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

História: Tomar - Da Ordem do Templo à Ordem de Cristo (IV)

História

Tomar

Memória acerca o convento de Tomar

IV parte

Conclusão

Os claustros desta magnífica e grande casa não são menos de 8, e alguns deles de um gosto e sumptuosidade admirável. Parece que todos os príncipes e soberanos que aí foram quiseram na qualidade de mestres da Ordem rivalizar entre si e perpetuar a memória da consideração e amor que tiveram a esta casa por meio de uma bela fundação. Procedamos porém cronologicamente: e quando as noticias nos faltarem substituiremos nossas conjecturas fundadas no calculo artístico das construções mesmas.

O 1º claustro na ordem de sua antiguidade é visivelmente o que está lateral á igreja pelo lado do norte e nascente, quase no mesmo pavimento dela; pequeno no seu âmbito, arcada e abobada achatada, tosca e mal lavrada a cantaria, sem ornato algum. Parece-nos portanto que é o claustrosinho da primitiva, coevo com a fundação do castelo e próprio para aqueles começos de casa regular naquele sitio; construção sólida, mas rude e acanhada qual se usava naquela época. Do mesmo tempo nos pareceu também ser outra construção para o lado do sudoeste com entrada no patio da porta do Cano; é urna espécie de galeria, casa quadrangular sustentada em pilares, e por cima da abóbada igualmente achatada, representando como urna casa de capítulo; muito bem construída devia ser, pois que há muitos anos, segundo nos disseram, aí chove dos terrados e varandas superiores sobre as abóbadas, e não tem sinal de ruína. O convento por esse lado, e pelo do meiodia em frente da horta ou jardim próximo, é aparentemente antiquíssimo; janelas pequeninas, partidas ao meio e sustentadas por colunasinhas delgadas; as varandas, que conservaram apesar da elevação que depois deram ao edificio, apresentam a mesma aparência de construção vetusta, são da mesma arquitectura, e as supomos ou da primitiva, ou pelo menos anteriores á Ordem de Cristo. É notável porém que toda essa cantaria é de tão fina e boa pedra que ostenta ainda aquela cor de lindo amarelo tostado que admiramos na igreja e convento da Batalha.

Ao dito claustrosinho que dissemos, seguem- se dois outros a que não podemos assinalar a origem; presumimos serem já dos tempos da Ordem de Cristo, porém anteriores á época de D. João I em que a arquitectura muito se aperfeiçoou. O 4º e 5º são obra do infante D. Henrique, os mesmos de que nos dá notícia Azurara, e que em si mesmos indicam época melhora de  arte. Um deles está em estado de ruína, porque lhe vimos em parte quase descoberta a arcada e colunata superior, e julgamos que desde muitos anos está condenado a um quase total desuso; o outro mais central, é de pequena dimensão, mas de forma agradável e perfeita, género gótico, de cantaria fina e bela. O 6º claustro é do tempo d'elrei D. Manuel; o 7º d'elrei D. João III, e este ficou sem o seu completo acabamento; é vasto mas sem graça nem beleza, e nele se lê no lado do noroeste uma inscrição que declara o seu fundador. O 8º finalmente é dos Filipes, obra verdadeiramente grandiosa, e de um género novo, que seria longo descrever; este era no tempo dos freires conventuais o claustro favorito por onde passava a procissão do Corpus Christi, e outras nas grandes solenidades da casa.

Já se vê que os dormitórios, casa de capitulo, refeitórios, casa de noviços, quartos do prior mor, hospedarias, e mais oficinas do convento, obra pela maior parte d'elrei D. João III, deviam ser conformes e adequadas à capacidade de uma casa em que cabiam oito claustros. Alguns destes tomaram o nome das oficinas aí próximas; e os designam ainda agora por elas, chamando a um o claustro da casa, a outro o da botica, a outro o das cozinhas, etc.

A fachada ou frente do convento se estende em longo espaço prolongando-se pela estrada que por esse lado dá entrada à vila de Tomar; é vasta e tem seu ar de grandeza pelas altas janelas de sacada, e varandas nos ângulos do edifício, donde se goze um ponto de vista admirável, principalmente ao norte e nascente; sua arquitectura porém não é simétrica e regular, ressentindo-se o edifício na sua totalidade de haver sido construído por partes, e em diferentíssimas épocas. Pelo lado da cerca, em que este vasto paralelogramo olha ao nascente e meiodia; a perspectiva infunde maior interesse, porque estão aí quase reunidas, e como amalgamadas as diversas formas da arquitectura; porque na base dessa fachada se observam as muralhas solidíssimas de meia idade com sua cantaria grossa, e negra do tempo; sobre ela as pequeninas janelas, frestas e varandins da juventude da casa ainda templária, ou dos primeiros tempos da Ordem de Cristo; mais acima as largas e altas janelas de um tempo mais próximo, século XVI, e рог último, e como coroa, a simalha do aqueduto do século seguinte que forma uma espécie de parapeito acastelado, terminando ele mesmo num rendilhado de pirâmides com a cruz de Cristo em cima. E aqui devemos notar o partido sábio e discreto que о arquitecto soube tirar da mesma construção e direcção do aqueduto; porque encostando-o com suas arcadas á fachada do convento, não só deu a este um apoio e segurança incalculável, mas até о embelezou muito não só com o simétrico dos arcos, por entre os quais vão saindo frestas e janelas, mas com o remate engraçado e elegante de sua simalha e pirâmides. Aí nos disseram que esta parte aqueduto tem sido o elevo de curiosos e artistas, alguns dos quais admirando-a a desenharam.

A casa de capitulo e refeitório são construções sólidas e regulares, porém menos vastas do que se devia esperar de uma casa cabeça de uma Ordem de tal vulto e preponderância como a de Cristo; a primeira das duas principalmente nos pareceu pequena, e em nenhuma maneira capaz de conter a reunião dos estados do reino nas cortes de Filipe II. Nós não estamos decididos a crer que aí precisamente fossem celebradas; entretanto a tradição uniforme da vila de Tomar, onde talvez a recebeu о P. Carvalho na sua Corographia, assevera que efectivamente tiveram lugar na casa do capitulo. Elrei D. Manuel já havia sentido a pouca capacidade da antiga, porque princípio a outra que seria digna e grandiosa se acabada fosse; о que dela está feito se conserva há mais de três séculos exposto tempo com uma tenacidade estupenda. No topo dela se vê ainda о grande nicho ou pavilhão de cantaria lavrada que verosimilmente devia servir para trono de reis, ou para colocar a cadeira do mestre da Ordem que era о mesmo. О trabalho e despesa desta construção gigante só podem ser avaliados quem for ali contemplar a solidez do edifício, a sua altura a perfeição e luxo dos seus ornatos, e mais que tudo o despenhado do local, que devia tornar sumamente difícil о trabalho dos operários e a condução dos materiais.


Do estado actual do castelo com sua cerca e baluartes; e do aqueduto e cerca do convento


O castelo de Tomar com sua alcáçova, torreões, baluartes e cerca respectiva, que forma o ângulo saliente do convento de Cristo para o lado do norte e nascente, é tudo obra do Mestre do Templo D. Gualdim Paes. Com sua admirável sagacidade aproveitou ele um morro alcantilado de dificílimo acesso desde o nordeste até ao meio dia; sendo menos íngreme, porém sempre elevado o terreno pelo noroeste e sul. A cerca ou muralha exterior do castelo abrangia largo espaço até 1ª: isto é, até as muralhas que cercavam próximamente as torres do castelo. Desde cessaram as contingencias de invasões inimigas, o espaço compreendido entre a 1ª e 2ª cerca foi convertido sensatamente pelos em muito bons pomares, em hortas, e vinhas, que tudo aí produzia admiravelmente por terem uma exposição vantajosa, e poderem ser regados em todos os pontos por meio de condutos e tanques que aí se vêem ainda porque, porque a água do aqueduto chegava á maior altura do convento, serpentava discorrendo todas as oficinas e dormitórios, e até alguns dos religiosos gozavam dela nos seus jardins e alegretes particulares nos varandins e terrados de algumas celas. As muralhas e baluartes eram fortes, porque existem ainda hoje os da primitiva, à excepção da parte superior dos mesmos, que é visivelmente de data mais recente, o que se conhece até pelo mau gosto de a rebocarem de cal. Nalguns dos ditos baluartes abriram os Freires varandas e janelas donde gozavam uma vista deliciosa sobre a vila, aí tão próxima que se podem reconhecer as figuras dos passeantes, e sobre as hortas e veigas daquela formosa concha, e pelo ameno vale abaixo, partido ao meio pelo rio Nabão desde a Quinta da Granja até ao Lugar de Santa Cita, espaço de duas léguas. Uma observação curiosa que ocorre naturalmente a todos os que sobem a gozar daquele excelente ponto de vista, é que todas as ruas principais da vila estão alinhadas pelo convento, de modo que os olhos dos espectadores não acham embaraço algum e penetram pelo meio das ruas até ao rio, e ainda além no bairro de Santa Iria; prova manifesta da preponderância daquela casa e castelo de que a mesma vila foi uma emanação e dependência.

Outra curiosidade que logo dá nos olhos dos que visitam o convento de Tomar é o luxo de cruzes ali plantadas em todas as construções; no alto das portas de entrada, no aqueduto, nos chafarizes, nos portões do serviço, na cerca, no alto das capelas, nos passadiços, em toda a parte enfim, de modo que actualmente, quando a incúria e desmazelo indesculpável deixou entrar e devassar ali o génio destruidor, se observam a cada passo jazendo por terra algumas daquelas cruzes, umas inteiras outras despedaçadas. Até as séteiras abertas no alto dos muros e dos baluartes eram e são em forma de cruz, como querendo indicar aos mouros que da mesma cruz saíam lançadas e arremessadas as setas contra os que, por um sentimento inseparável de sua crença religiosa, são perpétuos adversários daquele sinal do cristianismo.

No recinto interior do castelo existia uma boa capela de Santa Catarina, de longo tempo arruinada, e mostrando na sua construção ser talvez coeva com a fundação do castelo. Lembra- nos que aquela santa era do Egipto, e aí padeceu martírio; o seu nome se tornou célebre e venerando no Oriente; e como o Mestre D. Gualdim militou por alguns anos na Síria, de crer é que daí trouxesse a devoção à santa; da mesma forma que a tradição lhe atribui a importação de uma preciosa relíquia de S. Gregório Nazianzeno, de que não temos outra notícia.

A cerca murada do convento é vasta, mas de difícil e dispendioso amanho; ela compreende, segundo ali nos disseram, 7 colinas; no meio das quais se forma um profundo vale, única porção de terreno susceptivel de mimosa produção; todo o resto são encostas íngremes e bravas que a perseverança dos Freires chegou a cobrir de vinhas e oliveiras.

Do famoso aqueduto já dissemos alguma coisa; conduz ele duas fortes nascentes de água de quase urna légua de distância; como o terreno que tinha de atravessar era intercortado de montes e vales, se descobrem em muitos lugares suas formosas arcadas, sendo as belas as que se aproximam do convento em considerável altura, e mais estupendas as sitio dos Pegões, onde foi preciso formar duas ordens de arcos para vencer a profundeza vale; aí está urna arca de água magnífica urna inscrição lapidar que indica os seus fundadores. A tradição, repetida pelo P. CarvaIho na sua Corograpbia diz que esta obra custara 60 mil cruzados.

Desta rápida e imperfeita noticia já nossos leitores podem formar algum conceito da importância desta formosa e magnífica fábrica, tanto na ordem moral como física. Quanto a esta mal se poderá fazer ideia adequada sem a ver de perto, e percorrê-la; é um labirinto, um largo e agradável grupo de edifícios e construções variadas, sucessivas ou amalgamadas, formando como uma vila tão vasta como a Tomar. No tempo da guerra peninsular se aquartelaram algumas vezes aí 3 regimentos, e não embaraçavam: os Freires no seu alojamento e obrigações, como que desapareciam na vastidão do recinto. As torres e muralhas do seu elevado castelo conferem a este todo um ar de nobreza e grandeza clássica, que prende a atenção e realça o interesse.


Conclusão: arbítrio ou pensamento nosso para a conservação do convento de Tomar

A Ordem da Milícia de Cristo existe, porque existem grão cruzes, comendadores, cavaleiros; e os reis de Portugal se presam sem dúvida de serem governadores e perpétuos administradores da Ordem; o que foi extinto unicamente foram os Freires conventuais, ou antes a conventualidade e regularidade dos Freires. Subsiste pois a Ordem de Cristo e esta por seu interesse, por sua honra e pundonor nacional deve com empenho procurar o reparo e conservação da casa cabeça da Ordem, a que estão ligadas ilustres e gloriosas recordações. Se o governo, tendo muito a que acudir, se não puder encarregar dessa tarefa, recabe ela naturalmente sobre a associação dos grão cruzes, comendadores e cavaleiros, em todas as partes do mundo em que existirem, como sócios e confrades dela pelo facto da sua profissão, e mesmo pelo de trazerem e se honrarem com a insignia da Ordem.

Três arbítrios nos ocorrem para esta empresa, que nenhum homem de coração português deixará de reputar bela e honrada:

1. - Transferir-se para aquela casa alguma instituição útil, como um seminário um colégio de educação, ou outro qualquer instituto composto de indivíduos e rendimento capaz de conservar tão grande fábrica. A famosa abadia de S. Dinis em França está hoje convertida em casa de educação das filhas dos oficiais da Legião d'Honra

2. Reestabelecer em certo modo aquela imposição antiga que pagavam para a fábrica do convento de Cristo todos os beneficiados da Ordem; estabelecida a mesma imposição por bulas pontifícias a petição dos Reis portugueses como Grão Mestres, depois de reclamada pela necessidade nos capítulos gerais, e incorporada finalmente nos Estatutos e Definições da Ordem no T. 1 9 part. 2ª, que diz assim: «Declaramos que pela Graça que a Santa Sé Apostólica concedeu aos Vigários, e Freires, Coadjutores, Comendadores, e Cavaleiros desta nossa Ordem, que podessem testar (o que dantes não podiam), lhes impôs a obrigação de pagarem três quartos da renda de um ano da Vigararia, Benefício, Coadjutoria, Comenda, ou Tença que com o Habito lhes seja dada; com o que ficarão hábeis para testar de todos seus bens.» E no 1º do mesmo T. se lê: «estão aplicados estes três quartos para a fábrica do convento de Tomar.» Ora no estado actual das coisas essa imposição пãо pode recair sobre o rendimento das comentas, beneficio ou tença, nem ser por ele arrecadada; porém como subsiste o motivo da graça, a causa debendi, se deveria substitui-la por urna certa compensação, e esta com ainda maior necessidade e urgência de aplicação para a fábrica do convento. Desta substituição temos já um exemplo prático no império do Brasil (cuja coroa julgou partilhar com Portugal o mestrado das 3 ordens militares). Aí os providos em alguma das insígnias e dignidades das Ordens têm obrigação de dar a prenda para a Ordem a que ficam pertencendo; e sem esse pagamento se Ihes não passa alvará de provimento e encarte.

О 3º arbítrio finalmente consiste numa quotização voluntária dos confrades da Ordem; esta confraria é vasta e poderosa; nela se compreendem Reis, príncipes, grandes generais, ministros, diplomatas, além de muitos de inferior hierarquia; á testa de todos está o soberano português como sucessor do Grão Mestre, aquele que pelo facto da sua entrada na Ordem prestava juramento solene de manter e sustentar as regalias e privilégios da Ordem como é expresso nos citados estatutos na part. 1ª tom. 5º; todos os demais têm deveres religiosos a cumprir pelo facto da profissão, e os que inconsideradamente se eximem dela têm os deveres de brio e pundonor, que também é vinculo de obrigaçôes para cavaleiros. Ora se aparecesse um papel congruente de convocação, um Prospectus em que se ponderasse a relevância do reparo e conservação da casa capitular, cabeça e fundação da Ordem, qual seria o individuo a ela pertencente, nacional ou estrangeiro, que se recusasse a uma módica quotização anual ? E esta contribuição voluntária, que repartidamente não seria pesada, colocada num banco ou noutra instituição mercantil segura, estabeleceria um fundo para a manutenção e reparos ordinários do edifício e para a sustentação dos guardas indispensáveis que aí habitassem, os quais poderiam (e deveriam) ser alguns cavaleiros ou Freires da Ordem mais necessitados. E os curiosos nacionais e estrangeiros que por acaso aí fossem visitar aquelas honradas e venerandas ruínas dos tempos primitivos, e as construções existentes de um infante D. Henrique, de um D. Manuel, e D. João III; em lugar de uma solidão triste, e de um desamparo e abandono indecoroso, aí encontrariam agasalhado abrigo, e homens polidos e versados na história daquela casa, para os receberem e instruírem
J.С. N. С.


quinta-feira, 16 de junho de 2011

História: Tomar - Da Ordem do Templo à Ordem de Cristo (III)

História

Tomar

Memória acerca do convento de Cristo em Tomar

Parte 3

Por morte de D. Lopo foi nomeado e provido ínclito e venturoso infante D. Henrique, a quem elrei seu pai quis premiar deste modo as façanhas de Ceuta, ganhada quase por ele somente («Este foi, mais que todos, zeloso da conservação, aumento e reformaçâo da Ordem - diz um dos escritores das cousas dela - com sua industria abriu as portas á navegação e comércio do grande mar Oceano, nunca d'antes navegado, e manifestou о nome e fé de Jesus Cristo aos povos e gentes de tantas e remotas ilhas e terras por ele descobertas; e aplicando as rendas delas, e de tudo о se descobriu da barra de Lisboa para fora, esta Ordern de Cristo no espiritual por bulas apostólicas e consentimento dos reis». E com efeito, ainda que o animo grande e empreendedor do infante, os conhecimentos especiais que tinha das matemáticas e da cosmografia, e o amor enfim da ciência o levassem para aquelas empresas novas dos descobrimentos marítimos e terrestes, é certo cotudo que estes desejos e determinação assentavam sólidamente nos principios da sua moral, e deveres anexos à sua qualidade de Mestre Ordem de Cristo; assim o indicam os escritores contemporâneos, e os outros que se lhe seguiram, a saber: Fernão Lopes, e Azurara, e Azinheira, e João de Barros. Porém nas mesmas cartas de doações que os reis lhe fizeram, e nas bulas pontifícias que as confirmaram temos nós expressa essa consideração. Elrei D. Afonso V, seu sobrinho, assim se explicou na carta de doação de 1454:« e por que o dito Infante conquistou as praias Guinea, de Zubia, e de Ethiopia, nos que com algumas despezas da Ordem de cavalaria de Jesu-Christo, e por contemplação sua a dita conquista foi começada e progredida, rasão nos pareceu a ela pertencer a espiritualidade das terras conquistadas e por conquistar ,como se Thomar fosse». E nas bulas confirmativas desta doação expedidas pelos papas Nicolau V e Calixto III se repete a mesma razão e causa da graça obtida, dizendo-se: «confirmamos e aprovamos a doação feita de todas as terras descobertas e por descobrir -espiritual - á Ordem de Cristo, com cujos rendimentos dizia o infante ter adquirido tais descobrimentos.»

Não foram porém somente os rendimentos da Ordem e os deveres e encargos como Mestre, que já apontámos, os instrumentos dessas conquistas, pois é sem dúvida que em muitas ocasiões a elas respetivas achamos figurando os cavaleiros e dignitários da mesma Ordem. Quando o infante mandou, no ano 1443, um emissário ao papa Martinho V, suplicando-lhe a indulgência da cruzada para os portugueses que morressem nos descobrimentos - enviou, diz Azurara na chrónica de Guiné, um honrado cavaleiro da Ordem de Cristo que chamavam Fernam Lopes d'Azevedo, homem de grande conselho e autoridade; quando mandou povoar as ilhas dos Açores commeteu essa importante comissão a Gonçalo Velho, comendador de Almourol, homem experimentado e famoso nas guerras africanas; e quando recebera jubiloso e triumfante o seu atrevido navegador, Antão Gonçalves, o primeiro que trouxe ao reino negros de Guiné e outros produtos de mercancía daquelas paragens - о infante, diz о mesmo cronista, como principe tão generoso que era promoveu o afortunado Gonçalves com a comenda e castelania de Tomar. Finalmente quando о mesmo autor refere a expediçâo das caravelas do Algarve, que juntas ás do infante sairam da baía de Lagos, comandadas por cavaleiros de grande consideração como eram Eannes da Graã, Alvaro Gil, Mafaldo e outros, acrescenta:« os quais, postas as bandeiras da Ordern de Christo nos seus navios, fizeram sua via caminho de Cabo branco,»

Retrocedamos porém um pouco. Depois que o infante D. Henrique foi provido no mestrado da Ordem de Cristo em 1417, devemos supôr que viria residir em Tomar, cabeça da mesma Ordem, e suposto que desde o ano 1419, depois da sua segunda jornada a Ceuta, ele tivesse a peito os descobrimentos da costa ocidental de África, não nos parece contudo que ele se afastasse do seu mestrado senão anos depois, aí por volta do ano 1421 em que começaram suas tentativas anuais, que duraram sem resultado até ao ano 1433, em о quaç o seu criado Gil Eanes passou o cabo Bojador. Desde o ano porém 1437 em que lhe aconteceu e a seu irmão, о infante D. Fernando, o desastre de Tanger, desgostoso, e retirado viveu habitualmente no Algarve dedicado quase exclusivamente aos negócios marítimos. Nesta empresa, que os sucessos prósperos foram coroando, empregava о infante D. Henrique, além de suas rendas próprias, que eram consideráveis, os rendimentos da Ordem de Cristo, como deixámos demonstrado; porque quase por amor dela se faziam as conquistas, e para sua glória e proveito se estabeleciam as igrejas e colónias católicas d'além mar. Se o mesmo infante alcançou para a dita Ordem a maior influência e dominação espiritual de que há exemplo na historia das corporações religiosas, também se não descuidou de aumentá-la e engrandecê-la igualmente nas construções e fundações materiais. A igreja e convento de Santa Maria de Restelo em Belém, onde como com um pé sobre os mares colocou alguns freires da Ordem, e os dois claustros que o cronista Azurara na crónica já citada aponta feitos em Tomar, são boa prova da solicitude do mesmo infante. Até o ano porém de 1449 era só por costume e tolerância que o convento de Cristo estava sendo cabeça da Ordem; pois que foi sómente nesse ano que, a petição do mesmo D. Henrique, cometeu o papa Eugénio IV ao bispo de Viseu, D. João, a reforma da Ordem a que efectivamente procedeu de acordo com о infante; e por ela se fixou definitivamente aí a casa mestral e capitular.

Seguiu-se a este afortunado regimen de de 40 anos, o de seu sobrinho о infante D. Fernando, о qual, seguindo em tudo as pisadas de seu tio, regeu com muita prudência e zelo a Ordem, e fundou nas ilhas muitas igrejas filiais dela. Governou-a 10 anos, faleceu ainda moço.

Foi nomeado depois deste, seu filho D. Diogo, duque de Viseu; e é curioso saber-se, que, sendo ainda menino ao tempo de sua promoção, obteve sua mãe a infanta D. Beatriz, bula apostólica para gozar e administrar o mestrado durante a menoridade do filho.

Sucedeu-lhe seu irmão D. Manuel, duque de Beja, e o conservou não só antes mas ainda depois de ser rei destes reinos. Este soberano, assim como nos descobrimentos e conquistas foi o émulo e imitador feliz de seu ínclito tio, о infante D. Henrique, da mesma sorte levado do amor e zelo que teve pela Ordem de Cristo a aumentou, engrandeceu, e elevou a um grau de esplendor nunca mais visto nem imitado. As conquistas do Oriente continuaram, assim como o haviam sido as das costas de África, a serem feitas com os antigos direitos, instituto e vocação primitiva da Ordem de Cristo, e sob os auspícios da sua bandeira, como nos testeficam Barros e Couto, nas suas Décadas. As rendas avultadíssimas da mesma Ordem, de que dispunha o mesmo soberano, lhe facilitavam em grande parte o preparativo de suas frotas, e a recompensa devida aos seus melhores servidores. Eis como se explica um dos escritores da Ordem:« Este rei além de muitos templos que fez em reconhecimento das graças obtidas, ampliou e acrescentou grandemente a Ordern de que era Mestre; impetrou do papa Leão X a criação das comendas novas, assim como outras que instituiu nas rendas e direitos do próprio mestrado, havendo, que assim como as rendas dele por mercê de Deus iam em grande crescimento, era também devido por seu louvor, em reconhecimento de seus grandes beneficios a esta Ordem feitos, acrescentá-la naquelas cousas em que os cavaleiros que bem servissem na guerra dos infiéis recebessem os prémios e galardões devidos a seus trabalhos; e com este intento criou nas rendas da mesa mestral 30 comendas e hábitos para os cavalleiros moradores em África, além de muitas cavalarias aos ditos lugares ordenadas; criou e dotou a comenda de Santa Maria d'Africa, Arguim, e outras em diversas ilhas nos dízimos delas que são do mestrado.»

Por diferentes vezes esteve elrei D. Manuel no seu convento de Tomar no largo período de 37 anos que regeu a Ordem de Cristo; celebrou aí por diferentes vezes capitulos gerais, sendo de todos о mais importante o do anno de 1503, em que fez proceder aos estatutos e Definições pelas quais a Ordem se ficou regendo, e que em pequenos pontos sómente depois foram reformadas nos reinados seguintes. A residência que fez por vezes no convento de Tomar, lhe proporcionou ocasião de mostrar aí aquele génio edificador, de que há permanentes sinais nas esferas plantadas em quase todas as cidades e em muitas vilas do reino; mas de suas construções falaremos adiante.

D. João III foi о último Mestre particular da Ordem, porque no seu tempo a política lhe sugeriu a ideia de encorporar perpetuamente na coroa о governo e administração dos mestrados das três ordens militares, obtida do papa Julio III no ano de 1551. Mas este soberano foi também em pessoa ao convento de Tomar em 1523; e em capítulo ou com autorização deste reformou o modo de vida dos freires conventuais, tornando- os de clérigos regulares em religiosos de cogula; para o que convocou pessoas de grande conceito em saber e virtude, e mandou fazer, diz o já citado escritor, «dormitório, refeitório, casa de noviços, claustros e mais oficinas, de cuja grandeza e perfeição dão elas mesmas de si testemunho.» Foi este mesmo soberano que criou o tribunal da mesa das ordens.

«Elrei D. Sebastião», diz ainda o escritor,«pela muita afeição que tinha á cruz de Christo tomou o hábito dela no mosteiro do Cabo de S. Vicente no Algarve, no ano de 1573, e daí por diante sempre foi visto trazer ao peito sobre suas vestiduras reais, e mesmo sobre as armas, uma cruz grande da Ordem de Christo; e com ella assistiu no capítulo geral que nesse mesmo ano celebrou em Santa Maria de Marvila em Santarém.»

O cardeal rei teve pouco tempo de reinado, porém assim mesmo se não descuidou inteiramente das coisas da Ordem; e parecendo-lhe que o breviário romano reformado era mais acommodado para uso dos religiosos conventuais, e para o culto das igrejas, o fez substituir ao breviário cisterciense, de que se serviam havia mais de 200 anos.

Os Filipes de Castela se mostraram zelosos e afeiçoados á Milícia de Cristo. O primeiro começou a entender na reforma dela, e o segundo a continuou; e vindo a este reino no ano de 1619, pouco depois partiu para Tomar e fez proceder a capítulo geral em que presidiu, concluindo-se aí em três dias, desde 16 a 18 de outubro do mesmo ano, os estatutos por onde se ficou regendo a Ordern de Cristo até os nossos dias. Deste mesmo soberano são dois famosos e magníficos monumentos da mesma casa, o claustro ainda hoje chamado dos Filipes, e o grandioso aqueduto do convento.

Elrei D. João IV revalidou e confirmou os estatutos sobreditos, e mandou- os imprimir para serem conhecidos do público.

D. Pedro II deu grande consideraçao á Ordem de Cristo, e como teve de nomear muitos bispos, contemplou os religiosos de Tomar, provendo-os em muitos dos bispados do ultramar. Já no seu tempo estavam mudadas as coisas, porque exigindo-se até então para entrar na cavalaria da Ordern a prova de nobreza dos 4 avós, ou declaraçao da quebra, quando entravam por dispensa, este soberano ordenou que tal declaração se não fizesse. No decurso deste reinado aí se alojou o arquiduque da Áustria, depois imperador da Alemanha, Carlos VI, quando voltava com elrei D. Pedro da campanha da Beira em 1704.

Elrei D. João V no ano de 1714 quiz em pessoa visitar o convento de Tomar, e ele e toda a sua faustosa comitiva aí se alojou, na qual entravam os infantes seus irmãos D. António e D. Manuel, o cardeal da Cunha, e muitos outros grandes e fidalgos da corte.

Desde então até os tempos mais próximos de nos continuou o convento de Cristo a ser a casa conventual dos freires, mas em visivel e progressivo deperecimento, resultante de diversas causas, e da diferença dos tempos e dos costumes. A chamada reforma que ali foi fazer o Principal Castro, em lugar de suspender ou retardar acelerou esta tendência descendente; o convento privado de seus religiosos, e de seus antigos direitos de clausura monástica, que desde os tempos d'elrei D. João III lhe assegurava perpetuidade, perdeu tambem muito da afeição e apego habitual dos Freires; e forçoso é dizê-lo, estes acudiam já remissos e a custo a reparar e conservar a sua vastissima morada. O flagelo da guerra veio cair com todo o peso de uma devastação vandalica, dalica desde outubro de 1810 até março de 1811, sobre o convento de Cristo, despejado de seus habitadores; e os estragos tornaram-se em parte irreparáveis; lá pereceu a maior porção de preciosas antiguidades do seu arquivo, arderam as cadeiras do coro, obra primorosa d'elrei D. Manuel; e se a solicitude e o interesse dos freires na sua volta se não tivesse empregado com zelo e briosa perserverança em limpar e reparar as deturpaçôes infligidas, como de propósito, áquela casa, então terminariam já de todo suas funções. Terminaram elas com efeito 23 anos mais tarde; e como terminaram? Que cautelas, que medidas se tomaram para preservar e defender aquela casa contra os latrocínios e incursões de uma cobiça estúpida e brutal? Aqui aplicaremos sómente num sentido inverso o que dizia um grande e desconsolado capitão português no leito da morte: «a Índia falará por si e por mim .»


Da vasta capacidade do convento de Cristo Tomar e algumas notícias sobre as diferentes construções e monumentos

Esta grandiosa e vastíssima casa compunha-se de 3 partes distintas: 1º o convento propiamente dito com sua igreja, claustros, dormitórios, e oficinas adequadas a uma casa regular; 2º o castelo com sua cerca e baluartes; 3º a quinta ou cerca murada do convento; e poder-se-ia acrescentar uma 4ª, o famoso aqueduto começado de ordem de Filipe II de Castela, em 1595, e concluído por seu filho Filipe III em 1613, conduzindo a água desde uma légua de distância além do sitio chamado dos Pegões; obra que talvez servisse de modelo aos arcos das águas livres de Lisboa. E por esta ocasião observaremos de passagem que a usurpação dos Filipes devia ter encontrado alguma simpatia no convento de Cristo; porque, não só foi esta casa preferida para as cortes que ali sancionaram, ou ao menos se acommodaram com a dominação castelhana, mas engrandecida com duas soberbas fundações, a saber, o grande e magnifico claustro, ainda hoje denominado dos Filipes, e o grandioso aqueduto de que falamos. Deferência e distinçao esta sustentada de pai a filho, porque Filippe III, seguindo as inclinações de seu antecessor, aí foi residir alguum tempo, como já dissemos; aí celebrou capitulo geral e organisou os estatutos e Definições da Ordem. Nao sirva porém a nossa conjectura de desdouro áquela casa, porque outra muito boa gente mostrou naquele apuro de circustâncias melhor vontade e adesão à sisudeza e severidade civil e religiosa do maior soberano do seu tempo, do que ás travessuras e inclinações livres de D. António prior do Crato. D. Fr. Bartolomeu dos Mártires, e D. Jerónimo Osorio, com todo o seu grande mérito, não foram por isso menos acoimados de Filipistas


Da igreja do convento de Cristo; e dos claustros, dormitórios, e mais oficinas da casa

Duas muito diferentes e distintas construçôes se observam nesta igreja; a capela mór é visivelmente mais antiga que todo o resto. Esta vulgarmente se tem como obra da primitiva fundação de D. Gualdim Pais, assim como o retábolo interior, a que chamam charola, e as capelinhas que a rodeiam. O resto da igreja desde o arco da capela mór é certamente do tempo d' elrei D. Manuel, tanto interior como exteriormente. Uma vaga tradição com efeito tem como consagrado a opinião que atribue aquela primorosa antigualha ao 1º Mestre dos templarios em Tomar. É a dita charola urna especie de capela de madeira colocada em volta do altar mór, como tabernáculo vasado, elevado, e acabado em ponta em forma de pavilhão árabe. Sua airosa e elegante estrutura, seus relevos, pinturas, e dourados, formando urna espécie de rendilhado de gosto oriental, a tornam obra de primor admiravel e de uma originalidade que infunde veneração. Nós não temos outra razão para engeitar-lhe a origem senão o ser obra perfeita e delicada, pouco de acordo com o estado das artes por meados do século XII; entretanto ocorre-nos uma lembrança; e é que havendo militado na Síria e Palestina por alguns anos o dito D. Gualdim, bem poderia trazer ou mandar construir aí aquelle tabernáculo para oferecer á Ordem do Templo em Portugal, a que pertencia; e com efeito não só a aparência mas o género de sua construção e о fino е acabado de seus ornatos querem persuadir ser obra do Oriente, muito mais adiantado nas artes então do que o Ocidente.

Igual conceito porém nos não inspiram as demais construçôes da capela mór, as quais, não podendo ter a mesma origem estrangeira, são contudo demasiadamente belas e acabadas para as reputarmos de uma data tão remota. A forma da capela mór exteriormente é octógona, e termina em forma de terrado de castelo ou fortaleza com sua guarda ou parapeito guarnecido de ameias, o que Ihe dá u,a aparência clássica e veneranda; octógonal igualmente é a sobredita charola, de maneira que devemos supor que uma foi talhada para se acordar com a outra. Nas pequeninas capelas e nos intervalos delas em volta da charola, nos disseram terem estado alguns mui belos painéis e até me fallaram de um de Rafael; nós já não achámos senão o sitio donde foram deslocados. O corpo principal da igreja, assim como o coro, as portadas, e os ornatos exteriores, tudo é obra d'elrei D. Manuel; o qual tendo provavelmente achado mui pequeño e aca nhado o âmbito da igreja primitiva, a quiz acrescentar. Infelizmente porém, como os espiritos do magnânimo monarca tinham de ser ali reduzidos e apanhados, para que o todo acommodasse com a antiga construção conservada, ficou sendo remendo mal serzido, e igreja desagradavel, sem graça nem proporção. O coro, onde o mesmo soberano mandou colocar aquelas famosas cadeiras de madeira oriental, queimadas pelos franceses em 1810, ficou numa posição tão desengraçada que nem é coro de cima nem coro de baixo, e faz uma figura repugnante. Se porém a igreja acrescentada d'elrei D. Manuel nada tem de belo por dentro, o contrario acontece pelo lado de fora, em que o luxo da arte a enriqueceu de curiosa elegancia e magnificencia. As duas janelas ou frestas laterais destinadas a dar luz, são admiraveis de lavor em alto e vasado relevo; descrevendo-se em volta de todo o âmbito delas um grosso cordão de fina cantaría lavrada, entresachado de flores e grandes laçadas formadas com as pontas do mesmo, que faz um belo efeito. Em torno dos ângulos da fachada estao quatro estatuetas feitas da mesma pedra de cantaría da igreja, representando guerreiros com casco e saias de malha, tendo cada um deles pendentes da mão um escudete sem divisa nem emblema que nos pudesse indicar o que figuram; verosivelmente quiseram aí representar algumas personagens distintas e notáveis da casa, ou templários ou da Ordem de Cristo. O tempo já tombou para o lado uma das ditas estátuas, que por um acaso feliz encontrou na sua queda um apoio na parede aí próxima, que a está amparando por agora.


Continua


quarta-feira, 15 de junho de 2011

História: Tomar - Da Ordem do Templo à Ordem de Cristo (II)

História

Tomar

2ª parte

Da Ordem do Templo à Ordem de Cristo

Memória acerca do convento de Cristo em Tomar 

Prósperos e brilhantes continuavam os negocios da Ordern até ao ano 1190; porém no decurso deste uma furiosa borrasca veio perturbar tanta ventura. O Miramolim de Marrocos, Abu Jussof havia falecido em Algeciras das feridas e desgosto da derrota de Santarém em 1184, e deixando o trono e o califado do ocidente a seu filho Jacub lhe legou particularmente o encargo de vingá-lo e aos seus das injurias e malfeitorias dos cristãos. Com efeito, no ano 1190, reinando já em Portugal elrei D. Sancho, veio em pessoa o orgulhoso e irritado Califa, acompanhado de inúmeravel exército, que as memorias do tempo elevam a um número quase prodigioso, e atravessando a Beira assentou seu campo em volta do castelo de Tomar, estendendo-se pelas povoaçôes vizinhas, e por outras como Torres Novas, que nessa ocasião foi assolada. Achando os Freires do Templo determinados a defender-se, ordenou aos seus assaltassem o castelo, que por 6 dias sucessivos foi combatido com a fúria e tenacidade que é de supôr de muçulmanos que acommetiam à vista do que dizíam chefe dos crentes, irritados da pequenês do recinto acometido e do número de seus defensores. Repelidos sempre pelos templários vingavam- se os mouros na povoação da vila em que nãо deixaram pedra sobre pedra; mas desenganados por fim levantaram seus arraiais e deram volta para as suas terras. Este grande sucesso com o livramento prodigioso dos cercados, consta do letreiro que ainda hoje dura insculpido numa lápide do castelo, em que se lê o seguinte traduzido do latim bárbaro daquele tempo: « Nа era 1228 (ano de Cristo 1190) aos 3 dias das nonas de julho veio a Miramolim de Marrocos com 400 homens de cavalo e 500 de pé combater este castelo, e o teve cercado seis dias, destruindo tudo se achava fora de seus muros. E foi Deus servido livrar ao mestre D. Gualdim e aos Freires das mãos de seus inimigos. O rei de Marrocos foi obrigado a retirar-se e a voltar para a sua pátria com inúmerável perda em homens e cavalos.» A tradição porém supre a sucinta notícia do letreiro que nessa ocasião do sítio houvera um conflito tâo aceso junto a uma porta do castelo, que se ficou chamando «porta do sangue» pelo muito que aí derramaram os mouros. Nós procurámos com grande curiosidade esta porta, que será custosa de descubrir sem um guia e prático do local; e tivemos a fortuna de a contemplar por entre uma emaranhada balsa de silvas e arbustos silvestres que a ocultam. Existe ela na extremidade du um caminho coberto que antigamente saía para o lado nascente fronteiro á vila. A dita porta era postigo ou porta falsa destinada a fazerem-se por ela sortidas contra o inimigo; pareceu-nos que desde muitos anos foi tapada de pedra e cal formando hoje parte do muro; porém pela parte interior se contempla ainda muito distintamente o caminho coberto e o âmbito da porta encaixada na raiz da muralha, e o arco da abobeda de cantaria em que no centro se vê entalhada a cruz da Ordern do Templo. De crer é portanto à vista do mau resultado empresa para os mouros, e do azado da porta, que enquanto os inimigos dos cristãos atacavam o castelo pelos outros mais accessíveis, sairiam estes em sortida forte pelo dito caminho cpberto e seu postigo, e fariam grande estrago em seus contrários desprevenidos ou desfavorecidos no ingreme da encosta. É certo que a interpreza do castelo de Tomar se tornou funesta aos mouros, porque a crónica gótica concorda em substância com o letreiro acima, e a história árabe, suposto oculte segundo o costume dos muçulmanos o que lhes é desairoso, apontea contudo a jornada do Miramolim até aos campos de Santarém e a sua voila a Marrocos sem ganhar praça ou castelo em Portugal e apenas rico de despojos e com «13 cativos entre mulheres e crianças»; ostentação digna dos sequazes de Mahomet. Desde então nunca mais о distrito de Tomar foi assoberbado рог invasões muçulmanas; e os templários para acharem inimigos da cruz que combatessem Ihes era forçoso passar as raias de seus dominios e tomar parte nas guerras e expediçôes da Andaluzia e do Algarve, até mesmo ajudando os reis vizinhos da Península, como sucedeu na tomada de Sevilha, e na batalha das Navas de Tolosa. Os reis e os príncipes portugueses trataram sempre a Ordem do Templo com grande veneração e consideração, e não só em vida Ihe fizeram mercês e donativos, mas até nas ultimas disposições testamentárias se lembravam ordinariamente deles com especial deferência, como se pode ver do contexto dos que se acham ñas provas da Hist. Geneal. do P. Souza: «chegando elrei D. Afonso II a precaver que na minoridade possivel de sucessor à corôa fossem os templarios os guardas, depositarios e defensores do reino para lho entregarem depois.»

Assim progrediu e engrossou a Ordem do Templo nos 6 primeiros reinados, quando em tempos d' elrei D. Dinis sobreveio a catastrofe da sua extinção no concílio de Viena no Delfinado no ano 1311, havendo durado quase 214 anos depois da sua instituição. Não é do nosso assunto moralisar sobre a justiça e conveniência deste estrondoso acontecimento, que ainda hoje tem como em suspensão todos os homens pensadores; é certo, contudo, que os templários de Portugal foram achados sem culpa, e elrei D. Dinis, o homem do seu tempo talvez mais capaz de conhecer e venerar a justiça, sujeitando-se como todos os demais príncipes cristãos à medida geral do concílio, fez valer por meio de seus embaixadores ao papa esta circunstância, e respeitar como soberano os direitos da coroa portugueza para não deixar dispor dos bens e casas da Ordem como sucedeu noutras potências. Suspendido assim até certo ponto o golpe transcendente da extinção total da Ordem, o mesmo soberano negociou do papa João XXII, successor de Clemente V, a criação de uma nova Ordem com a mesma nalureza com idêntico destino, com os mesmos domínios, privilégios e isenções, e até com o mesmo hábito dos antigos cavaleiros do Templo, e com o mesmo distintivo da cruz, um pouco mais ornada do que a antecedente na extremidade das hasteas; milicia igualmente religiosa e generosa, destinada a combater infiéis e a defender o reino das invasões maometanas; sujeita ao chefe da igreja na parte religiosa, e obedecendo aos reis portugueses como cidadãos e como cavaleiros, o que foi desde o começo clausula e condição fundamental da sua admissão e estabelecimento. Expediu enfim o papa João XXII, estando em Avinhão, a bula da criação e fundacão da nova milicia da Ordern de Nosso Senhor Jesus Cristo, em 14 de março de 1319, a qual foi aceite por elrei D. Dinis em Santarém, aos 5 de maio do mesmo ano. E para não ficar dúvida alguma de que a nova Ordem era como uma substituição e transformaçao de outra Ordem de cavalaria, destinada aos mesmos fins, lhe nomeou logo Mestre D. Gil Martins, que antes о era de S. Bento de Aviz, por cuja regra e estatutos se ficou governando a Ordem de Cristo enquanto não teve Definições e estatutos próprios.


Do castelo e convento de Tomar pertencentes já á Ordem de Cristo

«Entre as demais causas (diz o papa João XXII na citada bula) e razões que nos foram expostas por parte do mesmo rei D. Dinis por seus procuradores o nobre varão João Lourenço, cavaleiro de Monsarás, e o muito veneravel padre Pedro Peres, conego de Coimbra, foram as graves injúrias e inumeráveis dão-nos, e outros diferentes e enormes males que lhe tinham feito e nâo cessavam de fazer os sarracenos, inimigos perpétuos da fé, assim nos anos passados como até agora; e porque no Algarve que é fronteira dos ditos inimigos, e na praça de Castro Marim e seu fortissimo castelo, se havia de estabelecer uma nova milicia de lidadores de Cristo, com ajuda dos quais e seu propósito se poderia dar remédio de ora avante ás injurias, danos e males em que a fera mão do inimigo se tem empregado há muito tempo, e descobrir-se caminho mais fácil, não sómente para resistir aos rebates dos inimigos, mas ainda para quebrantar e rebater o impelo e acometimentos dos mesmos, e para recuperar outras partes intermédias que estavam ocupadas desde muito tempo por suas enganosas ciladas. Nós, tendo entendidas diligentemente as ditas causas e razões, e discorrendo nelas com atenta consideração por amor da segurança e amparo dos fiéis, e por muitos bens que com о favor de Deus daíi se haviam de seguir, dispozemos de acolher favoravelmente o louvavel intento que nesta parte tinha elrei.»

Atentem reflectidamente os leitores nalgumas das frases deste rescrito, e notem aí apontados os prognósticos dos altos e venturosos destinos da nova milicia de Cristo. Aí se não continham sómente as tarefas, aliás relevantes, de repelir as incursöes barbarescas, e guardar a fronteira de seus ataques e devastações, mas também se antevia a possibilidade de recuperar outras partes ocupadas desde longo tempo pelas ciladas de Mahomet e seus sectarios, e se punha já a mira em outros bens e contingências felizes que daí se haviam de seguir. Admiravel vaticinio, que, em menos de um século, se principiou a verificar na tomada de Ceuta, e em pouco mais desse espaço se executou á letra nos descobrimentos, navegações, e conquistas do nobre Mestre da dita milicia, o infante D. Henrique, e nas demais que se seguiram até o estabelecimento do imperio português no Oriente.

Conforme os votos do soberano português, e os motivos da criação da Ordem de Cristo, se estabeleceu no começo a sede e cabeça dela na praça e castelo de Castro Marim, onde é de supôr que residira o primeiro Mestre dela, D. Gil Martins, com a flor dos cavalleiros aptos para a guerra. No governo desle e de seus sucessores D. João Lourenço, D. Martim Gonçalves Leitão, D. Estevão Gonçalves e D. Rodrigo Annes é provavel que não houvesse alteração nesta disposição, e que о castelo e convento de Cristo estivesse regido por um Comendador mór que era о primeiro em graduação de toda a Ordem depois do Mestre. Em tempos porém d'elrei D. Pedro I, ou fosse que о enfraquecimento dos mouros na Peninsula, limitados ao reino de Granada, e as excursões marítimas dos de Barberia fossem já menos temíveis, ou enfim por outras causas que ignoramos, voltou a residir em Tomar no ano de 1356 o Mestre da Ordem D. Nuno Rodrigues, pessoa de grande consideração e valimento para com o mesmo soberano; e daí em diante até os nossos dias ficou sendo constantemente a mesma casa de Tomar cabeça e baliado de toda a Ordern de Cristo.

Sucedeu a D. Nuno Rodrigues D. Lopo Dias de Sousa, sobrinho da rainha D. Leonor, em tempos d' elrei D. Fernando, o qual governou a Ordern por espaço de 46 anos. No convento e castelo de Tomar se achava ele quando aí passou o infante D. João com a tensão sinistra de matar-lhe a mãe em Coimbra, e daí lhe expediu inútilmente aviso o dito Mestre, como contam nossos chronistas. Aí mesmo residia quando de volta de Abrantes descia para a jornada de Aljubarrota o condestável e logo depois elrei D. Joao I; e com quanto a obscuridade da epoca e os interesses embates dos partidos o contivessem então numa espécie de observação e neutralidade armada, é certo que debatidos, declarados e definidos os direitos nacionais que puseram a coroa na cabeça do ilustre Mestre de Aviz, o mesmo D. Lopo não sómente se decidiu com a Ordern de Cristo a favor da nova dinastia, apesar de ser ele mesmo ramo da antecedente, ligado por interesses de familia à rainha de Castela, mas ajudou grandemente a restauração do reino pondo-se em campo, combatendo o partido castelhano até ficar prisioneiro infeliz tentativa de Torres Novas.

Continua


História: Da origem e fundação do castelo de Tomar pelos Cavaleiros do Templo (I)

História

Tomar

Da origem e fundação do castelo de Tomar pelos Cavaleiros do Templo

1ª Parte

Entre as ordens famosas de cavalaria, que o entusiasmo religioso e guerreiro dos cruzados na Palestina fundaram em Jerusalém por principios do seculo XII se distinguiu em valentía militar, e em dedicação cavaleirosa e devota, a dos templarios. De pequenos princípios com o instituto, ou antes propósito no começo limitado e restricto, de dar escolta e gasalhado aos peregrinos, pouco a pouco estenderam suas tarefas, tomaram- se belicosos, numerosos e fortes; fizeram soar alto na Europa, dominada então dos mesmos principios, a relevância da sua profissão; e passados anos, no concilio de Troyes, em que assistiu S. Bernardo, o zeloso fautor da cruzada, se aprovou a Ordern do Templo no ano de 1128.

A fama da generosa valentía, e da vida regular e monástica destes briosos guerreiros, não podia deixar de encontrar simpatias no nascente Portugal, resgatado havia pouco do jugo sarraceno. De crer é que o próprio conde Henrique, voltando da Síria, desse as primeiras noticias desta nova criação; o certo porém é que já no governo de sua viúva a rainha D. Teresa, se encontram templários estabelecidos no país. Parece que a casa principal da Ordern entäo era em Braga; mas tinham propriedades cm varias outras terras da provincia de Entre Douro e Minho, e a mesma rainha lhes havia doado a vila de Fonte-Arcada de Penafiel no ano de 1126. Depois da aprovação e confirmação da Ordern no ano sobredito de 1128, lá foram os cavaleiros do Templo afrontar os mouros na sua mesma fronteira, e guardar o castello de Soure, que aquela princesa e seu segundo marido D. Fernando da Trava, lhes doaram com o território adjacente em terra deserta na Estremadura para o cultivarem e povoarem; e o principe D. Afonso, que nesse mesmo ano havia tomado o governo a sua mãe, lhes confirmou a dita doaçâo, declarando na mesma carta da concessâo fazer isto «pelo muito amor que tinha aos cavalleiros do Templo, e porque era seu confrade.»

Passaram anos de continuas guerras, que era o emprego anual do infatigável príncipe; conseguirá ele levantar o forte castelo de Leiria, defendiam-lhe os templários a retaguarda deste porto avançado, e daí em uma noite, acompanhado de 150 bravos aventureiros, em que se contavam alguns daqueles, cometeu aquella briosa e admiravel surpresa de Santarém de que se assenhoreou no ano de 1147. Na marcha desta memorável jornada, no meio das profundas e agras meditações que lhe de viam inspirar as dificuldades mesmas da empresa, e os riscos a que se expunha a si e aos outros, fez voto a Deus de dar aos cavaleiros do Templo e á sua Ordern todos os direitos eclesiásticos de Santarém, se fosse feliz na tentativa. Verificou-se ela venturosíssimamente, e os templários em princípio da sua posse entraram de levantar a igreja de Santa Maria da Alcaçova, e a cuidar do seu novo estabelecimento, tanto mais querido quanto es tava nas fronteiras dos inimigos da cruz. Porém este projecto se desvaneceu anos depois; porque restaurada Lisboa, em 1147, o bispo D. Gilberto reclamou a integridade de seus direitos diocesanos, disputou Santarém aos templários, seguiu-se encarniçado litigio que durou muito tempo. Ainda nisto achou o cuidadoso e prudente monarca arbítrio para resalvar os primores da sua palavra real, e concordando os dissidentes substituiu por outra mais ampla a doação controvertida; fez com que os Freires desistissem de Santarém, conservando apenas por memória a igreja de Santiago, e doou- lhes o castelo de Ceras com largo territorio adjacente. Já por este tempo era Mestre do Templo o famoso D. Gualdim, o qual, partindo com os seus Freires ao dito castelo, e achando-o mal colocado para os fins da instituição da Ordem, entrou de levantar outro em Tomar, ponto central e mais acommodado para a povoação e defesa de seus vastos dominios. As circumstâncias do local com efeito demonstram a sabedoria daquela preferência. Uma concha ou enseada abrigada de montes com suficiente capacidade, regada pelas plácidas e cristalinas águas do Nabão, era ali azada para uma boa povoação; um padrasto que ali vizinho, numa das extremidades da concha, se elevava alcantilado, convidava a coroá-lo com forte castelo; e as mesmas tradições religiosas do sitio o faziam venerando, e reclamavam a restauração do culto católico. Fora ali o nascimento e o martírio de Santa Iria; existia o celebrado pego em que seu corpo foi arrojado á corrente; e em Santa Maria dos Olivais existiría talvez ainda algum resto do templo antigo, e do mosteiro de monges beneditinos que o habitaram desde os tempos góticos. D. Gualdim fez reparar a igreja que dedicou para os ofícios religiosos de seus Freires ali conventuais, e edificou para defesa de todos o fortíssimo castelo com suas torres e muralhas, que ainda hoje se observam em pé e quase direitas através de quase 7 seculos, porque nas ameias de seus baluartes estiveram sempre esculpidas ou talhadas as Cruzes vitoriosas de duas ordens venerandas.

Construido o castelo de Tomar e restaurada a igreja de Santa Maria dos Olivais, ali ficou sendo a casa capitular e cabeça da Ordem do Templo, e esta teve no decurso do reinado d'elrei D. Afonso I um incremento e preponderância admirável. Os créditos e serviços dos cavaleiros, e a relevância da pessoa do seu chefe acarretaram-lhe doações, privilégios, e senhorios de castelos, vilas, e territórios que seria longo enumerar. Na província da Estremadura somente teve a Ordem do Templo, até o ano de 1185, em que faleceu aquele soberano, os castellos seguintes e suas dependências: Soure, Ega, Redinha e Pombal, resultado das primitivas doações da rainha D. Teresa e de seu augusto filho, Tomar, Ceras, Zezere e Almourol; de ma neira que aos denodados cavaleiros do Templo, como que estava confiada a guarda e defesa da Estremadura, tendo estes na mão as chaves das duas portas, por onde nela podiam penetrar os mouros: uma sobre o Zezere para os que viessem da Beira baixa, e a do Tejo em Almourol aos que da Andaluzia penetrassem pela provincia do Alentejo. Uma só prova, entre muitas que poderiamos apontar, decide da grande confiança daquele mesmo soberano nos cavaleiros do Templo; e foi ela dada em ocasiäo especial. Havia a fortuna urna só vez voltado as costas ao venturoso monarca: um acidente imprevisto ao saír a porta de Badajoz lhe fez perder urna batalha e a liberdade, ficando prisioneiro de seu sobrinho D. Fernando, rei de Leão; conduzido mal ferido a Avila aí negociou a paz ,e veio pouco depois fazer uso das caldas de Lafões em curativo de sua moléstia, Era este lento e demorado, e picavam ao incansável soberano os cuidados da defesa do Alentejo, e da guerra, que por aquele lado era forçoso sustentar; lembrou-se dos seus valentes templários de Tomar, e chamando о Mestre D. Gualdim encarregou-o e á sua Ordem da defesa daquela provincia, e do proseguimento da guerra, dando e doando desde logo à mesma Ordern a terça parte de tudo quanto se ganhasse e estendesse por aquele lado. Esta notável doaçao foi feita e assinada nas ditas caldas de Lafões em setembro do anno de 1169.

Continua


sábado, 19 de fevereiro de 2011

História: Igreja de Santa Maria dos Olivais em Tomar, imagem de 1848




História

Viagem ao passado de Tomar

Igreja de Santa Maria dos Olivais em 1848

Numa bella planície a três legoas das margens do Tejo, está edificada a formosa (Tomar) povoação deste nome. O mestre dos templários D. Gualdim Paes, seu fundador, lhe deu foral por três vezes. pelo annos de 1147, 1162 e 1174.

Uma antiga inscripção que existe perto das escadas que sobem para o adro do convento da ordem de Christo, e se acha repetida em varios outros logares, segundo é tradição, data a fundação da villa (Tomar) do anno de Christo de 1162. Entretanto não vale a pena referir todos os argumentos que se apresentaram em favor de ua e outra opinião.

No senhorio de Tomar continuaram os mestres do Templo, até á extincção desta cavallaria (1312), passando ao dos mestres de Christo, ordem instituída por D Diniz em substituição daquella, e para a qual fez passar todos os bens que lhe pertenciam.

É Tomar terra bem povoada de monumentos de arte christã, cuja descripção nos mereceria mais larga esiriptura, se nos não fallecèra espaço e os elementos indispensáveis para a fazer, com proveito commm; contentàmo-nos com enumera-los O famoso convento da ordem de Christo, bella amostra de architectura digamos assim, nacional, e a sua veneranda egreja, debaixo da invocação de Santa Maria do Olival; a egreja de S. João Baptista; as duas pontes lançadas sobre o Nabão, e muitos outros edifícios e construccões de bôa architectura.




A torre que existe no estado que a estampa representa, em frente da egreja matriz, pertencia á antiga cerca, e pela airosa construcção della se conhece que alli andaram as mesmas mãos, que cobriram esta boa terra de tão primorosos monumentos, que são outros tantos pregoeiros da glória e do nome portuguez.

Tomar é uma cidade em que abunda tudo quanto é mais necessário á vida. e o seu concelho é rico de producções agrícolas de toda a espécie. Contam-se em todo elle, aproximamente 4,500 fogos. 

Ainda existe quasi toda a cinta de muralhas que torneava a povoação; estes muros, hoje em estado de grande deterioração, que presencearam tão rijo pelejar, tão porfiados combates, presidem agora somente aos seus bellos campos, graciosas veigas, e lindos pontos de vista, dando á povoação o caracter grave e solemne de velho cavalleiro que, quebrado de forças, repousa na primeira pedra que Deos lhe depara, e depois, sôfrego e saudoso, contempla a terra que viu as suas gentilezas e os seus triumphos!

Mais sobre Tomar em Antikuces