terça-feira, 5 de julho de 2011

O carácter do português na Ilustre Casa de Ramires de Eça de Queiroz



O carácter do português na Ilustre Casa de Ramires

«Mas o luxo de antagonismos no carácter português, surpreendeu-o magnificamente Eça de Queiroz. O seu Gonçalo, da Ilustre casa de Ramires, é mais do que a síntese do fidalgo - é a síntese do português de não importa que classe ou condição. Que todo ele é e tem sido desde Ceuta, da Índia, da descoberta e da colonização do Brasil como Gonçalo Ramires: "cheio de fogachos e entusiasmos que acabam logo em fumo" mas persistente e duro "quando se fila à sua ideia"; de "uma imaginação que o leva... a exagerar até à mentira" e ao mesmo tempo de um "espírito prático sempre atento à realidade útil"; de uma "vaidade", de "uns escrúpulos de honra", de um "gosto de se arrebicar, de luzir" que vão quase ao ridículo, mas também de uma grande "simplicidade"; melancólico ao mesmo tempo que "palrador, sociável"; generoso, desleixado, trapalhão nos negócios; vivo e fácil em "compreender as coisas"; sempre à espera de "algum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades"; "desconfiado de si mesmo, acovardado, encolhido, até que um dia se decide e aparece o herói". Extremos desencontrados de introversão e extroversão ou alternativas de sintonia e esquizoidia, como diremos em moderna linguagem científica.»

Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre

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