sexta-feira, 9 de setembro de 2011

D. Afonso Henriques excomungado pelo Papa



D. Afonso Henriques excomungado


Eis o que essas antigas memorias dizem da intervenção da corte de Roma nas dissensões de Afonso Henriques com a rainha lua mãe.


O papa, que nestas eras tenebrosas se intrometia em todas as mudanças politicas, que com rapidez sucediam umas após de outras na Europa revolta, ou porque D Teresa o tivesse ocultamente atraído a sua parcialidade, ou ele o fizesse em obséquio d'elrei de Leão, ou porque, finalmente, fosse movido pela persuasão de que, do alto do seu trono pontifical, devia dirigir todas as acções dos príncipes, que o reconheciam por cabeça da igreja, ordenou a D. Afonso, por via do bispo de Coimbra, D. Bernardo, que soltasse a rainha sob pena de excomunhão, cousa que naqueles tempos, ainda sendo injustiça, tinha consequências fatais. Recusou o príncipe obedecer. Conta-se que então o bispo o excomungara, e fugira alta noite de Coimbra, onde estava a corte; que no dia seguinte, sabendo D. Afonso da fuga do bispo, mandara reunir o cabido para que elegesse outro prelado, e que, recusando os cónegos fazê-lo ordenara a um clérigo preto, que encontrara ao sair da sé, que se revestisse para dizer missa, assegurando-lhe que o nomeava bispo. 


Entretanto o papa, vendo que o príncipe lhe desobedecia, assentou em enviar lhe um cardeal com o titulo de legado, esperando por este meio alcançar seu intento, recomendando-lhe ao mesmo tempo renovasse a excomunhão no caso de D Afonso persistir em seu propósito. A noticia da chegada do cardeal assustou os nobres que seguiam o príncipe; mas este lhes assegurou que se o legado se descomedisse, seria severamente castigado. Nos Paços da Alcáçova, em Coimbra, recebeu D. Afonso o legado do papa, e lhe declarou que não estava d'animo de obedecer ás suas intimações; e com tal vigor lhe falou, que o cardeal fez pôr de noite o interdito, e fugiu imediatamente. Ao romper o dia soube o príncipe da sua fuga, e cheio de furor pelo insulto que recebera, o seguiu, acompanhado de poucos cavaleiros. Breve o alcançou, e já tinha travado dele para lhe cortar a cabeça, se os fidalgos lh'o não embaraçassem. Deixou-o em fim partir, obrigando o primeiro a jurar que a excomunhão seria levantada logo, e que nunca mais o papa se intrometeria nos negócios de Portugal.


O judicioso historiador Fr. António Brandão julga uma fábula este acontecimento, fundado em ser o bispo D. Bernardo parcial de D. Afonso, e por ele elevado á dignidade que exercia; razão em verdade, de pouca monta, para quem sabe a influencia que o bispo de Roma tinha no espírito dos outros prelados nos séculos tenebrosos da idade media, e como o clero, que então era um estado no estado, cortava por todos os respeitos para conservar a unidade e força do poderio sacerdotal.


Dai a pouco aparece o bispo de Coimbra confirmando, com os outros magnates da corte de D. Afonso, varias doações deste príncipe, o que não deve admirar, porque também em muitos desses documentos se lê, entre os confirmantes, o nome de D. Tareja e o do conde de Trastamara, com quem as desavenças do príncipe tinham sido maiores do que com o bispo D Bernardo.


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